Por Onde Andou Eichler?
24 Deem ouvidos à escuridão
Era com muito carinho que a avó de Pólen contava sobre suas lembranças da primeira cidade em que se instalou no sul, lá na fazenda da família que a acolheu. Falava principalmente das travessuras que as crianças de quem ela ajudava a tomar conta faziam pelos arredores da pequena cidadezinha de Pitéria. Decidia não se irritar com elas porque queria muito que sua infância tivesse sido como a delas.
Mas o que mais se manteve fresco na memória de Pólen era a descrição de como aquela região era bonita. Os campos cheirosos, as árvores simpáticas, os rios calmos, as montanhas acolhedoras.
Sua avó costumava contar que todo começo de primavera tinha um fenômeno interessante de observar: os animais e insetos ficavam mais ouriçados por causa da explosão de pólen das flores e já na primeira semana da estação nova, as formigas colhedoras marchavam para fora de suas colônias para coletar comida. Elas avançavam com velocidade sobre a mata e picotavam todo milímetro de folha verde que encontravam pela frente.
Aquele desmatamento voraz fazia com que os animais menores e mais rasteiros se assustassem e fugissem no sentido contrário. A maioria deles eram os ouriços da terra, que se multiplicavam aos montes na estação anterior. Até as aves ficavam agitadas durante esse período, tentando acompanhar os animais terrestres e aproveitar a algazarra para se alimentarem.
Essa era a história do nome da garota. Pólen. Um pequeno início para um grande movimento de vida dentro da floresta.
Aos olhos dela, as histórias da avó funcionavam como uma nova forma de ver e entender o mundo ao seu redor. Como se cada causo ou conto lhe ensinassem uma nova língua para ouvir uma nova conversa que antes não entendia. Como se abrissem novas e diferentes portas.
Era como um corredor longo e inexplorado, com portas apenas lá no fim. E essa porta dava para um novo corredor, com uma outra porta. E cada corredor era um mundo novo, uma camada que a avó acrescentava no entendimento da neta sobre como as coisas e a vida funcionavam.
Antes, Pólen até acreditava que sua família sempre esteve em Àttinos. Mas só chegando perto dos seis anos que a avó decidiu falar sobre sua antiga casa e família. Tardou mais ainda para contar como chegou àquele continente, no sul. E apenas quando começou a suspeitar que Pólen poderia ser a próxima Encantada, que revelou a parte mais obscura de seu passado.
Sem a neta notar, a matriarca abria cada porta no momento certo, deixando Pólen passar pelo próximo corredor para conectá-lo ao anterior. E foi nesse último em que teve o estalo: não eram apenas histórias; eram ensinamentos. Sua avó usava elas para preparar Pólen para uma possível passagem de bastão desde o começo.
Quando se deu conta, Pólen sentiu um primeiro baque de desilusão. Aquilo se misturou com a história sobre aceitação da morte que suas tias insistiam tanto. Depois, a vida pareceu se acinzentar cada vez mais.
O fato era que cada corredor até então tornava a sua vida mais complexa, com aquele sabor de curiosidade e empolgação. Depois, tudo que lhe causava era desgosto. Inclusive, quando olhava para trás, até os corredores pelos quais já tinha passado antes ganhavam esse mesmo retrogosto ruim, contaminado pelos demais. E, sinceramente, a garota morria de medo de precisar abrir uma próxima porta.
Queria ter permanecido apenas nas boas histórias, as primeiras que ouvira. Lembrava-se das descrições da primavera em Pitéria. Quando era mais mocinha, Pólen achava a história linda e cativante. Seu nome tinha um significado tão lindo. Depois virou algo… nebuloso, um gatilho ruim.
Antes, o pólen era a causa da vida na primavera. Era o sinal para as formigas saírem de casa para causar aquele movimento todo. Mas, no final das contas, Pólen se deu conta de que tudo aquilo acontecia para que os ouriços, ao fugirem das formigas, fossem caçados pelas harpias. Pois isso era vida de verdade. E não aquela história colorida e com cheiro de flores que sua avó contava.
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Quando Pólen empurrou a pesada porta de madeira do celeiro no fundo da fazenda, seu coração deu um pulo tão forte dentro do peito que parecia que tinha quebrado uma de suas costelas. Nunca antes havia visto algo como aquilo.
