Por Alguma Razão
2 Entre Jogos, o seu Sorriso
Mais um fim de semana havia chegado e finalmente Naoya estava de folga novamente. Depois de dias trabalhando sem parar, indo direto para faculdade e terminando a jornada na casa do irmão a noite, teria enfim um dia diferenciado. Mas diferente dos amigos que iriam para alguma festa ou sair para algum passeio, ele havia marcado de ter aula. Sim! Aula de como jogar para um iniciante como ele com ninguém menos que sua amiga Kou. Na verdade, ele já vinha praticando em alguns jogos online com ela e os amigos de trabalho de Hirotaka, mas seu nível de conhecimento para a parte prática era o mínimo possível.
Embora seu irmão fosse um gamer veterano, este não tinha a mínima paciência para ensina-lo ou se irritava com a proeza do irmão mais novo em perder uma partida em menos de cinco minutos de jogo. Por muito tempo achou que todos os apaixonados por jogos eram da mesma forma, mas após conhecer Kou, viu que nem todos eram assim. Sua amiga assim como o irmão, não saia do mundo dos jogos, mas diferente dele, esta não se irritava facilmente com o fato de sua pouca habilidade nesse campo. Ao contrário, com muita gentileza lhe direcionava um simples sorriso ao ver sua forma atrapalhada diante dos inimigos no jogo, e lhe ensinava o necessário para momento ou lhe defendia em campo de batalha.
Essa foi a Ponte que os uniu mais rápido do que podia imaginar. Passavam horas conversando sobre vários assuntos e acabavam se voltando aos jogos, com a garota sempre lhe explicando um termo novo ou mostrando um novo personagem. Embora esta tenha feito uma apostila lhe ensinando o necessário, ele sempre se mostrava perdido diante dela. Para alguns, isso poderia ser irritante, mas para ela, isso o deixava mais fofo do que já era. Não tinha como se irritar toda vez que ele sorria.
E foi nessa linha que os dois marcaram um dia exclusivo para praticarem de fato os termos que ela o dizia. Pois segundo Kou, Naoya era do tipo que só aprenderia com a prática em sí, mesmo ele dizendo que ela só estaria perdendo tempo com ele assim como o irmão dizia. Diante disso, ela havia decidido que era capaz e se quisesse ela o ensinaria o que precisava. E assim lá estava ele em frente a sua casa tocando a campainha. Era apenas um dia dedicado a jogos, mas estava mais ansioso e empolgado do que o normal. Era só um jogo não é? A porta finalmente havia aberto e diante dele estava ela, um pouco mais diferente do que o dia a dia. Usualmente sempre estava de moletom e calças jeans na maioria dos momentos, mas desta vez, estava com uma blusa vermelho vinho de mangas dobradas ate o cotovelo e de short mediano. E para completar, seus cabelos aparentemente estavam húmidos dando um visual mais único e a deixando mais... linda? Não sabia se havia a encarado mais do que devia, mas podia perceber ela um pouco encabulada se escondendo atrás da porta inconscientemente.
— Ni-Nifuji-Kun... tudo bem? Algo errado? – falou Kou de forma insegura com o que poderia estar acontecendo. só assim para ser trazido de volta a realidade e se tocar que ainda estava plantado do lado de fora.
— Ah ... Kou-Kun, desculpe, eu me distraí. Com licença. – aproveitou que sairia do campo de visão dela por alguns segundos e tentou disfarçar o calor que surgia em seu rosto. Na verdade não sabia por que estava assim. Ela não estava com nenhuma roupa especial ou coisa do tipo, por sinal, estava mais simples do que podia imaginar, mas por alguma razão aquela simplicidade em seus atos e no cotidiano pareciam tão acolhedores e principalmente, a tornava tão encantadora...
“essa não!” pensava Naoya por estar se deixando levar em pensamentos tão esquisitos como esse. Sem contar que poderia estar assustando a amiga com esse jeito tão desligado. Tinha logo que entrar em algum assunto para quebrar aquela tensão:
— Ah, por sinal e o seus pais? – perguntou a primeira coisa que veio na cabeça embora achasse que poderia ter perguntado coisa melhor.
— Ahn, bem... desculpe – começou ela desviando o olhar para o chão e endireitando os óculos com as mãos – meus pais são separados, e moro aqui com meu pai... desculpe...- ela de certa maneira parecia incomodada falando do assunto e mesmo assim não deixava de lado sua persistente mania de pedir desculpas por exatamente nada.
— Kou-Kun, por que está pedindo desculpas? – perguntou de sua maneira despreocupada de sempre atraindo de vez o olhar dela para seu rosto.
— Ah, é que ... bem... – tentava dar alguma explicação para isso mas se deu por vencida encolhendo os ombros e cobrindo o rosto levemente ruborizado disfarçando a vergonha.
