Por Onde Andou Eichler?
22 Um lugar de poucas almas
Chiano estava acostumado a se arrastar por locais apertados. Na fazenda do tio, ia para o fundo do terreno, perto da antiga pedreira, para tentar encontrar os tatus gigantes de casca marmorizada. Tinha que tomar muito cuidado porque o animal costumava ser violento. Não porque isso era de sua natureza, mas porque o garoto se esgueirava pelas longas e sinuosas tocas que eles faziam nas encostas dos morros.
Ia atrás de um tipo de algodão que as juntas dos animais produziam apenas durante o verão e depositavam no fundo dos caminhos. Poucos sabiam de suas capacidades mágicas, mas Chiano sempre precisava daquele ingrediente para emplastros que ajudavam a criar seus broches amaviados.
Mas aquele dia era diferente. Nada de aventuras em busca de itens para maracutaias — estava em busca de sua namorada desaparecida. Muito menos num lugar seguro e conhecido como a fazenda do tio — muito pelo contrário. Estava numa região desconhecida além da periferia da cidade. E também não eram tatus no seu encalço, mas sim um tipo cruel e antigo de bruxa, uma seresma.
— Como cê sabia que tinha uma saída por aqui? — Chiano perguntou para a garota que engatinhava na sua frente.
— Foi um chute — Pólen respondeu, ríspida.
Aquele ar úmido do túnel deixava seu nariz incomodado, mas ela tentava ignorar para não precisar parar e coçá-lo o tempo todo. Mesmo com a sensação de segurança que agora tinha, ainda pairavam em seus nervos o medo e perigo iminente que a fuga da bruxa lhe causou durante os minutos antes de encontrarem a pequena porta de ferro no fundo do refúgio de Hugo.
Os joelhos dos dois jovens já doíam de tanto ficarem dobrados naquela mesma posição. As mãos também estavam incomodadas por causa do atrito com a terra cheia de pequenas pedras abaixo deles.
— Então quer dizer que se não tivesse passagem, a gente podia ter ficado encurralado? — Chiano não pôde deixar de se incomodar com a pior possibilidade.
— Podíamos, mas não ficamos — a garota respondeu depois de espirrar três vezes seguidas. Seu tom era seco, impaciente. Talvez uma resposta para si mesma sobre a tensão da possibilidade de ficarem encurralados de verdade caso a portinhola não levasse a lugar nenhum.
— Você devia me avisar disso. Eu gostaria de pelo menos saber se vou morrer, sabe? — ele comentou de forma ácida. Principalmente por causa de uma bruxa que o Eichler aparentemente estava mancomunado, ele pensou. Mas preferiu guardar aquele tipo de insatisfação apenas para ele, por enquanto. Pelo menos até ter certeza de que estavam em um lugar seguro. De preferência amplo, menos claustrofóbico e com luz solar.
— Você não morreu, ayê. Pode ficar tranquilo — ela quis encerrar o assunto.
Foi realmente um chute, mas a garota tinha um fundo de convicção de que o plano ia dar certo.
Isso porque ela sabia que Hugo abria passagens secretas por aí. Certa vez, Eichler desafiou todos da Malta a invadir o quarto do irmão mais velho e pegar sua coleção de tazos para jogarem escondidos. Pólen foi a única com coragem e habilidade o suficiente para quebrar as camadas de proteção no quarto do garoto. Ela não só encontrou os tazos e os devolveu em segurança depois de a Malta usá-los, como notou no canto da cama uma pequena portinhola de ferro. Ela desocultou as runas e leu os incisos que protegiam para descobrir do que se tratava:
— É uma passagem de toca — ela explicou para o garoto afobado atrás dela.
— Ah, entendi. Até que faz sentido. Mas essa aqui parece meio longa, não? — Chiano continuou protestando e Pólen revirou os olhos por causa da insatisfação do rapaz. O que mais ele queria? Uma recepção calorosa, uma cama quente e uma taça de sorvete?
