Notas iniciais
É um prazer tão grande escrever paralelepípedo. Boa leitura!

Antes de pôr a chave no portão, Francis despediu-se da trupe delirante.

Antônio, do outro lado da rua, retribuiu o aceno com duas buzinadas de sua kombi capenga. O escapamento latiu ao dar a partida, e a partir disso Francis teve certeza de que no mínimo metade da vizinhança estava acordada graças ao organismo deteriorado de Maria Capitolina. Discrição é para os fracos, não é mesmo?

Entrou em casa sorrindo com as sombras tampando sua alegria. A noite fora boa. Casa cheia e comissão gorda. Não existe tristeza às sextas-feiras.

Deitou o violão no vulto do sofá com cuidado e tirou os sapatos, estralando os dedos no piso frio. Acendeu a luz da cozinha. Na mesa, prato e talher separados para si. Foi até o fogão e abrindo a única panela disposta, viu que a janta era sopa. Fez careta. Estava faminto, mas queria ao menos alguma coisa decente que se pudesse mastigar. Tirou um pacote de biscoitos do armário e sentou-se à mesa, sacando o maço de cigarros do bolso da camisa e socando duas rodelas da guloseima direto na boca.

Contemplou a janela entreaberta.

Lua crescente. Tempo de boa sorte. Deus nos ouça.

Rolou o olhar para o corredor. Ivan estava escorado no batente com os braços cruzados e emanava uma aura de mau humor distribuído pelo seu corpo de um metro e oitenta e dois. Seu cabelo parecia um novelo de lã esquecido num baú de vó e trajava apenas aquela calça de moletom cinza que deveria ter sido doada no natal passado. Uma evidente vítima de Maria Capitolina. Francis sorriu-lhe com a boca cheia de bolacha e sentiu a aura do marido engrossar.

—Está bêbado?

Não havia raiva em sua voz, o que cientificamente comprovava que ele estava puto.

—Ainda não, amor. Mas corrigirei isso em breve. — Apontou para a prateleira com Johnnie Walker e Jack Daniels saudando-lhe das alturas.

Ivan bufou e esfregou o sono da cara. Fez menção de puxar a cadeira mais próxima de si, mas Francis interrompeu-o grunhindo feito neandertal e sinalizou o acento disponível ao seu lado com tapinhas camaradas. Rolou os olhos fatigados, mas obedeceu meio de bom grado, meio emburrado. Incógnito.

—Você disse que voltaria antes das onze — Começou, antes mesmo de esparramar-se no lugar remetido.

—Você não especificou sua ordem, amor. Agora são quatro da madrugada, portanto, voltei antes das onze da manhã. Ou seja, estou dentro do prazo.

—E voltou bem engraçadinho pelo visto, Francis Bonnefoy.

—Não é por menos. O boteco ferveu, amor! Nenhuma mesa vazia e gente dançando até na calçada. Isso porque nem comentei do cachê ainda...

Ivan fitou a mesma lua antes admirada por Francis. Não queria brigar, mas Francis era teimoso e cutucava a mesma ferida várias vezes. Ponderou um pouco e deu seu voto:

—O problema não é a banda, o bar ou a bebida. Já te conhecia muito antes disso. O problema são as crianças. — O outro soltou um suspiro cavernoso. Déjà vu? — Francis, por favor. Você chega tarde da noite em casa e passa o resto do dia dormindo ou tocando violão na varanda. Eles mal veem você!

—Exagero. E aquela vez que fomos ao parque?

—Isso foi há exato um mês e você ficou sentado bebendo na lanchonete enquanto eu brincava com a Michelle e o Matthew!

—Cada um com suas diversões! Foi um passeio justo e eles adoraram!

Ivan bufou de novo e roubou um cigarro da mesa. Puxou o isqueiro do bolso frontal da calça do marido isento de cortesia e tragou fundo. Odiava o cheiro de cigarro e odiava fumar, mas odiava mais ainda quando Francis pisava na mesma merda em um espaço curto de tempo.

