Por Amor
2 Parte 2
Notas iniciais
Minha primeira atitude foi ir até o hospital onde eu fiz a doação há quase um ano, já no dia seguinte. Tentei conversar com os funcionários na recepção para tentar descobrir a origem do meu doador, mas eles disseram que não podiam me passar nenhuma informação sobre esse doador. Fustrante.
— É sério? Você não conseguiu mesmo nenhuma informação do seu doador? – Jasper, meu colega de trabalho, perguntou durante nosso almoço na empresa onde trabalho como arquiteta.
Jasper é um grande amigo pessoal, além de colega de trabalho há vários anos.
— Sim, eles não quiseram me contar nada. Edward acha que eu não devo tentar descobrir meu doador. O que você acha?
— Bem, eu acho que você deve seguir seu coração. Eu sempre acho isso. — O loiro de olhos claros e sorriso discreto me aconselhou.
— Edward diz que eu devo deixar isso para lá. Que eu não devo correr atrás de algo que já foi, já aconteceu há tanto tempo. Aliás... – Tomei um gole de suco de morango, minha bebida favorita — Hoje ele vai sair com uma garota. Uma menina por quem ele está bastante interessado nos últimos dias.
— E?
— Ele não vai ser feliz com ela. Não vai dar certo, você sabe. Será uma perda de tempo. Eu acho que os dois não deveriam nem sair.
— Por acaso você está agorando a relação dos dois? – O loiro perguntou arregalando os olhos.
— É claro que não. Mas eles não combinam, Jasper. Ele está perdendo o tempo dele correndo atrás daquela garçonete. Ela é tão... Sem graça.
— Sem graça?
— É, sem tempero algum. Edward merece alguém muito melhor, ele é tão especial.
— Tipo quem?
— Eu não sei, oras. Mas deve haver alguma garota no mundo que tenha tudo a ver com ele.
— Tipo você?
— É, tipo eu. Ei, o que você está insinuando?
— Você não para de falar do Edward desde que nós nos sentamos para almoçar.
— E daí? Você sabe que ele é meu melhor amigo, meu amigo de infância. É normal eu falar muito sobre ele. Ainda mais agora que ele está do outro lado do mundo.
— Eu nunca te vi falar tanto de uma pessoa assim, a não ser do seu ex.
— Jasper, não começa. Olha, Edward é só um grande amigo.
— Pois eu acho que talvez ele signifique muito mais do que isso para você. Mas talvez, você ainda não tenha percebido isso. De qualquer forma, uma hora ou outra você vai perceber. Eu tenho certeza. — O loiro comentou todo enigmático, mas não dei muita bola para ele.
[...]
— Acredita que o Jasper teve a coragem de insinuar isso, pai? — Questionei enquanto escovava os dentes.
Hoje meu pai, Charlie, veio me visitar para jantarmos juntos e aproveitei o momento para desabafar com ele.
— Você realmente acha que seu amigo está errado?
— Pai! – O repreendi, limpando meus lábios com uma toalha e a pendurando de volta no banheiro.
— Ok, parei. E você pretende continuar tentando descobrir quem é o seu doador?
— É claro. — Confirmei e Charlie desviou o olhar.
— Você tem certeza que quer mesmo fazer isso?
— Absoluta. Essa pessoa salvou a minha vida, sei que isso é sigiloso, mas eu sinto que preciso saber. Por quê todo mundo me questiona tanto em relação a isso? Faz todo o sentido eu querer descobrir quem salvou a minha vida.
— É, faz sim.
— Ou será que vocês todos já sabem?
— O quê?
— Não responda minha pergunta com outra pergunta, Charlie Swan. — Arqueei a sobrancelha e cruzei os braços. Charlie deu de ombros. Se repente, meu celular tocou.
— Oh, é o Edward.
— Ótimo. Converse com o seu amigo enquanto eu lavo a louça do nosso jantar. — Charlie disse beijando o topo da minha cabeça e saindo do quarto.
— Hum... – Atendi o telefone — Alô? Edward?
— Olá, Bella. Como você está?
– O mesmo de sempre. Você... Saiu com a tal garota? – Perguntei mordendo o lábio.
— Uhum.
— É isso que você tem para dizer? Pelo jeito, esse encontro foi uma droga.
— Não exatamente. Nós até nos beijamos.
— Beijou? E foi bom?
— Sim, foi legal.