Passagens de toca eram um tipo de maracutaia antiga, já em desuso há tempos por causa da tecnologia dos saltos. Basicamente, era uma forma de dar a sensação de um percurso — como um corredor, ou uma toca — ser mais curto do que de fato era. Ou seja, os dois estavam engatinhando há muito mais tempo do que seus cérebros interpretavam. Por isso o cansaço descabido. Era muito mais um truque de percepção de tempo do que de velocidade ou algo do tipo.
— Pois é. Tá demorando muito pra gente chegar. — Pólen refletiu e deu o braço a torcer. Não apenas Eichler guardava segredos surpreendentes, mas também seu irmão mais velho. Talvez fosse uma mania de família. A conclusão foi de que, mesmo com a maracutaia, aquele túnel claustrofóbico era muito, mas muito comprido.
— Deixa pra lá. Desde que a gente fique longe daquela bruxa velha… Obrigado Hugo! — Chiano tinha ficado aliviado apenas quando, logo após passarem pela pequena portinhola, olhou para trás e a viu desaparecer e dar lugar para uma parede rígida. A seresma não teria chance alguma de seguí-los, pelo menos não por aquele trajeto.
O percurso longo e entediante fez Chiano ficar mais agitado que o normal, então sua mente teve tempo para fervilhar suas recentes perturbações. Primeiro sobre a possível relação de Eichler com a seresma. Ele só queria virar para Pólen e dizer:
“Ah-há! Eu estive certo sobre Eichler esses anos todos! É claro que ele se envolvia com bruxaria!”
Segundo, era em Amélie em quem pensava. Sobre a voz morosa da garota que aquele monstro horripilante emanava. Parecia que a namorada resmungava de dentro dele. Foi a mesma sensação de quando o viu percorrendo a campina dias antes.
Parte do garoto queria acreditar que aquele ser tinha algo a ver com o sumiço dela, mas seu lado racional queria convencê-lo de que se tratava de um monstro que ele não conhecia, então poderia reservar reações adversas nos feiticeiros. Tipo cantarolar a voz de uma pessoa que tanto procurava. No final das contas, torcia muito para que o sumiço de Amélie não tivesse nada a ver com aquele monstro horripilante. Imaginar a namorada topando com ele na noite em que desapareceu fervilhou sua espinha de tanto medo.
Chiano ainda pensou em perguntar para Pólen se ela também ouviu algo, ou alguém, de dentro do ser. Quem sabe ela não ouvia Eichler, talvez. Mas algo o distraiu antes que perguntasse:
A adaga na mão de Pólen iluminava boa parte do caminho, mas começou a piscar depois de determinado momento, atrapalhando a visão de ambos.
— Tá tudo bem? Cê tá cansada? Quer que eu me ilumine? — o rapaz perguntou, preocupado com Pólen. Imaginou que o cansaço estava atrapalhando a garota de manter a arma acesa.
Mas, na verdade, era aquele aperto no peito de dias atrás que voltou a perturbá-la. Iterum parecia chamá-la cada vez mais forte. Podia ouvir o sussurro nos ouvidos, o arrepio nos ossos e o chamado na cabeça.
— Não — ela resistiu, ríspida, inclinada a persistir. — Eu consigo.
A luz que piscava da arma refletia por toda a superfície do túnel, especialmente nas pequenas pedras que incomodavam tanto na pele dos dois. Elas brilhavam feito glitter quando a luz passava por elas. Da adaga vinha um tom branco que se transformava em furta-cor nas pedrinhas. Foi então que Chiano se deu conta de que eram pedras de salto moídas e espalhadas pela terra. O garoto não sabia como montar uma passagem de toca, mas ficou surpreso que aquele tipo de pedra era usada na maracutaia.
Os dois continuaram o restante do trajeto em silêncio. Chiano remoendo pensamentos e possibilidades sobre Amélie e Eichler; e Pólen se esforçando ao máximo para manter a luz. Sua testa e nuca ficaram totalmente encharcadas de suor. A adaga ainda oscilava, mas não mais de forma que deixasse eles totalmente no escuro. Mesmo apagada, não seria de todo mal porque o caminho era uma linha reta.
