Por baixo da farda
1 Capítulo Único - O Diário de Charlotte Olivier
Notas iniciais
Era uma segunda feira de manhã, um dia agradável e ensolarado na Rue de la Paix. Mais ou menos às oito da manhã um garoto estava despertando em seu quarto, numa das casas da rua. Esse garoto era branco, loiro, com olhos azuis-escuros. Ele havia dormido só com um short cinza e uma regata branca. Esse garoto se chamava Jacques Olivier e era filho de Charlotte Olivier, a comissária de polícia.
Charlotte Olivier era a antiga capitã da polícia parisiense, era amada e odiada por muita gente. Ela subiu na polícia sendo conhecida por sua postura truculenta e agressiva nas abordagens. Outro motivo pelo qual Charlotte era conhecida era por sua competência e integridade, duas características marcantes dela, manchadas por uma terceira característica não tão boa: Charlotte tinha uma tremenda antipatia por Ladybug e Chat Noir, e fazia questão de deixar isso bem claro aos seus subordinados.
Sua carreira, bastante honrada por sinal, acabou manchada por um incidente no qual ela se descontrolou e desferiu um murro contra Ladybug e depois acabou partindo para a briga contra Chat Noir. Acabou virando piada nas redes sociais, perdeu o respeito de seus colegas de trabalho e quase foi punida pelos seus superiores. Em compensação, teve a chance de se acertar com sua “rival” e ambas ficaram amigas depois que a heroína ajudou a desakumatizar seu filho.
A promoção de Charlotte ao posto de comissária veio quando ela liderou as combalidas forças policiais numa batalha que praticamente definiu o destino de Paris e desmantelou uma poderosa organização criminosa conhecida como Surveillance. Seu parceiro, o tenente Roger Raincomprix, foi promovido ao posto de capitão.
O trabalho de comissária, embora menos estressante e perigoso que o de capitã, ainda tomava bastante tempo da mulher. Seu filho Jacques, que havia acabado de acordar, estava sozinho em casa, já que não teria aula naquele dia. Sonolento, foi tomar banho. Depois disso, foi se vestir, então tomou café e escovou os dentes. Após terminar sua higiene pessoal e sua alimentação, voltou até a cozinha e encontrou um bilhete que sua mãe deixara na geladeira:
Querido Jacques
Fui para a delegacia, volto só ao meio-dia. Preciso que você cuide dos afazeres da casa: lave a louça, arrume seu quarto e faça uma faxina na casa. Beijos, mamãe te ama.
Ps.: Deixei o almoço pronto na geladeira. Se eu demorar para chegar, não me espere, pode se servir.
Jacques sorriu ao ler o bilhete. Quase conseguia ouvir a voz de sua mãe, serena, em sua mente, o oposto exato de quando sua mãe era capitã, quando ela era basicamente uma máquina ambulante de caçar bandidos.
(Jacques, lendo o bilhete): Também te amo, mãe. (Dá uma olhada pela casa). Bem, vamos ver o que temos aqui hoje.
Havia pouca louça na pia, já que ele e sua mãe eram os únicos a morarem na casa, por isso não sujavam muita coisa no café da manhã. Depois de lavar e secar tudo, Jacques pegou a vassoura e o esfregão e começou a limpar a cozinha, depois foi para o banheiro. Limpar o banheiro era algo que Jacques não gostava muito, principalmente porque ele também tinha que limpar o vaso sanitário.
(Jacques, franzindo o rosto): Espero que inventem logo um vaso sanitário que se limpe sozinho! Deveria ser crime obrigar alguém a esfregar com uma escova um lugar onde jogam todo tipo de porcaria!
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Levou uma boa parte da manhã, mas finalmente Jacques já havia limpado todos os cômodos de sua casa. O último lugar que limpara foi o quarto de sua mãe, depois de ter acabado ele deixou a vassoura e o esfregão com o balde largados num canto e deitou na cama da mãe para mexer no celular. Depois de navegar um pouco na internet e jogar, Jacques guardou o celular e notou algo curioso: a cama no quarto de sua mãe era uma cama de casal. Lógico que ele sabia disso, mas ao se lembrar desse detalhe ele também lembrou de um outro detalhe de sua vida que ele havia se esquecido: um dia ele teve um pai, um pai atencioso que amava sua mãe e fazia de tudo para vê-la feliz.
