Por Um Dia

11 Quero Ficar - Dia 10.365


Notas iniciais
Desta vez no corpo do amado de Luhan, Kim Minseok, o narrador sem nome vive a segunda parte da história de amor entre eles.

É um quarto todo cinza, com muitos ursos e vários outros bichos de pelúcia por toda parte, como um quarto de bebê. Até o cobertor é fofo e estampado com ursinhos.

Hoje sou um coreano chamado Kim Minseok. Sim, estou no corpo da pessoa por quem me apaixonei há três dias.

Ainda deitado na cama, olho por baixo do cobertor e sorrio ao ver o pijama que estou vestindo, como imaginei, cheio de ursos. Levo as mãos à frente do rosto e mexo os dedos vagarosamente.

É assim que ele os movimenta...

Levo as mãos até os cabelos lisos, que estão levemente bagunçados, envolvo os fios com os dedos que são momentaneamente meus, sorrindo ao sentir a maciez das madeixas.

Essa é a sensação que ele tem quando toca os próprios cabelos.

Ansioso, me levanto e vou até a penteadeira, aproximo o rosto lentamente do espelho, os lábios vão entreabrindo e os olhos ficam ainda maiores. É como se ele estivesse ali, olhando para mim, surpreso. Então, levo uma das mãos até o espelho e toco a bochecha ali refletida, acordando de meu "transe".

É assim que ele olha, pisca, sorri...

É terça-feira e Minseok tem aula, por isso acorda tão cedo. Ainda são 05h50min da manhã.

Fiquei tão perdido e envolvido sobre estar em seu corpo, que nem vi os minutos passarem e agora estou um pouco atrasado e só tenho 20 minutos para me arrumar pra sair.

Enquanto retiro o pijama, não consigo evitar olhar para a pele alva de minhas pernas atuais por alguns instantes, antes de colocar o uniforme do colégio. Tenho cheiro de bebê. O quarto inteiro tem cheiro de bebê. Me olho no espelho uma vez mais, querendo ver a imagem Minseok, então dou um último sorriso antes de pegar a mochila e sair do quarto.

Minseok mora com a avó e um tio, o relacionamento com a senhora é algo conturbado e cansativo pelo que acesso de suas memórias, então ele deve passar a maior parte do tempo em seu quarto. Agora estão todos dormindo, então posso sair tranquilamente.

***

Na estação do metrô que vai até o colégio, alguém se aproxima de mim vagamente, não parecendo com tanta vontade, mas se aproxima, mesmo assim.

— Olá — cumprimento baixinho o garoto alto com cara de poucos amigos.

— Oi — responde em tom sério, mas vejo um mínimo sorriso se formar em seu rosto.

Ele fica parado ao meu lado e logo percebo que esse deve ser Wu Yifan, melhor amigo de Minseok. Pelas memórias que acessei, ele é sempre assim, sério e mal-humorado, então prefiro ficar quieto, já que sua aparência me assusta um pouco e não quero arrumar problemas para Minseok justamente com seu melhor amigo.

O metrô chega, eu e Yifan vamos para o colégio em silêncio durante todo o trajeto e quando chegamos ele vai andando na frente, como se não quisesse ser visto comigo. Acho que é sempre assim, e penso que Minseok deve se sentir mal por isso, então corro para alcançá-lo e me coloco a seu lado, mas sou ignorado. Talvez essa seja sua personalidade. Mas isso não machuca outras pessoas?

Estamos no pátio da escola, sentados em um banco enorme que é grudado na parede, penso em tentar trocar algumas palavras com ele, mas não consigo, ao que não encontro assunto algum para conversarmos, e logo alguém se junta a nós.

— Oi, oi.

O garoto nos cumprimenta de forma tímida, mas posso jurar que o vi me fuzilar brevemente com os olhos, causando-me um certo desconforto. Mesmo assim, cumprimento-o de volta, balançando a cabeça com um sorriso desconsertado.

— Olá, Baek.

Yifan sorri enquanto cumprimenta o garoto, parecendo animado, e o chama para se sentar. Como não tem espaço ao lado dele, o garoto se senta ao meu, me deixando entre os dois.

Baekhyun. Esse é seu nome.