— Ali — depois de alguns minutos, a garota anunciou entusiasmada o final do túnel. — Tô vendo luz!
As juntas de seus corpos cantaram de alegria e dor depois de tanto tempo que ficaram na mesma posição. Talvez aquele tivesse sido para Chiano o melhor espreguiçar de sua vida toda. Ouviu tantos tendões estalarem que pareceram até usar cantalíngua.
Depois do alívio que percorreu os dois jovens, puderam analisar o local para onde a passagem os levara. Pólen ainda conferiu o buraco por onde saíram, mas ele se fechou sozinho. Não seria mais possível usar a passagem para voltar ao refúgio.
— Que lugar maneiro — Chiano murmurou impressionado e com a cabeça esticada para o alto.
Ele olhava para as árvores altas que lembravam eucaliptos, mas não conseguia ver suas copas porque as nuvens daquele local eram baixas. A sensação era de que, se subisse numa escada, conseguiria tocar na superfície úmida e macia do vapor de água condensado. Elas lambiam e atravessavam os troncos de árvore com delicadeza e vagarosamente seguiam rumo ao norte.
Até cogitaram se tratar de uma espécie de névoa, mas o aspecto realmente lembrava mais as nuvens. Inclusive, algumas eram mais ralas, outras escuras e de tom pesado. Mas eram várias, com poucos espaços livres entre elas. E a proximidade com o chão dava uma sensação de pouca amplitude. Pelo menos a floresta era esparsa, com bastante área livre. De qualquer forma, era mais agradável do que o túnel minúsculo por onde vieram.
— Que lugar é esse? — o garoto perguntou sem tirar os olhos das nuvens. Nunca tinha visto aquela floresta e nem sabia que ela existia nas bordas da periferia. Talvez ele já estivesse mais longe da periferia onde jamais fora em toda a sua vida. Aquilo era empolgante. A partir dali, haveria um mundo totalmente desconhecido para ele.
— Não tenho muita certeza — Pólen refletiu, cabisbaixa. -, mas acho que pulamos alguns passos e viemos para um dos últimos.
— Cê já veio aqui?
— Não. Não era esse caminho que a gente costumava fazer pra praia.
— E esse lugar tava marcado no mapa? — Chiano começou a pular para tentar alcançar as nuvens, mas elas ainda estavam longe de seus dedos curiosos.
— Acho que sim, mas o mapa ficou com o Breno.
Ela lembrou do amigo e desejou que estivesse bem. Mas, na verdade, confiava que ele conseguiria se virar. Talvez devesse se preocupar mais era com Írios. Desejou fortemente que os dois não tivessem se separado. O estrangeiro com certeza se perderia e morreria se ficasse sozinho.
— E a gente veio parar exatamente aqui? — Chiano parou de tentar alcançar as nuvens para fazer aquele questionamento que veio como um baque em sua cabeça.
— Um atalho, talvez. Do Hugo. Ou do Eichler.
— E onde a gente tá?
— Longe, bem longe. Mas perto da praia, pelo menos. Pelo que lembro, no mapa apontava só para uma floresta nessa região. Nada demais. Mas temos que seguir pro norte.
— Seguir as nuvens — Chiano comentou, empolgado.
— Não — Pólen o repreendeu, mudando de ideia. — A gente precisa voltar e encontrar os dois.
Quando lembrou-se dos acontecimentos e da separação do grupo, Chiano fechou a cara. Estava tão deslumbrado com aquela floresta que as memórias pareciam distantes. Mas quando as imagens da seresma e daquela criatura esquisita que a acompanhava vieram à sua mente, a inquietação tomou conta de seus nervos.
— A gente já pode falar sobre o que aconteceu? — ele pediu e viu Pólen imediatamente revirar os olhos. — Sobre o que raios uma bruxa velha daquelas queria com as cinzas do Eichler? O que diacho esse seu amigo tava fazendo? Mexendo com bruxas desse jeito. Era só o que faltava, mesmo.
