Pontual
3 Trinta de junho
Era uma sexta-feira animada no ministério.
Conforme senhor Futton lhe dissera, a maioria dos chefes de departamento efetuava as requisições de material no fim do mês. Isso proporcionou a Gina a alegria de ver, mesmo que por um breve momento, Hermione, que agora chefiava o Departamento de Execução das Leis da Magia. Estava com um jeito meio contente devido à festa que ocorreria mais tarde.
Todo ano, após a derrota de Voldemort, o ministério dava uma festa na data de aniversário de Dumbledore como forma de homenageá-lo pela performance durante a guerra. Por mais que ele não tivesse vivido o suficiente para contemplar o mundo sem o lorde das trevas, a data era extremamente simbólica. Como dia trinta de junho cairia num sábado, a comemoração seria dia vinte e nove mesmo.
No entanto, ninguém permitia que aquele fosse um dia de tristezas. Era uma data para celebrar a vitória, o aniversário de um ícone querido e a importância de Hogwarts. Agora que era funcionária do ministério, Gina sabia que não poderia escapar da famigerada comemoração e por isso passara a semana toda procurando algo apropriado para a ocasião.
Normalmente teria ido até A Toca e pedido ajuda para a mãe. Mas imaginou que Molly devia estar ocupada cuidando de suas próprias roupas, pois teria de comparecer ao lado de Arthur. Além de não querer ser mais um problema, Gina quis provar que conseguia se virar sozinha – e muito bem, obrigada. Especialmente pelos telefonemas preocupados que andava recebendo dos pais e irmãos, como se fosse colocar fogo na casa agora que Harry não estava mais por lá.
Acabou pedindo ajuda à Luna, que sempre tinha uma carta na manga para essas situações. Aproveitou que a loira não marcaria presença no evento deste ano e pegou emprestado o vestido azul que usara no ano anterior, quando foi como representante do jornal O Pasquim. Tinha certeza que ninguém se lembraria da roupa com que a Lovegood foi à festa e isso lhe deixava bem confiante em usá-la.
Era um vestido lilás bem comum, não tinha um decote muito evidente ou fendas reveladoras, mas Gina achava o corte bem interessante. Realçava um pouco suas curvas e não era chamativo ou espalhafatoso. Naquela altura, tudo que andava querendo era não chamar muito a atenção para poder ficar bem pertinho das bebidas sem ser notada.
Por isso, quando deu seu horário de saída, foi com pressa para casa. Não pretendia ficar na festa até muito tarde, especialmente para não precisar recusar convites da família para dormir n’A toca. Além do mais, Harry estaria lá e não lhe apetecia muito ficar na presença dele. Ao menos não por agora, que ainda estava tudo muito recente e, com toda certeza, ia ficar um clima esquisito.
Assim que chegou no apartamento, deitou-se na cama por um instante, tomando coragem para se arrumar.
“Tomara que tenha rum”.
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Terminou o nó da gravata com um movimento hábil. Esticou o paletó preto, ajeitando-o no corpo enquanto encarava o reflexo no espelho. Seus olhos pareciam desinteressados, como se não estivesse com muita vontade de sair.
E, de fato, não estava.
Por experiência própria, Draco sabia o quão entediantes as festas do ministério poderiam ser. A mesma música ambiente de todos os anos, as mesmas bebidas, os mesmos aperitivos, a mesma adoração de todos em volta do Potter... lhe cansava só de pensar em ficar lá, em pé, observando a cena patética de adoração ao garoto que sobreviveu. “Como se não fossemos todos sobreviventes”, concluiu sentando-se na cama por um momento.
Ficou pensando se não seria uma boa ideia levar uma acompanhante. Talvez a Parkinson aceitasse, se ele a convidasse. Estava sempre disposta a ir em festas e até gostava de se sentir importante no meio daquelas raposas velhas do ministério. O problema era ter paciência para lidar com ela também, especialmente quando deslumbrada.
Além disso ainda tinha o fato de que as coisas haviam ficado estranhas entre eles. Desde o fim da batalha de Hogwarts, não somente a Parkinson, mas todos seus colegas de classe preferiam manter uma certa distância da má reputação do sobrenome Malfoy. Nem o histórico de envolvimento com as artes das trevas trazia algum prestigio para aquela família que agora era conhecida apenas como traidora.
O único que ainda se prestava a manter alguma relação com Draco era Blaise Zabini. Talvez por não ter uma conexão muito forte com a própria família ou por nunca ter dado muita importância para esses assuntos, ele não parecia ter mudado seu comportamento de escola. Algumas vezes no ano eles se encontravam no pub do hotel para beber alguma coisa juntos e esse era o amigo mais próximo que tinha no momento.
Aparentemente ele era muito mole para um comensal e muito comensal para ser uma pessoa normal.
Já tinha desistido, se fosse para ser bem sincero. Não fazia sentido ficar remoendo as coisas ou esperando que acordaria um dia e tudo seria diferente. As péssimas escolhas que tomara (ou fora obrigado a tomar) levaram-no até aquele momento e não havia nada que pudesse fazer a não ser existir.
