Ponto de Fusão
3 Capítulo 2
02
Lia
Quatro dias antes
Para sua felicidade, Marine a liberou do trabalho naquele dia e Lia aproveitou para colocar seu macacão branco e caminhar pela praia. Precisava de um momento consigo mesma para entender o que estava acontecendo.
O sonho havia vindo novamente, mais real do que da última vez. Parecia que ela estava apanhando no lugar do príncipe, sabia que era seu psicológico lhe pregando uma peça, mas Lia acordou com o corpo dolorido e tremendo de frio sob o sol escaldante de Hélio.
Ela sentia que o sonho era uma espécie de aviso, como se houvesse algo que precisasse ser feito a respeito disso com urgência.
Pouco a pouco, os olhos de Lia se fecharam. Mas, quando se deu conta, já estava acordada novamente. Ou pelo menos, foi o que pareceu. Ela ainda estava na praia, mas sentia que estava em outro lugar, o ar ficou frio e úmido.
Instintivamente, Lia levantou-se e pegou um punhado de areia, olhando para os lados, esperando o perigo. Mas tudo o que encontrou foi o seu pai lhe encarando.
— Essa é a primeira vez que isso acontece — disse ele, distraído. — Nunca tinha conseguido entrar no mesmo ambiente que a pessoa.
O coração de Lia acelerou, não via seu pai desde que tinha cinco anos e agora ele estava ali, estranhamente real. Seus cabelos louros e pele bronzeada brilhavam sob o sol, seus olhos estavam azuis como ela nunca vira antes. Mesmo o uniforme militar parecia mais bonito e menos autoritário.
Imaginou se seu pai era assim quando era mais jovem, quando conheceu sua mãe.
— Como você chegou até aqui? — balbuciou ela.
Ariel deu um riso triste.
— Você esqueceu dos meus poderes? Não estou aí de verdade, é apenas um sonho.
Ela se lembrou imediatamente, a habilidade mágica de seu pai era conhecida como “Filho de Morfeu”. Assim como o deus grego, Ariel podia induzir as pessoas ao sono e invadir sua mente. De repente, Lia sentiu repulsa, Ariel teria acesso aos seus pensamentos e ela não conseguiria se defender.
— Não vim mexer com a sua cabeça — disse Ariel — Não estou interessado em saber a receita do brownie de chocolate. Quero te dar um recado sobre uma pessoa que fez parte da sua vida.
Como Lia não disse nada, ele prosseguiu:
— Seu amigo Connor, príncipe do Reino de Luanda, foi expulso do palácio.
Connor. O nome trouxe a lembrança do sonho, terrivelmente real, roubando-lhe o ar dos pulmões. Sentiu cada gota gelada de chuva que caía na pele do príncipe, pinicando ferimentos que ela nem ao menos tinha.
Ariel deu um passo em sua direção, quase como se estivesse preocupado.
— O que ele fez para ser expulso? — perguntou ela, após respirar fundo.
— Isso não importa. — Seu pai deu de ombros — Saiba apenas que ele quebrou uma das regras mais importantes que eu estabeleci.
— E onde ele está?
Ariel suspirou.
— Eu não sei, sinto muito. Meu comandante acredita que o príncipe não tenha deixado a capital, considerando seu estado físico. Talvez esteja pelas ruas ou tenha se juntado aos trabalhadores.
Trabalhadores escravizados, você quis dizer pensou Lia e se arrependeu imediatamente.
Seu pai ignorou o pensamento.
— Preciso ir, só vim para dar esse recado. E, lembre-se Lia, caso você volte algum dia para Luanda, os portões do palácio estarão sempre abertos para você.
E então, ela abriu os olhos, a pele ardendo sob o sol e os dedos travados de tanto apertar o punhado de areia. Tirando isso, Lia se sentia estranhamente bem.
Enquanto calçava os sapatos, seus pensamentos foram se organizando. Connor era seu amigo de infância, os dois sempre brincavam juntos nos jardins do palácio.
Na noite do assassinato dos monarcas, o garoto não conseguira fugir e foi capturado pelos homens de Ariel, ele cresceu sendo prisioneiro dentro do seu próprio lar.
Segundo as últimas notícias que tivera de Luanda, o príncipe nunca saiu do palácio, nem mesmo para ir aos jardins, somente os soldados o conheciam. Lia jamais pode enviar uma carta para o amigo, sua mãe lhe dizia que ela seria destruída antes de chegar nas mãos dele.
Em momentos como esse ela se dava conta da crueldade de seu pai. Prender uma criança dentro do palácio pelo simples motivo de que ela poderia se rebelar, mandar pessoas para trabalhos forçados só por terem nascido com habilidades mágicas.
Lia soltou um longo suspiro. Se começasse a pensar em todas as atrocidades que Ariel fizera, ficaria louca. Não precisava se preocupar com ele, era feliz ali sem seu pai. Concluíra a escola, trabalhava com sua mãe, primo e tios, as pessoas realmente importantes em sua vida.
Connor foi expulso do palácio.
Não, não podia pensar assim enquanto um velho conhecido estava perambulando pelas ruas de Luanda, tendo o céu escuro como teto.
Não havia ninguém em casa quando Lia chegou, o que foi ótimo. Correu até a cozinha e pegou uma garrafa de vidro dentro do armário. Vidro era um luxo para poucos, um presente pelo sucesso da confeitaria. Sua mãe a mataria se soubesse o que Lia estava prestes a fazer.
Precisava ter notícias de Connor ou o peso da consciência lhe tiraria o sono. Porém, a carta não chegaria até ele tão facilmente. Era preciso um mensageiro, alguém que estaria disposto a dar notícias do príncipe para ela.
E ela conhecia a pessoa perfeita para esse serviço. Juliet Grinnan.
A caneta corria sobre o papel, Lia não imaginava que havia um peso nas suas costas, uma necessidade de colocar tudo aquilo para fora.
Enrolou a carta e colocou dentro da garrafa de vidro. E minutos mais tarde, quando a lançou no mar, lembrou-se de uma história de infância.
Aqueles que lançassem ao mar uma carta numa garrafa com o coração aberto, o próprio oceano se encarregaria de levar a mensagem em segurança. Lia esperava que aquelas águas que sempre lhe acalmaram pudessem realizar o desejo do seu coração.
Cara Juliet, no dia em que escrevo essa carta, faz exatos dois dias que tenho sonhado com a mesma cena e não sei mais a quem recorrer. Meu nome é Liakánda, filha de Marine Noher, ex-dama de companhia da rainha Ellena e Ariel Me’vi, atual regente de Luanda.
Em meu sonho, vi o príncipe Connor sendo espancado por soldados de meu pai próximo ao Rio Ártemis e sendo deixado ali para morrer. Sei que a senhora fazia parte da elite protetora da família real durante o reinado do Rei Georgie, por isso que preferi escrever-lhe antes mesmo de conversar com minha mãe sobre esse sonho, porque sei que você não medirá esforços para encontrá-lo.
Aguardo ansiosamente por notícias,
Liakánda Me’vi
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