Ochako sente como se tivesse sido transportada para outra era. A casa do Todoroki parece algo saído de um filme de época em sua decoração japonesa ultra tradicional. É bobo, mas por um momento ela quase não soube como se portar ao passar pela porta da entrada principal e ser conduzida por uma polida senhora que se apresentou como a governanta. Uma governanta!

A ideia inicial era fazer uma sessão de estudos na biblioteca perto do parque com a Tsu e a Mina, mas então o Todoroki lhe convidou e ofereceu sua casa. Bom, a biblioteca particular dele não é tão grande quanto a que elas iam inicialmente, mas ainda assim é enorme para os padrões dela, a vista para o jardim e um laguinho também conferem ao lugar um ambiente de tranquilidade e concentração, exatamente o esperado para uma biblioteca. E Ochako com certeza seria capaz de estudar bem não fosse por dois detalhes. Um é culpa dela mesma, que não para de imaginar se o Natsuo está em casa e se vai aparecer a qualquer momento para agraciá-la com um sorriso iluminado e gentil. O outro detalhe é que, embora a biblioteca seja até bem grande, no momento parece pequena já que o grupo da sessão de estudos é um tanto...

— Nunca estive em um grupo de estudos tão grande. — o Iida diz ao observar todos os presentes na sala. Sete, ao todo — Receio não sermos produtivos o bastante.

— Ah que isso! Vai ser legal, você vai ver! — a Mina diz, apoiando o queixo na mão sobre a mesa e brincando com seu lápis — Ei, Todoroki! Tem carpas naquele laguinho ali fora?

— Sim.

— Sério? A gente pode ver? — ela abre um sorriso empolgado.

— É melhor a gente começar a estudar primeiro, né, Mina? Depois, se sobrar tempo, a gente vê... — o Kirishima lança um olhar complacente pra ela.

— Ai, tá bom, vai. — ela acaba por concordar, fazendo biquinho. É o que normalmente acontece em qualquer interação entre eles dois desde que Ochako os conhece.

Quando a Mina começa a se dispersar, o Kirishima dá um jeito de trazê-la de volta pro chão, mas sem repreendê-la com muita firmeza, só... ajudando-lhe a se firmar mesmo. Ele basicamente tem um jeito especial de lidar com ela, um que nem Ochako nem a Tsu têm, mesmo sendo boas amigas, conseguem. E é curioso que seja assim porque o próprio Kirishima não é exatamente a pessoa mais centrada, ele é quase tão impulsivo quanto a Mina, Ochako se lembra uma vez no ano passado, durante uma viagem de ônibus que os times masculino e feminino de judô fizeram para uma competição. Os meninos estavam jogando cartas e, ao vencer uma rodada, o ruivo simplesmente arrancou a camisa e começou a girá-la no ar em comemoração. Não levou muito tempo até que o professor do time masculino o repreendesse, mas em geral todo mundo achou a empolgação exagerada dele engraçada.

Ali, Ochako teve certeza que ele e a Mina foram feitos um pro outro mesmo. É curioso observar como ele muda perto dela, talvez sem nem perceber.

— Muito bem, iremos começar pelas Linguagens, depois passaremos para geografia e história, e por fim iremos para biologia e matemática. Alguém propõe um itinerário diferente? — a Yaoyorozu pergunta, ajustando as folhas de seu caderno meticulosamente.

— Por mim, não tem problema. — a Tsu diz.

— Por mim também não. — Ochako opina — Mas, hã... já que o Todoroki-kun organizou o espaço pra nós e tudo mais... o que você acha, Todoroki-kun?

Ele está quieto. Bom, na verdade, mais quieto que o de costume. Desde que chegaram, ela se lembra de ter ouvido a voz dele apenas quando os recepcionou e pediu que eles ficassem à vontade na biblioteca, foi basicamente só isso...