Pela primeira vez Francis esboçou seriedade. Pegou a mão livre do câncer em filtro de Ivan e deixou alguns beijinhos em sua palma, roubando a atenção das retinas nebulosas do outro. Ivan tinha olhos de dia de chuva. Francis sempre gostava quando chovia, mas não nos olhos de Ivan. A boca que antes era um traço perfeito fez uma curvinha de leve para cima. Um pequeno passo para o homem, mas um gigante salto para a humanidade.

—Amanhã vai ter ensaio na casa do Gilbert — De volta para o traço perfeito — Quero levar você e as crianças. A casa dele é grande e está para nascer alguma criança que não goste de piscina. Posso ligar para o Arthur e ele leva o Peter também.

Ivan não se deu por total convencido. Ainda estava magoado. Queria discutir só mais um pouquinho.

—Ainda estou fodido com você.

Francis mostrou os caninos de canceriano sem rumo e replicou com a malemolência que só os eternos boêmios têm.

—Você pode descontar sua raiva em mim de tantos jeitos, anjo...

A fumaça do cigarro deu um ar etéreo à gargalhada de Ivan. Apagou o resto do fumo no prato inutilizado e se levantou, saindo da cozinha e retornando para a catacumba escura.

—Eu não vou fazer o serviço sozinho, sabe?— Ressurgiu a cabeça flutuante na moldura do corredor.

Francis se ergueu também, abrindo o cinto para lhe poupar trabalho quando chegasse ao quarto. Apareceu na alcova abrindo a camisa e desnudando o peito lanudo. Foi recebido com algumas dentadas mansas na clavícula e dedos gelados na cintura.

—Não vou ser gentil.

—Você nunca é — Beijaram-se. Fome e fúria.

Toda barreira de areia construída com mágoa se desmancha na primeira onda de felicidade.

***

Francis sabia que estava acordado, todavia a preguiça de abrir os olhos apossou seu corpo. Corpo que ardia da orelha até o calcanhar, especialmente no ponto central de sua anatomia. Ronronou satisfeito e rolou para a beira da cama, colando a barriga no colchão. Desabrochou de leve as janelas de sua alma vagabunda e sentiu toda a espinha gelar ao ver um par de olhos apáticos assistindo sua inércia. Soltou um palavrão que fez os olhos do filho triplicarem de tamanho.

Matthieu! Mas que merda é essa?!

—Papai mandou acordar o papai.

—Fale pro papai que o papai quase morreu de susto!

Matthew não sabia se o pai estava bravo consigo ou com o outro pai, então guardou a dúvida pra si e saiu arrastando o urso encardido de pelúcia.

Francis só percebeu que estava nu quando Matthew foi embora. Rezou internamente para não traumatizar tanto o filho antes da adolescência e vestiu alguma bermuda com uma das camisetas ruças de Ivan. Foi ao banheiro dedicar quinze minutos do dia à sua estimada vaidade. Terminada sua assepsia, desceu para a cozinha.

O caminho cheirava a bife acebolado. Ivan estava de costas mexendo no fogão enquanto discutia alguma coisa no telefone na língua materna. Provavelmente com a mãe ou uma das irmãs. Podiam até não estar discutindo mesmo, mas aquela fonética espessa sempre lhe remetia a situações de conflito.

A família de Ivan era complicada. Francis não gostava de coisas complicadas, mas gostava de Ivan e há certos preços que a gente precisa parcelar para sermos completos.

Michelle coloria um de seus cadernos de desenhos ruins e soltou um chiado quando Francis a cumprimentou com uma cutucada no pescoço e um som de flato provindo da boca. Viu o pai dar a volta na mesa e cravar as unhas nos glúteos do outro, segurou uma risada grande dentro da garganta e ficou lisonjeada com a piscadela brincalhona que recebeu do pai palhaço. Alheio a piada interna do marido e filha, Ivan interrompeu a conversa remota e deixou uma beijoca estalada para Francis, que satisfeito sentou-se em seu respectivo lugar na távola retangular.

Enquanto Francis roubava um dos tomates da salada, Ivan desligou o telefone e serviu o almoço.

—Matthew, vem almoçar! — Anunciou antes de se sentar — Mamãe estava me contando que Natália assumiu que é lésbica. Quer salada, querida?

