Ponto de Ebulição | Zutara
16 O Fɪᴍ ᴅᴏ Tᴇᴍᴘᴏ
Notas iniciais

𝒦𝒶𝓉𝒶𝓇𝒶
A manhã foi focada nos preparativos para a guerra. O desespero foi deixado para trás e todos agora respiravam determinação.
Eu revisava os últimos detalhes com Sokka quando senti a presença de Zuko antes mesmo de vê-lo. Virei-me e lá estava ele, com os olhos dourados fixos em mim. Ele caminhou até onde estávamos. O silêncio caiu gradualmente sobre o salão, e olhares desconfiados se voltaram para nós, mas Zuko não pareceu se importar.
Ele parou a centímetros de distância, tirou algo do bolso e ergueu as mãos. Era um colar com um pingente rústico, esculpido em uma pedra escura, nele, as linhas de uma chama e de uma onda se entrelaçavam, formando um círculo contínuo.
— Para que você lembre pelo que estamos lutando hoje — a voz dele soou grave, enquanto ele contornava o meu pescoço e prendia o fecho.
Quando ele deu um passo para trás para admirar o pingente, eu não hesitei, puxei-o para baixo e o beijei ali mesmo, um engasgo coletivo ecoou pelo salão, armas tilintaram pelo choque e sussurros estouraram, mas Zuko apenas sorriu contra os meus lábios.
— Muito bem, Romeu e Julieta — Sokka disse, chamando a atenção de todos e quebrando a tensão. — O momento foi lindo, mas nós temos uma fortaleza impenetrável para invadir. Todos nas posições! Partimos ao anoitecer!
Estávamos prontos. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que íamos vencer.
E então, o teto da caverna explodiu e a poeira cobriu o ar. O esconderijo tinha sido invadido por uma frota inteira, mas o que estava no centro foi o que nos paralisou: o Senhor do Fogo Ozai. Ele caminhava por cima dos destroços, flanqueado por quatro Quimeras, rosto dele ostentava um sorriso cruel e satisfeito.
Preparei-me para atacar, buscando Zuko e Sokka no meio da poeira. Nós lutaríamos. Nós morreríamos se fosse preciso, mas não recuaríamos.
Foi então que Ozai parou e estendeu as mãos.
— Eu devo admitir, meu filho — Ozai disse, o tom transbordando orgulho —, eu duvidei que a sua lealdade ainda servisse para alguma coisa. Mas você superou as minhas expectativas. Trazer os últimos ratos da Resistência para o mesmo buraco? Brilhante.
O ar sumiu dos meus pulmões, o tempo pareceu desacelerar.
Zuko estava a poucos metros de Ozai e não estava em posição de combate, lentamente, ele caminhou para o lado daquele desgraçado, virando-se para nos encarar.
— Zuko... — minha voz falhou, meus olhos buscaram os dele, implorando desesperadamente por um sinal.
"Tinha que ser um plano. Era uma armadilha. Ele ia atacar. Ele ia atacar AGORA."
Mas ele não focou seu olhar em mim.
A fúria me atingiu e a água ao meu redor formou lanças afiadas. Eu dei um passo à frente, pronta para atacar Ozai e exigir a verdade de Zuko, mas mãos fortes agarraram os meus ombros, puxando-me bruscamente para trás.
— Não! — Sokka sussurrou no meu ouvido. — Não faça isso, Katara! Nós todos vamos morrer se você atacar! Não faça nada!
— Sokka, me solta! Ele nos traiu! — gritei, as lágrimas finalmente transbordando, embaçando a minha visão.
— É formidável ver como o desespero deforma a esperança — Ozai riu, acariciando o ombro de Zuko. — O plano foi além da perfeição. Graças a esses ratos, meu filho recuperou o acesso às chamas. Ele voltou mais forte, e vocês? Irão para as jaulas, onde deveriam estar desde o começo.
Guardas de elite do Império invadiram o local, subjugando os rebeldes que tentaram resistir. Quando algemas foram travadas nos meus pulsos, prendendo minhas mãos às minhas costas, eu caí de joelhos.
— Faremos bom uso dos talentos de vocês — Ozai continuou, caminhando entre nós, observando os rebeldes acorrentados sendo arrastados para fora. — Vocês não compreendem, mas nós estamos remodelando a estrutura deste mundo. E os seus corpos serão o combustível da nova era.
Eu não conseguia olhar para Ozai; meus olhos estavam cravados em Zuko.
— O que faremos com os irmãos, Soberano? — um guarda perguntou, apontando para mim e Sokka.
