Por Onde Andou Eichler?
4 A cantiga fantasma
Os adultos dizem ter dificuldade de lembrar o que conversavam com os amigos quando eram jovens. Tentam resgatar da memória e veem lampejos de uma vida nada agitada, mas com muito o que falar e compartilhar — mesmo que um tédio moroso fosse muito comum no dia a dia. Mas talvez fosse esse o segredo: os jovens sempre estavam dispostos a fazer algo juntos, mesmo se fosse para fazer nada juntos.
E a Malta sempre tinha algum plano.
Se enfiar num mato, caminhar indefinidamente até (talvez) encontrar uma praia pra montar uma fogueira e fazer um churrasco improvisado. Tinha papo pro caminho todo. O caminho, inclusive, era um dos momentos favoritos pra Pólen. Misturando a empolgação de estar rumando pra um lugar legal com conversas enquanto pedalavam pra periferia, ou faziam uma trilha pela mata, ou remavam de skate, ou pegavam um bonde pra longe…
E quando chegavam no destino, o assunto não acabava, só melhorava, porque se somava com o êxtase de estarem finalmente cumprindo com o planejado para aquele dia.
A Malta se reunia no parquinho da praça Birarema — o ponto médio entre as casas de todos eles — e fazia a clássica vaquinha. Tiravam tudo que tinham dos bolsos e bolsas pra ver quanta grana somavam. Depois passavam na mercearia e açougue pra comprar carnes, pães, farofa e guaraná de rolha. Enfiavam tudo nas mochilas e remavam até a periferia de Àttinos.
Pólen adorava pegar uma rua qualquer e seguir até ver a cidade indo embora pelas suas costas. Mas amava principalmente dar uma volta de skate. Inclusive, ela e Eichler tinham um fascínio em comum: encontrar a Pista de Skate Perdida. Ela aparecia em lugares aleatórios na periferia da cidade. Cada dia estava em um local diferente e era um pouco difícil de achar, por isso a empolgação de quando ouviam falar dela. Sua única pista era um sino fraco que soava apenas algumas badaladas logo nas primeiras horas do dia. Era só seguir o som e pronto, lá estava a melhor e maior pista de skate da cidade.
Breno era um pouco mais caseiro, mas também curtia as aventuras lá de fora. Aprendeu a gostar de mato andando com o pessoal. Seu rolê favorito era jogar bets no campinho abandonado antes da pinguela. Costumavam ir lá quando não tavam afim de cair pra muito longe, ou quando algum deles precisava voltar cedo pra casa.
Ficar em casa também agradava o menino. Em dias chuvosos, saíam da escola e passavam pela locadora para escolher alguns filmes. Pegavam duas fitas, iam para casa de alguns deles e de pronto feito preparavam pipoca e brigadeiro.
Já Julian gostava de acampar. Seu pai tinha vários cacarecos de acampamento e ele levava para o pessoal compartilhar. Nem todos curtiam dormir no mato, mas a Malta toda topava às vezes, principalmente no começo e fim de férias. Julian adorava acender uma fogueira e ficar contando causos ao redor dela até caírem no sono. Principalmente para contar lendas de terror sobre os seres das florestas.
Valen amava água. Lago, cachoeira, rio, mar… Quando tavam no mato e ouviam som de água por perto, a garota seguia até conseguir dar um mergulho, eram sempre paradas obrigatórias.
Eichler topava tudo. Sempre ouvia as sugestões com muita empolgação e já acrescentava algumas ideias. Mas se era sua vez de escolher, sugeria algo que envolvesse longas caminhadas.
O pessoal da Malta se reunia todas às sextas-feiras depois da aula e domingos de manhã. Tinham muitas coisas que gostavam de fazer e outras inventavam na hora. Seguiam o que tavam com vontade, como Eichler gostava de dizer: o que tão a fim de fazer aqui, e agora. Mas, independente de onde iriam e o que fariam, sempre tinham uma boa e longa conversa com um vento na cara.
Em diversas vezes eles se metiam em umas enrascadas. Como quando Eichler invadiu a fazenda de pinguins de um idoso recluso e ficou refém do velho. Ou quando Valen teve um episódio de sonambulismo no acampamento e acordou a quilômetros da fogueira — ficaram um dia todo procurando por ela.