Tal lembrança deixou Jacques um pouco triste. Nas poucas vezes que ele perguntou para sua mãe sobre seu pai, ela falava pouco mas dizia o quanto ele era maravilhoso e o quanto o amava. Infelizmente Jacques perdeu o pai ainda muito novo e não se lembrava de quase nada dele. Quando ele perguntava o que havia acontecido, Charlotte ou mudava de assunto, ou saía da presença do filho e ia para o quarto. Jacques se lembrava de algumas ocasiões em que, após fazer essa pergunta, sua mãe se trancou no quarto e foi chorar profusamente.
Tentando afastar essas lembranças tristes da cabeça, Jacques se levantou e se preparou para sair do quarto, mas algo chamou sua atenção: no quarto de sua mãe havia uma escrivaninha. Em cima da escrivaninha estavam um retrato com uma foto dela, quando era mais jovem, junto de seu pai, Achille. Achille era um homem negro e corpulento, com fortes traços africanos. No colo de Charlotte, estava Jacques, quando ainda era um bebê. Jacques pegou o retrato e olhou com ternura para a feição sorridente de seus pais. Perto do retrato estava um caderno com um porta-canetas. Era um caderno de brochura, pequeno, vermelho, do mesmo modelo de um diário, com cadeado e tudo (referência: https://www.desiary.de/out/pictures/generated/product/1/500_500_75/tagebuch-mit-schloss-rot-13.jpg). Porém, o cadeado estava aberto, sua mãe, apressada para ir ao trabalho, deve ter se esquecido de “trancar o diário”.
Jacques estava relutante, por um lado, sabia que o caderno era algo importante para sua mãe, muito provavelmente era o diário dela. Por outro lado, se fosse mesmo o diário dela, seria uma chance perfeita para compreender melhor sua mãe.
(Jacques, pensativo): Se isso for mesmo o diário, essa pode ser minha chance de compreender melhor minha mãe. Talvez eu até aprenda uma coisa ou duas para ser um filho melhor para ela. Se for algo do trabalho dela, eu simplesmente fecho e saio do quarto.
Jacques se sentou na escrivaninha, pegou o caderno e começou a ler.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Já faz algum tempo que eu tenho uma certa... vontade de desabafar. Foi depois que eu perdi meu amado esposo. Alguns amigos mais próximos me sugeriram procurar um psiquiatra, psicólogo, sei lá, mas não posso me ausentar por tanto tempo de casa para ficar com um profissional porque eu tenho um filho para cuidar. Então eu recebi uma sugestão de começar um diário, achei muito boa e comprei esse caderno para escrever meus desabafos. Foi difícil, várias vezes eu me sentei e fiquei um tempão segurando a caneta, sem conseguir escrever uma palavra. Essa deve ser minha vigésima ou trigésima tentativa de desabafo.
Mas eu consegui, finalmente estou escrevendo meus pensamentos nesse caderno. Ah, Achille, como eu sinto saudades de você. Desde que você partiu eu me sinto muito mal. Você era o amor de minha vida, você era perfeito. O maior problema é que sempre algo ruim ocorre aos homens perfeitos: ou eles se corrompem, ou revelam sua verdadeira face... ou morrem nas mãos de homens maus.
Eu me lembro de quando o conheci como se fosse hoje de manhã.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Dezoito anos antes
Charlotte Fourrié, com 22 anos, estava trabalhando como professora de ginástica em uma academia. Sua roupa de trabalho consistia numa calça legging azul e um top preto. Ela já estava há um bom tempo trabalhando nisso, e ela adorava esse trabalho. Era uma quarta-feira como qualquer outra: ela reunia um grupo de clientes da academia, fazia os aquecimentos iniciais e depois permitia que eles ficassem à vontade usando o equipamento... ou pelo menos ela achava que seria um dia como outro qualquer
— Charlotte, venha até a portaria por favor.
A voz era de seu chefe, Edmond. Um homem de porte físico mediano, ruivo, com olhos marrons. Do lado dele estava uma mulher negra, com fortes traços africanos, vestindo um top azul claro com uma aranha negra enorme desenhada bem no centro, uma bermuda laranja com trejeito militar e sandálias gladiadoras, a mulher amarrava as tranças estilo dread em um rabo de cavalo. O homem, também negro, tinha o cabelo cortado bem curto, um cavanhaque ralo e estava com uma regata branca, uma bermuda azul e tênis de corrida pretos e amarelos.
Charlotte ficou encarando o homem fixamente por um curto tempo: ele era enorme! Seus 1,85m faziam Charlotte se sentir uma anã perto dele. Os músculos extremamente definidos faziam Charlotte se sentir mais minúscula ainda. Mas o que mais prendia a atenção da professora de ginástica eram os olhos de Achille: eram escuros, mas com um brilho parecido com o de uma obsidiana polida.