— E fizeram alguma coisa a mais?
— Nós não transamos se é o que você quer saber.
Não sei o motivo, mas confesso que senti um certo alívio com isso.
— E pretendem?
— Eu acho que não. Esse natal está tão sem graça, não é? Por mais que eu veja as ruas decoradas, as casas... Eu não me sinto com aquele espírito de natal. Sinto falta da minha mãe, do Carlisle, de você. Viver no Japão não é tão legal assim.
— Eu também queria que você estivesse aqui. – Suspirei e sentei na cama.
— E as suas investigações? Como andam?
— Deu tudo errado. Não consegui nenhuma informação no hospital.
— É claro. Doações de orgãos costumam ser assim mesmo. Não acha melhor desistir?
— Você não é a primeira pessoa que me diz isso. Você sabe que odeio desistir dos meus planos. Me dá uma sensação de fracasso.
— Se tem uma coisa que você não é senhorita Swan, é uma fracassada. Você é uma vitoriosa. Você se livrou de um relacionamento abusivo, você venceu uma doença grave, você pode tudo, Bella. Eu tenho muito orgulho de você.
— Obrigada por levantar minha moral, senhor Cullen. – Dei risada — Você é incrível. O melhor amigo do mundo.
— Eu sei.
— Convencido!
[...]
— Você sabe que isso é ilegal, não sabe? – Alice perguntou durante a sessão de terapia online — Você pode ser presa, Bella!
— Que exagero! Eu só vou molhar a mão de uma enfermeira para ter acesso a minha ficha, só isso.
— Você só pode estar maluca!
— Eu só quero descobrir o nome do doador. A enfermeira Tamara tem um filho doente, que precisa de um tratamento caro. Não é como se ela fosse uma criminosa, ela vai usar o dinheiro para uma coisa boa. E eu vou descobrir o nome da pessoa que me doou o rim. É uma troca, simples assim. — Expliquei dando uma piscadela para a terapeuta.
[...]
Era noite e estava nevando. Eu estava com uma touca, sobretudo, botas, óculos escuros e um envelope nas mãos, andando a passos largos pelas ruas da cidade. As luzes de natal estavam lindas, mas assim como Edward meu espírito natalino não está lá rande coisa. Caminhei olhando para os lados a todo momento. Eu estava tão pirada que estava até achando que eu estava sendo seguida. Sei lá, eu acho que essa coisa de fazer algo proibido faz a gente ter esse tipo de sensação.
Parei em frente uma lanchonete e sentei em uma das mesas. Olhei para os lados novamente e respirei fundo. Alguns minutos depois, Tamara apareceu e se sentou na minha frente. Ela também olhou para os lados.
— Trouxe o dinheiro?
— Sim. Trouxe o que eu quero? – Indaguei. Ela deu um sorriso de canto de boca.
— Sim.
— Primeiro a ficha. – Ela me entregou a ficha. Então, lhe entreguei o envelope com o dinheiro.
— Obrigada. – Ela checou o envelope.
— Finalmente vou descobrir meu doador. – Falei ansiosa e já lendo a ficha — O que? Edward Cullen foi meu doador? Você tem certeza disso? – Arregalei os olhos.
— Sim, senhorita Swan.
— Céus...
Agora tudo faz sentido. Tudo. É por isso que ninguém queria que eu descobrisse a verdade. Todo mundo já sabe, já sabia que ele me doou o rim. Mas por que ele não me contou? Eu não entendo.
Será que foi por isso que ele foi embora para o Japão logo depois do transplante? Para eu não descobrir? Faz sentido porque eu descobriria facilmente. Toda cirurgia deixa uma cicatriz e eu veria facilmente a de Edward porque somos amigos íntimos desde criança e ele sempre ficou a vontade perto de mim, sem camisa... Mas por que ele não me contou? Porque eu não podia saber a verdade?
Me despedi de Tamara ainda atordoada com tudo o que descobri. Edward me doou o rim, era compatível comigo e nunca me disse nada. Ele salvou a minha vida. Eu tinha o direito de saber a verdade, eu tinha sim. Não consigo entender porque meus amigos, porque meu pai me esconderia a verdade, não é justo, não é certo. Caminhei confusa pelas ruas, esfregando a mão nos braços. Está realmente uma noite muito fria.