Ochako o observa com cautela, ele não parece particularmente incomodado com nada, mas seria difícil dizer mesmo se fosse esse o caso, já que ele está quase sempre sério desse jeito, mas de toda forma, ela se pergunta se tanta gente assim em sua casa o irrita. Ela não pensou muito na hora em que ele sugeriu a sessão de estudos, mas depois que chegou em casa, Ochako se deu conta de que talvez tenha imposto a presença das meninas e do Kirishima sem abrir muito espaço para o Todoroki recusar.

Não foi de propósito, só lhe pareceu natural chamar as meninas, e ela não conseguiria aceitar se elas não viessem. Ochako não tem nada contra o Iida e a Yaoyorozu, muito pelo contrário, a chance de estudar com dois dos maiores gênios da escola — três, contando o Todoroki — não é algo que ela recusaria, mas... também não seria fácil ficar à vontade, ela se sentiria extremamente deslocada.

Será que é assim que o Todoroki está se sentindo agora?

— Por mim pode ser. — ele dá de ombros, sem nem tirar os olhos de seu caderno.

O Iida e a Yaoyorozu não parecem minimamente abalados, vai ver já estão acostumados com esse jeitão dele. Ochako também deveria estar à essa altura, mas ainda assim não consegue, questionando-se se fez algo que o deixou desconfortável.

Esse sentimento não passa mesmo depois de eles começarem a estudar pra valer, mas eventualmente ela foca na explicação muito bem feita do Iida e absorve o máximo que pode das anotações que copia da Yaoyorozu. Eles são mesmo impressionantes, quase não parecem reais... mas ao mesmo tempo, é curioso como vendo-os assim a faz enxergá-los de verdade, por assim dizer. Ochako só os conhecia de nome, o presidente e a vice-presidente do Conselho Estudantil, inteligentíssimos, ricos, e refinados. Mas estudar com eles a faz perceber que ambos são esforçados, gostam de ajudar e, mesmo que sejam meio rígidos, ainda são bem legais.

Ela jamais teria tido a chance de conversar com eles não fosse pelo Todoroki, então... mais uma coisa que ela deve a ele, o que só piora a sensação de que Ochako não deveria ter chamado as meninas e o Kirishima, o ruivo também não está 100% à vontade. Ela só quer que seus potenciais novos amigos se deem bem com os seus mais antigos, mas talvez... a garota tenha forçado a situação cedo demais...

Depois de quase 1 hora e meia, o Todoroki anuncia que é hora de uma pausa para o lanche, e todos se alongam e levantam como se tivessem acabado de terminar uma atividade física exaustiva. Ochako estica os braços e anuncia que vai ao banheiro antes, e o Todoroki explica onde é.

Será que ela deveria mandar uma mensagem pra ele já que provavelmente não conseguirá encontrá-lo sozinho enquanto ele estiver tendo que agir como anfitrião? Pode ser, mas o que dizer exatamente? "Desculpa"? A sessão de estudos foi muito mais produtiva do que pareceu que seria com tanta gente reunida, o Todoroki até ajudou a Tsu com algumas questões, ele não parecia tão desconfortável assim, mas... ainda assim, ela gostaria de saber se fez algo que não deveria.

Ochako sai do banheiro e avança pelo corredor, apenas tendo mais certeza de que essa casa é imensa mesmo. Como ela se dá conta disso? Bom, talvez porque ela esteja um pouco perdida. O Todoroki apontou onde era o banheiro, mas ela não sabe como chegar à sala onde eles irão lanchar.

Ela para no corredor e olha ao redor, andando com cautela para ao menos tentar voltar para a biblioteca. Mesmo que deva prestar atenção no que está fazendo, Ochako não consegue deixar de reparar na decoração do corredor, há algumas cômodas com vasos adornados por belas flores e, em uma delas, há um porta-retrato. Ela para pra olhar a foto: uma mulher bonita de cabelos brancos e lisos acompanhada de um homem alto e cabelos vermelhos, que ela logo reconhece como o Endeavor, e um bebê de rosto inchado, embalado em um pano azul claro. Não dá pra ver a cor dos cabelos do bebê, provavelmente um recém-nascido então, então não há como dizer se é a Fuyumi, o Natsuo ou o Todoroki, mas é uma foto adorável, Ochako sorri ao imaginar que é o Natsuo.