Até Breno, o escoteiro da turma, já tinha se enganado e feito todos se perderem no topo de uma montanha ao pegarem a Trilha do Tonto, um caminho de bromélias-de-limão, que exalava um odor que confunde totalmente o senso de direção e dava coceira na sola do pé.
Pólen também não ficou para trás: uma vez ela atiçou o Errante da Fogueira e o fez persegui-los durante quase dois dias. Sempre que ver uma fogueira acesa no meio da mata, fuja. Pode ser o Errante, um espírito de Àttinos que faz de tudo para manter sua chama acesa durante as noites. Pode até usar você mesmo como combustível.
Entre essas e outras desventuras, a Malta sempre dava um jeito de se livrar dos enroscos e transformar em boas histórias para contar por aí. Breno estava torcendo para aquele ser apenas mais um imprevisto que pudesse rir depois. Mas, naquele momento, estava desesperado.
— Foi você que explodiu aquilo? — soltou uma das várias perguntas que queria fazer ao garoto desconhecido. Breno tinha o rosto suado, sujo de terra. Ainda estava tentando recuperar o fôlego e a calma após o susto. De imediato, queria conferir apenas se aquele estranho era, sei lá, um inimigo ou alguém que o faria mal.
Apesar de que qualquer estranho que encontrasse no meio de uma floresta não seria um sinal muito bom. Na verdade, podia nem ser uma pessoa, mas sim um delírio causado por uma toxina que Breno tocou na queda, ou um alegrete perdido em busca de alguém para pregar uma peça com truques de ilusão.
Írios ficou alguns segundos encarando Breno de perto. Antes de processar sua pergunta e pensar numa resposta, ficou notando como sua pele lívida era sedosa e parecia ser macia. E enfim reagiu fazendo apenas que não com a cabeça. Esse foi o movimento final para o líquen agarrá-lo pela nuca e puxá-lo contra o tronco. Pronto, os rostos dos garotos estavam lado a lado, colados pelas bochechas.
— Droga! — Breno resmungou entregando-se ao fardo do seu destino. Írios voltou a se remexer para se livrar da cola verde que tomava conta de toda a região das costas. — Para com isso, ayê, mano. Só vai piorar.
O garoto obedeceu e ficou preocupado com a fala do outro:
— O que é ayê? — Írios fez a pergunta genuinamente. Talvez fosse alguma outra dica sobre como lidar com o líquen, não sabia. Não sabia de absolutamente nada e aquilo o deixava ainda mais acuado e sem reação para aquela situação.
— Ayê? — Breno devolveu a pergunta surpreso com a dúvida, como se fosse algo muito óbvio. Foi a partir dali que começou a ficar mais irritado — Ayê é ayê, ué. Ayê.
— Ah, ok — Írios resmungou sem entender a resposta, mas preferiu fingir costume para não irritar ainda mais o seu novo parceiro de armadilha de líquen.
Até então a floresta estava um silêncio completo. Alguns grilos cantavam aqui e ali, mas esporadicamente. Depois da explosão, os micos saíram em disparada de galho em galho para se afastar ainda mais da região. A conversa entroncada dos dois garotos chegava quase a fazer eco entre os troncos de árvore ao redor.
— Você tava vigiando a gente? — o garoto pálido perguntou finalmente o que queria. Pessoas não brotavam no meio das florestas assim, do nada. Se aquele menino estranho estava ali, era por algum motivo que muito provavelmente teria a ver com seus amigos em volta da fogueira. Se fosse um transeunte, estaria de bicicleta, e não tão longe da trilha. Muito suspeito.
Mas o fato mais intrigante para Breno era que nunca tinha visto aquele menino magricela e de cabelos cacheados antes. Em Àttinos, todo mundo se conhecia pelo menos de vista, até quem morava na beira da periferia. Mas aquele rosto colado ao de Breno era totalmente novidade para ele.
O seu corte de cabelo era muito diferente, inclusive, não conhecia ninguém que já tivesse usado. Era praticamente raspado dos lados, e apenas nos lados. Em cima, os cabelos que se enrolavam em cachos largos e pouco definidos davam uma sensação de bagunça. Será que ele começou a raspar o cabelo e teve que sair correndo para atender ao telefone, algo assim? Só alguma interrupção para explicar o corte de cabelo pela metade. Deveria estar com a cabeça toda raspada, igual ao corte de Breno — que na verdade já estava crescendo um pouco. Os fios lisos e pretos como carvão já estavam em um ou dois centímetros e já escondiam bem a pele de sua cabeça.