— Se vai ficar fazendo essas acusações infundadas sobre o Eichler — Pólen avançou contra Chiano num supetão como se fosse dar um soco em sua cara, mas se conteve e parou com o rosto rente ao do rapaz para encará-lo com aqueles olhos grandes e agitados -, é melhor a gente se separar a partir daqui.
— Ei, ei — Chiano ficou na defensiva e deu um passo para trás. — Sei que o seu amiguinho é um tópico sensível, mas chega uma hora que fica inevitável passar tanto pano assim.
— Não tou passando pano. Só não quero que fique inventando asneira sobre ele.
— Não tou inventando nada, só ligando uns pontos. Ligando os pontos que ele mesmo deixou pra trás, inclusive. Não é isso que a gente tá fazendo aqui? É só a conclusão que qualquer pessoa normal tiraria. Bem, menos você e seu grupinho que fazem tanta manobra pra defender ele.
Naquele momento, Chiano achou que Pólen tinha voltado atrás e decidido de fato dar aquele soco na cara que ensaiou segundos antes. A cara dela fervia e ela bufava feito um touro. Ia avançar sobre o garoto com os olhos fuzilantes, mas no último segundo eles se distraíram por causa de algo atrás de Chiano. Pólen desmontou sua postura agressiva por causa do espanto e sentiu um gelo subir pela espinha.
— O cervo — ela murmurou e Chiano virou-se para olhar na mesma direção que ela.
Era um animal igualzinho ao desenho no caderno de Breno: o cervo com galhadas altas e enroladas por teias de aranha. O animal alto e imponente que Valen disse ter visto com Eichler olhava diretamente para eles. Estava apenas com o torço e a cabeça à vista, a alguns metros de distância, e com o restante do corpo oculto por dois eucaliptos.
Pólen, instintivamente, começou a aproximar-se do animal, mas ele assustou-se e começou a correr na mesma direção das nuvens. Sem pestanejar, a garota partiu atrás dele como se sua vida dependesse daquilo. Chiano gritou pelo seu nome e pediu que ela voltasse, mas não adiantou. O que restou-lhe foi ir atrás dela.
Havia pouca energia para mais uma atividade tão intensa, mas Pólen ignorava a estafa e as dores no corpo para conseguir ir atrás do animal. Sabia que sua sorte cantou ao encontrar logo de cara o animal que Eichler guiou durante sua viagem, então agarrou-se na chance de conseguir alguma resposta com aquilo.
O cervo serpenteava entre as árvores, seguindo a mesma direção do movimento das nuvens. Ele era rápido, mas Pólen aproveitava do tempo que ele perdia desviando dos troncos para fazer um caminho mais reto e direto para ganhar proximidade.
Chiano tinha menos determinação e preparo físico para aquela empreitada, então acabou ficando para trás. Também gastou parte de seu fôlego chamando pela garota para que ela desistisse, mas era em vão. Mesmo longe, ainda mantinha-a na vista,
Correram por entre os eucaliptos até alcançarem um muro baixo de pedras empilhadas. Fizeram como o cervo e saltaram sobre ele — era baixo, não maior que suas cinturas. Quando passou por ele, Chiano, notou que na parte de cima do muro, inscrito nas pedras, havia uma longa sequência de runas escritas com sangue seco e antigo, quase ilegível. Torceu para não ter efeito nenhum sobre eles. Podia ser uma proteção contra invasores ou algo do tipo. Mas nada aconteceu e os dois continuaram atrás do cervo, que se embrenhou num matagal alto de arbustos volumosos.
Pólen parou sobre o arbusto e percebeu se tratar de um muro verde. Olhou para os lados para buscar uma entrada porque os galhos eram densos demais para atravessar. Ela puxou sua adaga para alheá-la em espada, mas a arma não obedeceu.
— Deixa que eu faço — Chiano anunciou quando chegou junto à garota. Pólen ia usar cantalíngua para pedir que os galhos abrissem espaço para passar, mas Chiano foi mais rápido com sua lâmina e prontamente começou a rasgar a cerca viva para abrir caminho.