Um Malfoy, sozinho no mundo.
Esse ano completaria três anos da morte da mãe. Narcisa sempre foi mais frágil, mais delicada que qualquer outra pessoa que tivesse conhecido. Quando Lucius morreu, foi só uma questão de tempo para que ela o seguisse. Afinal, era o que se dizia sobre duas pessoas que se amam e passam grande parte da vida juntos, não é? Que tendiam a falecer próximos.
Não houve um enterro de grandes proporções e Draco fez questão de deixar as coisas o mais discretamente possível. Lembrou-se de que apenas um jornal havia realizado a notícia, mas não houve muita repercussão. Viu-se parado, no centro da mansão Malfoy, grandiosa e esplendorosa, amargando em sua própria solidão. Talvez tenha sido essa epifania que o fizera vende-la até um pouco abaixo do preço que valia, pois queria se livrar logo de todas aquelas memorias que o assombravam pelo saguão, escadas e corredores.
Mesmo que fosse filho único e já estivesse teoricamente acostumado a ser sozinho, Draco não imaginava que teria aquelas proporções ao perder sua tão pequena família. E talvez isso tenha contribuído para que se afastasse ainda mais do mundo real. Esconder-se em seu apartamento, debruçado na varanda enquanto observava as nuvens era a única coisa que lhe trazia paz nos dias ruins.
Não havia mulher ou Firewhisky suficiente para tirar de sua cabeça que seria melhor ter morrido também. Que não havia mais nada para ele neste mundo e provavelmente estava sendo punido por alguma força do divino ao ser obrigado a trabalhar naquele maldito ministério. Não sabia se era uma piada de mau gosto do destino terem o colocado justamente no departamento de esportes, considerando que sua vontade mesmo, desde menino, era ter se tornado apanhador.
Outra piada de péssimo gosto era, além de tudo, agora ter que olhar para Ginevra Weasley toda vez que fosse pedir algum material naquele almoxarifado. Por que, de todas as pessoas do mundo, tinha de ser justamente ela? A traidora de sangue, amante de trouxas e seguidora do Cicatriz. Era assim que se lembrava dela na época de Hogwarts, com seus cabelos estupidamente vermelhos voando de vassoura numa velocidade alucinante.
Mas a Weasley não parecia mais aquela menina espevitada. Claro, ainda parecia extremamente ácida e com aquele humor irônico que lembrava um pouco o seu próprio, mas estava diferente. Desde a vez em que se encontrara com ela no bar, sua cabeça rodopiava. Aliás, desde quando a vira no ministério, toda arejada com aquele rabo-de-cavalo vermelho. A menina havia crescido e se tornado uma mulher muito bonita, tão bonita que o fazia esquecer seu sobrenome indesejado.
Com aqueles olhos castanhos grandes e desafiadores que o observavam sem qualquer traço de medo. Talvez isso lhe atraísse mais que qualquer atributo físico que ela pudesse ter. Aquela forma de olhar, como se não o temesse, como se tentasse descobri-lo por trás do nome, assim como ficava tentado em fazer com ela.
Chegou até a se esquecer de quem se tratava quando conversou com ela no hotel, entre algumas doses de Firewhisky. Talvez estivesse realmente muito mais bêbado do que imaginou que estaria, mas no fundo sabia que só queria mesmo poder ter uma conversa normal com uma garota bonita no dia de seu aniversário. E de bonita aquela demônia tinha tudo! Por mais que o pensamento tenha lhe soado estranho na primeira vez, lembrava-se de ficar olhando-a, ainda nos tempos de escola, pensando em como era muita areia para o caminhãozinho de Potter.
Deitou as costas na cama e apoiou as mãos na nuca, olhando para o teto enquanto suspirava.
Devia estar muito solitário mesmo para ficar imaginando aquele tipo de coisa, pensando sobre a Weasley e o jeito com que seu sorriso lhe tirava um pouco o ar dos pulmões. Uma parte sua queria poder se render, imaginando que era apenas um homem interessado em uma mulher. Outra parte gritava o sobrenome dela e martelava, como se tentasse fazê-lo recobrar algum juízo. Mas, honestamente, onde aquela história de sobrenomes havia o levado? Para aquele apartamento solitário e vazio.
Sabia que as festas do ministério eram sempre muito bem regadas à bebida e ficou imaginando que seria uma boa desculpa para se aproximar da ruiva, caso ela estivesse lá. Por mais que os amigos grifinórios e os pais dela também fossem marcar presença, como acontecia anualmente, imaginou que encontraria ao menos uma brecha para lhe soltar algum comentário que a deixaria nervosa. E o pensamento o fez soltar um meio sorriso.
“Tomara que a Weasley esteja lá”.
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Não tinha rum.
Foi a primeira coisa que Gina fez questão de constatar. Aquilo já fora suficiente para lhe desanimar e fazer andar meio sem rumo pelo salão entre alguns copos de Firewhisky.