(Edmond): Charlotte, estes são Anansi e Achille Olivier, eles são nossos novos clientes. Gostaria que você fizesse os exercícios de aquecimento e apresentasse o lugar para eles.
(Charlotte): Tudo bem. Vocês dois, venham comigo.
Anansi e Achille seguiram Charlotte até o lugar e foram até o lugar de fazer aquecimentos. Fizeram a bateria de exercícios e depois Charlotte se retirou para se concentrar em seus próprios exercícios.
Na verdade, o termo mais adequado seria “tentar se concentrar”. A verdade é que depois de ter visto Achille, Charlotte não conseguia mais se concentrar direito em seus exercícios e ficava só pensando em seu aluno novato. Até seu patrão notou que havia algo errado.
(Edmond): Charlotte, você está bem?
(Charlotte): Quem? Eu? Claro que estou bem, Edmond.
(Edmond, sério): Tem certeza? Você me parece meio distraída?
(Charlotte, rindo): Eu, distraída? Pfff, Edmond, de onde você tirou isso?
(Edmond): Do fato de que você nem percebeu que esqueceu de ajustar os pesos do Leg Press.
(Charlotte, se dando conta da mancada): Irc, é mesmo! Bem que eu desconfiei que isso estava fácil demais!
(Edmond): Charlotte, já que hoje você tá meio distraída com seus exercícios, é melhor você ir lá com o cliente novo, quem sabe assim você não se concentra melhor.
(Charlotte): É, pode ser...
Charlotte foi até o tatame, onde estavam Achille e Anansi, ambos treinando golpes de artes marciais. Vendo o enorme homem em ação Charlotte ficou ainda mais constrangida, até pensou em dar meia volta, mas Anansi acabou notando a presença dela.
(Anansi): Ei, instrutora, deseja ver alguma coisa?
(Charlotte, meio sem graça): Ah, é, eu só vim ver se vocês precisavam de alguma coisa. Pelo visto não, então já vou indo.
(Achille, sorrindo): Ei, espera aí, a gente precisa de uma coisa sim.
(Anansi, séria): Ah não, Achille, por favor, isso não...
(Charlotte, meio insegura): Do que precisa?
(Achille): Você teria equipamentos para luta nessa academia?
(Charlotte): Bem, nós temos luvas.
(Achille): Não tem tornozeleira para chute? Roupa de luta? Quem sabe umas armas para treino.
(Charlotte): Errr, não. Isso aqui é uma academia de ginástica, não um dojo.
(Achille): Que pena, mas será que você pode me ajudar com uma coisa? Eu preciso de uma voluntária.
(Charlotte): Para quê?
(Achille): Para isso.
O que aconteceu a seguir foi rápido demais: Achille enroscou os dois braços, um ao redor do pescoço e outro ao redor do tronco de Charlotte, e usou uma técnica de arremesso (referência de arremesso: https://www.youtube.com/watch?v=08LeA2A5EEg). Charlotte sentiu um impacto tremendo, mas não sentiu dor, Achille havia adaptado o arremesso para não machucar sua instrutora de ginástica.
(Anansi, séria): Eu mereço...
(Charlotte, ainda no chão se recuperando do susto): O que foi isso?
(Achille, rindo e ajudando Charlotte a se levantar): Uma técnica de arremesso. Sabe, eu queria alguém para treinar técnicas de arremesso e imobilização. Eu até faria com minha irmãzinha, mas ela não leva a sério.
(Anansi, séria): É porque você só faz esse tipo de coisa em garotas que você considera bonitas, seu esquisitão!
Charlotte sentiu seu rosto ficar da cor de uma pimenta malagueta.
(Achille, rindo): Essa menina inventa cada coisa...
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Eu sei, hilário né? A maioria das mulheres casadas conheceu seu marido através de uma conversa agradável, uma cantada, um convite para sair, essas coisas. Eu não, na primeira vez que conheci meu futuro marido ele me deu um golpe de judô. Foi algo estranho, eu sei, porém mais estranho ainda foi eu não ter me afastado. Sério, que tipo de mulher leva um golpe de judô de um desconhecido e ainda continua a fim dele? Rsrsrsrs.
Bem, eu só sei que eu sou esse tipo de mulher. Posteriormente, nós fomos nos conhecendo melhor e viramos amigos, depois algo mais profundo começou a nos unir... primeiro foi paixão, depois foi amor. Também fiquei mais próxima de Anansi. Apesar dela parecer durona, ela é uma mulher muito legal, ela acabou virando minha melhor amiga.