Ozai olhou para Zuko, com um brilho de deboche nos olhos.
— Se quiser manter a sua pequena namoradinha, Zuko, fique à vontade. Suponho que a prole de vocês será uma cobaia fascinante para os nossos testes futuros.
Senti meu estômago revirar, Sokka me amparou, colocando o próprio corpo na frente do meu.
Zuko finalmente me olhou. O desprezo na voz dele era palpável.
— Não será necessário, pai — Zuko respondeu, com a voz arrastada e monótona. Ele deu as costas para mim. — Estou cansado de fingir. O passatempo com essa escória foi divertido por alguns dias, mas já chega.
Minha esperança chegou ao fim e meu ódio renasceu.
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A viagem até o Ministério do Progresso foi um borrão. O comboio atravessou a capital e entrou nas entranhas da fortaleza. Fomos arrastados por corredores claustrofóbicos e jogados em celas de segurança máxima, divididos em pequenos grupos. Eu, Sokka e três outros rebeldes fomos atirados na mesma cela.
Eu desabei. O colar queimava no meu pescoço, tentei arrancá-lo, mas não consegui. Aquele filho da puta tinha feito algo e eu não conseguia tirar aquele lembrete físico de quanto ele me usou.
— Era mentira... Tudo foi mentira, Sokka — sussurrei. — Ele entregou todos nós.
Sokka não respondeu. Meu irmão estava agachado perto de um painel de controle, desmontando a fiação.
— Sokka? O que você está fazendo? — perguntei, secando o rosto.
— Você não pode invadir uma fortaleza, mas pode entrar pela porta da frente se o inimigo te conduzir.
— O que você quer dizer? — perguntei. — Sokka, isso era parte do plano?
— O Ministério usa baterias independentes para as grades, assim como o Zuko me explicou — Sokka disse, as mãos ágeis cortando um fio e nossa cela foi aberta.
— Era a única forma, Katara — Sokka finalmente olhou para mim, com a expressão cheia de culpa. — Zuko precisava que Ozai acreditasse na traição para nos trazer para dentro. Temos que libertar todos os outros, temos pouco tempo.
Sem esperar pela minha reação, ele virou-se para os outros, que nos olhavam boquiabertos.
— Escutem bem! — Sokka disse. — As baterias dessas grades são independentes. O circuito primário fica bem aqui na placa inferior. Usem qualquer sucata ou grampo de metal para forçar um curto. A energia cai na mesma hora. Façam isso e espalhem o truque!
Os guerreiros que estavam conosco saíram pelo corredor, desarmando os guardas atordoados e repetindo o processo nas celas vizinhas, o som contínuo das grades desligando ecoou pelo bloco inteiro, libertando todos.
— Muito bem! — Sokka gritou. — Já estamos dentro! O plano original segue de pé! Sigam pelos dutos do nível inferior, encontrem os geradores centrais e destruam tudo!
Os rebeldes assentiram com um ânimo renovado, disparando pelos corredores escuros em direção ao núcleo.
Eu não me movi. A realidade me esmagou com um peso pior que a traição falsa que eu acabara de presenciar. Se Zuko tinha se entregado nas mãos de Ozai, sozinho...
— Onde ele está? — minha voz soou cortante. — Sokka, onde o Zuko está?
— Katara, nós temos que ir para o núcleo! — Sokka tentou argumentar.
— Onde ele está, Sokka?! — rugi, o som ecoando pelo corredor.
Meu irmão engoliu em seco e abaixou a cabeça.
— Na sala de extração principal. Zuko ia garantir que Ozai estivesse lá quando nós explodirmos tudo.
Eu não ouvi mais nada. Disparei pelos corredores. Sokka corria logo atrás de mim, cobrindo a nossa retaguarda. Seguimos a planta que Zuko havia desenhado. Descemos os níveis até o subsolo, onde a temperatura se tornava insuportável, chegamos à sala de extração, com um movimento circular, usei a água e arrombei a porta.
A cena lá dentro fez o tempo parar pela segunda vez no dia.
O enorme salão estava iluminado por uma luz que emanava de uma fenda gigantesca no teto — o véu entre os mundos.
No centro da sala, caído em uma poça do próprio sangue, estava o Senhor do Fogo Ozai. Morto. O peito dele havia sido atravessado por uma rajada de fogo tão intensa que a armadura estava fundida à carne.
E no alto de uma plataforma, conectada à fenda temporal, estava a cadeira de extração e Zuko estava sentado nela. Ele estava coberto de sangue, com o torso nu, revelando queimaduras e cortes profundos que mostravam o quanto a luta contra Ozai tinha sido brutal.
