Ponto fraco

1 Prólogo 1 – Contexto do português.


Notas iniciais
^^

Sandra Maria de Abreu Trafalgar nasceu portuguesa, em Guarda, descendente de uma família de comerciantes em ascensão social. Cansada das tradições que lhe sustentava o nome, Sandra fugiu de casa para viver um sonho libertino.

Por anos, na Inglaterra, viveu à custa de um jovem barão inglês, Law Water, a quem não lhe transparecia o mínimo de reciprocidade, mas mínimo de luxo efêmero que era suficiente para mantê-la em estado de sono.

Passados os anos, Law se desvinculou de Sandra, lhe desamparando de seus sonhos e de sua relação. Sem votos de compromisso com o barão, e temendo voltar para Portugal e ser rejeitada, Sandra resolveu engravidar do inglês, a fim de conseguir mantê-lo consigo. Law negou envolvimento com a mesma, e Sandra, após muita resistência, voltou para Portugal, onde viveu de forma marginal pelo resto de sua vida.

Foi Sandra que deu a luz a Law Water Trafalgar. Nascido em Guarda, em seis de outubro de 1992. Sem envolvimento com os Trafalgar, nem com os Water, cresceu sem exemplos de vínculo familiar, mas com o peso nas costas de ser bastardo, e abandonado.

Os anos os quais teve oportunidade de viver com sua mãe foram anos em que lhe faltaram recursos. A mãe era insuficiente em seus empregos e obcecada no reencontro com o barão. Era necessário que Law trabalhasse desde cedo.

Desde novo, aprendeu a identificar o trauma da mãe. Era comum ouvi-la murmurando sobre um duque inglês e sobre como a Inglaterra era o melhor lugar do mundo. Toda vez que dormia, não sonhava o sonho da mãe, e crescia com o peso do mundo nas costas.

Certa vez, um cigano imigrante passou a ajudá-los fornecendo os produtos que vendia de forma ambulante de graça e dando suporte emocional para a criança. Sandra Maria pouco se importava com a aproximação do estranho, era muito alheia ao mundo externo.

Por sorte, esse cigano adorava crianças, e desde novo sonhava em ser pai. Era conhecido por ser estabanado e fazer as crianças rirem com seu péssimo português-espanholado. Seu apelido era Corazón, o Arlequim.

Um dia, Corazón conquistou a família Trafalgar, e passou a unir-se a eles.

Porém, Sandra passou a alucinar bastante em febre, com uma doença contagiosa e incomum que era caracterizada por manchas brancas em todo corpo. A sua popularidade de moça da vida, e a de Corazón de cigano ladrão não ajudaram para que os vizinhos tomassem empatia pela moça, e em poucos meses, Sandra partiu.

Completamente órfão, Law passou a falar e comer menos, e a cada semana que se passava surgia uma nova mancha branca em seu corpo. O arlequim, desafiado pelo tempo, partiu com o garoto para Saragoça, onde prostrou aos pés de um irmão que odiava, para tratar da doença contagiosa do menino. Um era tudo o que o outro tinha.

Law entrou em tratamento quando tinha 12 anos de idade, e o tratamento, mesmo lento e custoso, curou-lhe totalmente. Durante esse período, viveu em um apartamento alugado com o arlequim, que também teve que entrar em tratamento pelo contágio.

O passar do tempo tornou-lhes grandes amigos, e algumas poucas vezes, Law se referia a ele como pai, aconchegando o coração de ambos, apesar da pouca diferença de idade.

Law descobriu que o irmão de Corazón havia assassinado seus pais, que sofria muito com isso, que seu nome era Rocinante, em homenagem ao velho pangaré de Dom Quixote, que devia uma quantia absurda ao irmão por conta de golpes que lhe eram aplicados... Não demorou muito a entender que estariam endividados por conta dos tratamentos fornecidos por Doflamingo, e também, o cigano mal conseguia um emprego, a fama de ladrão era algo lhe perseguia. Law odiava os preconceitos que lhe circundavam.