Passou os primeiros momentos ao lado dos pais, Rony e Hermione. Agora, entretanto, achou que talvez fosse a vez de Harry desfrutar um pouco de companhia e começou a caminhar, um pouco desinteressada na direção da mesa de aperitivos. Sabia que não devia beber e ficar de estômago vazio, então preocupou-se em comer alguma coisa para não sair vomitando pelo salão.
Tentou se lembrar de quantos copos já havia bebido, mas parou de contar no quinto.
O mais incrível é que as pessoas realmente pareciam estar se divertindo durante aquele evento. Havia música, bebidas, pessoas dançando e até velas flutuantes. Mas só de sentir os olhos dos pais sobre si, tinha vontade de correr para casa. Se sentia meio fracassada por estar ali, no mesmo ambiente que seu ex-noivo, e ficou se preguntando se não teria sido uma ideia melhor inventar que estava com dor de barriga e ter simplesmente se ausentado.
Enquanto dava uma olhada no salão pôde ver alguém que certamente estava tão entediado quanto ela.
O Malfoy mantinha um copo nas mãos, provavelmente de Firewhisky. Usava um paletó preto, um pouco mais requintado que o comum, combinado com uma gravata verde-musgo. Os olhos cinzentos fixados nela, como se já a estivesse olhando há algum tempo. Ele ergueu a bebida discretamente, como se brindasse, e Gina arqueou as sobrancelhas. Ficou imaginando que devia fazer sentido que os dois estivessem tão incomodados com aquele evento. E lhe pareceu melhor conversar com alguém na mesma situação em que estava do que fingir sorrisos pelo salão. Seus pés caminharam na direção do loiro e, antes que desse por si, já estava parada bem diante dele.
— Você não parece muito feliz.
A frase de Gina saiu meio embolada, o que fez os olhos do Malfoy ficarem um pouco mais divertidos. Ele umedeceu os lábios, parecendo estar tentando evitar dizer alguma coisa. Então apenas assentiu e indicou Harry com um movimento da cabeça. O rapaz estava de costas e ainda não parecera notar onde a Weasley estava, pois conversava descontraído com o atual ministro.
— Você também não. E nem posso imaginar o porquê.
— Fico enjoada só de olhar.
Baixou os olhos em tempo de ver Gina dando mais um gole no copo. Ela o ouviu rir baixinho e ergueu a cabeça para fita-lo nos olhos de maneira confusa, como se não entendesse o motivo da graça. O Malfoy fez um aceno negativo, mas ainda sorria.
— Honestamente, Weasley, acho que o que te enjoa é sua inabilidade alcoólica.
Os olhos castanhos dela se apertaram numa expressão de desentendimento, o que o fez suspirar. Falou mais pausadamente, como se estivesse explicando uma lição complicada à uma criança de cinco anos.
— Você bebeu demais.
A ruiva sacudiu a cabeça negativamente, dando um gole em sua bebida. Os olhos do Malfoy a acompanhavam com certo divertimento, como se estivesse à espera de alguma coisa muito engraçada.
— O que te faz pensar isso? Você nem me conhece.
Ele maneou a cabeça e deu um gole em sua bebida, escorando o ombro à parede. Gina ficou lhe observando, pensando que havia usado um argumento bem convincente, mas o Malfoy a surpreendeu.
— Bem, você veio falar comigo, não foi?
Se olharam por um momento. A pior parte é que ele estava correto. Gina não tinha certeza se teria ido até ele de maneira tão decidida se não contasse com a influência altamente ativa da quantidade considerável de álcool que acabara de ingerir. Sentiu as bochechas esquentarem e desviou os olhos para baixo, fitando os próprios sapatos.
— Achei que fazia sentido.
— E por que isso, Weasley?
Não parecia haver muito deboche na frase do Malfoy, o que era bem peculiar. Colocou sutilmente uma mecha de seu cabelo vermelho para trás da orelha e ergueu os ombros, tentando fazer pouco caso da resposta que daria.
— Você parecia tão infeliz quanto eu. Achei que fazia sentido ficar perto de alguém com quem não precisasse fingir.
Ao contrário do que esperava do Malfoy, ele novamente só riu. Como se ela estivesse dizendo coisas realmente absurdas e sem fazer o menor sentido. Aquilo a fez franzir a testa, lhe lançando um olhar de reprovação. Não tinha se arriscado naquele movimento chamativo de andar até ele para que ficasse rindo da sua cara.
— Você está realmente bêbada.
— Pare de dizer isso, não estou!
Sua exclamação não foi o suficiente para convencê-lo, mas ao menos havia feito com que parasse de falar. Ele deu um gole na bebida olhando ao redor e, em seguida, pareceu ver alguma coisa que o divertiu, pois abruptamente baixou os olhos para Gina. Ela fez menção de virar-se na direção em que o Malfoy olhava antes, mas a voz dele chamou-lhe a atenção.
— Ok. Ok. Olha, não quer dançar?
