Por Um Dia
7 Conflitos em Paranoias
Notas iniciais
Mais um dia nesta escola que não serve para mim, sou muito melhor do que qualquer outro daqui, minha família é perfeita e, logo, sou também. Acho inaceitável eu, logo eu, ter que dividir meu espaço com essas pessoas, como pode? São tantos sangues ruins que me rodeiam, estão em toda parte. Sou um Malfoy, não mereço ter que dividir espaço com pouca coisa. Tenho dois escravos... Quero dizer, “amigos”, se é que posso considerar assim, Crab e Goyel, dois paspalhos, meramente substituíveis, mas que são necessários quando preciso de algo.
— Draco? — Escuto Goyel me chamar e quebrar meus pensamentos com seus dedos sujos de mel.
— O que foi? Não precisa tocar esse seu dedo imundo em mim!
— Nada de importante, só aquela garota estranha, Luna.
Não posso deixar essa passar, como pode ser tão bizarra? Onde já se viu, usar essas vestimentas tão podres quanto a dos Weasley? Mal sabem o quanto os detesto! Luna, tão estranha!
— Luna, Luna, o que faz aqui perto de nosso salão? Sabe que eu posso muito bem ir para a sala de Dumbledore e te entregar. Sorte sua que eu não ficaria tão satisfeito e feliz com isso. E legal brincar um pouco com as pessoas, principalmente quando são submissas a mim.
— Draco, sempre fiz tudo o que pude para lhe agradar e, sempre que posso, fico fora de seu caminho.
— Haha, é isso que me incomoda, você é vulnerável e se rende fácil, tão fácil que até perde a graça. Mas, querida Luna, justamente hoje não será um bom dia para você, e para sua mãe, claro!
Após minhas palavras cuspidas sem pudor, vejo Luna chorando, Goyel me repreende, pede para eu parar, um ato impossível perante a raiva que habita meu ser neste instante.
— E digo mais, foi uma sorte sua mãe ter falecido, seria decepcionante para ela, ver o que você se tornou. Não só você, né?! Mas seu pai também, decepcionante.
Luna sai correndo de perto de nós, deixando cair um colar tão esquisito quanto ela.
— Draco, sei que não gosta dela, porém dessa vez você pegou pesado, nunca tinha feito ela chorar – Goyel me repreende de novo.
— Foi só para essa garota aprender de uma vez que nunca deve mexer comigo – falo, virando as costas e deixando Goyel pra trás a me chamar.
Vou caminhando ao meu dormitório, me deparando com grupinhos pra todos os lados, me encarando, não passam de trouxas. Após entrar em meu dormitório, vou lavar meu rosto para dormir feliz, pois, claro, esta noite foi eletrizante. Admiro minha imagem no espelho e tenho orgulho do que me tornei, do quão extraordinário sou e do quanto esta escola deve me admirar, mesmo que eu não pertença a este pequeno espaço aqui. Sou maior que todos, por que não veem isso logo? Tanto em aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas – que são tolas – quanto na de poções e em todas as outras. Vou para a cama ainda pensando no dia de hoje, mas logo adormeço.
Após abrir os olhos pela manhã, me levanto e vou até o banheiro. Lá me deparo com o colar que trouxe ontem à noite de Luna. Analiso-o e não consigo entender ao certo como isso caiu de seu pescoço. De qualquer forma, irei devolver, não quero isso comigo. Vai que traga alguma maldição. Pego o colar e o coloco provisoriamente para obter mais espaço em meus bolsos e para que fique mais fácil de entregar para a garota.
— Sabe, eu juro que não fiz nada para o Draco, ele simplesmente começou a me insultar, mas não irei falar para Dumbledore ou McGonagal, eles não acreditariam. E mesmo que acreditassem, não fariam nada a respeito.
O que está acontecendo? Eu acabei de ouvir o que Luna disse? Como assim?
— Calma Luna, sabemos o quão malvado e insuportável Draco é, sei que por agora não podemos fazer nada, mas basta ter paciência que há de vir punição merecida para ele.
Após escutar Cho Chang falar, consigo vê-la na minha frente. Tudo isso está estranho! Será uma maldição deste colar?
Luna vai andando em direção ao banheiro logo que acaba de falar com Cho. Eu estou no corpo dela? Ah, não, o que fiz pra merecer isso? Luna adentra o banheiro feminino e se olha no espelho. É aí que confirmo: estou no corpo de Luna Lovegood.
Como faço pra sair daqui? Não quero ser essa garota estranha, nojentinha de sangue ruim!