Se bem que... é um neném bem bochechudo, lembra mais o formato do rosto do Todoroki... ou será que...?

— Uraraka-chan?

— Ah! — ela não contém um gritinho e um pulo de susto, e se vira com tudo para o início do corredor, sentindo seu coração acelerar ao ver o Natsuo ali parado.

— Ah, desculpe! Não quis te assustar! — ele se aproxima — Aconteceu alguma coisa? Você veio aqui pra estudar com o Shouto e mais alguns colegas, né?

— É... sim. A gente deu um intervalo pra lanchar.

— Ah, legal. — ele acena com a cabeça, e os dois ficam se encarando em silêncio — E você... não vai lanchar?

— Sim, eu já... eu já tô indo. Com licença. — ela se apressa para se retirar, e então se lembra que está perdida, olhando para o corredor que se ramifica em dois caminhos.

— Você por acaso se perdeu? — ela consegue ouvir o divertimento na voz dele, sentindo seu rosto queimar em constrangimento. Como ela é ridícula!

— N-não, não! Tá tudo bem! Eu só vim ao banheiro, mas foi rapidinho! — por que diabos ela tá falando da duração do tempo que passou no banheiro? Qual o seu problema??? — Eu... com licença, eu...

— Ei, relaxa! Não seria a primeira vez que alguém se perde no labirinto dessa casa! — ele a tranquiliza — Vem, eu te ajudo a achar o caminho.

— Ah, imagina, Todoroki-san! Não precisa, eu... você deve estar ocupado, e eu...

— Nada, acabei de chegar! Eu só ia pro meu quarto. — ele sorri — Vamos?

Mesmo sabendo que é impossível, Ochako não consegue deixar de se sentir inquieta ao pensar que ele acaba de sugerir que ela vá ao quarto dele e...

Ela engole em seco, tentando afastar esse pensamento absurdo da cabeça.

Mesmo se sentindo como se tivesse engolido um saco de pregos, ela assente e se permite ser guiada pelo corredor, dando uma última olhada de relance no porta-retrato.

Aquela mulher deve ser a mãe deles... e isso a faz se dar conta de que Ochako ainda não a conheceu, ela vê o pai dos Todoroki praticamente todo dia, já a mãe... o Todoroki nunca falou nela, e... aquele dia no torneio de arco e flecha, eles estavam tirando todas aquelas fotos porque a Fuyumi disse que queria mandá-las para a mãe, não foi? Será que ela está viajando? Ou não mora com eles? Será que...?

— Você viu a foto? — o Natsuo pergunta como se estivesse lendo sua mente.

— Ah, sim... desculpa, eu só... fiquei imaginando qual de vocês era o bebê.

— Ah é? E quem você acha que é?

— Não sei... seus... seu pai parecia bem mais jovem na foto, então... acho que é sua irmã.

— Olha só, você observa bem os detalhes! — ele ri — Mas não, não é a Fuyumi nee-san.

— Não? — ela franze o cenho — Então...?

— Não sou eu também. É o Touya, o irmão mais velho.

Nossa, existe um quarto irmão! Dessa ela não sabia, ninguém nunca tinha comentado sobre isso, nem mesmo no restaurante! O Todoroki também nunca falou nada desse irmão.

— Ah... entendi. Ele também mora aqui?

— Não. Bom, por enquanto não. — ele olha pra frente, de repente parecendo sem jeito.

— Sua... sua mãe é bem bonita.

— Ela é, né? — ele dá um sorrisinho — O nome dela é Rei.

— Rei... que nome bonito!

Os dois ficam em silêncio por alguns segundos enquanto andam. Ela disse algo de errado? Ochako se prepara para pedir desculpas, e então...

— Ela adorou as fotos do torneio de arquearia, por sinal.

— A-ah, que bom! Ficaram muito boas mesmo!

— Uhum! Ela disse que até quer emoldurar uma, aquela que tem nós quatro, sabe?

— Sério? — ela arregala os olhos, surpresa por saber que é a foto em que ela aparece também.