Antes que Gina pudesse responder, as mãos do Malfoy se apressaram em tomar o copo de Firewhisky que ela segurava. Depositou sua bebida sobre uma cadeira, bem ao lado da dele, e a encarou de uma maneira meio brincalhona, meio travessa. A Weasley arqueou uma das sobrancelhas, numa expressão de desdém. Quer dizer, tudo bem ficarem ali de pé conversando, mas dançar era um pouco demais, não? Especialmente por serem quem eram.
— Com você?
— Sim, senhora. Um homem desacompanhado, extremamente bonito e consideravelmente rico.
A mão do Malfoy se esticou e ficou parada no ar. Gina encarou os dedos finos e longos do rapaz por um segundo, considerando um pouco o pequeno escândalo que aquilo seria. Havia uns nove anos desde que Voldemort morrera. Calculou que o mundo bruxo já devia estar bem preparado para um fuxico de família.
— Consideravelmente?
As pontas de seus dedos tocaram a palma da mão do Malfoy, que se abaixou suavemente de forma ironicamente cordial antes de apoiar sua mão na cintura da ruiva e começar um movimento lento de ir e vir. Ela agradeceu mentalmente que não estavam arriscando nenhum passo muito complicado, pois não sabia se teria equilíbrio para realizar.
— Essa brincadeira de guerra acabou com uma parte dos meus galeões. Mas acho que você não se interessa muito em dinheiro, não é?
Rolou os olhos, ignorando o comentário do Malfoy. Ele devia realmente achar que estava muito bêbada, pois sua mão mantinha-se firme em volta de sua cintura. Gina se permitiu trocar um olhar com ele enquanto sentia seus pés movendo-se praticamente sozinhos, coordenados por uma parte desconhecida de seu cérebro. Daquele ângulo, com o meio sorriso e as sobrancelhas erguidas, o loiro lhe pareceu até mesmo bonito. Sentiu suas bochechas ficarem coradas e afastou o pensamento, tentando puxar algum assunto.
— Eles estão olhando para nós?
Gina sentiu seu braço movendo-se de forma involuntária para cima dos ombros do Malfoy, que girou com ela de maneira lenta e discreta, aproveitando para rodar os olhos pelo salão. O meio sorriso que ele deu adiantou qual seria a resposta.
— Ah, eles definitivamente estão, Weasley.
— Oh, você gosta de escândalos!
— E você não?
Tomou a liberdade de se aproximar um pouco mais do corpo do loiro, que não reclamou ou se afastou. O cheiro do perfume dele ficou um pouco mais evidente e era estranhamente agradável. Gina deu uma olhadinha discreta para o lado e pôde ver Hermione segurando o braço de Rony, que mantinha as bochechas infladas com alguma coisa que estava comendo. Os dois olhando fixamente para ela e o Malfoy, que continuavam seguindo o ritmo da música. Então riu baixinho, voltando a fitar os olhos cinzas do sonserino.
— Eu não me importo com o que eles pensam. Tudo que eu quero fazer é dançar, eu dançaria com Voldemort em pessoa se fosse preciso.
— E você insiste que não está bêbada.
Riu de maneira genuína, como não fazia há algum tempo. Suas bochechas estavam vermelhas e conseguia sentir o calor do Firewhisky exalando por seus poros, mas acreditou que o motivo de sua diversão era realmente o Malfoy. Ele não dançava nada mal, muito pelo contrário, para alguém que já havia bebido um pouco, estava excepcional. E esse pensamento a fazia concluir que, realmente, devia estar muito bêbada.
— Vamos escapar.
A voz dele tirou-a dos devaneios. Virou os olhos para cima e tentou analisar a expressão que ele mantinha. Parecia estar se divertindo, mas ao mesmo tempo falava sério. Ao ver que sua resposta demorou em sair, ele apertou os dedos em volta da cintura da ruiva e insistiu, como se tentando fazê-la prestar atenção ao que dizia.
— Vamos escapar.
De forma atordoada, Gina sacudiu a cabeça negativamente.
— Tem um motivo para termos vindo à essa festa. Não podemos simplesmente sair.
Os olhos cinzentos do Malfoy rolaram nas órbitas.
— Já viemos. Já fomos vistos. É hora de ir embora.
Novamente, Gina viu-se rindo. Umedeceu os lábios enquanto seus olhos dançavam, um pouco indecisos, sem conseguir calcular direito o que poderia lhe acontecer se simplesmente fugisse do ministério com o Malfoy. Quer dizer, sabia que ele não ia sequestra-la ou algo do tipo, mas ficou um pouco preocupada sobre qual a ideia dele sobre divertimento.
— E para onde iriamos?
— Indiferente para mim.
Dava para sentir seu coração pulando, como se estivesse em um show de rock das Esquisitonas. Mordeu o lábio inferior enquanto acompanhava os passos do Malfoy de forma um pouco mais lenta. Seus olhos castanhos oscilavam enquanto os dele, cinzas, pareciam decididos. A cada minuto, aquele plano soava mais irresistível.
