Pontos Finais
1 Pausa absoluta, de tom descendente
Os dedos de Ícaro enterravam-se com convicção no meu quadril enquanto me puxava para perto. Lenta e tortuosamente, ele traçava uma linha suave com a ponta do nariz que ia da minha clavícula até meu maxilar, então de volta à clavícula. Cada suspiro seu contra a minha pele era um arrepio percorrendo-me da ponta dos pés até o topo da cabeça, e em algum ponto ali, no quase inexistente espaço entre nós, Ícaro se fundia a mim, e eu a ele.
Isto é, costumava ser assim. Costumava haver uma ligação, costumava haver dedos formigando e entranhas revirando, costumava haver desejo em cada canto de nossos corpos, e quando nos encontrávamos, costumava haver uma reação explosiva. Agora? Bem, agora não havia mais que aparências forjadas sobre um sentimento que já não existia.
Ícaro voltou o olhar intenso para mim e, por alguns instantes, permiti-me fragilizar pelas belas íris esverdeadas que ele covardemente ostentava e que me arrebatavam desde, que eu consiga me lembrar, sempre. Olhei-o como se fosse a primeira e última vez que o faria, um adeus silencioso e libertador.
E como uma recusa orgulhosa e egoísta, Ícaro me segurou pelo punho e me pressionou firmemente contra o seu peito; abraçou-me como se aquela fosse uma despedida que ele não pudesse dar. Talvez ele soubesse que seria inevitável e talvez ele só quisesse adiar aquilo porque não queria perder o que tivemos, talvez ele não fizesse ideia, talvez, talvez.
Ali, com meu rosto contra o peito de Ícaro e o som suave das batidas rápidas de seu coração ecoando em meus ouvidos, eu soube que não o conhecia da maneira que pensei conhecer. Poderia desenhá-lo por inteiro no ar com a ponta dos meus dedos e os olhos bem fechados, tanto fora o tempo que passamos juntos, mas não saberia dizer se possuía um nome do meio ou não, nem deduzir no que ele estava pensando.
— Você está triste — não uma pergunta ou uma dúvida, mas uma afirmação; afundado os dedos em meus braços, Ícaro se afastou apenas o suficiente para me encarar preocupado. — O que foi que aconteceu?
Talvez ele me conhecesse bem demais. Levei a mão até o lado de seu rosto, parando por alguns segundos apenas para admirá-lo, e inevitavelmente acariciei sua têmpora enquanto ele me retribuía com um olhar magoado. Seu cenho adoravelmente franzido, o lábio inclinado para a direita, o nariz retilíneo, o maxilar angular, as sobrancelhas grossas, seus lindos e brilhantes olhos.
Ficando na ponta dos pés, deslizei minha mão direita pela pele da nuca de Ícaro, e apesar do momento ter durado pouco mais que alguns segundos, eras pareceram se arrastar até que seus lábios encontrassem os meus. Estava ciente de tudo, do perfume dele até sua boca macia, das conversas do corredor da escola até as mãos dele, uma envolvendo minha cintura, outra enlaçando os dedos aos meus e levando meu braço esquerdo às minhas costas. Quando Ícaro me segurou daquela maneira, pude sentir todos os meus pensamentos escorrerem para fora de minha cabeça como uma represa arrebentada que me arrastava junto da correnteza.
Houve um breve momento em que o entorpecimento venceu e só existimos eu e ele abaixo das fortes luzes esbranquiçadas do corredor, tão breve que mal tive tempo para evitar que fosse embora.
Ícaro inclinou a cabeça para trás, recostando-a contra os armários de metal amarelado, e fixou seus olhos semiocultos pela franja excessivamente longa em mim. Por mais que me encarasse daquela maneira acusatória e ligeiramente magoada, suas mãos permaneceram ali, segurando-me firmemente contra ele.
— Então?
Sustentei seu olhar por alguns instantes — o silêncio entre nós pressionava minha têmpora cada vez mais forte, e Deus, como minha cabeça latejava —, esperando que ele dissesse algo mais que “então”. Após alguns segundos rastejantes em que nos fitávamos intensamente, descobri que aquilo era tudo que Ícaro tinha a dizer, um simples e vazio “então”.
Pigarreei, tentando me livrar do enorme nó que havia se atado na minha garganta. Como raios é que se termina com alguém? Alguém que está ali, bem na sua frente, segurando-a como se não pudesse te deixar partir? Certo, deixe de enrolação, Sol.
— Você vai terminar comigo — mais uma vez, não uma pergunta e muito menos uma dúvida, mas uma afirmação lenta e carregada.
Mas carregada de que? Raiva? Incredulidade, talvez? Inclinei-me para frente e escondi meu rosto na curva de seu pescoço, sem afirmar ou negar nada. Sua mão deixou meu quadril e subiu, acariciando meus cabelos enquanto, com a outra, ele pressionava a palma na minha.
— Ícaro — murmurei baixinho contra a pele de sua jugular para que apenas ele me ouvisse, um pequeno e insignificante segredo —, sei que não gosta mais de mim, então lhe farei um favor; te deixarei ir. Não precisa mais fingir, nem esconder mais nada de ninguém.
Pude sentir a ponta dos dedos dele deslizando lentamente por entre as mechas de meu cabelo enquanto seu coração perdia um compasso. Ah, qual é, não dificulte isso para mim, por favor. Fechei os olhos, inspirando fundo seu perfume enquanto rezava para que ouvisse alguma coisa, qualquer que fosse; ao invés disso, Ícaro apenas deu um breve aceno de cabeça, acertando o queixo dolorosamente no topo da minha testa.
No instante seguinte, quando as mãos dele já não me tocavam e eu lentamente dava um passo para trás, cada centímetro parecendo uma milha de distância, senti algo quebrar dentro do meu peito. Não algo paralisador ou atordoante, nem uma dor trágica e irreparável, apenas a ruptura de algo que havia muito queria ser livre.
Com um “tchau” desafinado que mais soou como um murmuro, Ícaro desapareceu na corrente de alunos que passava como se nunca tivesse estado ali. E dentre todos os comportamentos esperados de um término de namoro que eu poderia ter, sorri. Não que eu achasse graça da situação — pelo contrário, foi até mais dramático que pensei que seria —, mas porque ela me impressionava de maneiras tão diferentes.
Quero dizer, não é assustadoramente incrível que um par de palavras tenha o poder de te tornar um estranho a alguém que antes fora uma parte tão ativa de seus dias? Não é ainda mais assustador que, ao passo que você vira um estranho para alguém por causa de um amontoado de palavras, este alguém também se torna um estranho pra você?
Inspirei fundo, ocultando o sorriso de meu rosto. O término era agora como uma coceira incômoda no nariz, e não me preocupava nem um pouquinho porque eu sabia que, se eu a coçasse, ela iria embora.
“Não foi dessa vez, Sol” pensei, “não foi dessa vez”.
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