— Eu? — o estrangeiro esperou um pouco para continuar. Ter alguém falando tão próximo dele era esquisito. A vibração da voz rachada de Breno — que oscilava entre grave e aguda numa mesma frase — saía do corpo dele e, pelo contato, se expandia no corpo de Írios. — Talvez.
A mente de Breno viu suas reflexões sobre corte de cabelo esmaecerem nas ideias assim que o outro garoto decidiu respondê-lo e confessar sua indiscrição.
— Ayê. Seu esquisito — precisou se expressar sobre aquele fato. Aos poucos, a adrenalina do susto ia passando. Tinha ficado atento ao caminho de onde vieram para conferir se mais alguma explosão aconteceria, mas o breu havia tomado conta daquela região. — Merda, tô preso com um estranho esquisito. Pólen! Pólen! Me ajuda! Ajuda!
Na sua última olhadela para a direção da fogueira, lembrou-se da garota. Gritou-a em plenos pulmões na esperança que ela ainda estivesse por ali, mas era muito provável que Pólen tivesse metido o pé rápido e sem nem olhar para trás. Quando queria, conseguia ser mais ágil que um mosquito. Breno esperou por uma resposta dela, mas apenas um som estranho ecoou por entre os troncos.
— O que é isso? — Írios rebelou em completo espanto e o outro garoto sentiu seu calafrio no toque de seus corpos. Breno não conseguiu deixar de rir um pouco do pavor que o desconhecido sentiu com aquele barulho.
Era uma melancolia que soava distante. Com agudos isolados e divididos em intervalos misteriosos a cada sibilo. Ora pareciam assobios arrastados, depois gritos tardios de alguém que já estava padecendo sem energia. Dava para entender algo como um lamento de alguém que se afogava numa tristeza que nem lágrimas dão conta mais.
O arrepio que Írios sentiu não foi atoa. Nunca tinha ouvido o canto de um urutau de perto. Breno conhecia bem a ave, já até tinha flagrado uma em outra floresta da cidade durante um acampamento. Lembrava-se nitidamente do momento porque era um animal difícil de ver. Sua plumagem marrom acinzentada se mesclava com os troncos das árvores, principalmente quando o urutau repousava sobre seu esconderijo favorito: pontas de galhos secos fincados no chão.
Apesar de ter achado graça da reação do desconhecido, Breno o entendeu. O canto do urutau era algo fantasmagórico e despertava na espinha um calafrio de quem está perto do perigo. Não era em vão que seus pios eram repletos de lendas, algumas inclusive conhecidas até por Írios.
— É um urutau, um pássaro — Breno contou depois de começar a ficar com pena do medroso ao lado.
O estrangeiro já havia lido anos atrás um conto que citava o urutau. Era algo sobre uma mãe desesperançosa que abandonou seu filho pequeno numa floresta. A criança então sucumbiu perdida na mata, mas nunca deixou de gritar e chamar pela mãe. Írios não imaginava que seu canto fosse tão afetado daquela forma.
Breno conhecia lendas diferentes. Sabia que Julian já havia contado alguma coisa sobre o pássaro na beira de uma fogueira. Talvez algo a ver com uma moça que se apaixonou por um cara. Eles se encontravam na floresta toda noite e um dia ele não apareceu porque os pais proibiam o romance. Então, na iminência da vida sem o rapaz, a moça se entregou para a floresta, virou um pássaro e toda noite cantava lamentando a perda de seu primeiro grande amor.
Quando lembrou-se da história, Breno engoliu a seco. Não poderia ser uma coincidência um urutau cantar para ele justamente naquele dia.
— O canto dá medo mesmo — Írios refletiu tentando se convencer a parar de sentir medo. O som não era o que ele imaginava, enfim.
— É apavorante — Breno não conseguiu deixar de concordar. Mas queria afastar aquela cantiga fantasma da mente, então concentrou-se na parte prática da coisa: — Como eu saio daqui?
Parecia que estava falando consigo mesmo, então Írios não se intrometeu — apesar de estar se fazendo o mesmo questionamento. Além do desconforto e medo que o líquen causava em seu corpo, a vergonha e humilhação de estar entrelaçado com o rapaz que ele seguia há dois dias era de queimar a cara.