Depois de acessar as memórias de Minseok sobre Baek, posso entender melhor o motivo desse desconforto que ele causa. Quero me levantar do banco e ir para longe, mas permaneço sentado e sorrio, sorrio o máximo que posso sem parecer falso, sorrio da forma que Minseok deve tentar sorrir e não consegue, porque é isso o que querem dele, que ele sorria o tempo todo, mesmo quando não está tudo bem. Então eu vou fazer isso por ele hoje.

Yifan e Baek parecem se divertir enquanto conversam, e Baekhyun se agarra ao ombro do outro várias vezes, isso porque eu saio do banco para ir beber água e logo o garoto toma meu lugar ali, fazendo o outro se esquecer de minha presença.

Eu não deveria sentir por isso, Yifan não é meu amigo, mas ele é amigo de Minseok, não é?

Decido fingir que os dois garotos no banco não existem e vou para a sala de aula, entro na errada e logo dois garotos aparecem, perguntando-me o porquê de eu estar ali, e, antes que eu possa tentar responder, sou arrastado para a sala certa.

O garoto mais baixo é Lay, e o mais alto, com as orelhas grandes e sorriso bonito, é Chanyeol. São amigos de sala de Minseok.

Chanyeol é falante e passa a maior parte do tempo rindo e fazendo piadas, já Lay é quieto e um tanto lerdo e prefere não falar muito.

As três primeiras aulas passam voando, já que o amigo mais alto é comunicativo e brincalhão. Levamos algumas broncas dos professores e Chanyeol é um pouco explosivo, então acaba sendo expulso da sala na terceira aula, me deixando apenas na companhia de Lay — que mal fala comigo.

No intervalo, penso que Yifan vai ficar com Baekhyun e seus outros amigos, mas ele passa esse tempo comigo e com Chanyeol, e é estranho, porque mal nos falamos e quando ele sorri não me parece espontâneo, e é assim até que o sinal bate e voltamos para nossas salas. Permaneço quieto pelo resto da manhã e logo é hora de ir embora.

No caminho para a estação do metrô, Chanyeol me acompanha, já que Yifan vai embora na frente. Pego o metrô sozinho e vou direto pra casa depois de me despedir de Chanyeol.

***

A avó de Minseok está em casa e me cumprimenta assim que me vê, eu lhe respondo e vou rapidamente para o quarto e me tranco lá dentro. Coloco a mochila em cima da cama e vou até o espelho, com saudade do rosto que ali se refletia mais cedo. Sorrio ao vê-lo.

— Olá, criança bonita — digo baixinho, enquanto aproximo o rosto do espelho, admirando os olhos grandes e os pequenos lábios.

Levo uma das mãos até o nariz, toco-o com cuidado, então deslizo o dedo indicador até o lábio inferior, contornando-o até o superior. Tão macio.

Saio de perto do espelho e antes de voltar para a cama vejo em cima da penteadeira um caderno que me chama a atenção e, primeiramente, prefiro não pegá-lo, mas minha curiosidade é grande, então o levo para a cama comigo.

Sentado na cama, sinto o celular vibrar na mochila e, assim que o pego, vejo mensagens de Luhan enviadas pelo messenger às 7 da manhã, são mensagens carinhosas de “bom dia”. Agora são 1 e 37 da tarde, lhe respondo pedindo desculpas pela demora e pergunto como ele está. Realmente quero saber como ele vai, já que faz 3 dias que estive em seu corpo e sei que não está saudável.

Nesses últimos dias, parece-me que estou acordando em corpos de pessoas próximas uma da outra. Anteontem, por exemplo, acordei no corpo de um garoto chamado KyungSoo, e ontem eu era Jongin, seu namorado.

Enfim, volto para o momento atual e abro o caderno que estou segurando e constato que, assim como Luhan, Minseok também tem um diário onde descreve momentos bons e ruins, mas a maior parte do que leio são coisas angustiantes.

É assim que ele se sente.

Automaticamente, é como se a angústia expressada em suas palavras passasse para mim. Há muitas coisas ali para serem lidas e não sei se quero saber sobre tudo, mas não é egoísmo de minha parte, é só o sentimento de impotência ao pensar que, mesmo que eu queira, não posso fazer nada para confortá-lo, e ir embora sabendo que ele precisa de alguém... isso é doloroso para mim.

Nas folhas brancas do caderno, ele expressa a falta que sente do pai — que mora com outros filhos e o abandou —, a falta de uma mãe, por não ter uma que se pode considerar boa, o quanto odeia os gritos da avó e o quanto se sente inferior perto de Baekhyun, que lhe tomou o melhor amigo que não gosta de nada do que Minseok faz. Ele se sente um lixo e está cansado de fingir que tudo está bem.