O tempo passou, dois anos depois aconteceu a melhor coisa da minha vida!
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Na catedral de Notre Dame estava ocorrendo uma cerimônia de casamento. A família de Charlotte e Achille estavam presentes para prestigiá-los. Já no altar, o padre fazia os votos para selar o matrimônio. Charlotte olhava com ternura para seu futuro marido.
(Padre): Estamos aqui reunidos hoje para selar o matrimônio entre esses dois filhos de Deus. Cristo vai abençoar o vosso amor conjugal. Ele, que já vos consagrou pelo santo Batismo, vai agora dotar-vos e fortalecer-vos com a graça especial de um novo Sacramento para poderdes assumir o dever de mútua e perpétua fidelidade e as demais obrigações do Matrimônio. Diante da Igreja, vou, pois, interrogar-vos
sobre as vossas disposições.
Anansi teve que abaixar o rosto, porque se Achille a visse chorando de felicidade, ele nunca mais a deixaria em paz.
(Padre): Achille Olivier, você aceita Charlotte como sua legítima esposa, para amá-la, protege-la, honrá-la e zelar por ela, até que a morte os separe?
(Achille): Aceito.
(Padre): Charlotte Fourrié, você aceita Achille como seu legítimo esposo, para amá-lo, protege-lo, honrá-lo e zelar por ele, até que a morte os separe?
(Charlotte): Aceito.
(Padre): E pelo poder concedido a mim, como representante de Deus na terra, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Jacques estava emocionado com o que já havia lido até ali. Agora, mais do que nunca, ele compreendia sua mãe. Agora ele sabia porque ela sentia tanta falta de Achille. Jacques suspirou profundamente e continuou a leitura, ele queria continuar destrinchando o psicológico de sua mãe, mas notou algo curioso: a partir de um certo trecho o texto começava a ser escrito com caneta vermelha, ao invés de azul, e o texto era rodeado por desenhos de corações com chifrinhos, tridentes e pequenas marcas de batom.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Alguns meses se passaram depois do nosso casamento, eu comecei a sentir um desejo ardente dentro de mim: eu amava Achille com cada fibra do meu ser e por isso eu desejava ardentemente consumar nosso amor unido nossas almas e criando uma nova vida. Achille me entendia, mas dizia que não seria possível. Ele era capitão da polícia, diariamente ele lidava com todo tipo de escória da sociedade, ele não queria correr o risco de criar um filho que não tivesse um pai presente, ou pior: que se tornasse órfão. Eu também compreendia ele, mas a verdade é que eu não estava disposta a abrir mão de meu sonho. Então um dia eu armei uma emboscada para ele (imagem de um diabinho sorrindo). Eu aluguei uma... roupa apropriada para a ocasião, e o desafiei para uma lutinha entre quatro paredes. Ele começou a ganhar, como era esperado, afinal ele tinha 1,85 de altura, 2 metros quadrado de peitoral e braços que pareciam pistões de aço. Se ele quisesse poderia facilmente me agredir à vontade, mas as únicas vezes que ele me agredia ele puxava meu cabelo, me chamava de “bonequinha” e batia em minhas bochechas, e não eram nas do rosto (imagem de um coração com chifrinhos).
Mas mesmo ganhando, eu podia ver que ele não iria aguentar mais por muito tempo, então enrosquei minhas pernas nele, prendendo seu corpo ao meu. Até hoje me arrepio ao lembrar da cena: ele estava lustroso de suor, gemendo sem parar, dizendo: “Para Charlotte”, “Por favor, Charlotte, não vou aguentar muito mais tempo”. Era musculoso, me agarrava com força pelos pulsos, me imobilizando, mas estava tão impotente enquanto eu prendia seu corpo ao meu. Eu só tirei minhas pernas quando ele despejou até sua última semente dentro de mim.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Jacques ficou muito constrangido ao ler aquilo! Tudo bem que ele já tinha 16 anos, já sabia perfeitamente de onde vinham os bebês e tudo mais, mas ouvir sua mãe narrando as aventuras sexuais de sua mãe com seu pai pai lhe soava extremamente errado! Ele decidiu que pularia o resto do trecho em vermelho e voltaria ao trecho em azul.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Céus, o que deu em mim? Antes eu estava tão relutante em escrever meus desabafos nesse caderno! Agora eu estou contando até mesmo minhas aventuras sexuais com meu esposo! Meu Deus, nem imagino o que o Jacques diria se lesse essas coisas picantes!
