Notas iniciais
Espero que gostem!

O garoto encontrava-se sentado em um dos balanços do orfanato Sun Garden, observava calmamente os outros moradores dali. Sua bandana fazia uma sombra em seus olhos deixando-o intimidador, as crianças mais novas nem se aproximavam.

Encarou uma garota de cabelos alaranjados presos em um coque, ela brincava com algumas crianças do outro lado do jardim. Estavam todos reunidos ao seu redor, pareciam curiosos. Estreitou os olhos e logo arregalou-os ao visualizar uma máscara branca em suas mãos, longe de seu rosto. A criançada começou um alvoroço, mas foi contida quando ela colocou-a novamente.

Já estava ali há mais de 12 anos e não tinha uma única lembrança dela sem aquele adereço, pois já usava-o quando entrou para o orfanato. Recordava-se de sua chegada, foi um dos primeiros a falar com ela, tornaram-se bons amigos, contudo estavam mais distantes nos últimos tempos. Suspirou e voltou a encarar os outros, entretanto, vez ou outra, voltava a olhá-la. Esbravejou e levantou, entrando na casa.

[...]

Aquele dia estava péssimo, já não gostava da data e os seus pensamentos não paravam de focar na garota mascarada há dias. Isso estava realmente lhe incomodando. Arrancou a bandana de seu cabelo e lançou-a sobre a cama, saindo do quarto a passos pesados. Murmurava coisas incompreensíveis. Os mais novos encolhiam-se próximos à parede quando cruzavam com ele no corredor e aquilo irritou-lhe ainda mais.

Chegou à cozinha e surpreendeu-se ao vê-la ali com An, Clara e Ai. Elas o viram e cumprimentaram-no:

— Boa tarde.

— Boa tarde. — respondeu por educação e dirigiu-se à geladeira, pegando um copo na estante ao lado e enchendo-o de água. — Aniversário? — perguntou vendo os utensílios e materiais espalhados pela mesa. Elas assentiram. — Legal…

Depositou o copo na pia após terminar e saiu do recinto. Foi para os fundos, onde ficava um quintal, não era tão grande quanto o que ficava na entrada. Agradeceu mentalmente por não haver ninguém no momento.

Pegou uma bola de futebol deixada por ali e começou a fazer algumas embaixadinhas, trocando depois por chutar contra a árvore, apenas com força o suficiente para ricochetear e voltar para si.

Permaneceu assim por um tempo, até que uma pessoa aparecer e roubar-lhe a bola no instante que ela voltava. Por um segundo, desejou que fosse Kurione, contudo o universo não estava lá muito do seu lado.

— Nagumo, devolve. — falou baixo.

O ruivo riu e tocou de volta.

— Calma aí, cara. ‘Ta irritado por quê?

— Não é da sua conta!

Sentiu uma mão fria em seu ombro. Suzuno.

— Netsuha, gritar com o Haruya não resolverá seu problema. — disse ele.

Sagrou-se bruscamente deles e rumou de volta para o seu quarto, quando se chocou com alguém no caminho. Encarou a pessoa de forma furiosa e arrependeu-se ao ver a predominância branca e olhos complementarmente negros.

— Natsuhiko, está tudo bem? — A voz dela acabou com a sua raiva. Virou o rosto. — Ei, eu falei com você!

— Eu não quero conversar, Kurione…

A garota ficou parada à sua frente, não parecia disposta a deixá-lo passar.

— Rione, me deixe…

Ela negou com a cabeça.

— Você ‘ta estranho desde o início da semana.

— Estranho?

— Sim, você ‘ta me encarando mais que o normal.

O garoto engasgou-se com a própria saliva e sentiu as bochechas esquentarem. Fora percebido desde o início.

Encarou a mascarada por breves segundos até mudar seu foco para trás dela.

— Eu não estava te encarando…

Yuki cruzou os braços.

— Natsuhiko, eu te conheço desde os oito anos, sei que está mentindo.

Engoliu no seco, seu rosto parecia pegar fogo. Arriscou:

— Eu não estou mentindo, Yuki.

Ela revirou os olhos por trás da máscara e segurou-o pelo pulso, passando a puxá-lo para um local mais afastado e quieto dali, onde não seriam interrompidos. Ele não reagiu. Chegaram em um local bem conhecido por ambos.

Sentaram-se no chão. O garoto não a olhava diretamente, aquilo já estava irritando-a.

— Agora me fala o porquê de estar estranho! — Aproximou-se dele, inclinando-se para frente. — E olhe para mim!