Cada canto, cada superfície, cada lugar possível dentro do celeiro estava rabiscado com um inciso gigantesco de runas. Não conseguia achar onde começava, muito menos onde acabava. Parecia um ciclo sem fim. Uma sequência tão detalhada e tão minuciosa. Deveria ter demorado meses para criar e escrever tudo aquilo.
Os poucos móveis e utensílios do antigo celeiro estavam amontoados num canto só para dar espaço a uma gaiola estranhamente grande no centro do local. Ela tinha barras de ferro preto que subiam e assumiam um formato de abóbada no topo. Ao lado dela, havia no chão vários lampiões antigos, alguns quebrados, outros amassados como se tatus gigantes tivessem rolado sobre eles.
Pólen caminhou para perto da gaiola a fim de examiná-la melhor. Então as frases aleatórias de runas que lia aqui e ali começaram a fazer um pouco mais de sentido.
— Uma armadilha pra seresma — ela comentou consigo mesma enquanto tocava com os dedos o ferro frio e repleto de runas da gaiola. Não apenas uma armadilha, refletiu. Era também uma cela, um cárcere.
Um arrepio subiu pela sua espinha vindo das pontas de seus pés até alcançar a nuca. Nunca antes estivera perto de uma magia como aquela. Ou deveria chamar de bruxaria?
Afastou-se da gaiola como se ela fosse um monstro horripilante ou um material que pudesse contaminá-la. Mas repreendeu dentro de si a vontade de sair imediatamente do celeiro. Atravessou para o outro lado do galpão de madeira com um nó na garganta, segurando dentro de si um misto de emoções e pensamentos tão escuros como as barras de ferro.
No fundo do celeiro, as ferramentas estavam amontoadas ao lado de uma fileira de feno prensado que parecia servir de mesa. Sobre as palhas havia vários papeis com anotações, vidros com seiva de pau-brasil e diversas canetas de runas desgastadas e algumas até quebradas.
Pólen pegou algumas folhas aleatórias para analisar e deparou-se com a grafia de… Eichler, pra variar.
A folha em mãos era a com escritas melhores organizadas — diferente das outras, repletas de rabiscos, setas e desenhos inteligíveis. Leu com atenção e percebeu que se tratava de uma receita para prender a seresma na gaiola. E também entendeu que toda aquela maracutaia era especificamente criada para atrair e aprisionar um ser como aquele. Onde Eichler descobriu isso tudo? De onde veio aquela receita? Seria possível que ele tivesse a capacidade de criá-la do zero, sozinho? Se não, como seria possível alguém em Àttinos ter acesso à uma magia como aquela, que beirava a bruxaria? Por que alguém em Àttinos saberia como prender uma seresma, um tipo de bruxa muito raro naquela região? Na verdade, seresmas viviam comumente mais ao norte, na fronteira do continente com as terras bárbaras, de onde viera sua avó.
Sua cabeça pendeu para o lado tamanho o peso que as dúvidas lhe causaram. Procurou outras folhas que dessem continuidade para a receita da maracutaia. Talvez tivesse alguma resposta por ali.
Chiano sentou-se num banco de pedra na parte de trás da cabana para esperar por Pólen. Depois dos últimos acontecimentos, preferiu deixar a garota um pouco só para que pudesse espairecer.
Nos fundos do terreno, uma horta se estendia abaixo de uma estrutura de madeira forrada com um tecido preto. A maioria das hortaliças estava seca e mirrada, mas, mesmo assim, o fantasma de Geraldo apareceu por ali, cutucando a terra. Parecia preocupado e decepcionado com a situação das plantas. O garoto se levantou e foi até o senhor. Parecia tão… vívido, sólido. Se não tivesse visto seu túmulo, jamais imaginaria que era apenas uma duplicata do que já foi dezenas de anos antes. Mas isso não deixava sua presença menos… fantasmagórica.
— Se preferir, eu posso ficar cuidando da horta — Chiano comentou com cautela, soltando o corpo para encostar numa das estacas de madeira ao redor das plantações. — O senhor parece… cansado. Já cuidou bem da gente. Não prefere ir… descansar?
O senhor tirou os olhos pequenos e trêmulos da terra para olhar com gentileza para o rapaz loiro. Deu um sorriso singelo e balançou a cabeça em negativa:
— Não, não, menino. Ayê, tenho que cuidar disso tudo eu mesmo até o menino Eichler voltar. Depois eu posso arriar as pernas um pouco.
— Tem certeza? — Chiano quis reforçar, mas tentando não ser incisivo demais para não afastar o fantasma. — Eu e Pólen podemos esperar ele chegar, não tem problema. A gente cuida de tudo aqui, pode confiar.