JACQUES OLIVIER, SE EU SONHAR QUE VOCÊ ESTÁ LENDO ISSO VOCÊ VAI TOMAR UMA SURRA QUE DEIXARIA DEZ BANDIDOS INVÁLIDOS E VAI FICAR DE CASTIGO ATÉ A FACULDADE! ENTENDEU BEM, MOLEQUE???
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Susto tremendo Jacques tomou, era quase como se sua mãe tivesse gritado aquelas palavras do seu lado. Ele largou o diário por uns momentos, respirou fundo algumas vezes até se acalmar e voltou a ler. Dessa vez, nova mudança de cor: agora o texto estava em caneta preta.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
“Morto em ação”, esse foi o comunicado que me deram. Ele havia entrado num prédio que havia sido incendiado criminosamente. Alguns colegas, que haviam sido testemunhas oculares disseram que ele havia entrado em combate físico com um criminoso. No meio da luta o criminoso sacou uma escopeta serrada e atirou à queima roupa. Antes de cair, Achille havia pegado uma garrafa e quebrado na cabeça do infeliz, abrindo um corte que atravessou um de seus olhos. Espero que aquele maldito monstro tenha ficado caolho.
Mas de qualquer forma, caolho ou não, pouca diferença fazia. O mal havia derrotado o bem. Enquanto eu lia, Jacques, que estava em meu colo, começou a chorar. Eu tentei acalmá-lo com um pouco de leite, mas não saiu nada. Apertei meu peito com mais força, nenhuma gota saiu. Eu não aguentei a sensação de impotência e comecei a chorar com ele.
O tempo passou, mas eu ainda sofria em silêncio. Não conseguia dormir, havia me acostumado a dormir sobre o peitoral musculoso dele enquanto ele acariciava meus cabelos. Eu lembro que a gente até tinha um diálogo pronto, uma deixa para eu fazer isso: eu dizia “Amor, estou com tanto frio!”, ele respondia: “Também, se você não dormisse usando apenas lingerie.”, então eu falava novamente “Sempre que eu durmo agasalhada você começa a tirar minha roupa!”, aí ele dizia “Verdade. Vem cá, eu te esquento, mas só essa noite. Não vá ficar abusada! ”
Eu era atormentada pelo choro de Jacques, me lembrando que meu filho cresceria sem nunca conhecer o pai. Eu era atormentada pelos casais, jovens e velhos, que passeavam de mãos dadas pelas ruas. Eu era atormentada pelas notícias de criminosos que capturavam e executavam policiais.
Um dia Anansi veio me visitar, eu estava pálida, magra, quase nem conseguia mais amamentar meu filho. Como uma boa amiga, ela me ajudou. Comprou um pouco de leite materno num banco para ele e ficou morando comigo para me fazer companhia. O tempo passou mais ainda, até que Jacques foi desmamado. Foi quando eu tomei uma decisão drástica: pedi que Anansi fosse até minha academia. Naquela noite, Anansi matou Charlotte.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Charlotte estava vestindo suas antigas roupas de ginástica, e Anansi também estava vestindo suas roupas de academia. Charlotte carregava uma feição sinistra e pesada, uma feição que tornaria seu nome conhecido pelos próximos anos. Até mesmo Anansi estava intimidada por aquilo.
(Anansi): Charlotte, pelo amor de Deus, pense no que está fazendo! Você é mãe agora! Seu filho já perdeu o pai, ele precisa de você mais do que nunca!
(Charlotte): Anansi, esse é o único jeito! Só assim eu terei paz, eu tenho que acabar com esses fantasmas que me atormentam! Esse é o único jeito: Eu vou me tornar a policial mais feroz e impiedosa de Paris! Para isso eu preciso que você me treine!
(Anansi): Mesmo com todo o treinamento do mundo, você ainda será só uma mulher! Você não é à prova de balas, você não é imortal! Que chances você terá contra criminosos capaz de executar homens imobilizados?
(Charlotte): Eu não sei. Se eles me derrotarem, eu morrerei e deixarei um filho órfão. Se eu os vencer, eu os mandarei para a vala. Mas se eu não lutar, eu jamais vencerei, e eu vou lutar, com ou sem sua ajuda!
Anansi abaixou a cabeça, sabia que nada faria Charlotte mudar de ideia, então ela lançou um ultimato.