Michelle assentiu e Francis engasgou.

—Eu sabia! — Exclamou ele — Te avisei que sua irmã era fancha! O senhor Braginski deve estar reluzente.

Ivan censurou-o bem humorado. Nem toda verdade ofende.

—Meu pai não sabe ainda. Ou faz que não sabe, como fez comigo. Acho melhor assim. Não quero a Nat passando pelo mesmo inferno que eu.

—O que é lésbica? — Perguntou Matthew juntando-se à família.

A resposta de Francis interpelou a de Ivan.

—O mesmo que o papai Francis e o papai Ivan, mas sem o pipi.

—Como você é didático, amor.

—Obrigado.

Diversos assuntos saltaram pela mesa, com mais e menos importância. A louça ficou por conta de Francis e Matthew, enquanto Ivan e Michelle arrumavam as mochilas para ir à casa do tio Gilbert.

Antes das três, a família já estava no carro a caminho do ensaio. Precisaram voltar dois quarteirões porque Matthew tinha esquecido seu urso. Chegaram finalmente e Maria Capitolina foi reconhecida por todos. As crianças foram as primeiras a saltar dos bancos, seguidas por Ivan e então Francis, que foi pegar seu material no porta-malas. Foi o único a reparar que um dos faróis da carroça estava quebrado, e seu luto por Antônio durou uns meios segundos.

Sacou o violão e a cerveja, seu kit de sobrevivência. Matthew, no colo de Ivan, tocou a campainha.

Gilbert morava em um casarão senhorial. Pouco judiado pelo tempo, a vida corria nas paredes rachadas pelas trepadeiras em flor. A casa foi mantida pela família de imigrantes até o senhor e a senhora Beilschmidt sentirem-se saudosos da terra natal e mudarem-se de volta para a Alemanha após enriquecerem. Seu irmão caçula foi na bagagem e hoje em dia cuida da empresa deixada como herança. Gilbert não ficou rico, mas ficou com o ninho e comprometeu-se a manter a ordem teutônica de seus congêneres.

—Sou maluco, mas sou organizado — Ele clamava.

Porém, quem abriu a porta foi Elizabeta.

Elizabeta às vezes era a namorada de Gilbert, às vezes era a namorada de Roderich, que não irá aparecer na história.

Liz mantinha uma relação caótica e sexualmente deliciosa com Gilbert, e quando queria ser mais brisa e menos furacão, trocava filmes, discos e beijos com Roderich. Enquanto era chamada de vadia por uns, indecisa por outros, ela era feliz por si própria. Adão, Lilith e Eva.

A morena exibiu seus dentes de piano para a família, refletindo-o em cada um dos rostos em pé na rua de paralelepípedo. Era impossível não sentir apreço por aquela energia de lírio.

—Vai cantar com a gente, Liz? — Mesurou Francis.

—Hoje não. É dia de brisa — Cada um dos rostos fez um beicinho ínfimo — Oh, não fiquem assim. Matt. ‘Elle. Ivan! Droga, assim não resisto... Ok! Eu volto! É difícil manter o coração duro com essas carinhas!

Liz foi brevemente ovacionada por seus fãs e convidou-os para entrar. A pressa dos infantes foi retomada e o trio adulto ouviu Gilbert saudar as crianças com gritos falsos de espanto e gargalhadas gostosas ecoando pelas colunas vetustas do casarão.

O anfitrião finalmente surgiu e circulou a cintura da moça.

—Pense em mim enquanto ele te come. — Beijou a nuca de Liz.

Liz riu, não respondeu e se despediu de todos, descendo a ladeira com o vento ondulando seus cachos.

—Fala aí, corno.

—Firme, viado?

Os amigos abraçaram-se risonhos. Com Ivan, Gilbert trocou um aperto de mão caloroso. Ivan há muito estava acostumado com a delicadeza desse convívio.

Gilbert fechou a porta e aquele friozinho bom de casa quente acolheu todos os presentes. A planta do lugar não era novidade: Passaram pelo quadro imponente da família arcaica, pelas escadas que davam para os infindos dormitórios, seguiram o corredor e toparam com o grande quintal do casarão.