Mas há duas pessoas citadas que dão um alívio em meio as coisas ruins ali escritas. Jungkook é alguém que cuida e acalma Minseok, um amigo virtual que ele conheceu em uma rede social e se tornou seu “anjo da guarda”. É seu melhor amigo virtual, e eu diria até que poderia ser um melhor amigo real se os dois se conhecessem pessoalmente. A outra pessoa é Luhan. Há tanta coisa escrita sobre Luhan no caderno, desde quando se conheceram até 2 dias atrás...

“Hoje foi um dia muito difícil pra mim... acabei de chegar da praça aonde eu e Luhan costumamos ir. Estava tudo tão bem... nós tomamos sorvete e demos de comer aos pássaros, então ele me disse que precisávamos conversar, então... então ele me disse que está doente. Luhan está com leucemia.

Ele me contou e eu não soube o que fazer, comecei a chorar e ele fez o mesmo, foi horrível. E agora eu continuo chorando.

Yifan e eu brigamos, ele não quer mais me ver, e Jungkook está sumido há mais de 2 semanas e sua saúde também é fraca, e isso me deixa ainda mais aflito. Eu não sei o que fazer, eu quero gritar até perder minha voz, quero dormir e não acordar mais. Mas e Luhan? Eu nunca disse que o amo. Não da forma que quero dizer. Eu nunca disse que sou apaixonado por ele, que um dos motivos mais fortes pra eu acordar todos os dias e sorrir, mesmo com tantos problemas e motivos pra chorar, é ele. Não, eu não posso dormir. Mas está doendo tanto."

Preferindo pular algumas partes, vou direto para a última página escrita, de dois dias atrás. A folha está manchada do que temo ser sangue. Suspiro pesadamente e ergo as mangas da blusa do uniforme, confirmando meu pressentimento. Percorro os braços com os olhos, observando com desgosto os cortes e arranhões na pele alva.

Fecho o caderno, levanto-me da cama e caminho em passos arrastados até a penteadeira e coloco o diário onde o achei. Volto a olhar para o espelho com pesar e os olhos redondos parecem sem vida. Vagarosamente, me afasto dali e vou para o banheiro, a fim de relaxar o corpo de Minseok.

Depois de retirar todas as peças de cima, permaneço apenas com a boxer preta no corpo. Por mais que eu tente evitar, acabo olhando para baixo e um sorriso discreto se forma no canto de meus lábios. Há muito tempo não tenho desejos sexuais e esta é a primeira em anos, chega a ser estranho, já que estou tendo tais pensamentos sobre "meu próprio corpo". Não estaria eu sendo narcisista agora? (Rio baixo ao pensar em tal coisa)

Ligo o chuveiro e entro embaixo, deixando que a água morna caia sobre minha cabeça. Neste momento, desejo que a água leve junto com as impurezas do corpo, as da alma de Minseok enquanto ensaboo o corpo com todo o cuidado. Quero que amanhã ele acorde com a tranquilidade que este banho proporciona.

Depois de ensaboar-me todo com o sabonete de bebê que ele usa, lembro-me de uma parte que ainda falta, então fecho os olhos e retiro a boxer, terminando de ensaboar onde falta. Por um instante, sinto as bochechas queimarem e é como se eu pudesse ouvir a voz de Minseok me repreendendo.

Me perdoe, criança. Eu nunca lhe faria mal.

***

Ainda são 5 horas da tarde, tenho algumas horas para dar a este corpo boas lembranças.

Como passei o dia sem falar com Luhan, creio que ele deve estar estranhando, então vou até a escrivaninha do quarto e ali me sento, ligando o notebook. Entro no Skype, que já tem o e-mail e a senha de Minseok gravados, e vou até Luhan, solicitando uma chamada de vídeo que logo é atendida por ele.

— Baozi!

Luhan quase grita, sorrindo-me largamente ao iniciar a conversa, e eu retribuo o sorriso de forma tímida, como Minseok faria. Vendo assim, ele é realmente uma graça, tanto na aparência quanto no modo de agir.

— Como você está, Lu? — pergunto com calma, realmente interessado na resposta e ansioso por alguma positiva.

— Estou bem — ele sorri fraco, abaixando a cabeça minimamente e sei que está mentindo.

— Ei, Lu... Eu liguei porque preciso dizer algo.