— É, ela ficou bem feliz em saber que uma amiga do Shouto foi lá pra apoiá-lo. Considere-se a representante dela, Uraraka-chan!

— Eu... eu agradeço. Diga pra ela que é uma honra.

— Vou dizer. — ele sorri.

— Ela também não mora aqui? — escapa antes que Ochako possa considerar a indiscrição da pergunta, o Natsuo parece concordar em como para de andar por um segundo. Ochako para também.

— A-ah! Perdão, Todoroki-san! Eu não... eu... me desculpe! Eu não deveria... é só que... sua irmã falou de mandar as fotos, eu achei... desculpe. — ela abaixa a cabeça.

— N-não, tudo bem! Tá tudo bem, Uraraka-chan! Só... não tava esperando essa pergunta. — ele coça a parte de trás do pescoço, sem jeito, o que a deixa ainda mais mortificada — Ela... também não mora aqui... por enquanto, ela tá... hã... viajando. Mas... a gente adoraria que ela voltasse pra casa.

— E-entendi. Desculpa mesmo, Todoroki-san.

— Não, que isso! Não tem problema! A gente também não deveria ter ficado falando daquele jeito na sua frente, você deve ter ficado curiosa.

— Eu só pensei nisso vendo a foto mesmo.

— Certo... Enfim, o Shouto e o pessoal deve estar lanchando perto do jardim dos fundos, só entrar por aquela porta ali. — ele aponta.

Ochako sente seu coração afundar, ele claramente está desconfortável e querendo se livrar dela logo, e é perfeitamente compreensível, mas ainda assim... se ela não tivesse agido tão estranho, eles talvez pudessem conversar um pouco mais. Ele está em casa, ela nunca vai vê-lo mais à vontade do que isso, usando pantufas cinza escuro e o cabelo um pouquinho mais bagunçado do que o normal... e ela conseguiu estragar tudo sendo enxerida e desagradável.

— Obrigada, Todoroki-san. — ela se curva levemente, segurando a vontade de apertar os olhos — Desculpe o incômodo. — e se vira pra se retirar.

— Uraraka-chan, espera. — ele pede, e ela para no mesmo segundo.

Ao virar-se para olhá-lo, Ochako sente seu coração parar por um breve momento: ele está desviando o olhar e... corando. Ele... ele tá...

Simplesmente adorável.

— Eu... menti. Desculpa.

— Perdão?

— Sobre o que eu falei da minha mãe. Eu menti agora há pouco. Ela não... ela não tá viajando. Ela... a verdade é que... ela tá internada.

— Oh... — Ochako o encara — Eu... obrigada por... me contar. Você não precisava.

— Eu sei, mas... não pareceu certo mentir desse jeito, você... talvez ouvisse pelo Shouto em breve, ele não tem tanto problema em falar sobre isso como eu, e... eu não queria que você se magoasse por eu ter mentido.

Ochako precisa respirar fundo, sentindo borboletas no estômago ao vê-lo tão verdadeiramente envergonhado. Ele apostou na honestidade brutal do irmão mais novo e já pensou em como ela se sentiria quando ouvisse a verdade, isso é um nível de sensibilidade assustador e tocante.

— Eu não ia, pode ficar tranquilo. — ela diz sinceramente e sorri — Assuntos de família são delicados, eu entenderia. Espero... espero que ela fique bem, vou torcer pela saúde dela.

— Eu... — ele arregala os olhos, mas então relaxa — Obrigado, Uraraka-chan, você... você é inc-

— Ah, Uraraka-san, aí está você. — a porta se abre, e a Yaoyorozu aparece — O Todoroki havia me pedido para procurá-la.

— N-não precisava! Eu... eu tô aqui, ele me ajudou a achar o caminho. — ela aponta para o Natsuo em total constrangimento.

— E agora vou te deixar em paz. — ele anuncia e acena com a cabeça para as duas garotas, retirando-se.

Ochako quer acreditar que ele a olhou por um segundinho a mais antes de voltar pelo corredor.