O velho parecia refletir.
— De horta eu sei cuidar! — Chiano se vangloriou. Aqueles pés secos seriam ainda mais fáceis de tratar, afinal, estavam mortos, mas só o garoto parecia ver isso. — E os animais, bem, eles fugiram, né? Prometo manter os cercados limpos para quando eles… voltarem.
Com certa resistência no olhar caído, o velho pareceu ceder. Relaxou o corpo, levantou-se e coçou a cabeça.
— É… — ele resmungou e sumiu após o piscar de olhos seguinte do garoto. Desejou que dessa vez o velho realmente não voltasse. Não tinha como não sentir pena daquela alma aprisionada por Eichler.
Quase imediatamente, um estrondo rompeu os ouvidos de Chiano até fazer seu coração engasgar. Era um berro metálico, como de várias carroças se batendo em um acidente. Teve um arrepio inicial de que seu pedido ao velho havia causado algo muito ruim nos arredores, mas bastou uma olhada para o outro lado do campo para perceber que muito provavelmente o som viera do celeiro.
Lembrando-se de Pólen, Chiano deu os primeiros passos da corrida ainda bambos sobre o gramado úmido para alcançar a garota. Contornou o celeiro para alcançar sua porta alta de madeira e arregalou os olhos quando se deparou com aquela vista:
Pólen, encharcada de suor desde a testa careca até o colo de seu peito, segurava uma lamparina que abrigava uma chama esverdeada e violenta. De alguma forma que Chiano não entendeu de cara, aquela chama verde se comportava igual ao ser revoltado dentro da gaiola de ferro fundido no centro do celeiro. Era ainda disforme, meio esfumaçada, mas seus movimentos eram idênticos aos da chama. Também urrava num misto de dor e raiva.
A garota encarou o garoto de forma assustada. Ela arfava, cansada. Fitou o rapaz e ordenou entre soluços por causa da falta de ar:
— Sai daqui! Vai pra longe! Só volta quando eu mandar!
Chiano ficou paralisado por um tempo, mas depois recuou, fez que sim com a cabeça e se afastou. Seu olhar oscilava entre a garota, a chama verde e aquela massa negra da gaiola que aos poucos assumia contornos humanoides. Quando já estava do lado de fora do celeiro e fechando a porta, lançou-lhe um último olhar sobre aquela massa fantasmagórica, que agora tinha a forma da seresma que havia os perseguido na floresta.
Sozinha no celeiro novamente, Pólen tirou atenção da porta e voltou-se para a seresma, que já não se revoltava entre as grades. As barras de ferro pareciam fazer sua pele arder ao toque. A bruxa ia se contendo aos poucos porque se movimentar ali dentro era pior. Foi juntando seu corpo para si mesma até voltar a ser uma mulher velha, alta e esguia; desta vez encolhida no centro da jaula para evitar o ferro.
— De onde ele te trouxe? — foi sua primeira pergunta para a seresma, que a fitou com dúvida, mas logo passou a entender do que a garota falava.
— Ela se foi? — a bruxa devolveu com outra pergunta, com outro assunto para desviar seu foco. Olhava diretamente para a cabeça da garota. Pólen engasgou com o questionamento. Não esperava que a bruxa entendesse o que estava se passando com ela apenas analisando-a. — Não está longe demais de casa pra alguém que estava perdendo sua Encantada?
Pólen decidiu não responder. Engoliu em seco e tentou normalizar sua respiração. Ainda precisava se recuperar do esforço que teve para acionar as runas que trouxeram a seresma de volta pra armadilha do celeiro. Ainda mais porque precisou utilizar dos resquícios de mágica deixados nos incisos, já que todo o seu poder havia decaído.
— Me diga como é não sentir uma gota de magia sequer correndo pelas suas veias — a seresma provocou.
Pólen apertou a alça da lamparina entre os dedos, com raiva.
Vazio, ela pensou. É um enorme vazio.
Se não fosse aquela bruxaria toda que Eichler já havia deixado preparada, jamais conseguiria acioná-la e invocar a seresma para lá novamente.
— De onde ele te trouxe? — a garota perguntou novamente, dessa vez mais incisiva para comunicar à seresma de que era ela quem estava na posição de exigir respostas. Mesmo que estivesse tremendo de horror internamente.
— Não gosto de conversar nessa posição — a seresma respondeu olhando ao redor, referindo-se à jaula. — Se me livrar, podemos conversar como duas madames.