Culpando-se, e envergonhado, passou a negar-lhe regalias e até mesmo o pão de todo dia, que trocava por refeições mais baratas, com a desculpa de que “odiava pão”. Estudava com muito esforço para conseguir uma boa carreira e livrar-los de todas as dívidas, o que era fácil já que, acostumado com a fome e falta de sono, não lhe faltava comida nem tempo de estudos.

Madrugar nos livros se tornou costumeiro, e para o orgulho do pai, conseguiu passar na faculdade de medicina em Lisboa, com direito a aposento universitário e refeições.

Quando tudo parecia andar conforme os trilhos, em Lisboa, Law recebeu uma ligação de Rocinante afirmando ter matado o irmão para se livrar da dívida e, apesar do caso trágico, parecia contente, e até ria. Aliás, qual outro beneficio financeiro maior poderia um alerquim trazer à sua pequena família de dois rapazes?

Nessa mesma ligação, também lhe avisou que cumpriria a pena de doze anos, e lhe fez um único pedido: “Viva sua vida como quiser, mas nunca fique só”.

De personalidade introspectiva, Law passou à força os seis anos de estudo em graduação de medicina no aposento da universidade portuguesa, que por sua sorte, recebia os diversos alunos em semestres alternados, o que não lhe permitia criar laços.

Finalizada a graduação, com o dinheiro do estágio, voltou para a Espanha, trabalhou em um programa como médico residente e terminado seu período, prestou mestrado para Sevilha, no qual passou com honras. Vivia no automático, apenas seguindo as ordens de Rocinante e esperando-o cumprir a pena de prisão. Mas apesar da vida monótona, não lhe era raro o prazer e a satisfação.

Naquele dia, estava satisfeito pelo bom apartamento que alugou, no quarto andar de um prédio familiar. Observava a vizinhança da sacada enquanto o coração lhe apertava a falta do pai, pois tinha certeza que ele adoraria admirar a praça pequena e aconchegante que poderia ser vista.

Sobre o novo aconchego, como de costume, a parte comum era mais vazia, com apenas móveis necessários. Todos seus eletrônicos e até mesmo a estante com os livros que usava estavam em seu quarto, concentrados. Além do espaço comum, do seu quarto, e da varanda, o novo apartamento tinha um quarto um pouco menor, um banheiro comunitário e uma cozinha pequenina com lavanderia embutida. Era o espaço perfeito para “passar o tempo” enquanto você encontrava um lugar melhor para ficar, e esse era o tipo de gente que Law gostaria de atrair.

Cumprindo a promessa do pai, teria apenas uma semana de solidão até a chegada do novo hóspede. Fechou as portas de vidro da varanda, trancando-as e cobrindo a parte de dentro do apartamento com a persiana, que escureceu todo o aposento. Caminhou até a cozinha e encheu uma taça do vinho que gostava para comemorar a nova vida em Sevilha. Brindou consigo, em comemoração.

Caminhou pelos corredores e se sentou em sua confortável cadeira de trabalho, no quarto, de frente para seu netbook pequeno. Iniciou a leitura de alguns pré-requisitos para as disciplinas do mestrado, enquanto ainda aproveitava sua bebida. Estudar era algo que lhe satisfazia, era prazeroso ao ponto de deixá-lo animado.

Findado essas leituras, revisou o contrato do aluguel atual e passou para o e-mail onde estavam os dados do próximo hóspede que havia solicitado antecipadamente.

“Luffy D’Mono. Masculino. 19 anos. Carioca, brasileiro. Graduação incompleta. Português e inglês. 2 anos. Tipo A. Não. Não. Não, Como de tudo.”.

Law franziu o cenho, visto que esse não havia colocado as perguntas no e-mail, mas pelo menos tinha respondido todas que havia feito. Um pequeno sorriso se abriu de lado nos lábios do português pelo e-mail engraçado que o “Luffy do Macaco”, como seria chamado em Portugal, havia o enviado.

Começou a digitar:

“Mono, estou a enviar-te a resposta a fim de confirmar tua estadia de dois anos em Sevilha. Precisas de boleia para deslocar-te do aeroporto a nossa casa? Ligue, se for útil. Att, Law Trafalgar."

Notas finais