Mas mesmo se não tiver olhado, tudo bem também. O que ele disse já foi mais que o suficiente para fazê-la flutuar.

Quase a faz esquecer da culpa que sente em relação ao Todoroki.

Quando Ochako se senta à mesa para comer o lanchinho que mais parece um banquete, seus olhos não param de procurá-lo.

Como deve ser triste ter a mãe internada, não tê-la em casa todo dia, não poder vê-la ou conversar com ela sempre que quiser... Ochako não saberia o que fazer se tivesse que passar por algo assim.

O Todoroki não deveria ter que lidar com isso.

***

— Elas com certeza estão demorando para voltar. — o Iida olha para o relógio inquietamente.

— Ugh, tenho certeza que a Mina tá enrolando e segurando elas. — o Kirishima cruza os braços e suspira — Eu vou atrás delas.

— Deixa elas, a gente nem tá tão atrasado assim. — Shouto diz, olhando para seu caderno.

— Tem certeza? — o Kirishima pergunta — Acho que o Presida aí não concorda.

— Eu apenas acho que se seguíssemos o cronograma, poderíamos deixar essa margem de atraso mais para o fim dos estudos. Mas a margem está diminuindo na mesma medida em que elas se atrasam.

— Bom, eu não tenho nada de importante pra fazer mais tarde, então por mim vocês podem ficar aqui mais um pouco. — Shouto dá de ombros.

— Não fala isso pra Mina, se não ela vai se convidar pra uma festa do pijama aqui! — o Kirishima adverte.

Não parece uma ideia tão ruim.

Shouto está surpreso em como um grupo grande e tão diverso conseguiu render uma boa sessão de estudos, ele não conhece muito as amigas da Uraraka, mas pelo que viu das interações entre elas e o Iida e a Yaoyorozu, o garoto imaginou que haveria uma certa tensão pelo choque de diferença no comportamento. A Ashido é... meio que o completo oposto do Iida, mas de alguma forma, isso não causou nenhum estranhamento. E a Yaoyorozu expressou de maneira bem clara durante a pausa para o lanche o quanto está contente em poder estar na companhia de mais meninas, o que é raro. Talvez ela tenha gostado tanto que nem se deu conta de que o intervalo já acabou e os garotos voltaram para a biblioteca, enquanto elas seguiram conversando animadamente à mesa que a governanta preparou.

Já Shouto está... gostando mais do que achou que iria. Ele já imaginava que a Uraraka não iria querer estudar apenas com ele, nem mesmo apenas com o Iida e a Yaoyorozu, então nem se surpreendeu quando ela casualmente introduziu suas amigas na conversa, e tudo bem, não seria um problema. Ele só propôs a sessão de estudos em grupo e a convidou porque, por algum motivo, sentiu-se compelido depois de ouvi-la dizer que o considera seu amigo, amigos devem estudar juntos, pareceu tudo perfeitamente lógico.

Tirando a parte em que ela sugeriu convidar esse garoto Kirishima. Shouto ouviu-a dizer esse nome na conversa que escutou por alto e sabia que era o menino que sugerira que ele poderia não ser a melhor companhia para ela.

Não que ele se importe com o que pensam dele, ainda mais alguém que nem o conhece, mas Shouto não gostou muito da ideia a princípio, só não soube como recusar sem expor que era por ter ouvido uma conversa que não deveria ter ouvido.

E que bom que não recusou, pois o tal de Kirishima é até bem legal. Ele fala alto e disse várias vezes que estava se sentindo burro perto do Iida e da Yaoyorozu, mas em geral... é divertido. Tem um jeito meio informal quando começa a ficar à vontade que lembra vagamente o da Uraraka, o que explicou porque eles parecem se dar bem.

— Vocês dois namoram? — Shouto pergunta.

— Quem?

— Você e a Ashido.

— Ah... isso é... — ele ruboriza — Pô, por que todo mundo pergunta isso? Haha, não... a gente... ainda não.

— Ainda não?

— É, eu... quero vencer um torneio aí pra poder me declarar direito. Eu tô no clube de judô.

— Eu sei.