— Minha bolsa caiu. Minha adaga tá lá — Breno continuou refletindo, desiludido. Se ainda estivesse armado, pelo menos poderia dar um sossega leão no menino estranho para se sentir mais seguro.
— Ah, eu tenho uma adaga no bolso — Írios lembrou-se e seus olhos brilharam de esperança. — Consegue pegar?
— Qual bolso? — preferiu conferir enquanto checava a situação da sua mão presa pelo líquen.
— Direito, do lado perto de você.
— Acho que consigo — seu braço estava preso entre o tronco e o corpo do garoto estranho, mas as costas da mão estavam grudadas na madeira. Como seu pulso ainda estava levemente solto, conseguiu, com muita dificuldade, tatear a coxa de Írios em busca do seu bolso. Se conseguisse virar o rosto para enxergar o que estava fazendo, talvez tivesse sucesso. As pontas de seus dedos dançaram para tentar alcançar algo, mas só conseguiram tatear em Írios o que não deveriam.
— Ei, cuidado — ele reclamou após o toque invasivo.
— Foi mal — o rosto pálido de Breno corou instantaneamente. Aquilo estava ficando mais humilhante a cada segundo. — Cara, não vou conseguir. Só consigo mexer os dedos, o pulso não dobra pra entrar no seu bolso.
— Droga — Írios retrucou. Estava confiante de que sua adaga velha seria útil para alguma coisa.
— Merda, cê não viu o líquen aqui? — a raiva assumiu Breno novamente. Era difícil se conformar com a situação. Logo ele, um escoteiro que conhecia tanto das tramóias das matas, estava preso num líquen. Seu raciocínio conseguia apenas recriminar o outro garoto, então. — Você é burro? Vão me zoar pra sempre se souberem que fiquei preso em líquen.
— Desculpa? — o estrangeiro pediu desajeitadamente. — Juro que não conto pra ninguém.
Írios queria dizer que não tinha amigos para contar sobre aquilo para tranquilizar Breno, mas hesitou porque seria vergonhoso demais verbalizar esse assunto. Muito provavelmente escreveria sobre para Bernardo, mas dava na mesma.
— Ei, espera — o rosto de Breno foi invadido por esperança novamente. — Alheia sua adaga. Talvez eu consiga pegar daí.
— Alheia? Que isso? — pediu, confuso.
— É, alheia. Se alhear a adaga pra ela virar espada eu consigo pegar ou ela sobe no bolso — novamente Breno veio com um conceito esquisito para Írios como se fosse a coisa mais cotidiana do mundo.
— Não sei fazer isso — Írios não conseguiu sair pela tangente da situação, então preferiu ser sincero.
— Também não consigo sempre — Breno murchou suas expectativas. — Mas, pera, você não sabe o que é alhear?
— Não.
— Meus deuses, a gente vai ficar preso aqui por horas! — já era tempo de aceitar a derrota.
— Sua bolsa caiu por aqui? — Írios estava pensando em uma alternativa.
— Sim.
— Então conjura a sua adaga! A sua mão tá livre, não tá?
— Ah… Melhor não — o garoto pálido encolheu de vergonha. — Não sei chamar minha adaga pra mim.
— Ah, tudo bem — Írios apenas aceitou o fato. Talvez fosse a primeira pessoa a não zombar de Breno por não conseguir fazer algo tão simples como fazer a própria arma voltar para a própria mão.. — Eu posso tentar?
— Minha adaga não vai te obedecer — Breno resmungou com ciúmes de sua adaga. -. E outra: se a gente tentar, pode dar ruim… Imagina se ela volta com a lâmina apontada pra gente. Dessa vez não vai ser minha mão que vai acertar seu… Acertar você.
— Melhor não, então.
— Melhor não — concordou.
Breno respirou fundo e olhou para o céu para ver se a posição de uma lua lhe entregava as horas. E o que viu lá no alto não foi de seu agrado:
— Droga. Têm uma pinha caindo. E vai bater na gente.
— Que têm isso? — Írios tinha mais dificuldade de apontar a cabeça e os olhos para cima, mas ainda conseguia enxergar algo na visão periférica. — Ela tá devagar, não vai machucar.
