Notas iniciais
Eu me sinto na obrigação de avisar que os temas dos capítulos não são fixos. Em um, o tema pode ser vikings, e no outro ser aliens. Este conto é referente à música Crystals, primeira trilha do álbum. AVISO: O capítulo contém cenas gráficas de sangue e morte. Apesar de serem leves, fica o aviso para os leitores que se sentem desconfortáveis com o tema.

O céu tremia. As estrelas tremiam. Pareciam pó dourado, cintilando enquanto caía sobre os corpos no chão. Os corpos, tão afetados pela gravidade quanto o pó estrelar, se sentiam amarrados ao chão. Um olhou para o outro. E conversaram, como se fosse a última coisa que quisessem fazer na vida.

Lembraram-se de casa, da família, onde vivam antes de se perderem naquele céu. Lembraram-se de quando partiram. Sentiram medo, sabiam que iriam padecer e murchar, como as flores no inverno que cobriam o chão que pisavam quando deixaram o lar.

Pouca coisa os restava, então por que se importar? Os dois homens fizeram uma amizade tão forte quanto eles próprios. Em pé, juntos estavam. E caídos, juntos estavam.

“Respira. Inspira”, um dos barbudos falava.

Lembrou-se brevemente de uma imagem de sua mãe. A velha mulher, naquela cena era jovem e bela, falando para sua criança no colo: “Feche seus olhos de cristal”. E sem perceber, repetia isso para o colega ao lado.

“...cristal, feche seus olhos de cristal”

O colega tremia, como o céu e as estrelas. Talvez na visão dele tremessem mais ainda. Sentia arrepios por todo o corpo, o medo tomando conta. Respirava com dificuldade, o ar se tornando cada vez mais pesado e espesso ao entrar em seus pulmões. Seu coração acelerado fazia o sangue jorrar. Pelas veias, o caminho todo para fora da ruptura da lança em seu torso.

“É estranho”, o empalado dizia, “o corpo é a casa do espírito”.

“...feche seus olhos...”

“Eu ficaria bem... na pele transparente do espírito. Eu perdoo o que está aqui”, apontou para a alma, e depois segurou ternamente a lança encravada em si. “Eu perdoo”.

“cristal...”

“Eu estou nesta casa, neste lar, o tempo todo...”

Os amigos finalmente se calaram, olharam um para o outro. Suas cores derramavam na grama. Suas vidas jorravam para fora de si e se misturavam. Uniram as mãos em um último sentimento de conforto. Deixaram o arrepio vir, a tremedeira. Fecharam seus olhos de cristal, enfim.

E de mãos juntas, abraçaram a morte.

Notas finais
Agradecimentos a Álvaro e Sofia, meus leitores beta, e a Giovanna, que nem fala mais comigo, mas que me apresentou essa banda maravilhosa.