— Você... você sabe? — o Kirishima o olha com surpresa. E é compreensível, pois não foi algo que ele já havia mencionado antes.

— Sim, a Uraraka me disse. — ele mente. Uraraka só disse que ele era do 3º ano também, a parte do clube de judô Shouto descobriu indo fazer uma breve pesquisa para saber qual vínculo além de serem amigos em comum da Ashido eles poderiam ter.

— Ah tá. Enfim... quero ser campeão estadual. Se eu conseguir, vou me declarar.

— E se não conseguir?

— Ah, aí... não, não é uma opção. Eu preciso vencer. Eu vou vencer. — ele afirma com convicção.

— Se isso é algo que o incentiva, espero que dê tudo certo. — o Iida diz sem tirar os olhos do caderno.

— Valeu, Presida. — ele sorri, aparentemente surpreso — Que coisa! Vocês dois são bem diferentes do que eu pensava!

— Como assim? — o Iida pergunta.

— Ah, sabe... é que todo mundo fala do famoso trio sabe-tudo da turma A... vocês são tipo, celebridades lá na escola, aí muita gente acha que são metidos e tal, mas... até que vocês são bem legais.

— "Muita gente" inclui você? — Shouto pergunta.

— É, sim... eu... achava que sim. Pra falar a verdade, eu nem ia com a sua cara, Todoroki, até falei com a Uraraka disso.

Shouto quase diz "eu sei", mas se contém, sabendo que mentir usando o nome dela agora não seria tão inofensivo quanto na primeira vez.

— Hum. — então ele só balança a cabeça.

— Mas ela me falou que vocês viraram amigos e tal, ela parecia tão... determinada a me fazer ver que você é legal, eu tive que vir pra cá hoje por conta disso.

— A Uraraka é assim mesmo. — Shouto aponta — Ela é bem determinada, só não parece porque ela tem um jeito suave de ir atrás do que quer. — ele diz, pensando em seu interesse no Natsuo. Ela não parece particularmente empenhada em se aproximar dele, mas está sempre progredindo, hoje mesmo se atrasou para o lanche porque o encontrou no corredor, segundo ela mesma. Do que será que eles falaram?

— É, só não é tão suave quanto tá competindo. Sério, se vocês nunca viram os torneios femininos de judô, vejam, o negócio é bem intenso. A Uraraka, então, nem se fala.

— Eu sei. Já a vi competir uma vez, foi uma demonstração do clube de judô, os meninos e as meninas se enfrentaram.

— Ah, você viu quando ela derrubou o Togata-senpai? Foi uma doidêra, faz dois anos que ele se formou e ainda não deve ter esquecido disso.

— Eu também provavelmente não me esqueceria. — Shouto diz.

Fica um breve silêncio, o Iida para de anotar no caderno por um segundo.

— É, então... e você, Presida? Todo mundo acha que você namora a Yaoyorozu, é verdade?

— Não, a Yaoyorozu já está comprometida.

— Sério? É algum menino da nossa escola?

— Não, não é da nossa escola. E não é um menino.

— Ah... ah, saquei.

— Mas eu devo dizer que o que você disse sobre querer obter uma conquista pessoal para impulsionar seu desejo de confessar seus sentimentos românticos é inspirador, Kirishima-kun.

— Ah é?

— Sim, eu... poderia considerar algo do tipo... se for aprovado na universidade de minha primeira escolha.

— Ih, então já pode ir preparando a confissão pra menina, porque você com certeza vai passar! Quer dizer... é uma menina?

— Sim, é uma menina. — ele ajusta os óculos, aparentemente envergonhado.

— Vai dar tudo certo! Vou torcer por você! — o Kirishima flexiona o bíceps.

— E eu por você.

— Valeu! — ele sorri — E você também, Todoroki!

— Ah sim... dê seu melhor, Todoroki-kun. — o Iida sorri, tirando os olhos de seu caderno.

— Obrigado. Todos dizem que tenho chance de vencer o campeonato nacional, farei o meu melhor.