A garota, frustrada, ficou agitada com a demora do rapaz. Não queria perder o rastro do cervo. Assim que o caminho ficou livre, se embrenhou no arbusto até alcançar o outro lado. Esperava ver o cervo pulando logo a frente, mas o que encontrou a deixou surpresa.
Era um casebre feito de pedra, com um aspecto de chalé. Tinha uma porta de madeira grossa como entrada e era coberto por madeira e folhagens secas. Parecia não ter mais que quatro cômodos e emanava um aspecto agradável — tinha flores nos batentes das janelas amplas e uma chaminé torta de pedras que soltava uma fumaça violeta.
Ao seu redor havia cercados de madeira vazios. Mais ao fundo, depois de uma espaço de terra arada que servia de horta para diversos tipos de plantas, um curral antigo de madeira escura sofria para ainda manter-se de pé.
Não havia sinal algum do cervo, mas pelo menos tinham chegado em algum lugar que não fosse apenas uma longa floresta de eucaliptos. Pólen aproveitou para dobrar o corpo para frente para retomar o fôlego. Sentiu uma súbita falta de ar, seguida de uma tontura. Em poucos segundos a visão ficou turva e desabou sobre o gramado, desacordada.
— Pólen! — Chiano protestou, tentando segurar o corpo da garota antes que tombasse ao chão, mas escorreu sobre seus braços fracos.
Ele tombou sobre Pólen e virou-a para cima. Chacoalhou seu rosto para tentar acordá-la e no toque da pele sentia uma frieza consternante. Alcançou na jaqueta um pequeno frasco de água benta para molhar o rosto da garota, mas não surtiu efeito algum.
— Ande, pegue ela no colo — uma voz rouca e pigarrenta surgiu na direção do casebre. — Coloque ela na cama.
Chiano não protestou. Pegou Pólen no colo com dificuldade e caminhou, bambo, até a entrada da casa. Seus braços tremiam feito vara verde por causa do peso da garota, mesmo que leve. Passou ao lado do homem negro que havia oferecido ajuda e fez um sinal de agradecimento com a cabeça.
O lado de dentro da casa era amigável. Parecia ser o lugar que Írios havia murmurado que tanto precisava para descansar no meio daquela viagem. O primeiro cômodo tinha um sofá feito de palha seca na frente de uma mesa de madeira que estava repleta de ervas, legumes e frutas. No canto da parede a lareira acesa esquentava um caldeirão de ferro fundido que fervilhava um aroma doce. O fogão a lenha também estava aceso, mas nenhuma panela repousava sobre o fogo.
Chiano passou pelo arco até chegar no quarto. Colocou Pólen na cama larga com cuidado e seus braços ficaram dormentes depois do esforço. Olhou para trás e não encontrou o senhor que os guiou até ali. Correu para o exterior, olhou ao redor, mas nenhum sinal dele. Voltou para o quarto e encontrou Pólen levemente acordada, resmungando e tentando manter os olhos abertos.
— Ela… — Pólen murmurou baixo — Ela tá partindo.
E caiu no sono pesado novamente.
— Tome. Fiz para ela — o senhor surgiu atrás de Chiano de repente.
O garoto virou-se num supetão e o encontrou no batente da porta do quarto. Segurava uma caneca de alumínio batido com um líquido quente que levantava um vapor acobreado. Chiano não entendeu em que momento o senhor preparou aquela mistura visto que ele tinha desaparecido, mas aceitou de bom grado a ajuda porque cheirava a hortelã e canela selvagem. Era um bom chá para corpo-mole.
— Pincela na boca dela com isso — o senhor esticou a outra mão assim que Chiano pegou dele a caneca. Segurava com ela um pincel de cerdas macias e delicadas. — Melhor que dar direto pra beber. O cheirinho é bom dela inalar enquanto cai pela boca.