(Anansi): Então eu vou infligir a você o “batismo dos 100 golpes”: eu vou golpeá-la com força 100 vezes. Vou bater em cada parte do seu corpo com força suficiente para te derrubar, e você vai ter que se levantar logo em seguida. Se não fizer isso, eu não vou te treinar porque você não é capaz.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Eu nunca apanhei tanto quanto naquela noite! Anansi cumpriu sua palavra ao pé da letra e me castigou impiedosamente. Naquela noite, a antiga Charlotte morreu, agora eu seria a capitã da polícia de Paris! O símbolo máximo da justiça!
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Lágrimas caíram nas páginas do diário. Jacques não aguentou tudo aquilo e começou a chorar. Sua mãe havia mostrado coragem e bravura que ninguém mais havia mostrado. O garoto sentiu um aperto ainda maior no coração quando se lembrou de que havia dito que a odiava por conta do incidente envolvendo ela e a Ladybug.
Ladybug! É claro, essa seria a chance perfeita de descobrir o que ele mais queria: por que sua mãe odiava tanto a Ladybug?
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Eu estava no posto de subtenente quando o primeiro akuma atacou Paris. Minha rápida ascensão se deu ao fato de minha extrema dedicação ao legado de meu marido, minha eficiência e minha bravura. Lembro-me de que eu fui parar no hospital naquele dia porque havia salvado o sargento Roger. Mais uma vez eu me senti furiosa e impotente por não ter conseguido derrotar aquele gigante de pedra.
Foi aí que o problema começou: aquela joaninha! Aquela maldita joaninha! Sacudindo um ioiô, ela conseguiu derrotar um monstro que havia deixado a força de elite da polícia de joelhos. Jogando o ioiô no alto, ela conseguiu consertar todos os estragos. Não tenho coragem de admitir, mas eu tinha inveja daquela pirralha! Tamanho poder nas mãos dela... imagina o que eu poderia fazer com aquilo! Eu poderia acabar com todos os criminosos de Paris!
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Jacques pulou algumas páginas sobre Ladybug. Estava começando a ficar demais para ele sentir aquele turbilhão de emoções sendo derramado sobre ele. Ele só parou de folhear quando parou em um ponto que julgou interessante.
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Texto/Narração de Charlotte Olivier
Hoje me arrependo de ter perseguindo Ladybug e Chat Noir por tanto tempo. Jacques tinha razão, eles só estavam cumprindo com seu dever, que era proteger Paris. Mesmo eu perseguindo ela com unhas e dentes, Ladybug se importava comigo de verdade, foi ela que ajudou a salvar meu filho. Sabe, olhando para o passado agora, é até engraçado. Eu já convivia com a Ladybug, e nos dávamos muito bem. É sério, mesmo eu investigando vários casos e criminosos, nunca me passou pela cabeça que, por baixo da máscara, Ladybug era a doce e meiga...
000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000
Antes que pudesse virar a página, o som estridente da buzina do carro de sua mãe interrompeu a leitura de Jacques. Ele foi correndo abrir o portão da garagem. Sua mãe havia acabado de chegar do trabalho. Ele ficara muito tempo lendo o diário dela. Ele ficou meio nervoso ao perceber que Charlotte poderia se estressar ao saber que ele mexeu em suas coisas.
(Charlotte): Jacques, está tudo bem com você filho?
(Jacques, nervoso): Sim, tudo bem! Como foi seu dia mãe?
(Charlotte): Foi até tranquilo, o trabalho de comissária é bem menos estressante que o de capitã, ou pelo menos está sendo por enquanto. Vá lavar as mãos e vamos almoçar.
Jacques, ainda meio distraído, estava prestes a entrar no quarto de sua mãe.
(Charlotte): Jacques, o que eu já lhe disse sobre entrar no meu quarto sem permissão?
(Jacques, nervoso): Me desculpa, mãe. Eu tinha me esquecido do equipamento de limpeza aí dentro.
(Charlotte): Bem, vá para a mesa que eu cuido disso.
Charlotte entrou no quarto e viu o equipamento de limpeza largado num canto. Estava prestes a guarda-lo quando viu algo que a assustou: Jacques havia mexido em seu diário. Pior, estava na página onde ela falava sobre a identidade secreta de Ladybug. Pegando uma caneta preta, Charlotte rapidamente riscou o nome de Marinette Dupain-Cheng até ocultá-lo totalmente.
(Charlotte, falando em voz alta): JACQUES, VOCÊ MEXEU NO MEU DIÁRIO???
Jacques engoliu em seco, sabia que estava frito!
Fale com o autor