Por Trás do Silêncio_Le son de votre voix
4 Capítulo 4 - Sommelier
Notas iniciais
Sentamos numa das mesas e pedimos algumas bebidas.
Em quanto outra rodada não vinha Juliana olhava o ambiente, na verdade ela dizia que olhava o ambiente mas sabíamos que ela estava acionando seu radar que buscava uma aventura de uma noite.
Lana deixou a mesa com a desculpa que ia ao toalete, eu continuei com minha marguerita.
_Olhe disfarçadamente para minha esquerda, entre a mesa que está o cara barrigudo e a outra mesa que está uma mulher com um suéter horroroso._ Juliana instruiu-me falando baixo.
Procurei a localização que ela indicou e encontrei um cara olhando para nossa mesa, ele sorriu ao ver-me encarando-o, sorri de volta e desviei o olhar.
Ele tinha os cabelos negros e uma barba por fazer, nada muito incrível, mas não posso negar que ele era bem bonito.
_Ele não para de te olhar, sei que não é um mímico, mas você bem que poderia tentar uma coisa mais normal._ Juliana comentou entre um gole e outro de sua vodka.
_Não fale como se eu só saísse com mímicos, e eu nem conheço o cara..._ Eu tentava justificar, mas Juliana nunca me ouvia, nem sei porque eu ainda tentava.
_Não seja por isso._ Ela disse levantando-se e indo até a mesa do gatinho meio desleixado.
Eu não podia acreditar naquilo, ela estava falando com ele como se já o conhecesse a muito tempo, e pior, estava falando de mim. Soube disso quando ela olhou rapidamente para mim e depois olhou para ele e falou mais alguma coisa.
Meu rosto devia estar completamente rubro, e eu não sabia o que fazer...
Com uma amiga como Juliana, não precisava de inimigos.
Mas afinal, eu sou uma mulher e estamos no século 21 não preciso ficar tão envergonhada por ter uma amiga descarada que me faz passar por situações constrangedoras; e eu posso...
Meus pensamentos foram interrompidos quando pude ver pelo canto do olho o cara (que já não parecia tão desleixado depois que virei minha margarita) vir em minha direção.
Encarei minha taça vazia em quanto ouvia uma voz meio rouca dizer:
_Com licença, posso sentar aqui?
Ai droga Pensei olhando aquele sorriso meio tímido, mas que ainda tinha um ar meio decidido, de quem não ligava, não ligaria se eu lesse um fora nele.
_Pode._ Respondi com um sorriso sem graça.
Juliana permaneceu na outra mesa bebendo muitas e muitas vodkas, o que me preocupava um pouco pois sabia que ela tinha uma tendência a fazer coisas ruins quando fica embriagada.
_Meu nome é Fabrizio._ Ele falou assim que estava sentado a minha frente, pude perceber um francês um tanto quanto forçado, ele não era bom em francês.
_Você é italiano?_ Perguntei depois de ter juntado os pontos, pois nenhum francês que se prese se chama Fabrizio e fala francês tão pausadamente. Depois de minha conclusão outro pensamento surgiu: Mas que bosta! Todo mundo vai para a França, tem mais turistas do que franceses na porcaria da França!
_Você descobriu meu disfarce._ Ele disse sorrindo_ Foi o nome ou meu péssimo francês?
_Os dois, de onde você é?_ Perguntei quase automaticamente.
_Nasci em Bolzano, mas moro na Argentina há dois anos. _Respondeu, era incrível como seu tom de voz era calmo, mas não um calmo irritante que dá vontade de fazer a pessoa beber um energético, era um calmo bom.
_Isso é estranho, parece um encontro às escuras._ Comentei dando um riso meio nervoso.
_Para isso ser um encontro às escuras de verdade preciso saber seu nome._ Ele disse despreocupadamente, logo depois chamando a garçonete e pedindo um whisky.
_Desculpe-me, meu nome é Sophie._ Falei um pouco sem graça, mas muito menos do que antes, ele conseguia me fazer ficar mais a vontade.
_Não consigo saber de onde você é pelo seu nome._ Fabrizio comentou encarando-me com seus olhos negros.
_Nasci em Toronto, no Canadá, mas cresci no Brasil, e antes que você comece a falar de caipirinha, de samba, do Rio de Janeiro; já vou te dizendo que esse é o pior tipo de turista que pode existir; os que ficam falando só sobre as mesmas coisas._ Falei rapidamente.
Toda aquela sinceridade se devia em parte a minha leve embriaguez.
Fabrizio tentou controlar o riso e aquilo o fez ficar um pouco vermelho.
_Não se preocupe, não ia te perguntar sobre o Brasil._ Ele disse quando já havia controlado o riso, e apenas fitava-me.
_Ótimo. O que você faz na Argentina?_ Perguntei já sem um pingo de vergonha.
_Sou sommelier.
Lembrava-me vagamente do que era um sommelier, na verdade nunca me importei em saber tudo sobre sommeliers.
_Legal, mas no que você trabalha?_ Indaguei e vi sua expressão de quem ainda estava decidindo se ria ou ficava ofendido, ele riu.
_Minha profissão é ser sommelier._ Disse ainda sem acreditar que eu não entendia que sua profissão era aquela.
_Você está me dizendo que seu trabalho é dizer para as pessoas qual vinho elas precisam comprar?!_ Falei num tom um pouco mais alto, as pessoas devem ter pensado que estávamos brigando, pois nos olharam pelo canto do olho.
_Não, eu não digo qual eles devem comprar, apenas indico o melhor, o sommelier ainda monta uma lista chamada de oportunidade, com vinhos que ele consegue uma boa negociação de preço com as vinícolas ou importadoras. Se consegue comprar uma boa quantidade, ganha desconto e repasso para o cliente... Veja um sommelier como um tipo de empresário.
_Tudo isso de sommelier parece tão requintado e tão chato, sommeliers não são velhos barrigudos que se enchem de queijo em quanto bebem vinho?
Fabrizio ergueu uma sobrancelha ao ouvir minha pergunta.
_Acho que todo sommelier teve uma estrada até ficar velho, barrigudo e se encher de queijo. Ser sommelier não é a coisa mais emocionante do mundo, é mais uma questão de paixão; faço mais do que provar vinhos, eu estudo vinhos._ Ele disse como se estivesse me explicando o sentido da vida.
_Do jeito que você fala não duvido que você vá a uma daquelas clínicas de estética para tomar um banho de vinho._ Comentei fazendo uma careta.
_Você é muito sincera, está dizendo o que a maioria das pessoas queriam me dizer, mas não dizem... Além de ser muito bonita._ Ele falou jogando todo aquele charme para cima de mim.
Eu podia ver o quanto ele era transparente, ver que ele era seguro e passava muita confiança.
_E você o que faz?_ Perguntou-me.
_Sou advogada._ Falei dando de ombros como se não fosse muito importante.
_Se algo der errado já sem quem devo procurar._ Disse ele dando um belo sorriso que me fez sorrir também.
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