Por cima
4 Goma de Mascar Sabor Cereja
Notas iniciais
Guardei minhas coisas na mochila, enrolando discretamente até todos saírem da sala para então me mexer. Não porque eu estava triste ou nada assim, mas… Ta, eu estava triste. Ser boa nos estudos era a única coisa que tinha para me orgulhar. Tirar um zero, mesmo não sendo minha culpa, era algo deprimente. Querendo ou não, isso estava no meu histórico escolar. E por mais que fosse contra o meu modo de pensar, estava muito afim de chutar alguma coisa. O que era totalmente impossível.
Peguei minha mala e a coloquei no colo. Estava quase passando pela porta, e teria saído, se não fosse por três pestes.
– Laura, o que faz aqui ainda na sala? Pensei que fosse uma garota ocupada — disse um dos garotos, com uma cara de preocupado.
O ignorei e tentei passar por eles antes que acontecesse alguma coisa mais séria. A única menina parou em frente, bloqueando minha passagem, ficando entre mim e a doce e segura paz.
De susto, fui um pouco para trás, o que a deixou satisfeita. Ela logo abriu um sorriso maior e passou a mão em seus cabelos.
– Por que você não espera só mais um pouquinho? Garanto que o assunto será interessante — ela disse.
Me recuperei logo em seguida. Não podia deixar ela achando que metia algum medo em mim, mesmo que fosse verdade. O que não era...
– Sinto muito. Sou uma garota muito ocupada, não posso perder tempo com coisas insignificantes. Saia da minha frente, por favor. — Soltei. "Não! Não seja arrogante novamente, Laura!"
Ela deu um passo na minha direção, cruzando os braços. Para meu desespero, ela deu outro passo, e mais outro, até dar a volta e me girar para o lado oposto, fazendo com que os outros dois meninos entrassem no meu campo de visão. Admito que aquilo não era nada agradável. Nada, nada agradável.
– Tem certeza? Ficamos preocupados com o que aconteceu hoje na aula da Vanessa — disse o mesmo garoto da primeira vez. Ele, assim como o outro, estavam sentados em cima das mesas.
– Quem é Vanessa? — perguntei tentando me fazer de desinteressada.
– Nossa coordenadora de sala. Dã! — disse o garoto B.
Enrubesci, um pouco envergonhada por não saber algo tão obvio, mas agi como se não me importasse, olhando para meu casaco e o ajeitando desnecessariamente.
–Parece que ser a segunda mais inteligente da sala não é assim grande coisa — sussurrou inutilmente no ouvido do mesmo garoto, rindo.
Uma outra onda de chorou avançou, mas mordi minha língua e pisquei freneticamente, ainda olhando para baixo. Graças a isso pude pelo menos esconder minha vontade de desabar.
– Enfim… — continuou o garoto A, olhando significativamente para os outros dois. — Soube que até vai precisar de reforço — disse voltando para mim.
–Não que isso seja da sua conta — murmurei.
Meus olhos já estavam praticamente secos, então ergui a cabeça para ver qual seria sua reação.
Estava esperando um grito, ou alguma veia saltando de sua testa, mas diferente de todos, ele balançou a cabeça negativamente e abriu um sorrisinho, como se estivesse se divertindo.
Mal feito isso, a garota avançou em mim, me dando um tapa no rosto.
Não me mexi. Minhas mãos permaneciam em meu colo, meus pés estavam juntos e minha cabeça continuava sobre o pescoço. Não havia acontecido nada. Absolutamente nada…
"Respira, respira."
– Escuta garota, você sendo filha de uma atriz ou de um escritor não te da o direito de agir assim. Com quem você pensa que esta falando?
– Sinto muito. Não tenho intenção de brigar. Só… Acabe logo com isso para eu poder ir embora — respondi entediada, me controlando para não fazer nenhuma besteira.
Ela olhou para o garoto B, sorrindo, e de repente segurou em minha cadeira, ficando a centímetros de meu rosto. Travei as rodas, antes que nós duas fossemos para trás.
– Por que? Pensei que filhas da puta não fizessem nada mais que gritar por ajuda. Vai visitar a rainha por acaso? — sussurrou.
Senti meu rosto ficar vermelho, e meus olhos estavam lacrimejando, mas diferente da outra vez, era de raiva. Meu limite já estava estourando.
– Exatamente, sua vaca nojenta. E… Procure algo para fazer, em vez de trocar minha folha de respostas. Da próxima vez tente ao menos responder ao invés de pegar dos outros — disse a empurrando para longe de mim. — Ser a segunda não é grande coisa? Olhe um pouquinho mais para si mesma e quando conseguir uma pontuação melhor que a minha volte a falar comigo. E filha da puta? Enfie isso no…
Antes que eu terminasse, ela fez menção de dar outro tapa. Fechei os olhos, me encolhendo um pouco. Depois de um tempo não acontecendo nada, abri os olhos, hesitante. Já havia passado tempo suficiente para sua mão se chocar em minha bochecha, mas não estava acontecendo nada, a não ser um silêncio enorme varrendo a sala.
Vi seu braço sendo segurado pelo garoto A. Ela o olhou um pouco atordoada, assim como eu. Ele suspirou de leve.
– Sabia que não era uma boa idéia você vir, Carol. Você sempre exagera — disse calmo, parecendo que sempre acontecia esse tipo de coisa.
– Nem vem, Gui. Você disse que eu podia vir! — resmungou manhosa.
"Lindo. Agora vou ter que assistir a uma briga de casal. Por que eles não pulam a tortura e me matam de uma vez?"
– Contando que tivesse alguém para supervisionar. Por isso nós dois viemos, para que você não exagere — ele respondeu, voltando a se sentar na mesa.
