Por Baixo da Pele
1 Cristais
Notas iniciais
O céu tremia. As estrelas tremiam. Pareciam pó dourado, cintilando enquanto caía sobre os corpos no chão. Os corpos, tão afetados pela gravidade quanto o pó estrelar, se sentiam amarrados ao chão. Um olhou para o outro. E conversaram, como se fosse a última coisa que quisessem fazer na vida.
Lembraram-se de casa, da família, onde vivam antes de se perderem naquele céu. Lembraram-se de quando partiram. Sentiram medo, sabiam que iriam padecer e murchar, como as flores no inverno que cobriam o chão que pisavam quando deixaram o lar.
Pouca coisa os restava, então por que se importar? Os dois homens fizeram uma amizade tão forte quanto eles próprios. Em pé, juntos estavam. E caídos, juntos estavam.
“Respira. Inspira”, um dos barbudos falava.
Lembrou-se brevemente de uma imagem de sua mãe. A velha mulher, naquela cena era jovem e bela, falando para sua criança no colo: “Feche seus olhos de cristal”. E sem perceber, repetia isso para o colega ao lado.
“...cristal, feche seus olhos de cristal”
O colega tremia, como o céu e as estrelas. Talvez na visão dele tremessem mais ainda. Sentia arrepios por todo o corpo, o medo tomando conta. Respirava com dificuldade, o ar se tornando cada vez mais pesado e espesso ao entrar em seus pulmões. Seu coração acelerado fazia o sangue jorrar. Pelas veias, o caminho todo para fora da ruptura da lança em seu torso.
“É estranho”, o empalado dizia, “o corpo é a casa do espírito”.
“...feche seus olhos...”
“Eu ficaria bem... na pele transparente do espírito. Eu perdoo o que está aqui”, apontou para a alma, e depois segurou ternamente a lança encravada em si. “Eu perdoo”.
“cristal...”
“Eu estou nesta casa, neste lar, o tempo todo...”
Os amigos finalmente se calaram, olharam um para o outro. Suas cores derramavam na grama. Suas vidas jorravam para fora de si e se misturavam. Uniram as mãos em um último sentimento de conforto. Deixaram o arrepio vir, a tremedeira. Fecharam seus olhos de cristal, enfim.
E de mãos juntas, abraçaram a morte.
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