— Zuko! — gritei, correndo, as pernas vacilando.
Sokka me acompanhou, mas parou abruptamente quando Zuko ergueu a cabeça; os olhos estavam opacos, ele olhou para Sokka, não para mim.
— Sokka... — a voz de Zuko saiu sôfrega, com sangue escorrendo pelo canto da boca. — Plano B. Agora.
Sokka travou. Ele olhou para o painel ao lado da cadeira e depois para mim, uma lágrima silenciosa desceu pelo rosto dele, mas ele assentiu e caminhou em direção à mesa de controle.
— O que vocês estão fazendo?! — gritei, tentando encontrar um jeito de subir até Zuko. — Eu vou te curar! Nós vencemos, Zuko! Sokka, desliga isso!
Zuko finalmente baixou o olhar para mim, o sorriso que curvou os lábios dele foi a coisa mais linda e devastadora que eu já vi na vida.
— Eu te disse, meu amor — ele sussurrou, com a voz fraca. — Eu te disse que seria o seu escudo.
— Não... — minha voz falhou.
— As bombas não são suficientes para fechar a fenda — Zuko falou, tossindo. — Aquele desgraçado corrompeu o véu. Eu vou descarregar toda a minha energia de uma vez só e causar uma sobrecarga no núcleo.
A ficha caiu. Zuko estava prestes a usar o próprio corpo como uma bomba de energia para fechar o portal.
— Não! Sokka, para! Sokka! — eu implorei, a água inútil contra o campo magnético de proteção que subiu ao redor da cadeira.
Sokka olhou para mim e sussurrou. — Me perdoe, Katara — então ele abaixou a alavanca principal e ligou a cadeira.
Um feixe de energia desceu do teto sobre Zuko. O corpo dele se arqueou, e o grito de agonia que escapou da sua garganta será algo que ecoará nos meus ouvidos. A luz começou a consumir a carne dele; suas pernas começaram a se desintegrar, transformando-se em poeira sendo puxada para o véu.
— Zuko! Pare! Por favor! — eu implorava, batendo os punhos no campo de força.
O corpo de Zuko parou de lutar; ele não estava resistindo. O rosto dele encontrou o meu uma última vez. O tempo ao nosso redor começou a fraturar e a sala inteira começou a derreter, distorcida pelo colapso dimensional.
— Eu te amo, Katara — ele gritou por cima do caos. — Não importa em qual universo, não importa em qual linha do tempo. Eu sempre vou ser completamente seu.
E então, ele sorriu.
A luz se expandiu em uma explosão silenciosa e absoluta.
A cadeira estava vazia e Zuko desapareceu.
A força da detonação não me arremessou para trás; ela me puxou para dentro. A vertigem me engoliu, o chão deixou de existir e a gravidade se desfez em um abismo em espiral.
Senti o meu corpo sendo dilacerado e reconstruído repetidas vezes, uma sensação gélida varrendo a minha consciência. Vi flashes passando diante dos meus olhos: a Biblioteca no mundo paralelo, a mão quente dele segurando a minha, o corpo dele sobre o meu. Vi tudo que vivemos, cada sorriso, cada lágrima, cada suspiro, sendo engolido por um vácuo sem fim.
A escuridão foi absoluta.
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Pisquei, arfando alto, a vertigem cessou de forma abrupta. Olhei ao redor: eu não estava no Ministério do Progresso, não havia cadeira de extração.
Meus braços estavam erguidos. Olhei para baixo, atordoada: meus pulsos estavam envoltos em água, e minha própria voz saiu automática, como o eco de uma vida que eu já havia vivido.
— Trabalhe. Eu cuido da retaguarda.
Virei meu pescoço e lá estava Sokka. Ele estava agachado, diante da fenda temporal. O vórtice brilhava intensamente à nossa frente.
— Katara — Sokka parou. — Quando isso abrir, vamos pular. Não sabemos se Aang está do outro lado, se vamos cair num abismo cheio de monstros ou cair do nada, para todo o sempre. Está pronta?
Então percebi que o tempo não havia apenas colapsado; ele tinha voltado.
Continuei em silêncio, com a mente girando, a água ao redor dos meus braços vacilou.
— Katara? — Sokka franziu a testa. — Você está bem? Você está pálida...
Eu abri a boca, tentando encontrar a minha voz, mas não houve tempo para responder.
O chão tremeu.
Acima do desfiladeiro, o cruzador do Império pairava. Zuko desceu para a superfície.
Ali, ele ainda era o Executor do Império. Letal, frio e impiedoso.
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