— Por que está me incluindo em seu plano de fuga?
Sem tirar os olhos dela, o Malfoy a empurrou suavemente, deixando-a um pouquinho distante dele enquanto seu braço a fazia rodopiar e cair novamente naquele quase abraço que partilhavam enquanto dançavam. Não deu para evitar e riu, sabendo que o salão todo percebera o movimento que acabara de realizar.
— Quando você recebe um milagre, Weasley, você questiona Deus ou aproveita?
— Você está se comparando à Deus?
— Vamos, Weasley! Onde está seu espírito aventureiro?
Mesmo sem saber se aquilo era realmente certo, Gina prendeu o ar em seus pulmões. “Não pense, Gina. Só faça!” Soltou as mãos do Malfoy e começou a andar pelo salão com passos rápidos, indo em direção à saída. Estava quase na soleira da porta quando enfiou a mão em um dos baldes de gelo e apanhou uma garrafa de Firewhisky. Os olhos de Harry, Rony e Hermione se arregalaram ao vê-la tomar tal atitude, mas não dava mais tempo de alcança-la.
O Malfoy vinha logo atrás dela.
— Essa é a Weasley!
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Pés descalços.
Draco não se lembrava qual fora a última vez que vira alguma menina tirar o sapato em uma festa, mas tentou não se apegar muito a este pensamento. Afinal de contas, aquela ali com certeza não era uma garota comum.
Estavam sentados no muro de uma das fontes do ministério já a algum tempo. A garrafa de Firewhisky ficava entre eles, como se fosse o limite de sua proximidade. A voz da Weasley não cessava por sequer um minuto, tagarelando mais e mais conforme ingeria o álcool. Deu para ver suas pupilas levemente dilatadas nos olhos castanhos e Draco achou engraçado como ela era fraca para bebida.
O vestido lilás embolado debaixo das coxas, deixando os joelhos e panturrilhas à mostra, de uma forma que a permitia sacudi-los infantilmente. Draco sentiu-se confortável para abrir o paletó e afrouxar a gravata, observando-a de rabo de olho. Ainda parecia entusiasmada com a pequena cena que protagonizara ao lado dele, completamente desacostumada a provocar comentários nas pessoas.
— Eu queria ter visto a cara deles.
Seus pés sacudiam descoordenados conforme ela falava. O tom de voz assemelhava-se ao de uma criança que acabara de cometer alguma travessura. Parecia tão solta e livre, um pouco menos ácida que o usual. Os olhos cinzentos do Malfoy reviraram e ele sorriu.
— Você está tão bêbada.
— E por que você não está?
Os olhos da Weasley voltaram-se em sua direção de uma forma curiosa. Arqueou a sobrancelha, sem entender ao certo o que ela queria dizer. Então a viu indicar a garrafa com o dedo indicador, como se estivesse falando sobre o Firewhisky. Só então ele notou que a bebida já estava pela metade, surpreendendo-se com as capacidades alcoólicas da ruiva.
— Está com nojo de beber na mesma garrafa?
Se ela ao menos soubesse onde ele estava pensando em colocar a boca meia hora atrás, não faria essa pergunta. Riu com o próprio pensamento e segurou a garrafa, virando os olhos cinzentos para a garota, que ainda parecia desafiá-lo com aqueles grandes orbes castanhos da pupila dilatada.
— Eu não tenho mais quinze anos.
E bebeu. A ruiva assentiu, soltando um bocejo.
— Ah, eu percebi.
Subitamente, a Weasley pulou de seu lado indo para o chão. Fez uma reverência trêmula e desajeitada, como se estivesse prestes a perder o equilíbrio, o que quase o fez espirrar Firewhisky pelo nariz. Baixou a mão que segurava a garrafa e ficou observando-a rir enquanto arriscava alguns passinhos de dança sozinha, rodopiando de um lado para o outro, sacudindo o vestido amassado.
— O que é isso agora, Weasley?
— Quero dançar com você!
Não entendeu de onde viera aquela súbita animação, mas pensou que não seria uma ideia muito inteligente ficar girando com ela durante aquele nível de embriaguez. Por mais que estivesse charmosa com aquele vestido lilás, não estava muito afim de levar vômito na cara. Deu mais um longo gole na bebida, sentindo suas bochechas esquentarem.
— Você vai vomitar. E o que é pior, em cima de mim.
— Eu viro o rosto.
Então cedeu. Talvez fosse a bebida causando algum efeito, mas Draco simplesmente não conseguiu resistir àquela animação. Já fazia algum tempo que não se sentia assim, com ímpeto de se divertir, e ficava feliz de ver alguém que se dispunha a divertir-se com ele.
— Isso aí, dance comigo, senhor pé-de-valsa.
Foi tirando o paletó e deixou no murinho ao lado da garrafa. Arregaçou as mangas da camisa que usava devido ao calor e se aproximou da Weasley, que continuava sorridente e com as bochechas vermelhas. Toda vez que chegava perto dela sentia aquele aroma de baunilha que o inebriava. Passou o antebraço pela cintura da ruiva, deixando-a mais próxima do que já estivera antes e seus dedos finos contornaram a mão dela, guiando suavemente num ritmo lento que não era ditado por nenhuma música. Por mais que houvesse notado a proximidade, a ruiva não reclamou.
