Notas iniciais
Vamos lá pessoal ghost, pra mais um capitulo.

Vou ir até a casa de Layla, não importa o que aconteceu ontem eu preciso falar com ela. Sinto essa necessidade, como se ela fosse a única pessoa no mundo que pudesse me ouvir. Mas acho que é só por que nunca contei essas coisas para ninguém e agora eu já falei demais para voltar atrás, mas foda-se. Vou passar em algum mercado e comprar algum tipo de bebida alcoólica, acho que eu não deveria, afinal ainda é quarta-feira e já vi o que o álcool faz com ela.

Entrei em um mercado qualquer, fui para o corredor de bebidas e peguei uma garrafa de vodka, não era da mesma marca da que Layla comprava geralmente. Era um pouco mais barata pois eu não tinha dinheiro o suficiente comigo, suspirei. Eu não deveria estar comprando isso... Deveria estar guardando para ajudar meus pais.

Quando fui em direção ao balcão para poder pagar ela já estava lá, mas não usava as roupas curtas de sempre. Sua expressão estava triste e ela pagava uma garrafa de vodka talvez mais barata que a minha. Fui para o mesmo caixa em que ela estava.

—Oi... Achei que não bebia. — Ela disse ao ver a garrafa comigo.

—Não bebo. — Respondi, minha voz continuava morta como sempre. — Isso é para você.

—Oh... Bem... Acho que vou ter que te ouvir de novo, não é? — Ela riu, seu rosto pareceu se animar um pouco.

Juntos nós caminhamos até seu prédio, subimos as escadas até o quinto andar e entramos em seu apartamento. Elizabeth não estava, felizmente. Nos sentamos no sofá, o apartamento estava a mesma bagunça da outra vez em que vim aqui.

Ela abriu uma das garrafas e se serviu, deitou com a cabeça no braço do sofá e apoiou os pés na minha coxa.

—Acho que essa relação está começando a ficar estranha... — Disse Layla antes que eu pudesse começar.

—Eu não acho... Enfim... — Disse, tirei os pés dela de cima da minha perna. — Acho que não tenho mais nada a contar sobre o meu primeiro ano na escola... Exceto que foi uma merda... mas quanto a isso todos os anos da minha vida foram iguais.

"No segundo ano eu já treinava com Hikaru, o que vou contar não aconteceu na escola e sim no dojo. Todo os dias antes de ir para a escola eu e ele íamos juntos para treinar, eu geralmente ficava até os primeiros alunos do dia chegarem com seus pais e mães. Nenhum deles sabiam que eu era filho do mestre ou que Hikaru era gay. Naquela época, o dojo tinha por volta de 100 alunos e 5 professores.

Nos fins de semana o treino era o dia inteiro e nos domingos costumávamos fazer uma pequena cerimonia para celebrar aqueles alunos que mudaram de faixa. Quando mudei da faixa branca para a amarela fizemos algo discreto, eu não queria ver outros discípulos. Hikaru sempre sentiu orgulho de mim como discipulo, eu avançava rápido em suas lições. Ele gostava da "determinação" que eu mostrava, mas a verdade é que eu nunca gostei de lutar. Eu me descontrolava as vezes quando a raiva tomava conta de mim e acabava batendo em alguém, mas nunca gostei de brigas.

Quando eu finalmente ia mudar da faixa amarela para a faixa vermelha meu pai me convenceu a participar da cerimonia de domingo. Todos os alunos estavam com seus kimonos e faixas de suas respectivas cores. Aqueles que mudariam de faixa se ajoelharam de frente para os espectadores, incluindo eu.

Como cerca de 20 alunos mudariam de faixa naquele domingo nós fizemos um pequeno torneio apenas para a nossa própria diversão e a de quem estava assistindo. Logo após as lutas acabarem nós mudamos de faixa. Eu peguei minha faixa vermelha. Meu pai ficou todo orgulhoso e veio me abraçar.

—Quem é o garoto? — Ouvi algum dos pais dos outros alunos perguntando. — Algum parente?

—Ah, esse é meu filho Stuart. — Disse Hikaru bagunçando meus cabelos, eu ri, nessa época eu fazia isso.

—Eu não sabia que você era casado. — Disse a mesma voz.

—Ah sim, eu acho que nunca mencionei isso, Marlo é o amor da minha vida, eu acho que eu não seria nada sem ele.

E no dia seguinte menos alunos foram para o dojo, e cada dia menos ainda até o numero de alunos ficar reduzido a 20 e com o passar dos anos se reduzindo cada vez mais até ficar nos seis de hoje em dia. Eu sei que você deve pensar que é apenas algo normal, que todo negócio um dia vai começar a dar errado, que os clientes um dia vão começar a diminuir de numero até finalmente falir. Mas negócio nenhum perde clientes de uma hora para outra como aconteceu com o dojo do meu pai.

Depois disso, nada de muito importante aconteceu até eu chegar na sétima série."

—Eu nunca pensaria isso... — Disse ela assim que eu terminei, era 13:50 da tarde.

—Eu sei... eu acho... Bem... eu vou ir embora agora, então... até amanhã. — Me levantei lentamente e comecei a andar para a porta. Elizabeth a abriu antes de mim e entrou a deixando aberta para que eu pudesse sair.

—Espera... S/N. — Eu não parei, apenas continuei . — Stuart...

—Sim... Layla. — Parei assim que ouvi ela chamar pelo meu nome.