Ele levanta a cabeça e volta a me olhar pela câmera com uma expressão curiosa.

— O que é?

— Eu amo você. Eu sou apaixonado por você e sempre tive vergonha de dizer, mas não posso mais esconder isso. Então você precisa se cuidar, pra ficar saudável pra mim, hm?

Despejo as palavras, nervoso, antes que ele possa se manifestar. Do outro lado da tela, ele chora. Seu rosto está vermelho e me lembra um filhote de rena, Luhan é Rudolph, a rena de nariz vermelho que guiou o trenó do Papai Noel nas histórias infantis. Quero abraçá-lo, mas vou deixar essa parte para Minseok. Quero chorar com ele, mas prefiro sorrir, enquanto passo o polegar na tela do notebook, como se estivesse secando suas lágrimas, e assim elas vão cessando, aos poucos, deixando ali apenas o sorriso doce e os baixos soluços do pequeno filhote de rena.

— Eu também... tudo o que você sente, eu também sinto — murmura, olhando com ternura e eu desejo que Minseok se lembre disso quando acordar amanhã.

São 5 e meia da tarde e estou feliz pelo tempo estar demorando a passar. A tarde é serena e o vento não é agressivo, estou com o mesmo conjunto de moletom que Minseok usou quando o vi, troco a blusa por uma preta com um urso enorme estampado na frente, pego o celular dele e saio de casa.

Hoje vamos à praia.

Está ventando e não há ninguém por perto, estou sentado na areia gelada, mas não sinto frio, pois trouxe um pequeno cobertor. O Sol está se pondo e o Céu está excepcionalmente bonito. Pego o celular e tiro uma foto. Fecho os olhos e sinto a brisa que vem do mar, ouço pássaros a cantar, esse lugar me traz paz, calmaria...

Você pode sentir isso, criança?

Respiro fundo e sorrio, aproveitando o silêncio de pessoas, os sons naturais. Deito-me na areia para completar todo esse desfrute de paz. Imagino Minseok ali do meu lado, imagino-o sorrindo para mim de forma tímida e desajeitada depois de rolarmos na areia e eu ficar sobre ele ameaçando beijar seus pequenos lábios. Fico ali, imaginando uma vida normal ao lado de alguém que amo, e quando me dou conta já se passaram mais de 3 horas e preciso voltar para casa.

No caminho, paro em frente a uma casa cuja provável proprietária está sentada na calçada, o motivo de minha pausa na caminhada são copos-de-leite que vejo dentro do quintal da casa. Pergunto para a moça se ela mora ali, e, por sorte, a mesma confirma minha pergunta e me oferece algumas de suas flores assim que eu lhe digo que são as minhas favoritas. Agradeço pelas flores e sigo o caminho de volta para a casa de Minseok.

***

Por sorte, consigo passar pela sala e entrar no quarto sem ser visto, e ninguém procura por mim nos próximos 50 minutos, então creio que não perceberam que eu cheguei tarde.

São 11 horas da noite e estou mentalmente exausto, mas o corpo de Minseok me parece relaxado. Espero que sua mente acorde assim amanhã. Faltam poucos minutos para eu dizer adeus definitivamente a ele, e confesso que estou preocupado depois de tudo o que li mais cedo, mas espero que as coisas melhorem e ele consiga ser feliz. O que eu mais quero é que ele fique bem.

Faltando meia hora para meia noite, vou até o caderno de Minseok, abro na última folha escrita e a arranco, amassando-a. Pego uma caneta na penteadeira e escrevo algumas coisas ali, na folha ao lado:

Eu vou cuidar de Luhan e vai ficar tudo bem. E eu não sou um lixo. Luhan diz que eu o faço sorrir e sou uma pessoa maravilhosa. Agora, eu vou parar de chorar, porque meu sorriso é lindo, a vida é linda e tudo à minha volta pode ser lindo. Basta eu querer que seja."

Em cima da folha, escrita com sua letra, deixo os copos-de-leite, então volto para a cama e me cubro. Fecho os olhos, dou um longo suspiro, aproveitando meus últimos momentos com ele.

É assim que ele respira...

Então me encolho embaixo do cobertor e imagino meu corpo invisível sendo abraçado por ele.

— Boa noite, Minseok.

Notas finais
Querida menina, a doçura de seus sentimentos extravasa pelas suas palavras. E é preciso que você saiba que isso vale a pena. Você vale a pena.