Conflitava de maneira árdua sobre as coisas que sentia quando se aproximava dela, mas naquele instante, não conseguia recuar.
Imaginava que ela devia ter o mesmo tipo de conflitos que ele. Ou, talvez, que estivesse embriagada demais para isso. O fato é que não dava para negar que se divertia ao lado dela, fosse influência de alguma bebida ou não. Era divertido vê-la nervosa, suas bochechas vermelhas e os olhos castanhos oscilando. Pena que não conseguisse ter certeza de nada.
Não sabia se a queria ou se era apenas o álcool em seu organismo gritando, fazendo sua libido se agitar. Não sabia se ela poderia querê-lo algum dia, ou se só estava ali pela confusão de ter terminado um relacionamento longo. Não sabia se ele próprio só estava ali por que realmente precisava se divertir, assim como a ruiva. Não sabia se poderia passar por cima de seu sobrenome para tê-la. Não sabia de absolutamente nada, só sentia.
— Você não tem medo de mim?
Sua pergunta pareceu tirar a Weasley de algum devaneio, pois sua cabeça ergueu-se subitamente. Os olhos castanhos o fitaram de uma forma curiosa, como se não houvesse realmente entendido o sentido da pergunta. Draco se perguntou se estava bêbado também, por ficar fazendo perguntas difíceis a alguém que claramente não estava raciocinando direito.
— Medo? O que você tem para me fazer sentir medo?
— Sou um Malfoy. Isso parece suficiente para que todo mundo tenha medo de mim.
E ergueu os ombros. A Weasley pareceu pensar por um momento, desviando os olhos para o lado. Passados alguns segundos, ela sacudiu a cabeça negativamente.
— Eu nunca tive medo de você. Só raiva.
— Ah, muito melhor.
Ela riu. Aquela risada gostosa de se ouvir, meio desajeitada também, semelhante com a própria Weasley. Acabou sentindo-a pisar em seu pé, mas nem fez alarde a respeito por receio de que a ruiva se soltasse e aquele momento acabasse. Respirou fundo e prendeu o ar ao sentir a cabeça dela pesar em seu peito num gesto inesperado. Continuou movendo-se de maneira suave, tentando focar em alguma coisa que não o fizesse surtar.
— Por que você tem sido legal comigo?
A pergunta dela pareceu deixá-lo um pouco desnorteado. “Eu também não sei”, pensou de imediato, um pouco atordoado com o cheiro dela, tão presente e forte.
— Legal?
— No dia em que nos encontramos no hotel. Hoje também.
O rosto dela se ergueu. Draco conseguia ver seu reflexo naqueles olhos castanhos. Aquilo, aquele olhar, conseguiu fazer sua cabeça parar de rodopiar por um segundo. Sentiu o coração pulsar mais forte e umedeceu os lábios, decidindo desvirtuar o rumo daquela conversa.
— Eu estava um pouco bêbado aquele dia. Achei que você perceberia.
— E hoje eu que estou bêbada.
Mais uma vez a risada da Weasley preencheu seus ouvidos. Permitiu-se sorrir, olhando-a com as sobrancelhas erguidas. Aquele cheiro de baunilha, seus braços ao redor do pescoço e aqueles lábios...
— É, está mesmo. O suficiente para não sair correndo de volta para sua toca.
Ela arqueou as sobrancelhas, sacudindo o rosto com uma expressão engraçada. O calor da bebida o fez devanear um pouco sobre aquele semblante que ela tinha e a forma como seus lábios pareciam muito bem desenhados e rosados, tão tentadores.
— Eu devia correr de você?
— Você costumava.
“E devia correr agora”, pensou enquanto sentia seu rosto se aproximar do dela de uma forma quase magnética. Seus olhos cinzentos ficaram pesados e pôde ver que os da Weasley também, pois o fitava com eles semicerrados. Não houve susto ou recusa, parecia que ela já esperava que fossem se aproximar, mais cedo ou mais tarde. Suas testas se tocaram e pôde vê-la entreabrir os lábios bem desenhados.
— E como vai ser quando não tiver bebida entre a gente?
— Só fique quieta um pouco, Weasley.
Embora a pergunta tenha soado como algo importante, ele preferiu não pensar muito no que estava fazendo. De repente, seus pés pararam de se mover e aquela dança sem ritmo cessou. Ficaram se entreolhando daquela forma durante alguns segundos, enquanto Draco tomava a liberdade de subir suas mãos pelas costas da Weasley, afundando os dedos entre seus fios vermelhos. Não conseguia pensar no que estava fazendo nem em quem ela era. Tudo que sabia é que queria aqueles lábios.