— Mas é uma pinha de araucária, cara — e lá veio Breno com mais uma coisa que deveria ser óbvia.
— Que que tem?
— Que que tem que é uma pinha, oxe… Ah, ok. Tá. Mano, que desgraça. Que que tem que pinha e semente de araucária são soníferas. Se bater na gente, vamos apagar e acordar sei lá quando.
— Ah, entendi. É. Que merda. Ela tá chegando.
— Oxe, oxe. Cê é o que? A droga de um humano? Nunca vi isso.
— Quase isso — Írios contou, mas não deu tempo de Breno questionar. Algumas sementes tocaram-lhe nos rostos e os dois garotos apagaram instantaneamente.
—
27 de Junho de 2012.
Querido Bernardo,
[...]
Tinha uns dias que, durante o intervalo, você me pegava pra Cristo e pedia pra ficar contando histórias e curiosidades sobre os feiticeiros. Lembro que na maioria das vezes você se decepcionava e eu te zoava deixando claro que nem tudo seria como nos filmes que você assistia. Afinal, nem eu conhecia muito sobre, né.
Esses dias aconteceu algo por aqui que me lembrou desses momentos.
Finalmente fui levar minha varinha para consertar e revivi uma situação engraçada, típica de um moleque que cresceu no Outro Lado. Queria que você acompanhasse meu raciocínio de quando fui comprar minha primeira varinha.
Lendo isso, construa na sua cabeça o que imagina ser uma loja de varinhas. Eu, particularmente, tinha grandes expectativas, né? Afinal, a maioria dos feiticeiros — e até bruxos — têm uma varinha e a carrega para a vida toda, é algo importante para conseguirmos enfeitiçar uma bobagem ou outra.
Enfim, de volta à experiência: eu pensava que varinharias seriam lugares que exalavam magias e maracutaias. Encantadores, brilhantes, cheios de objetos curiosos…
Mas, pensa comigo: humanos usam sapatos todos os dias e durante toda a vida. Então os sapateiros também deveriam ser especiais? É a mesma lógica. Uma loja de varinhas tem a exata mesma energia de uma sapataria, inclusive. Por isso lembrei desse exemplo, haha.
Fui na varinharia mais perto da casa dos meus tios. Agora que liberei a conquista da bike, vou com ela pra todo lado e vivo arranjando desculpas para sair de casa.
A varinharia era uma porta do lado de uma casa bem humilde onde morava o sapateiro, Seu Arlindo. Nem estava aberta quando cheguei, mas ele viu minha movimentação lá de dentro e fez a porta se levantar. Olhei lá dentro e relembrei da primeira vez que fui em uma daquelas.
Foi a mamãe que me levou para comprar minha primeira varinha. Eu vinha muito pouco para cá naquela idade e achava tudo ainda mais fantástico do que já era. Naquela vez foi mais frustrante porque, como eu disse, a varinharia parecia uma sapataria, era nada demais. Mas entendi algo importante: a magia é inusitada, a magia não é magia onde você espera, por isso ela é fantástica.
A varinharia do Seu Arlindo era um cômodo pequeno e entochado de cacareco. Um muquifo, pra falar a verdade. Havia uma bancada no lado oposto da entrada de fora a fora coberta de ferramentas e mais ferramentas (que deveriam estar penduradas nas plataformas da parede, mas pareciam não voltar para lá há décadas). No cantinho do balcão, havia uma garrafa de café.
Já percebeu que todo estabelecimento tem uma garrafa de café? Adoro essa hospitalidade em forma de café.
O chão estava todo manchado com tintas e mais tintas coloridas, mas apagadas por pegadas de terra vermelha. Nos cantos, tocos de madeiras, mais ferramentas, peças de couro e muitos jarros com coisas brilhantes dentro que eu acho serem plasma, os “recheios” das varinhas.
Seu Arlindo sorriu com sua boca banguela pra mim e pediu pra entrar. Ofereceu café, óbvio, e eu aceitei.
— O que passou aqui, menino? — ele perguntou encucado enquanto analisava minha varinha toda rachada e partida ao meio.
— Fui atropelado por uma charrete — respondi com vergonha. Nunca mais guardo a varinha no bolso de trás da calça, mas é que eu não imaginava que minha bunda seca fosse capaz de quebrar algo.