— De onde ele te trouxe?
A seresma revirou os olhos pequenos e afundados nas rugas e virou de costas para a garota.
— Está diante da única pessoa a dezenas de milhares de quilômetros de distância que é capaz de transformá-la numa feiticeira novamente, e você insiste em saber sobre minhas origens?
— Não tenho interesse em virar uma bruxa — Pólen retrucou. Jamais deixaria que uma seresma tocasse em seu espírito para recuperar sua magia ou seja lá para quê.
Encarar a seresma inevitavelmente dava calafrios em Pólen. Parecia que a bruxa poderia, a qualquer momento, cortar as grades da gaiola como se fossem papel com suas unhas enormes e partir para cima da garota. Mas tentava se concentrar no fato de ela estar aprisionada pela magia mais densa que já tinha visto na vida.
— Vocês enchem a boca para dizer que somos isso, que somos aquilo — a seresma voltou a encará-la. Sua forma mudava aos poucos, diminuindo e ficando ereta até parecer-se com uma idosa comum, menos cadavérica e assombrosa. — Nos colocam em caixas pra destilar sua superioridade moral. Arrogantes. Mas, na verdade, só estão se limitando. Somos mágicos e nossos poderes têm capacidades incríveis. Seu amiguinho sabia muito bem disso.
A última frase da seresma veio acompanhada de um sorriso maldoso, mesmo com sua forma sendo mais amistosa agora. A respiração de Pólen travou por um tempo. Não porque a seresma a provocava, mas porque aparentemente dizia a verdade. O celeiro onde estavam era uma prova mais que concreta sobre aquilo.
Enquanto isso, os panos pretos que cobriam o antigo corpo esguio da bruxa se “reconstruíram” até voltarem a ser um vestido cinza na altura do joelho e um xale amarelado. Óculos pequenos e arredondados surgiram sobre os pequenos e fundos olhos castanhos. Já os cabelos brancos e finos ficaram mais ordenados e enrolaram-se num coque alto preso com grampos. Sua pele ficou mais corada, dando um aspecto de uma vovózinha de novela.
— Ele me trouxe para cá justamente porque sabia disso — a idosa olhou ao redor. — Eu poderia ficar muito revoltada e ofendida por um moleque me aprisionar assim. Mas só fiquei admirada por um pivete de outro continente ter me rastreado e trazido até aqui.
A seresma ajeitou o xale sobre os ombros e continuou:
— Sabe o porquê da minha admiração?
Pólen não respondeu, apenas fez que não com a cabeça.
— Porque um feiticeiro, como vocês se chamam, mesmo sendo uma criança, soube usar a magia da maneira correta. Da maneira que têm que ser.
A respiração pesada e desregulada de Pólen ganhou forma bem abaixo dos seus olhos quando notou que o ar que saía dela se condensava em vapor. Foi assim que percebeu que o ambiente do celeiro estava estranhamente ficando mais frio aos poucos.
— Ainda mais por conseguir trazer só meu espírito e deixar meu corpo material lá no meu pântano. Uma jogada até que ardilosa, sabia? Mas sabe o engraçado? Eu faria exatamente o mesmo. Um ótimo caminho para manter uma refém.
Mesmo com as falas absurdas, a seresma contava com muita calma e paciência. Ia ficando cada vez mais dócil. Pólen chegou a ver um deslumbre de sua avó contando-a um causo qualquer — teve até que cerrar os olhos e balançar a cabeça para afastar aquela imagem mental. Quando abriu os olhos novamente, notou que crescia nas grades da gaiola pequenos cristais de gelo com um leve contorno roxo. O mesmo tipo de cristal também surgia abaixo da gaiola, no chão, expandindo-se em forma circular no sentido contrário da seresma.
Pólen deu um passo para trás para não ser tocada pelo gelo cristalizado, mas podia sentir seu frio em todo o corpo. Sua pele arrepiou-se e teve a impressão que a idosa usaria do frio para quebrar o ferro da gaiola, mas o alvo parecia ser mesmo a própria garota. Num gesto rápido, chacoalhou a lamparina violentamente para que a chama dentro dela balançasse e fizesse a seresma repetir involuntariamente aqueles movimentos dentro da gaiola.
Os óculos da idosa voaram longe e sumiram no ar enquanto ela ia de um lado para o outro e, quando tocada nas grades, chiava de dor como se estivesse relando em um ácido. O xale amarelo enroscou no seu rosto, o que poupou Pólen de ver a cara agonizando de dor daquela que aparentava ser uma senhora tão simpática.