Sentiu a mão dela correr por seus ombros e se apoiar em sua nuca, puxando um pouco, como se indicasse que estava esperando um beijo. Dava para sentir a respiração da Weasley bater hesitante em seu rosto. Por Merlin, podia ouvir o coração dela batendo contra o peito, tão forte quanto o dele. “Você não devia, Draco...”, pensou enquanto admirava as sardas que ela possuía em volta do nariz arrebitado.
— Mas...
— Só mais um pouco.
Fechou os olhos. Sentiu a ponta do nariz roçar contra o da Weasley, que pareceu prender a respiração. Os dedos firmemente apertados em sua nuca, assim como ele a segurava pelos cabelos. Roçou seus lábios nos dela sutilmente, sentindo o calor que vinha deles e se entregando àquela sensação de uma forma que nenhuma garota o fizera antes.
Assim que se beijaram, passou o braço livre em volta da cintura da ruiva, fazendo seus corpos se colarem. Aprofundou o beijo, sentindo as mãos da Weasley mergulharem em seus cabelos loiros no instante em que o fez. Ela tinha gosto de Firewhisky, mas aquilo não lhe incomodou nem um pouco.
Cambalearam um pouco, ainda se beijando, até o murinho da fonte. Apoiou as costas da Weasley ali enquanto descia sua mão pela lateral do corpo dela, pousando seus dedos na altura dos quadris. Não houve um gesto sequer por parte dela que demonstrasse não estar à vontade com aquilo, o que o fazia se entregar mais e mais àquele momento. Era difícil descrever aquela sensação, mas foi algo parecido que sentiu quando apanhou o pomo de ouro pela primeira vez, quando jogava quadribol no time da sonserina.
Dava para sentir perfeitamente as curvas da garota sob o vestido lilás. Seus quadris definidos que se moveram quando uma das pernas dela se ergueu, prendendo-o de uma forma que parecia dizer “não saia daqui”, o que o fez achar graça, por que realmente não pretendia sair. Passou a apertar-lhe a coxa quanto as mãos dela bagunçavam seu cabelo de uma forma deliciosa, deixando-o anestesiado durante alguns instantes.
Ao mesmo tempo em que era carinhosa, parecia apressada. Tanto pelo movimento dos lábios quanto das mãos, que não sabiam muito bem que rumo tomar, assim como o próprio Draco. Desceu os dedos que mantinha nos cabelos ruivos até o maxilar da Weasley, segurando o rosto sardento e sentindo o calor que emanava daquelas bochechas vermelhas.
Somente se separaram em busca de ar. As testas permaneceram coladas durante algum tempo, enquanto regulavam a respiração. Draco inclinou o rosto para frente, tentando capturar os lábios dela mais uma vez, mas a Weasley recuou. O gesto o fez abrir os olhos e a viu, parada, com uma expressão indecifrável enquanto encarava seu braço. Aquilo fez seu coração saltar, pois sabia que ela observava a desbotada marca de Voldemort.
Não conseguiu recuar, mas também não avançou. A Weasley manteve um olhar distante, olhando para ele como se subitamente percebesse quem era e onde estava. Foi se saindo dos braços de Draco de forma quase escorregadia, apanhando os sapatos no chão e virando-se para ele, meio cambaleante.
— Acho melhor eu ir para casa.
E foi.
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Não sabia que tipo de titica de hipogrifo havia em sua cabeça.
Já era sábado, devia ser por volta de sete da noite e Gina ainda não entendia direito como diabos acabara beijando Draco Malfoy na festa do ministério!
Quer dizer, entendia direitinho tudo que havia acontecido, mas não sabia dizer o motivo. Na hora, enquanto estavam rindo e se divertindo, tudo pareceu tão normal e tão comum que permitiu-se esquecer aquele maldito sobrenome de comensal que ele tinha. Mas não deu para simplesmente ignorar aquela marca negra no antebraço que passou por seu corpo durante um dos – senão O beijo mais quente de sua vida.
Sua cabeça estava tão confusa que parecia que ia cair.
Se sentou no degrau da varanda do prédio enquanto tomava uma xícara de chá. O tempo não estava dos melhores e dava para ver que ia chover. Quase todo ano as celebrações do aniversário de Dumbledore eram marcadas por chuva e não sabia se era alguma reação climática à morte dele ou somente uma grande coincidência.
De toda forma, ficou observando a rua enquanto sentia seus pensamentos rodarem:
. Nunca mais devia abusar de Firewhisky daquele jeito.
. Merlin.
. Não queria nem imaginar o que sua família ia dizer.
. E Harry.
. Minha nossa, era até capaz de ele aparecer por lá só para repreendê-la.
. Como diabos ia fazer para olhar para o Malfoy na segunda-feira.
. Por que havia aceitado aquele beijo?
. Merlin.
. Por que a única coisa que a impedira de continuar fora ver a marca negra?
. E com certeza ainda devia estar meio bêbada, por que não conseguia parar de querer repetir a dose.