— Obrigado — Chiano não soube o que dizer além disso. Sentou na cama ao lado da garota e fez como o senhor pediu. Quando levantou os olhos para o batente novamente, ele já não estava mais lá.
Era uma figura excêntrica, aquele senhor. Tinha cabelos bem enrolados e brancos e uma barba longa que tampava seu pescoço e parte do peito. Era corpulento, mas de pernas curtas e tortas. Usava um macacão jeans sobre uma camisa de flanela vermelha. Carregava em mãos um cachimbo sempre aceso, mas que raramente levava à boca para dar um trago.
Chiano tratou de cuidar de Pólen assim como o velho sugeriu. Ela aos poucos melhorou, mas ainda continuou desacordada. Pelo menos os espasmos e murmúrios diminuíram. Depois, restou ao garoto esperar que ela se recuperasse e acordasse de uma vez, então continuou no quarto, sentado numa poltrona verde-musgo de frente para a cama. Não sabia o que raios tinha rolado com ela, mas desejou que ela se recuperasse logo.
Talvez ela tivesse esbarrado numa erva daninha durante a corrida, ou talvez sido picada por algum bicho sem que notasse. Se bem que, caso estivesse sob efeito de algum veneno, eles teriam percebido antes que ela desmaiasse.
Quando o sono da garota pareceu estar mais tranquilo, Chiano levantou-se e foi até o lado de fora da cabana. Esperou encontrar o velho, mas não havia sinal algum dele. Então foi ver de perto os cercados de madeira ao redor do casebre.
Eram sete cercados no total. Pareciam meio improvisados, feitos com madeiras e pregos diferentes. Os tamanhos entre eles também variavam, mas logo Chiano notou pelo menos uma semelhança entre eles: haviam etiquetas de metal pregadas perto das entradas de cada uma.
A primeira que viu tinha escrito “gato-ribeirinho” e era a única área cercada que tinha um pequeno lago no seu interior. Já outra anunciava “mico-de-saia” e a terceira, mais alta, “cervo-de-galhada-de-teia”. Esse último era do animal que seguiram até ali. E que Eichler supostamente teria guiado pelas florestas. Talvez aquele era seu destino? Se o cervo estava solto novamente, então os outros animais também sumiram? Eichler também tinha reunido todos eles ali? Por quê? Seria aquele mais um dos passos do mapa do garoto?
Chiano lembrou do que viu sobre o muro de pedras que pulou para chegar até ali. Correu pelo caminho onde usaram para entrar na propriedade até alcançá-lo. Lá, tentou ler o inciso de runas que estava escrito sobre as pedras. Era difícil reconhecer tudo totalmente por causa da idade das runas, mas logo sacou do que se tratava:
— Um limite de proteção — murmurou para si mesmo. E logo em seguida acendeu um alerta: teve receio de que aquela runa impedisse ele e Pólen de saírem do terreno, então se pôs a pular o muro para o lado de fora para botar a suposição à prova.
Felizmente conseguiu tanto sair quanto voltar para dentro. Seja lá o que aquelas runas estavam impedindo de entrar ou sair daquele lugar, pelo menos não era ele, Pólen e nem os animais sumidos.
Decidiu caminhar rente ao muro e se enfiou numa parte de mata fechada. Havia muitos pássaros nas árvores. Seus cantos tranquilos o distraíram durante a caminhada, que o levou até uma região com diversas pedras caídas e espalhadas. Olhou com atenção até encontrar entre elas uma pedra com formato diferente. Era chata, polida e uma de suas extremidades era circular. Agachou-se para mexer nela e, quando a virou de lado, leu em sua superfície:
Geraldo Antônio
1832-1929
Seu coração bateu em falso com o susto e o corpo foi invadido por um frio repentino. Disparou correndo de volta para o casebre, pensando em Pólen.
Não encontrou o velho em lugar algum do percurso. Chegou na casa e logo foi aos tropeços para o quarto, mas ficou aliviado ao encontrar a garota da mesma forma que a deixara.