Edward, meu melhor amigo me escondeu uma coisa tão importante, tão séria. E foi até embora por isso. Eu sinto que tem alguma coisa errada, algo não se encaixa nessa história toda.
Voltei para casa e no caminho, vi algumas crianças fazendo uns bonecos de neve. Elas até colocaram uma touca de papai noel no boneco. Isso me fez lembrar de Edward. Quando éramos crianças, adorávamos brincar na neve, decorar a árvore e natal e comer muito durante a ceia. Nossas famílias sempre foram muito próximas, então passávamos a maioria dos natais juntos. E eram tão felizes. Cheguei em casa e Charlie estava lá com um sorriso grande nos lábios. Mas o que me deixou surpresa mesmo foi quando vi Edward sentado ao lado do meu pai na sala de estar da minha casa.
— Bella, querida, o que acha desse grande presente de natal? — Charlie indagou sorrindo.
Edward estava ali. E estava lindo usando um casaco até o meio da coxa, luvas, calças escuras e o cabelo displicente. Eu simplesmente travei. Não sabia o que dizer, não naquele segundo.
— Bella, que saudades. – Edward me abraçou. Ele estava cheiroso, muito cheiroso. — Eu senti tanto a sua falta que não resisti e resolvi passar o natal aqui com as nossas famílias, como quando éramos crianças.
— Por que não me contou a verdade?
— Do que você está falando? — Edward perguntou engolindo em seco.
— Eu já sei de tudo. Você foi meu doador. — O ruivo engoliu em seco novamente.
— Como é que você descobriu? – Charlie questionou confuso.
— Não importa. Por que não me contou, Edward?
— Eu... Bem, achei que não era o momento. Você estava com aquele seu namorado, ele não gostava de mim, você sabe. Ele não queria que nós tivéssemos uma amizade.
— E depois que eu terminei com ele?
— Eu já tinha ido embora. Era tarde demais.
— E por que você foi embora? — Perguntei com os olhos cheios de lágrimas.
— Edward, se vai revelar a verdade. É melhor dizer toda a verdade. – Charlie aconselhou se retirando da sala.
— Que verdade? — Questionei ainda mais confusa.
— Bella, eu... — Edward respirou fundo e pela primeira vez, me encarou nos olhos — Eu sempre amei você. Desde que éramos crianças. Mas você nunca me viu como homem, então eu respeitei isso. Eu já estava pensando em ir embora do país no ano passado, porque eu pensei que ficando longe de você, eu te esqueceria. Então você ficou doente e eu percebi que não poderia ir embora, eu jamais deixaria você doente aqui. – Edward também já estava chorando naquela altura — Quando eu fiz o teste e vi que eu era compatível com você, aceitei fazer a cirurgia na hora. Mas depois da cirurgia você ficou muitos dias na UTI e durante esse tempo eu imaginei que se você não soubesse de nada, poderia seguir sua vida com seu namorado e eu a minha. Porque eu queria te esquecer. E também não queria que você ficasse perto de mim por gratidão, porque seu ex era agressivo e eu não queria causar alguma confusão entre vocês. Bella, fale alguma coisa.
— Eu não sei o que dizer. Eu não sabia que você era apaixonado por mim. Você nunca deu sinais.
— Na verdade, eu dei. Mas... Você estava ocupada demais com o Joe para perceber.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem.
— Eu não tenho palavras para agradecer o que você fez por mim. Você salvou a minha vida, Edward.
— Eu faria mil vezes se fosse necessário. Mas como eu disse, eu nunca quis sua gratidão. Eu queria o seu amor. E isso, eu nunca vou ter. Adeus, Bella. – Ele foi em direção a porta. — Feliz natal. – E foi embora.
— Você deixou ele ir embora?! – Charlie perguntou aparecendo na sala.
— Você estava escutando atrás da porta, pai?
— É claro que eu estava. ‐ O moreno revirou os olhos — Você não o ama mesmo?
— Como assim?
— Olha pra você, Bella. Você fala do Edward o tempo todo, que sente falta dele, fala também das qualidades dele, de tudo que vocês viveram juntos. Coloque a mão na sua consciência, filha. Será mesmo que você não ama o Edward?
[...]
A pergunta de Charlie me calou fundo. Edward. O que eu sinto pelo Edward? Enquanto tomava banho, ele não saia da minha cabeça. Edward sempre foi meu melhor amigo, mas eu sempre tive ciúmes, um certo incômodo quando ele aparecia com alguma namorada. Sempre torci contra seus romances, era como se ninguém no mundo fosse boa o suficiente para ele, pelo menos para mim.