Luna lava seu rosto e em seu reflexo vejo uma expressão triste e chorosa. Não deve ser pelo que eu disse, foram só palavras cuspidas sem nexo, embora muitas delas sejam verdade.
Tá, pelo que consegui entender, terei mesmo que ser ela. Mas será que para sempre? Não, isso não pode estar acontecendo!
Luna sai do banheiro e vai para a sala de poções, apressada e sempre de cabeça baixa. Ela nunca andou assim, está sempre alegre e com um sorriso bobo em seu rosto pálido. Após entrar de vez na sala, a aula se inicia com o professor Snape, sempre com a mesma feição emburrada. Ainda acho que ele esconde algo que pretendo descobrir, e isso eu farei depois que sair daqui. Se bem que... já que estou aqui mesmo, será que posso mexer com o seu corpo?
Tento levantar a mão e consigo. Luna não entende o que acaba de acontecer com seu braço. Hermione olha confusa para ela e pergunta se está tudo bem, ela diz que sim, mas de alguma forma consigo relembrar a cena de ontem, só que desta vez em sua visão. Embora eu não consiga sentir nada, sei que Luna está mentindo, ela não está bem. Ela estala o pulso, inconformada com seu ato totalmente inusitado e continua a prestar atenção na aula.
Após acabar a aula de poções, Luna vai ao encontro de Harry, Rony e Hermione, o “trio de ouro”, como declarado por muitos após terem desvendado que o professor Quirell queria a pedra filosofal, que antes pertencera a Nicolau Flameu, amigo de Dumbledore.
— Luna, você viu o Draco em algum lugar? Ele não incomodou nenhum de nós hoje, o que é estranho em comparação com os outros dias de aula! – Harry desabafa.
— Não o vi, Harry, desde ontem, após terem ocorrido todas aquelas conversas que mencionei a você. Mas para que quer saber?
— É que da última vez que Draco ficou muito tempo sem aparecer você sabe o que aconteceu...
Quando Luna tenta se lembrar do que havia acontecido da última vez que fiquei longe por um tempo, a visão dela se torna minha também. Então é isso? Eu tenho acesso às suas lembranças?! Ótimo, porém não as consigo desvendar. Tento sentir o que ela realmente sente quando vejo eu mesmo pegando seus sapatos e os prendendo no topo de uma coluna, e depois, quando ela foi pegá-los com o feitiço de levitação – Wingardium Leviosa — , sua varinha falha e se racha ao meio, deixando escapar feitiços inoportunos.
“É, Draco, quando o assunto é pegadinhas, você manda muito bem”, Luna pensa, então responde a Harry:
— Sim, eu me lembro muito bem de tudo o que ele fez e ainda faz comigo, mas mesmo assim não guardo rancor. Deve ter algum motivo para ele agir dessa forma – ela diz, e novamente não consigo saber se existe mesmo esse sentimento de verdade por mim.
Harry a alerta novamente, para ela ter cuidado da mesma forma. Luna assente e se despede deles. Ela vai caminhando lentamente para o salão comunal, desviando dos olhares de outras pessoas até se sentar a uma mesa sozinha. Está na hora de entender o porquê de ela não guardar rancor ou mágoas de mim, ao que parece, se as guarda são apenas temporárias. Viajo em suas memórias, indo o mais fundo possível para entender tudo desde o início, começando por seus pais.
Bastou eu fazer um pouco de força para entrar numa parte reservada do cérebro de Luna, uma área que continha suas lembranças, tantos as recentes, quanto as de que ela mal se lembra.
Já em suas memórias, vejo que ambos os pais de Luna sofrem de doenças. A mãe sofre de uma doença pouco conhecida, que inclui perda de memória recente e bipolaridade ao extremo, coisas que afetam o relacionamento com seu marido, Xenofilio Lovegood.
Neste exato momento em que entrei em suas lembranças, vejo Luna com os olhos arregalados perante a cena que está vendo. Eram seus pais brigando. Xenofilio era paciente com a esposa, porém sua doença estava grave e só vinha piorando. Elliot – a mãe de Luna – estava em seu pior dia durante anos, ao ponto de ser capaz de pegar sua varinha e atirar em Xenofilio. Luna, observando tudo sem que seus pais a vissem, começa a chorar. Esse choro, que mal se ouvia de tão baixo que era, me fez pensar um pouco mais sobre como a trato.