— Fiz uma coisinha pra gente comer — a voz do velho soou na cozinha atrás de Chiano. — Cê deve tá é varado de fome, menino.
Chiano assustou-se e sua espinha tremeu quando ouviu o senhor. Virou-se para ele e o velho já estava se sentando na mesa de madeira e colocando os pratos azulados sobre ela e ao lado de uma grande frigideira de ferro que levantava uma cativante fumaça de comida quente e fresca.
O garoto não respondeu e ficou em silêncio, pensando por um tempo. O único som que soava no casebre era das lenhas estalando no fogão e na lareira. Foi apenas quando olhou para o senhor na cozinha que o cheiro de massa e manteiga amendoada e tostada invadiram o ambiente.
— Ayê, sem cerimônia — o velho riu com a boca banguela. — Senta pra comer que já vai esfriar.
Chiano sempre imaginou que teria medo de fantasmas. Mas todo o conjunto ao redor daquele momento o acalmou. O casebre simples, confortável e limpo. O cheiro de comida e chá. A luz do fogo. O sorriso banguela e singelo do velho.
Será que ele sabe que está morto há mais de cem anos? Chiano refletiu enquanto caminhava até a cadeira da mesa. Talvez de fato não soubesse. Num olhar desatento, nem mesmo Chiano percebera — ele parecia bem vivo, de carne e osso, pra ser sincero. O único fator que entregava era um fino e leve aspecto de seda ao redor de sua figura.
Ele serviu o macarrão tostado na manteiga com sálvia num dos pratos e estendeu para Chiano, que aceitou de bom grado e passou a comê-lo com voracidade. Como era divino o sabor de comida de verdade.
— Mas me diga, menino, quem são vocês? — o velho pediu entre uma garfada e outra. — Ayê, tava esperando visita, mas não de desconhecidos, pra falar bem a verdade.
— Por um acaso esperava por um rapaz chamado Eichler? — Chiano respondeu com outra pergunta. Limpou seus lábios rosados com um dos guardanapos no tampo da mesa.
— Claro! Ele devia ter vindo há dias atrás! Cês são amigos dele?
— Sim — Chiano respondeu com um nó na garganta. A comida mal desceu.
— Ayê, temos muito trabalho pela frente ainda! Perdemos tempo! Perdemos recursos! Ayê, pra falar bem a verdade, coisas horríveis aconteceram! Tá vendo os cercados lá fora? Perdemos tudo! Perdemos todos!
— Os animais, quer dizer?
— Isso mesmo! — o velho respondeu se ajeitando na cadeira, que rangia de tão velha e bamba. — Pra falar bem a verdade, não sei como trazer eles de volta. Só o menino que conseguia encantar eles do jeito certo!
— E o que vocês estavam fazendo com esses animais? — Chiano pediu, curioso.
— Pra falar bem a verdade, eu não sei — o velho explicou, mas aquilo parecia não chateá-lo ou deixá-lo desanimado. — Eu só ajudo o garoto. Como os animais fugiram, eu acabei dormindo por dias e dias até vocês aparecerem! Ayê!
— Entendi — Chiano lamentou. Estava tão absorto com as respostas que não conseguia pensar em novas perguntas, mesmo fervilhando de interesse.
— Vou ver como sua amiga tá — o velho comentou levantando-se na mesa.
Quando Chiano piscou, o senhor não estava mais lá. Havia sumido de repente. Virou-se para a direção do quarto e não o encontrou por lá também. Apenas Pólen respirando profundamente sobre a cama.
Terminou de comer e também decidiu ir até o quarto para vê-la.
Para sua surpresa, Pólen não estava mais deitada na cama, mas sim de pé perto da janela, de frente para um espelho quadrado encostado na parede de pedras. Sobre a cama estavam todas as suas longas e finas tranças.
— Minha avó se foi — ela comentou enquanto acariciava a cabeça totalmente careca.
Chiano achou que Pólen ficou bonita com o novo visual. O formato da sua cabeça era grande e imponente como seus olhos, e ao mesmo tempo delicado como o restante dos traços do seu rosto.