Não pratico duelo e não sou um bom encantador. Minha varinha servia basicamente para trazer objetos até mim quando tou com preguiça de levantar. Mas agora que estou em Àttinos, preciso ter uma varinha que funcione e que seja capaz de encantar minhas armas.
Não confio naquele bicho que diz ser uma coala lá no fundo do quintal. Preciso estar preparado.
Essa visita ao Seu Arlindo foi a coisa mais movimentada dos últimos dias pra você ter uma ideia. Perdão não conseguir compartilhar aventuras mágicas e mirabolantes com você. Juro que se eu achar um dragão por aí, subo nele e vou dar um rolê por aí.
Brincadeira — dragões não existem, até onde eu sei.
Estou começando a sentir saudades de você.
Mas se tiver rido ou feito alguma piada sobre minha varinha enquanto lia a carta, retire o que eu disse na frase de cima.
Com carinho,
Írios.
—
Írios acordou com a boca rançosa e cheia de saliva espessa e velha. A cabeça estava pesada, o pescoço e a lombar doendo. Mesmo com as últimas horas de sono no colchão macio de seu quarto.
Enrolou um tempo na cama e meio que custou a tomar consciência da vida e das coisas ao seu redor. Uma fogueira no meio da floresta de araucárias gigantes rodeada por quatro adolescentes que ele vinha seguindo nos últimos dias parecia uma memória distante, quase afogada no seu subconsciente.
Como se fossem aqueles resquícios de sonhos que se têm de imediato ao acordar e vão se acinzentando no decorrer do dia até virarem pequenas faíscas de deja vú meses e anos depois.
Mas conforme a sua mente foi clareando, percebia que aquilo tudo foi real. Retomou consciência de seu corpo vagarosamente. As solas do pé doíam e as batatas da perna latejavam por causa da corrida desesperada que teve que fazer para se afastar dos clarões púrpura, turquesa e narciso.
Sentou na cama e esfregou o rosto. O vidro que revestia todo o teto de seu quarto antes estava escuro e opaco, mas se clareou e voltou a ficar translúcido assim que o garoto se deu conta de que estava acordado de verdade.
Chuviscava de leve e as gotas caíam sobre o material transparente e escorriam até a beirada. As copas das árvores do quintal se remexiam acima da casa e perto das janelas fazendo-o remontar ainda mais as cenas da noite anterior.
Foram as gotas dessa mesma chuva que o acordaram na floresta de araucárias gigantes. Abriu os olhos assustados e sentiu já no toque da pele que o líquen estava amolecido e toda aquela textura pegajosa já se desmanchava.
Breno e sua bolsa não estavam mais por lá. Írios sentiu raiva por ele tê-lo deixado para trás. Poderia ter pelo menos o acordado para tentar sair dali. Cambaleou para longe da araucária e voltou para a trilha até alcançar sua bicicleta.
Os sóis subiam tímidos por trás das nuvens de chuva. Com sorte, o garoto chegou de volta em casa antes dos tios acordarem.
Mas estava seguro em casa novamente e levemente descansado depois de umas horas de cama. Desceu para o térreo e encontrou a mesa do café da manhã ainda posta, mas vazia de gente. Seus tios já deviam ter saído para trabalhar.
Estava se servindo de pão de centeio com geléia de amoras do quintal quando um objeto intruso sobre a toalha quadriculada chamou sua atenção: “Adolescente desaparece na floresta de araucárias” dizia a manchete do jornal do dia. Ele rapidamente alcançou o amontoado de folhas acinzentadas dobradas e correu com os olhos sobre a notícia de capa. E era aquilo mesmo.
Amélie Starro, adolescente de quinze anos, havia sido vista pela última vez por sua mãe saindo do quintal de casa e indo para a floresta que dava nos fundos. E não voltou mais. Uma equipe da guarda da cidade e voluntários procuravam pela garota desde a madrugada. Ela foi dada como desaparecida apenas algumas horas depois da última vez que foi vista porque uma explosão de luz tomou conta de parte da mata a poucos metros da casa da família Starro. As autoridades haviam evocado uma chuva longa que duraria o dia todo para controlar as chamas.
Os gritos, as luzes e a fogueira. Írios engoliu em seco e já não tinha mais fome para encarar sua torrada com geléia.
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