Saio dessa lembrança e embarco em uma nada agradável para ambas as partes. Luna está lá novamente, apenas observando sem que a possam ver, vendo sua mãe tendo outra alucinação. Dessa vez, ele faz um experimento mal sucedido que causa sua morte. Luna se levanta correndo em desespero e, vendo sua mãe naquele estado, cai aos prantos. No último instante os olhos de Elliot abrem e ela diz à filha: “Cuidado com os Nargulês[1]”, que era a frase que Luna constantemente dizia para todos de Hogwarts. Ela ainda está no chão – com a mãe em seus braços – quando vê seu pai se aproximar, passando a esposa dos braços da filha para os dele. Eles saem de sua casa levando o corpo de Elliot e vão a caminho de um jardim em frente à sua casa. Lá, fazem um pequeno funeral, Luna e seu pai a enterram e logo após levantam suas varinhas em sinal de respeito.
Essa de fato é uma das piores coisas que vi em minha vida, o fato de presenciar a morte de um ente querido, que no caso era sua mãe, é bem pior que todas as brincadeiras que já havia feito com Luna. Sinceramente, não entendo como após todos esses acontecimentos ela ainda tem em seu rosto um sorriso.
Querendo entender mais, vou vasculhando outras lembranças, e me deparo com seu primeiro dia em Hogwarts. Luna entra no salão comunal, e espera ser chamada para ir ao banco e ser colocada em uma das casas de Hogwarts. Nisso, uma garota chama sua atenção, e logo reconheço que é Gina Weasley.
— Meus irmãos todos entraram na Grifinória, se eu não entrar meus pais vão ficar chateados comigo – Gina diz a Luna.
— Não se preocupe, há outras casas aqui tão boas quanto essa – Luna diz e Gina faz pouco caso.
— Luna Lovegood – Minerva chama e ela vai ao seu encontro, sentando-se no banco para ser avaliada pelo chapéu seletor.
— Hum, deixe-me ver, Luna Lovegood, seu passado é horrendo, e eu lamento por isso. Tem sabedoria, e como tem, muitos não entenderam o porquê de eu colocar você aqui nesta casa, mas é melhor que seja assim. CORVINAL – o chapéu seletor grita, e realmente muitos têm expressões confusas, pois já nessa época Luna vestia coisas consideradas bizarras e Corvinal era símbolo de beleza.
Luna, caminhando até sua mesa na área de Corvinal, começa a puxar assunto com outra garota que havia visto mais cedo, Cho Chang.
Com o passar dos anos, Luna se apega muito a ela e lhe conta todo o seu passado, até mesmo detalhes sobre a morte de sua mãe.
Saindo de suas memórias e tendo acesso à sua visão normal, Luna sai de perto do trio indo até seu dormitório, mas é bloqueada por uma multidão de pessoas a impedindo de passar.
— Luna, Draco foi encontrado desmaiado em seu dormitório e ninguém está conseguindo reanimá-lo, ele foi levado para a enfermaria e madame Ponfrey vai ter que analisá-lo melhor para descobrir o que houve. De qualquer forma, Dumbledore quer falar com você, pois Goyel disse a ele que após a discussão de vocês ontem, Draco não foi visto em outro lugar ou fazendo qualquer coisa. Acho que finalmente descobrimos quem é o herdeiro de Sonserina – Cho diz meio desesperada e, preocupada com toda a situação, Luna vai correndo para a sala de Dumbledore para dizer que não sabe de nada do que houve comigo.
Chegando lá, Dumbledore num ato impulsivo grita:
— LUNA LOVEGOOD, O QUE VOCÊ FEZ DEPOIS DE DISCUTIR COM DRACO?
Ela se espanta com o nervosismo dele e saem lágrimas de seus olhos.
— Eu juro que não fiz nada, professor Dumbledore, o senhor sabe muito bem que não sou capaz de fazer algum mal a ninguém – Luna diz tentando se explicar.
— Não sei de mais nada, Luna. Há boatos dizendo que ele é o herdeiro de Sonserina, e esses boatos serão prejudiciais para os pais dos alunos, por isso acabei ficando exaltado.
Dumbledore diz isso e eu fico me perguntando do que ele está falando, o que é o herdeiro de Sonserina?
Ele a dispensa e pede desculpas pelo mal entendido, Luna aceita e agora sem as pessoas em seu caminho do dormitório, vai até lá, já tarde da noite. Ao se deitar, pensa no dia estranho que está tendo sem se dar conta de que está sem seu colar. Ela adormece e, em seguida, tudo fica preto.
De uma maneira inexplicável, sua alma me empurra para fora de seu corpo, como se já tivesse expirado meu tempo ali. Saio forçado, mas só consigo sentir, pois minha visão não está funcionando. E dessa forma, sou expulso de seu corpo. Sinto-me vagando por caminhos que não vejo ou ao menos sei ao certo. Paro em um lugar, e pouso lá mesmo, minha visão turva retorna novamente.