A garota não quis se estender nas explicações para Chiano, então apenas deu-lhe o essencial enquanto comia um pouco do macarrão que o velho deixou preparado na mesa.
Ela contou que sua religião pregava que os poderes da matriarca passassem de uma mulher para a outra. E era a vez dela, mesmo rejeitando aquele fardo desde anos atrás. Agora que sua avó havia falecido e ela recusado o papel de Encantada, não sabia bem como seria dali para frente. Mas sentia que sua magia estava extremamente frágil em seu corpo. Se tivesse aceitado dar continuidade à geração de sua avó, sua magia já teria decaído totalmente
Chiano ficou preocupado com o fato da garota saber sobre o falecimento da avó daquela forma, mas ela não aprecia estar exatamente surpresa com aquele fato. Claro, estava bem abalada e até precisou respirar fundo enquanto contava a história. Em um momento, parou de comer para enxugar algumas lágrimas do rosto. Mas Pólen se preparava há anos para aquela partida, assim como as tias tanto exigiam. Seus métodos foram outros — afastar-se por completo da avó -, mas sentia-se razoavelmente bem. O que a preocupava era o futuro. Sentia-se fraca e incapaz.
Pólen deveria estar junto da sua família para que ela se tornasse a próxima Encantada. Fazia a mínima ideia do que aconteceria naquela quebra de protocolo. Nunca ouvira falar de nada parecido que já tivesse acontecido antes. Se tornar uma Encantada era uma honra imensurável para o Iterum. Menos para ela.
— Seu visual ficou irado assim — o garoto comentou numa tentativa de animá-la. Estava sentado do outro lado da mesa e de frente para Pólen, que agradeceu com um aceno e comentou sobre a comida:
— Isso aqui tá muito bom. Nem parece que foi você quem fez.
— É uma longa história — ele bufou em resposta e colocou-se a contar os acontecimentos recentes. Pólen ouvia com atenção e olhos arregalados enquanto dava as últimas garfadas no macarrão.
— Então quer dizer que tou comendo uma massa feita por um fantasma? — foi a primeira pergunta que ela decidiu fazer.
— Sim, basicamente sim. Mas, olha, sinceramente, acho que ele não sabe que está morto — Chiano sussurrou a sua principal suspeita, com a intenção de falar baixo o suficiente para o fantasma não ouvir, seja lá onde ele estivesse agora.
— Como assim?
— No muro ao redor do terreno tem um inciso enorme de prisão. Na lápide dele também têm outros. Acho que o espírito dele foi capturado para virar um serviçal. Ele tá preso nessa fazenda…
— Isso não é um pouco cruel? — Pólen comentou. — Coitado dele…
Só depois de dizer que se deu conta de que muito provavelmente foi Eichler quem fez aquilo. Quase engasgou com a última garfada de macarrão. Queria se convencer de que talvez, na verdade, Hugo teria sido responsável por aquilo, visto que em seu refúgio também haviam outros animais aprisionados na estufa. Mas ela não estava tão segura disso.
— Sim, é um pouco cruel — o garoto concordou.
— E você também percebeu o que têm em comum entre todos esses animais?
— São todos midalms.
— A chave do que o Eichler tava fazendo é isso? Por isso carregou o cervo lá das Copas pra cá? Fazia parte da coleção dele? Era mais um animal pro espírito cuidar — Pólen estava tão confusa que sua cabeça começou a latejar.
— Mas não consigo entender o motivo disso tudo… Até onde eu sei, o que é muito pouco, não têm ligação nenhuma entre midalms e a doença do Eichler. Ok, esses animais possuem metade de uma alma comum e a maioria divide uma só alma com outro parasita… O que isso tem a ver com a doença? A magia do Eichler tava em estágio de câncer… Não têm nada a ver uma coisa com a outra.
— Têm alguma parada aqui que tamo deixando passar — Pólen repetiu, frustrada. Quanto mais passos de Eichler alcançavam, mais precisavam repetir essa mesma fala.
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