Naoya não podia achar esse ato mais fofo do que agora. A maneira que ela cobriu o rosto lhe deu certa vontade de afastar suas mãos só para ver aquele rubor claramente mas o que resultou mesmo foi uma risada anasalada que tentou disfarçar cobrindo a boca com lateral da mão. Era em coisas tão pequenas que se divertia por estar próximo à Kou. Tal ato chamou a atenção da garota que parecia estar mais embaraçada com a risada dele.
— Nifuji-Kun!
— Desculpa, desculpa... É que você ficou muito fofa fazendo isso. – uma reação imediata se esboçou no rosto de ambos. Sakuragi ligeiramente virou um tomate vermelho de tão embaraçada com um simples comentário e Naoya logo percebeu como seu comentário mudou a atmosfera entre eles e tentou contornar isso o mais rápido possível. – quer dizer... digo, não se desculpe em todas as frases que diz, ou pelo menos as que você não fez nada de errado exatamente.
— Ah sim. Tentarei corrigir isso ...
Kou ligeiramente despistou ainda mais a situação e pediu para Nao ficar a vontade enquanto ela procurava alguma coisa. Na verdade, esta se enfiou no banheiro trancando a porta atrás de si e deslizando sobre ela ate cair sentada ao pé dela. Levou ambas as mãos até o rosto ainda sentindo a leve quentura nas bochechas. Não sabia porque estava tão nervosa com um simples comentário, ou melhor, porque estava nervosa com a presença dele! Já se fazia algum tempo da amizade entre os dois, mas essa sensação de nervosismo perto dele não passava. Previamente deduzida isso como sua falta de socialismo com as pessoas, e logo de cara ter amizade com três garotos, entre eles alguém tão comunicativo como Nifuji ainda era um desafio.
Estar com ele era ter que controlar sua respiração toda vez que ele sorria, quando a chamava pelo primeiro nome ou quando jogava com ele as vezes virando a noite. Seria assim a sensação de amizade com garotos? Bem, não tinha amigas para perguntar isso, então teria que seguir sua logística. Enfim um pouco controlada, voltou ate ele novamente.
Em contra partida Nao que estava na sala aparentemente mexendo no celular, usava isso como álibi para lidar com seus pensamentos de estantes atrás. Não imaginava que deixaria seus pensamentos saírem em voz alta como dessa vez. Mas não podia negar internamente. Ela estava de certa forma ... tão fofa... ou sempre a viu assim?
— Nifuji-Kun
— S-sim? – foi retirado de seus pensamentos com a voz calma de kou o chamando do corredor.
— Bem... se quiser começar a treinar agora nos jogos...
“sim! Esse foi o motivo de eu vir aqui. Não tem por que me perder nesses pensamentos”
— sim eu quero! – respondeu mais rápido do que queria – quer dizer, se estiver disponível agora...
Ela confirmou com um leve aceno de cabeça e Naoya prontamente a seguiu até seu quarto.
Depois que engataram numa conversa nerd sobre o universo game, parecia que a atmosfera havia mudado drasticamente entre ambos. O súbito nervosismo que havia surgido antes entre ambos, se converteu em uma liberdade que os dois ainda não haviam se dado conta. Naoya se mantinha sentado na cadeira do PC e Kou na beira da cama explicando as premissas que se deve adotar no jogo como senso de estratégias, recompensas, batalhas e armas adequadas para uso principalmente do personagem dele.
Naoya continuava vidrado em tudo o que ela falava, e por incrível que pareça estava compreendendo aquilo. Ninguém nunca havia literalmente parado para lhe ensinar tais detalhes, e estava maravilhado com aquela garota falando tão ricamente sobre o assunto para ele com tal paciência, sempre respondendo gentilmente cada dúvida que lhe surgia.
Tendo a parte teórica explicada, partiu para a parte prática da coisa, mas não antes sem ensinar as funções daquele tipo de teclado. Era esse um dos pontos que ele mais pecava, uma vez que teclado normal era diferente de um teclado gamer, e Kou lhe ensinou cada função. Dessa vez ele estava de frente para o PC e ela atrás dele apontando com o braço por cima de seu ombro as funções.
Tudo corria muito bem ate aquele momento. Essa proximidade mínima de Kou a Naoya o fazia se desconcentrar mais do que queria. Na verdade, não era bem a proximidade, mas sim o perfume suave que emanava da garota atrás de si. Era tão mínimo que só estando próximo para senti-lo. Balançou de leve a cabeça mandando pra longe qualquer pensamento avesso que surgia. Resolveram partir para a parte prática em jogos, justamente o que e eles mais costumavam jogar juntos.