As bochechas de Netsuha esquentaram rapidamente, porém voltou a olhar para ela.

— Eu… Eu vi você retirar a máscara para algumas crianças daqui e percebi que, mesmo sendo amigos há tanto tempo, eu nunca vi seu rosto… — falou com sinceridade.

Ela soltou uma risadinha, a qual fez o rubor das bochechas dele aumentar.

— Era isso? Eu mostro, mas você terá de me responder umas perguntas.

“Que fácil.”

— Sério? — Ela assentiu. — Então eu respondo.

— Primeiro, feche os olhos.

O garoto estranhou um pouco, contudo obedeceu-a.

— O seu aniversário é hoje, né?

Balançou a cabeça em afirmação.

— Ainda acho estranho você não gostar de fes…

— Porque foi o dia que meus pais me abandonaram.

— Eu sei, mas lembra-se da sua festa de 10 anos?

Natsuhiko colocou a mão no queixo.

— Aquele que você tentou fazer uma surpresa e o bolo acabou queimando? — disse brincando.

— N-não! Esse foi o de 9! — Kurione soltou uma gargalhada, foi música para seus ouvidos. — Eu te mostrei nesse dia, já que não tinha nada para te dar…

— Eu não lembro disso! — exclamou ele, indignado.

Ela riu em um tom triste.

— Você não me reconheceu… — Por um momento, ele sentiu vontade de socar a própria cara. — Eu tentei de novo ano passado…

— O quê?! — Ameaçou abrir os olhos, porém Rionne colocou a mão.

— Você bebeu o suficiente e nem me reconheceu novamente, sendo que eu lhe disse algo tão importante…

— D-desculpa, Yuki, eu não queria…

— Mas… Você me contou uma coisa.

— O que eu disse? — Sentiu um carinho em sua bochecha, seu rosto pegava fogo. Ficar de olhos fechados não ajudava, parecia sentir tudo em dobro.

Um calafrio percorreu sua espinha ao ouvir a voz dela muito próxima a si.

— Você disse que gostava de uma garota… — Ele ia contestar, entretanto ela continuou. — Disse que gostava de mim.

O moreno ia retrucar e foi interrompido mais uma vez por ela, não reclamou daquele contato. Separaram-se logo.

— Pode abrir os olhos. — disse Kurione retirando a mão.

Obedeceu-a e abriu-os lentamente. No início, sua visão estava turva, mas não tardou a focar. Surpreendeu-se ao ver um par de orbes azulados, da cor do céu mais límpido. Os traços delicados para um espírito forte como dela era um contraste — maravilhoso na sua opinião — não deixou o sorriso morrer.

— Lembrou? — a voz dela retirou-o do transe.

— Não. — Foi sincero e abraçou-a no impulso. — E não pretendo esquecer, nunca mais, Yuki… Mas ainda não acho justo você saber sem eu estar consciente.

Ela riu.

— Dificilmente você ia falar, Natsuhiko. Eu te conheço o suficiente para saber.

Aquele contato estava aconchegante. Ficaram desta forma por algum tempo, no silêncio, aproveitando a companhia um do outro.

Netsuha sabia que ela estava certa, pretendia mesmo esconder seus sentimentos desde que ela havia namorado um garoto há dois anos, mas não falaria sobre isso, o rompimento não foi lá muito bom e ele foi um dos que mais a apoiou quando a garota preciso.

Vagando em pensamentos, recordou-se de uma dúvida:

— Por que, se você mal tira a máscara, mostrou o rosto para aquelas crianças?

A ruiva soltou uma risadinha.

— Fiz um pequeno trato com eles. — Soltou-se dele e aproximou os rostos novamente. — Como você acha que consegui deixar o playground livre?

Netsuha sorriu de canto e colou as testas.

— Eu te amo, minha mascarada misteriosa.

— Eu também te amo, meu mal-encarado. Feliz aniversário. Agora… — Segurou o rosto dele entre as mãos. — Vamos transformar essa data em uma ótima lembrança.

Selaram outro beijo, este foi mais demorado, carregado de sentimentos. Ao separaram-se, sorriram e levantaram.

Netsuha ajudou-a a colocar o costumeiro item e sorriu.

— Eu vou amar comemorar agora, Yuki.

Kurione sorriu por detrás da máscara e puxou-o para irem festejar com os outros o primeiro aniversário que valia a pena.

Notas finais
Espero que gostem e shippem tbm!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!