— Garota ridícula! — a senhora xingou quando finalmente seu corpo parou de oscilar. Ela se recompôs com dificuldade, arrumou a xale nos ombros e tentou alinhar os cabelos desgrenhados. Mas, quando deu por si, estava rindo sozinha. — Ai, ai. Já que não me livro daqui a força, vamos por outra abordagem.
Pólen ficou em dúvida. Queria retrucar, mas a seresma disse mais rápido:
— Sabia que só me prende aqui por causa da magia do rapazinho, né? Se fosse por você, já estaria reduzida a cinzas. Eu não conseguiria nem mesmo usar você em ritual algum. Seu corpo agora vale a mesma coisa da escória daqueles animais à nossa imagem que vivem naquele outro mundo chinfrim. É apenas carne, osso e burrice.
— Cale a boca — foi tudo que a raivosa garota conseguiu responder.
— Mas calma, mocinha. Podemos mudar isso… Estou aqui para ajudar, não se engane. Na verdade, nós duas podemos nos ajudar, sabe muito bem disso.
— Você só pode me ajudar com algumas respostas, nada mais.
— Tudo bem, então vamos lá: faça perguntas. O que eu souber, respondo de bom grado para mostrar que não estou aqui para brigar. Eu quero apenas ir embora desse continente chechelento, apenas isso e só.
— Os portais. Ele usou para te trazer? — Pólen pediu.
— Sim. Até onde sei, abriu vários pra conseguir. E é exatamente por esse mesmo que preciso atravessar para chegar ao meu corpo. Nenhum outro.
— Então por que ainda não foi?
— Porque só quem me trouxe pode me levar embora. Não disse que o rapazinho era ardiloso? — a seresma bufou de desprazer, mas tinha ainda um sorriso de canto de boca. Não conseguia deixar de admirar as artimanhas de Eichler.
Pólen apertou com a outra mão a urna em miniatura amarrada em seu tiracolo.
— E porque ele trouxe você até aqui?
A idosa suspirou e, com dificuldade, sentou-se no chão frio da gaiola.
— Eu não sei.
Pólen não sabia se acreditava ou não. Ela poderia estar mentindo, mas era até difícil duvidar daquela senhora simpática.
— Eu não sei qual era o objetivo final. Mas ele me havia feito um pedido.
— Qual? — a garota pediu com sede de verdade.
— Ora, Pólen — a garota não se lembrava de ter dito seu nome para a idosa em momento algum -, acho que podemos conversar sem essa situação humilhante, não é? Essa gaiola me causa muito mais dor do que estou aparentando sentir, acredite. Podemos ter uma conversa civilizada, sem problemas. Te conto tudo que precisar, eu já disse.
A garota engoliu em seco e fechou os olhos para se concentrar. Se sua magia não tivesse decaído tanto, saberia dizer se a seresma estava persuadindo-a com cantalíngua disfarçada entre suas falas. Por precaução, decidiu não hesitar. De qualquer forma, se dentro da gaiola a bruxa já tentou machucá-la, imagina fora dela.
Percebendo que a garota não cairia naquele truque, a seresma preferiu entregar mais:
— Ele queria que eu repartisse a alma dele em duas.
Pólen sentiu seu corpo amolecer com a revelação. Aquilo era… bruxaria pura. Estava tão desnorteada que não conseguiu formular um simples “por que?” com a boca, mas a seresma presumiu a dúvida e continuou:
— Não me pergunte por quê. Não consigo nem lhe dizer o uso prático disso — a idosa respondeu enquanto tudo que se passava na cabeça de Pólen era a doença terminal do amigo. Será que essa bruxaria o salvaria de alguma forma? Talvez o curando ou… adiando sua morte. — Mas eu ia fazer. Só precisava do meu fiel Escudeiro para conseguir.
Pólen lembrou-se da sombra que acompanhava a seresma na floresta.
— Eu orientei o rapaz para conseguir evocá-lo usando seus portais, mas haviam muitos portais mortos pela região. Acabou que deu certo, mas não sabíamos por qual portal o Escudeiro tinha alcançado para chegar até o continente. Sabe, ele é um ser um tanto… selvagem. Longe de mim, era um perigo. O rapaz partiu para encontrá-lo e nunca mais voltou.