O garoto B concordou com a cabeça, deixando Carol mais emburrada ainda. Ela abraçava o braço de Gui, toda emburrada, com as bochechas inchadas e com um olhar manhoso. Tipo um gato.
"Como alguém consegue mudar tão de repente? Ah, espera. Eu sei. Já faço isso todos os dias."
Eles ficaram discutindo por alguns minutos, até que finalmente a Carol não aguentou e gritou, impaciente. Assim como eu.
– Dane-se! Tudo isso foi uma perda de tempo. Vou ter que vir sem vocês na próxima vez. Irritantes! — enfatizou, olhando para os dois garotos, e saiu andando rápido, novamente com aquela postura. Nariz empinado e jogando o cabelo para trás dos ombros.
O garoto B saiu correndo atrás dela, pedindo desculpas e dizendo que será mais liberal. "Eu prometo!" Gritou ele.
O outro saiu de cima da mesa e deu um outro suspiro pesado. Só depois de tudo pude reparar nele. Tinha cabelos loiros escuros, e era alto. Não alto como Bruno, ou o cara que dirige pra mim, mas alto. Vestia o uniforme, e estava com as mãos no bolso, mascando um chiclete de cereja.
– Sinto muito por tudo isso.
– Pensei que diria algo assim — "Calma. Nada de extrapolar." — Talvez assim você pense um pouco mais e passe a controlar melhor sua namorada.
"Muito bom. Você foi ótima, Laura. Perfeito. Depois não me pergunte por que as pessoas te odeiam."
– Minha namora? Não, não. Ela é só uma velha amiga.
– Tanto faz. Eu vou já vou — disse já pensando em ir embora.
– Espera, eu te ajudo.
– Não se atreva! — gritei assustada. Ainda estava traumatizada com o outro dia em que os professores me trouxeram para sala. Depois daquilo, jurei que não deixaria mais ninguém me levar para lugar nenhum.
Ele emitiu algo parecido com um "pff" e soltou uma risada. Das grandes.
Olhei confusa, mas acima de tudo, envergonhada. Destravei as rodas e me virei para a porta, andando em direção a ela.
– Desculpa, desculpa — disse andando para mim, já me empurrando contra minha vontade. Relutei a principio, mas ele não me obedecia. Deixei por isso mesmo, me convencendo de que só iria passar aquela vez.
Atravessamos o pátio, e vi o carro na frente. Ele estava me esperando fora do carro, se apoiando nele, com os braços cruzados. Estava com uma cara preocupada.
Uma seta imaginária atingiu meu peito, me fazendo sentir culpada. Tinha sido estúpida com ele por uma coisa tão idiota, e mesmo assim ele se preocupava comigo. Meu alter-ego de vadia havia o feito ficar bravo, mas era eu que estava sendo punida.
Chegamos mais perto e então ele me avistou, mostrando uma cara visivelmente mais calma. O que mudou bem rápido assim que percebeu que alguém estava me levando.
Quando alcançamos o carro, os dois começaram a se encarar, mas o único ameaçador era meu motorista.
– Não pense que vou agradecer por isso — disse ao garoto A.
– Achei que diria algo assim — respondo rindo.
Meu motorista (eu ainda não sabia se nome!) abriu a porta, e eu fui até ele.
Por algum motivo o garoto me acompanhou, pegando na minha mão, talvez com a intenção de me ajudar a entrar. Não vou dizer que foi estranho, porque… Ok, foi estranho sim.
Antes que um de nós pudéssemos nos mexer, uma mão tirou a mão que estava em minha mão. Tipo, o quê?
– Eu cuido dela agora — disse ele (o motorista) para o garoto A e o fez soltar sua mão da minha.
"Ta bom! A partir de agora eu vou procurar me lembrar do nome de todo mundo, juro!"
Ele me puxou para fora da cadeira, me pegando nos braços. Novamente, outra coisa que não me agradava muito: Ser carregada!
O garoto A se despediu de mim, e só fui para o banco quando ele finalmente entrou no prédio outra vez.
Ele ligou o carro e partimos rumo a casa. "Esquisito. Isso foi totalmente esquisito!"
– Sinto muito por tudo aquilo.
Murmurei que não me importava. Nem conhecia ele, de qualquer modo. E eu tinha que conhecer. Estávamos na mesma sala a mais de meio ano!
– É só que… Quando eu vi ele pegando na sua mão… — disse bravo.
– Você não vai se apaixonar por mim nem algo do tipo, vai? — perguntei, olhando para o espelho do retrovisor.
Ele olhou para mim por algum tempo, parecendo confuso. E então começou a rir, muito. Era a segunda vez que debochavam de mim, e não era legal.
– Por favor, quem é que pode se apaixonar por uma pirralha idiota como você? — disse rindo, a ponto de me preocupar com a estrada.
– O que você disse? — perguntei ofendida.
Ele continuou rindo mais um pouco, e depois de alguns suspiros ele finalmente voltou ao normal.
Não sei, mas juro que vi ele limpando algumas lágrimas de se rosto… "Que vontade de estrangular…"
– Acho que isso responde a sua pergunta — disse sorrindo.
– Então não haja como se estivesse! — respondi irritada.
Ele voltou a prestar a devia atenção no transito, me deixando um pouco mais aliviada. Passamos algum tempo em silêncio, como de costume.
– … Você me acha uma pirralha idiota? — perguntei um pouco envergonhada, logo que entramos no jardim de casa.
Desviei o olhar para a janela, mas podia sentir o seu em mim. Oras, quando um cara mais velho te chama de coisas ruins você fica preocupada, não fica?
– É claro que não — respondeu como se não tivesse acabado de me chamar assim.
Fale com o autor