Ele doou o rim para mim, ele salvou minha vida. Mas o que eu sinto por ele vai além da gratidão. Edward é um homem tão bonito, atraente, eu sempre soube disso. E sempre achei seus olhos lindos, seu sorriso torto um charme. Sempre gostei do jeito dele, das conversas, me sentia tão bem, tão a vontade perto dele. Será que o caminho da felicidade não é esse? Não é justamente amar o meu melhor amigo?
[...]
Dias depois...
— Feliz natal, filha! — Charlie disse me abraçando no café da manhã — E então, pensou no que eu te disse?
— Pensei sim. — Falei tomando uma xícara de café.
— Edward vai embora.
— O que? — Perguntei sentindo meu coração disparar.
— Ele só veio passar alguns dias com a família. Você não foi atrás dele e ele está indo embora. Vai deixar isso acontecer?
— Quando ele vai?
— O vôo dele sai em uma hora. – Charlie avisou piscando para mim, que larguei o café e corri para me trocar.
[...]
Eu nem preciso dizer que já me decidi, não é mesmo? Sim, eu amo o Edward e quero viver uma história de amor com ele. Sim, eu tenho medo de amar de novo, mas ao mesmo tempo eu tenho total confiança em Edward. Ao contrário do meu ex, eu sei que ele não vai me machucar, me ferir. Mas agora ele vai embora... E se eu não chegar a tempo?
Dirigi que nem uma maluca pelas ruas cobertas de neve. Está tão frio, mas eu estou tão nervosa que estou até com calor. Preciso chegar no aeroporto, antes que Edward vá embora para sempre. Cheguei no aeroporto e sai correndo, morrendo de medo de não dar tempo de ver Edward e dizer tudo o que eu sinto para ele. Fui até a recepção, mas felizmente o vôo ainda não saiu.
Caminhei então pelo aeroporto em busca de Edward. Está tão cheio e barulhento aqui... Como vou encontra-lo? Calma Bella, você só precisa ter paciência. Respirei fundo e continuei procurando Edward até me deparar com um ruivo sentado de costas para mim em um dos bancos, mecendo no celular. Aposto que ele está falando com Esme. Ele sempre passa horas ao telefone con ela. Eu o reconheceria a qualquer distância.
— Edward? –O chamei com os olhos marejados de lágrimas.
Edward se virou para mim totalmente surpreso com a minha presença.
— O que você está fazendo aqui, Bella? — Ele perguntou arregalando os olhos — Aconteceu alguma coisa?
— Eu finalmente descobri, Edward. – Falei dando alguns passos em direção a ele, a fim de ficar mais perto.
— Eu não estou entendendo nada. — Ele franziu a testa. Ele fica tão lindo assim.
— Eu não te vejo mais como um amigo há muito tempo. Você sabe, eu tenho dificuldade em assumir algumas coisas. Eu achava que o ciúme que eu tinha de você era normal, mas não. Eu detestava saber que você tinha outras namoradas, e detestava mais ainda te ver com elas. Eu nunca consegui achar que nenhuma era boa o suficiente para você, mas agora eu já sei o motivo. Eu te amo Edward e não, eu não estou misturando as coisas. O meu coração tem certeza que é você. E se você deixar, eu prometo que nunca mais vou sair do seu lado.
Me declarar tirou realmente um peso dos ombros. Eu acho que eu nunca fui tão sincera como eu estou sendo agora. Edward demorou para responder. Seus olhos estavam arregalados pela surpresa, mas conforme as palavras saiam da minha boca, eles se encheram de lágrimas.
— Bella, eu sempre quis ouvir isso. Sempre.
Edward me abraçou com força e em seguida, beijou meus lábios suavemente. Quando nossas línguas se encontraram, ele passou a agir de um jeito mais quente, juntando nossos corpos e apertando minha cintura. Era o nosso primeiro beijo e acho que foi o momento mais lindo e importante da minha vida.
[...]
No natal seguinte, Edward e eu estávamos noivos. Ele me pediu em casamento em Paris, mais um momento inesquecível nosso. No outro, eu estava grávida do meu primeiro bebê, Anthony. E agora? Bem, agora o natal se tornou a minha data favorita do ano.
FIM...!
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