Lia

Cinco dias antes

Ela estava morrendo de sono. E numa confeitaria, isso era um problema seríssimo.

Liakánda Me’vi disfarçava da melhor maneira. Anotava os pedidos, entregava as encomendas e desejava um bom dia a todos. Mas aquele sonho não lhe saía da cabeça, sentia que havia um buraco em seu peito toda vez que pensava nele.

Somente o fato de seu primo ter conseguido um dia de folga para sair com seus amigos era capaz de distraí-la. Em um ano que trabalhava ali, ela nunca recebera um dia de folga!

Como se isso não fosse suficiente, o seu trabalho era o mais pesado: atender os clientes. Circulava como uma louca pelo ambiente, lutando para não deixar ninguém na mão. Para piorar, a dona da confeitaria era, ninguém mais e ninguém menos que sua mãe, a senhora Marine.

A garota vivia com medo da reação dela caso lhe fosse pedir um aumento.

Fazia dois anos desde que sua mãe abrira a lojinha. Ser curandeira não lhe satisfazia mais e a fazia lembrar-se de casa. No entanto, Marine sempre teve mãos de ouro na cozinha, seus doces fizeram sucesso rapidamente pela cidade de Hélio. E então, nasceu a confeitaria.

Lia gostava do trabalho, apesar dos penteados e apetrechos um tanto infantis que sua mãe lhe fazia usar. Ela gostava de dizer que uma moça bonita atraía mais clientes, mas Lia preferia ser como as mulheres vindas de seu velho lar que entravam no estabelecimento. Peles bronzeadas, olhares fortes, longos cabelos escuros, mulheres normais.

Esses pensamentos a conduziram lentamente ao seu velho lar. Ela tinha apenas cinco anos quando foi embora do Reino de Luanda. Sua mãe a levou para um navio às pressas no meio da noite, em direção a ilha do Reino do Sol.

Lia se lembrava de estar triste por estar indo embora, Luanda era um lugar belíssimo onde tudo remetia à Lua. E quase como se o astro estivesse lisonjeado por estar tão presente na cultura daquele povo, as noites eram sempre estreladas e um tanto frias.

Fazia um certo tempo desde que não tinha notícias de lá, mas pelo que sabia, a beleza dera lugar a podridão, morte e poluição. As indústrias e a fumaça negra esconderam o céu do menor país do continente e essa não era a pior parte. A magia sumia a cada dia que passava e a pessoa responsável por isso...

— Lia! — disse sua mãe quando entrou na cozinha. — Nós vamos fechar daqui a pouco, não quer procurar o Jimmy para mim?

A garota revirou os olhos, colocando a bandeja em seu lugar. Era só o que faltava! Jimmy já era um “homem” de dezessete anos, poderia muito bem se cuidar sozinho.

— Já vou — respondeu, secamente.

— Você está bem?

Lia assentiu e entrou no banheiro. De frente ao espelho, ela entendeu a pergunta da mãe. A maquiagem não foi capaz de esconder as olheiras profundas e o cansaço em seu rosto, resultantes de uma noite mal dormida.

— Foi só um sonho, Lia — disse a si mesma. — Foi só um sonho.

*

Brincar com Carol, filha da vizinha, foi o que a tirou do tédio de ter que correr atrás do seu primo.

A pequena correu por toda Hélio até as duas chegarem a praia, onde a areia dividia espaço com as flores de dente de leão. Lia estava exausta, mas o sorriso com alguns dentes faltando de Carol era suficiente para revigorar suas forças.

As duas pegaram alguns dentes de leão para a mãe de Carol, uma das melhores curandeiras da ilha, depois de sua mãe, claro.

— Ah, sabia que você estava aqui! — Jimmy corria na direção delas.

— Onde você estava? — retrucou Lia com a boca cheia de dente de leão.

— Por aí. — Ao ver Carol, o garoto fez voz de bebê. — Ei, princesa!

A pequena tentou se esquivar, mas ele era mais rápido e logo estava enchendo-a de cócegas. Observando os dois, Lia sentia que o vazio em seu peito iria devorá-la, algo aconteceu ou aconteceria ao príncipe de Luanda e ela estava longe demais para fazer alguma coisa.

— Lia? — chamou Jimmy, despertando-a. — Terra chamando Lia!

Sabia que estava na hora de levar Carol para casa, então assentiu. O pôr do sol transformou o céu em vermelho e laranja, a Lua logo chegaria e a garota só podia torcer para não ter novas lembranças de casa e conseguir dormir naquela noite.