Por Favor, Apague as Luzes
1 Capítulo único.
Por Favor, Apague as Luzes.
Há um bom tempo, largou todas as suas predestinações para fazer teatro.
Abandonou todos os sonhos alheios, desobedeceu todas as expectativas, abraçou todos os seus tão conhecidos medos e aceitou todos os seus supostos talentos.
Tudo aquilo porque sempre teve uma estranha paixão pela arte. Gostava, desde muito novo, das artes mais esdrúxulas. Passava horas observando detalhes de quadros renascentistas e concepções de obras modernistas, lia e relia os considerados melhores livros dos melhores escritores, visitava os museus mais famosos e os mais desconhecidos de sua cidade. E nada era mais justo, considerando que a arte fazia parte de sua genética por parte dominante: era filho de um dos maiores escritores de seu estado, e o talento era parte de si, nato.
Talvez, por já ter nascido naquele meio, a arte não mexia tanto mais com Afonso.
Ver, ler ou ouvir já não o satisfazia mais. Andrei queria, mais do que tudo, participar.
O belo viria de si de tal modo que, de repente, seria ele então a própria arte. E para isso acontecer, precisava apenas de um palco, muitas luzes e algumas falas. E como em um conto de fadas, a mágica aconteceria. Afonso era o espelho de qualquer arte, um quadro branco a ser preenchido pelo teatro mais do que qualquer coisa.
Afonso amava subir no palco e ser o centro das atenções, mesmo que por poucos minutos, e ouvir o clamor eterno das palmas eufóricas. Por isso, participava de quantas peças conseguia por semestre, sempre que as chatas disciplinas teóricas da faculdade davam-lhe algum tempinho.
E foi em uma dessas peças que conheceu Xavier.
Há um bom tempo que Afonso já não sabia mais o que fazer.
Antes que percebesse, encontrou-se copiosamente apaixonado pelo conjunto de olhos pretos.
E pelos lábios carnudos, sempre delineando um sorriso ou outro. E pela voz grave e pelos braços fortes. Havia algo cativante em Xavier que fazia Afonso perder todas as suas razões ao mesmo tempo. Algo que o inspirava, que lhe fazia desejar ser como ele, de alguma forma.
Quando fez o teste para o papel, confessava para si mesmo não esperar muito sobre o enredo. Não gostou dos personagens principais ao ler o script, o final previsível e sem graça que seria obrigado a atuar. Todavia, a necessidade de participar e se tornar protagonista não o permitiu ignorar a oportunidade.
E foi naquela peça, em um ensaio qualquer, que o inimaginável aconteceu. Afonso subiu no palco com um gigante coração e saiu dele sem nenhum resquício do seu órgão preferido. Ele e Xavier atuaram nos papéis principais deste pequeno triângulo amoroso, cheio de problemas e complicados, que viviam o cotidiano do pior jeito possível.
Claro que, eventualmente, muitas coisas aconteceram a mais do que esperava. Não apenas conhecera Xavier, mas se apaixonou também pelo personagem que ele interpretava. Todo cheio de dores e amores, Werther era a ponta do triângulo amoroso que não se encaixava em nenhuma das possibilidades de casal. Tão romântico e característico, que deixá-lo sozinho era quase um pecado.
Afonso, no mínimo, nunca o deixaria sozinho.
Como poderia, aliás? Werther era um personagem tão atraente e fascinante, educado e gentil, que dificilmente deixaria as doces lembranças que teria daquela peça. Werther era, de algum jeito, ele mesmo. Quis se tornar não apenas parte da arte, mas também parte daquele por quem se apaixonou.
Há um bom tempo que Afonso obteve essa mania engraçada de guardar para si a personalidade daqueles que mais amava.
Até o dia da peça. Até o dia em que entregou tudo o que se tornara para aquela história, junto de Werther e sua personalidade fascinante, construída para ser o herói de qualquer conto.
Afonso se lembraria, todos os dias, de cada difícil minuto daquela peça.
De como se apaixonou, ainda mais, por Xavier e seu personagem ímpar. De como suas falas saíram perfeitas e todos os diálogos tornaram-se tornaram parte da sua própria realidade. Lembraria, sempre, do enorme foco de luz nos lábios que tanto desejou, expostos para toda a considerável platéia.
E quando os aplausos vieram, pintando as paredes de orgulho, a única coisa que Afonso conseguiu pensar foi nos braços fortes de Xavier, e sua delicadeza até então sempre presente nos sorrisos fáceis. Tão fáceis, que até mesmo ele sorriu.
Agradeceram ao público. Correram para os bastidores.
Afonso gritou, incansáveis vezes, o nome de Xavier — este, porém, fingiu não ouvir, enquanto saía abraçado de suas namoradas e garrafas de champanhe. Como se realmente tudo que fizeram até então fosse um teatro, e tudo que se espelhou até então fosse uma mentira.
Viu o ator abandonar o teatro para comemorar uma peça ridiculamente pequena, usando qualquer desculpa existente para se acabar com os deleites da noite francesa, como um artista ultrarromântico. Viu Xavier sair e deixar a gentileza de Werther em algum lugar por ali, para voltar a usá-la apenas semana que vem, quando performariam novamente aquela mesma peça.
Porque Afonso havia se esquecido que entre as luzes e o palco, qualquer um pode ser o que quisesse. Inclusive, ele mesmo. Especialmente, Xavier.
Naquele dia, seu coração se tornou mais escuro que os escuros olhos de Xavier.
Não havia, de modo algum, se apaixonado pelo ator — havia se entregado por um personagem, uma obra, uma ficção, que arrebentou seu coração em mil pequenos pedaços. Não havia sorrisos dóceis ou falas elegantes.
Werther não existia.
De volta para o cenário, perguntou a si mesmo porque seu lugar preferido não lhe trazia alguma espécie de consolo. Alguma compreensão ou qualquer outra coisa que fizesse sentido; todavia, nada aconteceu.
Parado no centro do palco, o holofote ainda ligado iluminou as cadeiras vazias, os equipamentos largados, os panfletos jogados no chão. O mesmo holofote que lhe ajudou a iluminar sua genialidade sempre que precisava, tornando-lhe o centro de todas as atenções.
O mesmo holofote que tanto clareava Xavier e sua amável apresentação de um personagem tão fascinante, transformava em arte todos os sentimentos que tinha pelo colega de curso.
Afonso percebeu, então, que estava sozinho. Ele já não era mais ninguém, como sempre fora.
Há um bom tempo que não havia um bom tempo.
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