O Iida e o Kirishima se entreolham por um segundo, e o ruivo chega a abrir a boca para dizer algo, mas então as meninas entram na biblioteca, pedindo desculpas pelo atraso.

Uraraka se senta ao lado dele e sorri, ela já estava parecendo mais alegre quando se juntou a eles na hora do lanche, e agora segue bem contente.

Não demora até que eles voltem a estudar, mas ninguém parece tão focado quanto estavam antes.

Bom, pelo menos Shouto não está, não enquanto pensa no que a garota ao seu lado teria conversado com seu irmão.

***

— Obrigada por hoje, Todoroki-kun. Foi... bem melhor do que eu achei que seria. — ela se curva e agradece.

— Sim, eu também achei. — Shouto concorda.

— Bom, então... eu já vou indo, antes que eu me atrase pro trabalho.

— Se você disser que estava estudando comigo, não terá problemas.

— Ah... não sei se é uma boa ideia dizer algo assim. — ela dá um sorriso tenso — Mas, hã... antes de ir, Todoroki-kun, eu só... queria ter certeza de que... foi tudo bem hoje. Quer dizer, se você... se foi tudo bem pra você, eu... parei pra pensar e percebi que... meio que impus que a gente se reunisse nesse grupo grande, né? Nem te dei chance de recusar.

— Você deu. E eu recusaria, se quisesse. — Shouto afirma.

— Ah... certo. Eu... eu fico mais tranquila, então.

— É por isso que você parecia tão incomodada no começo?

— Hum?

— Você parecia preocupada.

— Você... você percebeu? — ela parece chocada — Nossa, então... eu deveria estar sendo bem óbvia, haha.

— Você tá dizendo que eu só perceberia se fosse algo muito óbvio?

— Quê? Não! Eu... — ela respira fundo — É, talvez.

— Provavelmente é verdade. — Shouto admite, e ela dá uma risadinha, ele encara isso como uma boa oportunidade para levar o assunto para onde deseja — Você pareceu melhorar depois que conversou com o Natsuo-nii.

— A-ah, você acha? — ela fica vermelha — É, ele foi... bem gentil. Ele é muito gentil, você sabe.

— Sei.

Shouto fica esperando ela contar sobre o que eles falaram, sentindo-se estranhamente curioso. Em teoria, não é algo que lhe compete, ele está ajudando os dois a se aproximarem, mas se essa aproximação já acontece sem nenhum de seus esforços, então não deveria ser algo para ele se meter, isso é entre a Uraraka e o Natsuo.

Mas ainda assim, ele quer saber.

— E-enfim, foi... foi um dia muito bom de vários jeitos. — ela conclui com um sorriso, mas então fica séria — Todoroki-kun?

— Sim?

— Eu... hã... espero que sua mãe melhore logo.

Shouto se surpreende, arregalando os olhos por um segundo.

— Você... o Natsuo-nii-

— Ele não me contou os detalhes, não que precisasse. E você também não precisa, mas... se algum dia, você sentir que sim, eu vou te ouvir. Eu não sei o que faria sem minha mãe por perto, então... imagino que não deve ser fácil. — ela hesita por um segundo, mas ergue a mão e a apoia em seu ombro.

— Não é. — Shouto admite isso pela primeira vez em voz alta em muitos anos.

— Bom, se você achar que conversar pode ajudar um pouco, pode contar comigo, tá bom? Eu... eu sei que você disse pra gente se considerar amigo por falta de um termo melhor, mas... eu me considero sua amiga mesmo.

— Eu sei. — ele afirma, e não é só porque já a ouviu dizer isso para outra pessoa em outra ocasião.

Uraraka tira a mão do ombro dele e se despede em definitivo um tempo depois, Shouto fica parado na entrada da casa por mais alguns minutos, pensando que está contente por tê-la como amiga.

Ele volta pra dentro, sentindo que deveria estar mais contente.

Notas finais
Oioi, aqui estamos com att dessa fic. Não era o que eu tava planejando escrever no momento, mas a real é que eu amo demais essa fic e quero andar mais com ela. Andei? Não muito, huahaush Obrigada por ler, espero que esteja curtindo!