Eicher teria morrido tentando trazer o tal Escudeiro de volta para a fazenda? A queda da árvore… poderia ter sido causada por aquele monstro? E também tinha os animais da fazenda… que também eram midalms, assim como Eichler aparentemente queria se tornar. Será que os sacrificariam em rituais de bruxaria? Pólen não conseguia fazer as ligações entre as coisas. Sua cabeça começou a latejar de dor.
— Consegui atrair o Escudeiro pra cá dias atrás para me soltar, mas ele destruiu tudo — a seresma continuou. — Só consegui contê-lo há pouco tempo. Fiquei esperando o rapaz voltar, mas nada…
— Seu monstro matou Eichler? — Pólen conseguiu verbalizar novamente.
— Não, não. Ele se alimentou de feiticeiros nos últimos dias porque estava faminto, mas eu não senti a alma do rapaz dentro dele. Sei muito bem onde está.
A idosa encarava a urna junto ao corpo de Pólen, que afastou a miniatura do seu campo de visão.
— Escudeiro sabe que precisamos do rapaz para voltar para casa. Na verdade, de seus restos mortais, já que o rapazinho fez questão de morrer antes de nos tirar daqui. Por isso, Pólen, peço que me livre dessa jaula ridícula, me entregue as cinzas e nunca mais nos veremos depois de eu atravessar o portal ao lado do farol. Eu juro. Antes disso, posso até ajudá-la…
Se eu estivesse presa em uma jaula como essa, Pólen refletiu, também faria a mansinha pra me ver livre. Mas havia ainda um último limitante ao redor da bruxa.
— Na floresta, você não avançou para roubar a urna da gente. Não consegue tomar as cinzas de mim, não é? — a garota fez a última pergunta que precisava.
— Não — a idosa suspirou e respondeu. — O rapaz estava envolto de proteção até o último fio de cabelo para conseguir lidar comigo. Não posso tomá-lo de você. Por isso, peço encarecidamente que me entregue as cinzas. E nunca mais nos veremos. Juro.
— Eu não vou entregar Eichler — Pólen respondeu com amargura.
— Ah, garota. Posso fazer com que me ofereça. Cinzas pela sua magia de volta parece ser uma troca justa, não?
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— Isso, por aqui — Amélie sussurrou sabe-se lá de onde para Chiano seguir pelo caminho indicado.
O garoto não sabia se a voz era real, se era uma ilusão, um deslumbre lunático ou algo construído pela sua própria mente. Mas não importava. A seguia mesmo assim. Era o único indício (quase) sólido de sua namorada em dias e mais dias de busca.
O rapaz se esgueirava pela mata na borda da clareira da fazenda. Mais alguns passos chegaria na cerca de pedra com as runas inscritas.
— Já está chegando — Amélie continuou e ele manteve os passos rasteiros.
— Para! — ela ordenou num alarde repentino e o rapaz obedeceu, assustado. — Fique aí.
Chiano ficou imóvel. Sabia que ela pediu apenas para ele parar de se aproximar, mas, por precaução, ficou totalmente parado. Os únicos movimentos de seu corpo vinham do peito que tentava conter o coração acelerado e dos braços trêmulos.
O garoto tentou focar a visão por entre as árvores para procurar pela garota, mas tudo que via eram sombras da própria mata. Analisava o contorno de cada uma delas para procurar qualquer contorno de Amélie. Tudo que havia era sua voz:
— Ele me disse que se me trouxer as cinzas de Eichler — soou como um sussurro trêmulo -, vai me deixar voltar pra casa.
O irônico era que, se aquele pedido viesse dias antes, talvez no primeiro da jornada com os amigos de Eichler para seguirem seus passos, Chiano obedeceria com toda certeza. Até mesmo lutaria com Breno e Pólen para roubar a urna e entregar para a seja lá quem fosse para ter a namorada de volta. Dane-se o luto e as respostas que procuravam. Naquele momento, seria exatamente esse o comportamento que as pessoas esperavam dele.
— Não posso — ele respondeu, ríspido. Achou que sua voz sairia hesitante, mas veio mais firme e decidida. Amélie não respondeu de imediato e o rapaz temeu seu retorno, como se tivesse respondido de forma atravessada a sua mãe furiosa.
Aguardou, com razão, a lapada. Só que não veio como esperava — uma resposta raivosa ou ameaçadora, mesmo que uma ameaça emocional, da voz da namorada. O que se viu foi as sombras se remexerem e em menos de um segundo se transformarem numa massa escura com longos braços e lâminas de pura cor preta.
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