—Espera, eu vou com você.

Nós saímos juntos do prédio dela, uma mensagem de Hikaru fez meu celular vibrar. Eu acendi a tela do telefone e desbloqueei. "Vá para a casa do seu avô, é uma emergência." Foi o que li. Juntos eu e Layla pegamos o ônibus que levaria até o bairro do meu avô. O ponto era praticamente na porta da casa dele, nós descemos e logo avistamos Hikaru ao lado de uma ambulância. Uma médica que não deveria ser muito mais velha que eu seguia uma maca que era empurrada por dois enfermeiros. Na maca meu avô era levado imóvel.

Me aproximei de meu pai que parecia em estado de choque. Ele olhou para mim e colocou as mãos em ambos os meus ombros. Ele sorriu mesmo tendo lagrimas saindo de seus olhos e por fim ele me puxou para um abraço.

—Nós... Nós estávamos discutindo... aí ele começou a sentir dor no peito e caiu... Eu chamei a ambulância... Stuart... Eu sei que ele me odeia mas... Eu não quero que ele morra... Eu não quero... — Todas as frases que ele dizia eram interrompidas por soluços.

—Calma... Eu sei que vai ficar tudo bem... — Eu não sabia, eu nunca sabia de nada, mas eu não podia deixar meu pai se desmanchar em lagrimas, o sorriso que ele tentou esboçar antes agora estava desfeito.

Meu pai foi na ambulância com meu avô. Eu e Layla fomos com o carro de Hikaru logo atrás, ela dirigiu já que eu nunca tirei minha habilitação. A ambulância ia rapidamente por entre os carros por causa de sua sirene. Nós de carro demoramos pelo menos 20 minutos para chegar.

Layla parou o carro logo ao lado do hospital, nós entramos correndo e nos deparamos com Hikaru sentado no chão do corredor com a cabeça entre os braços apoiados nos joelhos.

—Eles levaram ele para a desfibrilação... Disseram que com a idade avançada dele é improvável que sobreviva... — Ele disse ainda entre soluços.

Um médico alto, mais ou menos da mesma idade de Hikaru se aproximou de nós com uma prancheta em mãos. Perguntou se éramos parentes do velho Nogaroto que havia acabado de dar entrada. Eu confirmei e ele me chamou para um canto mais afastado do meu pai.

—Eu sinto informar mas... Por conta da idade do seu avô, ele acabou falecendo, esses documentos aqui não podem ser rasurados e nem dobrados. Leve até alguma funerária, traga alguma muda de roupas para eles vestirem no se avô e eles farão o resto... meus pêsames. — Foi o que ele disse antes de se afastar e ir embora.

Ajudei meu pai a se levantar, Layla e eu o levamos até o banco de trás do carro. A viagem foi silenciosa até chegar em casa. Marlo estava na editora então eu tive que destrancar a porta. Hikaru caminhou e se sentou no sofá e suas mãos percorreram os cabelos negros que começavam a apresentar alguns fios brancos.

—Stuart, me desculpa. — Ele disse, Layla havia ido para a cozinha, deve ter ido procurar alguma coisa com teor alcoólico.

—Pelo que? — Perguntei para ele, me sentei ao seu lado e coloquei a mão em seu ombro, acho que eu devia ter fingido algum tipo de sentimento, mas não o fiz.

—Eu sempre disse para colocar um sorriso no rosto e ser forte não importando o problema... Mas eu fraquejei... Não vai acontecer de novo. — Ele sorriu. — Qualquer coisa eu estou no quarto... Quando Marlo chegar diga que eu queria conversar com ele... Sobre nossa relação...

Ele subiu para o quarto de casal, Layla voltou da cozinha com duas xicaras de café, acho que uma era para Hikaru mas agora ele já tinha ido. Ela me entregou uma das xicaras e se sentou ao meu lado com a outra.

—Você está bem? Desculpa a pergunta... considerando que é você... — Ela perguntou ao meu lado, concordei com a cabeça.

—Só estou um pouco... cheio de tudo isso... — Falei, ela alisou minhas costas antes de tomar todo o café frio dela em um gole. Eu nem sequer toquei no meu.

—Olha, acho melhor você ligar para o seu chefe, explica a situação. — Ao ouvir ela dizer isso olhei a hora pelo celular, já eram 15:15 o tempo passa tão rápido que nem notei que estava atrasado.

—Não... Eu tenho que ir trabalhar... Se importa de ficar aqui e explicar as coisas para meu outro pai? — Perguntei, ela disse que não usando a cabeça. — Olha, obrigado... Pode jogar videogames no meu quarto... ou usar o wi-fi ou ver televisão... Não sei... As senhas do Wi-fi e dos canais privados estão coladas na geladeira.

Eu saí, nem sequer me troquei ou me arrumei, de novo. Não me lembro de ter dormido também... Acho que dessa vez eu vou ser demitido. Quando cheguei no trabalho já fui alvejados com gritos daquela baleia bigoduda, ignorei e apenas vesti a primeira camisa com a logo do mercado que encontrei na área dos armários dos funcionários.

Sentei-me no meu caixa e abri a registradora de onde eu tirei meu crachá. O pendurei no peito. Por ironia eu me lembrei de uma frase do meu avô, "Se sua vida está ruim agora, não tenha esperanças, pois tudo sempre piora."

Ele não era um idoso muito inspirador...

Notas finais
Então... que tal?