O sol dançava na água, a bateria esperava seu dono na edícula e Michelle ajudava a pôr as boias nos bracinhos rechonchudos do irmão sob supervisão relapsa de Antônio que afinava as cordas do baixo num banquinho.

—Capitu ‘tá caolha, Tônio? —Gritou Francis, indo guardar a cerveja no freezer. “Olhos de ressaca!” Gilbert ecoou lá no fundo.

—Nossa, é o rei da comédia esse Gil. Apedrejaram minha mulher, galego! Um farol novo pra ela vai ficar uma nota. Se eu pego quem fez essa cagada...

Gilbert atravessou o intervalo de luz da casa para a edícula num pulinho que seria cômico se não fosse trágico. O rapaz tinha um nível agravado de albinismo que afetou até a pigmentação das retinas, e a mínima exposição solar lhe rendia uma ardência infernal por dias.

Ivan e Antônio saudaram-se com tapinhas nas costas, e o pai foi passar filtro solar no couro das crias ansiosas.

Terminada a maçante missão paternal, Ivan deu a carta branca e Michelle saiu correndo para a piscina, eclodindo um leque d’água ao saltar. Matthew foi logo atrás, deu um pulinho modesto. Mais hesitante, não menos radiante.

—Teus filhos tão lindos, casal girassol. — Comentou Antônio, admirado.

Os pais trocaram um olhar iluminado e Francis mordiscou a bochecha de Ivan.

—Cacete de cabo! Francis me dá um socorro aqui! — Queixou um Gilbert perdido nos equipamentos.

—O dever me chama, anjo. Consegue sobreviver com este espécime de vagabundo que vos mostro? —Gesticulou em picuinha para o baixista. Antônio respondeu com o dedo médio em riste.

—Se me casei com você, acredito que sim.

—Haha! Chupa Barbie! Vê se traz uma cerveja quando voltar.

Francis se retirou contrariado com a reviravolta da situação. Ivan riu de leve, mas a melancolia era pontual e não passou despercebida por Antônio.

—O que te aflige, gigante de gelo?

—Alguns problemas com o galã aí. Nada demais.

—Posso ajudar? Sou muito bom em fazer decisões ruins e isso me rende conselhos razoáveis.

Ivan escorregou os olhos chuvosos para o pé de ipê que sombreava a piscina. Nele, um joão-de-barro saltitava de galho em galho piando irritado na tentativa de ter sossego em sua vizinhança. Ele e Ivan mal sabiam que paz nunca trouxe vantagem a ninguém.

—O silêncio de Francis incomoda, sabe? Ele está sempre pelos cantos, parece que nem existe na vida das crianças. Ou da minha — Engoliu as últimas vogais constrangidas.

Antônio decodificava partituras bêbado, mas ler Ivan sóbrio era um desafio a se repensar. Observou o homem gelado. Ali morava um peito braseado, afinal.

—Ele nunca foi barulho, Ivan. Me orgulha vê-lo casado e com filhos perfeitos, ao invés de alguém que tem como único comprometimento pra vida comparecer nos ensaios e nos dias de show minimamente lúcido. Ele tem essa cara de canalha e aquela barbicha que deveria ter sido arrancada no colegial, mas é assim: gritantemente tranquilo.

—Não pense que estou culpando vocês, só acho que não deve ser fácil conciliar a banda com a vida lá em casa...

—Se fosse assim ele nem tentaria, Ivan. Ele podia ter virado um merda solteirão como eu, mas está aí com você, a ‘Elle e o Matt. Sei por cima as coisas que você teve que abrir mão no passado para ser feliz hoje, mas essa regra não se aplica a todos. Cada sacrifício é individual. Sei que não parece, mas não tem banda ou pinga que pague o amor que esse cara tem pela família. A sua família.

O imenso corpo de Ivan acalorou-se. Não de vergonha. Gratidão.

A chuva escorreu devagar pela neve. E em muito tempo, o sol raiou.

Notas finais
Comenta aí pra incentivar a mãe, na moral ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.