Kou sempre se mostrava prestativa e apontando possíveis erros que ele poderia evitar, embora ele ainda estivesse nervoso em meio a tudo aquilo que lhe foi dito. No entanto, o simples fato dela estar ali lhe apoiando, o dava mais vontade de fazer parte daquele mundo, do mundo dela. Em contraste disso, Kou sentia-se empolgada em poder ensina-lo minuciosamente aquela área. Fazia tempo, ou talvez apenas se sentia empolgada com jogos novos e hypados que estavam em lançamento e nunca em repassar o que sabia desse meio para alguém. Mas o que achava satisfatório mesmo era lidar com a falta de jeito do Nifuji em meio as missões. Sempre se atrapalhava com alguma função que a fazia conter risinhos de vez em quando. Adorava aquela sensação de felicidade quando estava com ele.
A missão já chegava ao fim e faltava pouco para ele atingir um novo nivel de seu personagem, até que uma música de alerta de inimigo começou a tocar. Ataques começaram a surgir e ele com dificuldade conseguia revidar mesmo sob os comandos dela. Faltava pouco para seu personagem não aguentar mais os ataques e todo rendimento da missão estar perdido, até que ela resolveu assumir o jogo. No seu modo gamer e impulsiva sobrepôs sua mão sobre a mão direita de Naoya no mouse coordenando alguns comandos e com a esquerda passou pelo outro lado novamente por cima de seu ombro repassando comandos no teclado.
A essas alturas Naoya já havia esquecido completamente do jogo deixando sob a experiência de Sakuragi. Embora ainda encarasse a tela do monitor, não era exatamente a animação dos personagens a sua frente que ele prestava atenção, no seu julgamento, era algo muito melhor. Pelo reflexo do monitor podia ver uma verdadeira paleta de expressões da garota atrás de si. Estava 100% focada em terminar aquela batalha no momento, provavelmente nem se dando conta de como estava sob Nifuji.
Diferente do seu irmão que sempre mantinha uma expressão séria até durante os jogos, ela intercalava entre uma expressão de atenção e empolgação mordicando os lábios em sinal de certa dificuldade e com o ápice de uma partida. Finalmente ela havia conseguido derrotar aquele chefão final e sua recompensa logo se mostrava na tela. Mas para Naoya, sua recompensa estava através do que aquela tela ainda fracamente refletia. O genuíno sorriso dela que se esboçava nos lábios apenas porque completou eficazmente uma partida. Para ele, essa foi a melhor parte do jogo. Sentia que nunca se cansaria de vê-la sorrir:
—Nifuji-kun, você conseguiu subir de nível!! – falou ela ainda empolgada e inconscientemente apertando de leve a mão dele ainda no mouse. Havia se dado conta agora. Aquela era a segunda vez que segurava sua mão, ou melhor, que sentia o calor dela. Gostaria de sentir mais daquilo, então soltou o mouse virando a mão e segurando a dela devidamente.
— Parabéns Kou-kun. Nós subimos de nível juntos! – falou Naoya com seu sempre simpático sorriso pela conquista conjunta da dupla.
Só aí Kou percebeu a forma como estava. Sua mente pareceu esvaziar e pilhar sem saber em qual momento se colocou daquela forma sobre Nifuji. Em questão de segundos seu rosto pareceu virar uma pimenta pela forma que esquentou rapidamente.
“como eu me coloquei nessa situação meu Deus??” pensava ela.
Mais rápido do que gostaria, soltou a mão do loiro e começou a despejar desculpas em cima do rapaz que se virou para ela na cadeira.
— Nifuji-Kun, mil desculpas. Eu não queria parecer intrusa invadindo seu espaço!! Desculpa. -falava ainda se curvando.
— Kou! Por que está me pedindo desculpas novamente? Você não fez nada de errado, nem invadiu meu espaço. Afinal de conta somos amigos certo? – ela ainda confirmou sem graça com um aceno de cabeça. – E mais, você foi incrível. Jogar com você online é bom, mas pessoalmente é incomparável! Obrigado, kou-kun!!
Essas palavras acompanhadas do seu reconfortante sorriso foram o suficiente para que sua tensão se dissipasse e ela pudesse voltar ao normal novamente.
E assim havia se seguido o resto daquele domingo. Apenas a companhia dos dois sem ver o tempo passar, regado a jogos no computador, jogo no console, jogos de tabuleiro e comendo besteiras nos intervalos. Parecia que nada mais faltava entre o casal de amigos, apenas a companhia de cada um se tornava suficiente. Kou particularmente adoraria ter mais dias como aquele embora não comentasse com o rapaz.
No fim, se aquela era a sensação de ter uma amizade masculina, ela não queria largar nunca mais. Havia comprovado de fato, queria ter por muito tempo todos esses sentimentos que sentia ao estar perto de Nifuji-Kun, pois por alguma razão, ele parecia ser o que estava faltando na sua vida.
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