Abro meus olhos e tento me levantar, olho em volta e vejo macas, à direita e à esquerda, vou ao banheiro mais próximo e me vejo no espelho, estava novamente em meu corpo habitual. Era oficialmente eu de novo, Draco Malfoy.
Era eu, mas dessa vez não gostaria de ser, gostaria de estar ainda no corpo de Luna. Havia muitas coisas a serem exploradas nas memórias dela, diversas visões de seus atos, que embora antes eu julgasse, queria entender melhor agora.
Ela é diferente de mim – e como é –, tinha e ainda tem algo que eu não possuo, humildade. Sabe perdoar as pessoas sem guardar rancor e é pacifica com os aspectos das pessoas, tem um bom coração e sabe reconhecer um erro, diferente de mim. Eu me sinto humilhado por estar, neste exato momento, me autorrecriminando perante Luna e o quão sua grandeza é maior que a minha. Mantendo o sorriso mesmo depois da morte trágica da mãe, ela já se torna superior. Não que uma pessoa não possa mais sorrir após a morte de alguém, mas tão aberta e generosamente quanto ela talvez seja mais difícil.
Embora eu não tenha sofrido o que Luna sofreu com a morte da mãe, me sinto mal mesmo assim, pelo simples fato de não ter a atenção do meu pai, que sempre está ocupado com seus casos com os quais, segundo ele, sou “muito novo” para lidar.
No entanto, apesar de estar arrependido de todas as coisas que já fiz para Luna, ainda tenho minha reputação a zelar, não posso simplesmente sair daqui e pedir desculpas, e nem a tratarei de forma diferente. Sei que o meu verdadeiro eu vai enlouquecer ao ver Luna andando pelos corredores depois de tudo e, ainda assim, a maltratar. Até penso em mudar meus hábitos com ela, mas não é digno de mim mudar por ela. Sou muito orgulhoso para isso.
Ao passar essa pequena crise, decido entregar de vez o colar de Luna – que ainda estava em meu pescoço —, mas para não parecer tão humilhante entregarei para Cho. Mesmo assim é humilhante, mas ao menos ela foi ao baile com um dos campeões do torneio.
Voltando para a cama em que estava, madame Ponfrey me repreende, tentando me impedir de sair, dizendo que ainda estou fraco para isso. Insignificante. Dou as costas e saio de perto dela.
Chego ao salão comunal da Corvinal e para minha sorte, Cho está lá conversando com Gina.
— Cho, entregue para Luna este colar, ela deixou cair outro dia e não quero essa maldição perto de mim, porque vindo dela é o que se pode esperar.
— Claro, pode deixar – Cho responde com um sorriso cínico para Gina. Como bom observador, reconheço esses olhares, e sei que não virá coisa boa.
Vou caminhando até uma coluna onde me escondo e espiono as duas dando risadas.
— Não aguento mais essa garota, se faz de coitada, mas sabemos que não é – Cho diz. Sabia que sairia algo dessa conversa.
— Então por que anda com ela?
— Porque ainda não tinha chegado o momento de fazer algo a ela – Cho dá um sorriso irônico à Gina e levanta o colar, dando uma pista do que pretende.
— Cho, o que você vai fazer? Sabe que isso pode nos ferrar, né?!
— Não vai! Luna jamais desconfiaria de mim, e quaisquer coisas colocarão a culpa em Draco, já que ele sempre a incomoda e sempre faz algo ruim a ela.
— Isso é! Não suporto o Draco, o fato dele ainda permanecer nesta escola me deixa com raiva!
— Imperio[2]— recita Cho ao agitar sua varinha.
O colar sofre mudanças de cores e ela ri de toda a situação com Gina, então as duas saem correndo para entregar o colar para Luna.
Sigo-as e vejo que Luna as agradece sorrindo. Cho revira os olhos e logo sai, sem perceber que estou ali.
Contente em ter de volta o colar que havia perdido, Luna o coloca em seu pescoço e no mesmo instante seu corpo é arremessado para o alto. Ela se contorce de várias formas, tentando aliviar a dor enquanto fico sem reação, não sabendo o que fazer. Saio de trás da coluna tentando ajudar a garota que clama a mim por socorro. Tento diversos contrafeitiços, mas são totalmente inúteis, eu realmente não sei o que fazer. Luna cai em meu colo, olhando em meus olhos cheios de lágrimas.
— Obrigado por tentar, sei que fez o que pôde, mas aceito meu destino. Nunca saberão o que realmente sinto, mas posso garantir, não guardo rancor de seus atos. Sei que você sofre, que é incompreendido, mas eu te entendo. Mais uma vez, cuidado com os Nargulês – diz já fechando os olhos.