Já tinha tanto tempo que não era beijada de maneira entusiasmada que não conseguia nem se punir por ter ficado um pouco mais animada do que deveria. Sabe-lá-Merlin o que teria feito se não tivesse visto a marca e caído em si. Com certeza que não terminaria a noite dormindo sozinha em seus próprios lençóis, mas não conseguia imaginar o rumo que tomaria.
Isso era excitante.
Não sabia o que esperar do Malfoy.
Isso também era decepcionante.
Não sabia o que poderia vir do Malfoy.
Conseguiu listar mentalmente cerca de trinta coisas perigosas que não sabia a respeito dele. E mais trinta que sabia. Não soube dizer se preferia saber ou não as coisas que passavam por sua cabeça, tudo que queria é que pudesse viver em uma realidade alternativa onde ele fosse apenas um homem e ela, apenas uma mulher.
Quando se concentrava, podia imaginar aqueles olhos cinzentos lhe olhando novamente daquela maneira divertida, com as bochechas avermelhadas e um sorriso de canto, achando graça em seus comentários e trejeitos. Aquelas mãos firmes lhe segurando, os dedos lhe acariciando os cabelos e os lábios finos que lhe beijaram com tanta euforia.
Ou, ao menos, ela pensava assim.
Tomou um gole de seu chá, desejando que ele pudesse ajudá-la a clarear os pensamentos.
Independentemente do que houvesse sentido, sabia que não poderia repetir aquele tipo de atitude. Quer dizer, com certeza que o Malfoy devia estar agora mesmo lavando a boca com desinfetante só pela ideia de tê-la beijado, então não era muito coerente de sua parte ficar ali, remoendo tudo o que aconteceu. Por mais embriagada que estivesse, dava para saber que ele também fora movido pelo álcool e não estava em seu estado normal.
Então era só dizer isso para sua família, quando resolvessem começar o interrogatório. Estavam bêbados, estavam felizes, divertiram-se um pouco. Não era mentira, foi exatamente isso que aconteceu. Fora que já era bem grandinha e tinha plena noção do que fazia, não precisava ficar dando tanta justificativa assim. E com certeza viria o argumento de que ela estava daquele jeito pela separação, que devia reatar com Harry, que não sabia se virar sozinha e todas aquelas coisas que já estava cansada de ouvir.
Mas não era grande coisa, não é? Afinal de contas, não era como se estivesse apaixonada pelo Malfoy ou nada do tipo. Foi só um beijo para eles e só uma dança para o restante. Não significava nada, não é?
Foi então que um pensamento lhe ocorreu.
Será que haveria algum alarde se ele fosse qualquer outra pessoa?
Provavelmente ela estaria com Hermione ali, naquela mesma varanda, conversando sobre a dança, o beijo e como tinham uma espécie de química interessante que poderia resultar em algo mais, mesmo que fosse cedo para dizer. Sua família não estaria decepcionada com ela, quer dizer, talvez Rony, mas ele certamente superaria isso durante uma conversa casual sobre quadribol.
O problema, então, não era sua atitude.
Era por ser ele.
Suspirou, dando mais um gole no chá. Viu um grupo de garotas passar pela calçada, sorrindo, como se estivessem indo para algum lugar. E desejou que também pudesse ir, também pudesse ser uma garota normal que dança com um garoto normal e bebe uma bebida normal em sua vida normal.
Mas, aparentemente, não.
Assim que ergueu os olhos, fitando o outro lado da rua, quase deixou sua xícara de chá cair.
Lá estava ele, olhando-a. Só olhando. Com a cabeça inclinada para o lado naquele conhecido ar de superioridade. As mãos dentro dos bolsos da calça e uma das pernas apoiadas na parede. Não soube dizer há quanto tempo ele estaria ali, talvez cinco minutos, talvez desde que descera ali.
Gina ficou sem saber o que fazer. Seus olhos não conseguiam desviar da imagem do Malfoy, que apenas a olhava, sem alcançar-lhe com sequer um sorriso, um palavrão, nada que a fizesse ter qualquer ideia de como ele estava se sentindo. Mordiscou o lábio. Mas será que era justo esperar dele algum esclarecimento quando ela mesma não tinha nenhum?
Ficou de pé, com os dedos apertados em volta da xícara e os olhos grudados nele. Pareceu suspirar, tirando o pé da parede e colocando-se a caminhar em sua direção, com as mãos nos bolsos, soando um pouco casual demais para a ocasião. Gina engoliu seco, sem saber ao certo o que esperar do Malfoy. Imaginou que não começaria a gritar pela forma serena como caminhou até sua frente, mas ainda assim sabia que ele podia amaldiçoá-la com aquela habilidade em feitiços não verbais que possuía no colégio.
Trocaram um olhar durante alguns instantes. Apertou os lábios, esperando que ele lhe dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas nada veio. Apenas ficou parado, olhando-a daquele jeito indecifrável, mas sem nenhum traço do divertimento da noite anterior.
Respirou fundo.
“Eu tenho que fazer isso. Eu tenho que fazer isso!”
Ergueu os olhos.
— O que você está fazendo aqui?
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