Não acredito no que está acontecendo. Acabo de presenciar a morte de Luna. Vou à procura de Cho, que a esta altura, estará longe desta cena. Encontro-a encostada numa árvore, ao lado de Gina. Caminho até elas e solto tudo que estou sentindo neste momento:
— Como você foi capaz? Luna confiava em você e, além do mais, vocês eram amigas!
— Nunca fui amiga dela, aquela menina sempre me irritou com seu jeito de ser e sua mania de querer ser amiga de todos, pensando que nenhuma pessoa era ruim. Mas desta vez ela se enganou!
—E não bastava ter se afastado dela?!
— Não te entendo, Draco. É bastante hipocrisia da sua parte dizer isso, justo você que sempre aprontava com ela.
— Só tem um pequeno porém, desta vez você foi longe demais, você a matou!
— Pelo menos não serei acusada de nada, pois é claro que não desconfiariam de mim, mas sim de você. Todos nós sabemos que você é sempre o culpado de tudo.
—Mas desta vez não há provas contra mim!
— Será? Que decepcionante para você, Draco! Envergonhando sua família, o que pensarão de você depois de ser expulso?
Saio depressa, ainda as escutando falar como era vergonhoso ser eu perante minha família. Deparo-me com um animal, que jamais havia visto antes, será ele, um testrálio[3]?! Certamente, já que eles podem ser vistos após presenciar a morte de alguém. Subo em sua garupa e sem pensar saio de Hogwarts, meus pais não vão querer olhar em minha cara. Uma vergonha para a família toda.
Saio de lá voando – literalmente – e vou seguindo um caminho sem rumo, não posso parecer fraco perto destes fracassados da escola. Acabo parando em uma casa abandonada e caindo aos pedaços. Adentro na casa toda escura e me sento num quarto qualquer, abraçando minhas pernas e sentindo algo que nunca havia deixado sair: lágrimas. Como pude chegar nesse nível? Um fracassado.
Deixando-as escorrerem pelo meu rosto, começo a escutar vozes, diversas vozes que já havia escutado antes. Pessoas brigando, se xingando, me culpando pelos meus erros. Abro meus olhos pensando que irá passar, que essas vozes sumirão, mas é inútil. Ao contrário, elas só aumentam mais ainda. Uma dessas vozes é a de Luna.
“Foi você que me causou isso, se estou morta agora é tudo culpa sua, Draco.”
— Sai, me deixe em paz, Luna, eu fiz o que pude!
“Isso não foi o suficiente, nunca foi.”
Estou ficando louco, de onde vêm essas vozes e alucinações? Não quero isso pra mim, isso não pode acontecer comigo. Não posso ter medo de algo assim. Se aceitar, isso irá me consumir e acabará comigo.
“Decepcionante ter um filho como você”, ouço a voz da minha mãe.
“Era melhor não ter você como filho, ou de qualquer outro jeito”, agora é a voz de meu pai.
Eles não me conhecem, não sabem que atrás desta máscara de uma pessoa orgulhosa e ambiciosa, existe alguém frágil, escondendo mentiras e transtornos. Ser a segunda opção, sentir-se facilmente substituível, é extremamente horrível. Minha concepção pode não ser diferente das pessoas, posso parecer um mero alguém reclamando do mundo, mas para mim faz sentido. Aliás, analisando por outro lado, não faz, porém talvez me faça ver coisas em que as pessoas não reparam, ou então reparam, mas fingem que não.
Ao logo da minha vida, fui hipócrita, falando que sou “forte”, que não ligo para isso, e não sendo verdadeiro comigo mesmo. Como pude?
Sentir lágrimas se formarem nos olhos de uma pessoa que se diz bem estruturada é estranho. Achava-me tão forte, mas esse choro acabou com todos os pensamentos medíocres que sempre tive.
Não estou mais aguentando, sei que estou me deixando levar, sendo talvez mais fraco que o normal, mas não estou achando outra saída. Possivelmente vou me arrepender, mas não haverá escapatória após o que vou fazer.
Levanto-me e vou para o outro cômodo – um banheiro —, e me olho novamente, pela última vez. Pego minha varinha e a agito sobre mim mesmo:
— AVADA KEDAVRA![4]— O estrondo no cômodo é alto, olho novamente para o espelho, com um sorriso no rosto, vendo Luna atrás de mim.
[1] Criaturas mágicas semelhantes a dragões.
[2] Feitiço de controle total.
[3] Cavalos alados que só podem ser vistos ao se presenciar uma morte.
[4] Feitiço de morte.
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