Ponto de Ebulição | Zutara
13 Fʀᴇǫᴜêɴᴄɪᴀs Qᴜᴇʙʀᴀᴅᴀs
Notas iniciais

O barulho estático preencheu a caverna, e a voz distorcida continuou a vazar.
— Sokka! — Katara gritou. O alívio e o desespero colidiram dentro dela, movida por puro instinto, ela deu um passo precipitado em direção à fenda.
Mas Zuko foi mais rápido.
O braço de Zuko envolveu o corpo dela, puxando-a para trás com um solavanco abrupto. As costas dela bateram contra o peito dele, ele a segurou com possessividade, enquanto o vento do portal tentava arrastá-los para o centro.
— Katara... — A voz de Sokka falhou, antes de voltar, carregada de pânico. — Seja lá em que dimensão... ou tempo... você caiu... não tente voltar para o Templo do Ar... É uma armadilha. Ozai sabia da fenda.
Katara ofegou, cravando as unhas no antebraço de Zuko que a segurava.
— Sokka, nós estamos vivos! Você consegue me ouvir?! — ela disse em direção ao portal, com as lágrimas de frustração escorrendo pelo rosto. — Sokka!
Zuko apertou o abraço, com o queixo encostado no ombro dela.
— Ele não pode te ouvir, querida — a voz dele vibrou, dolorosamente realista e carinhosa. — É uma frequência residual. A energia do portal está captando o sinal de rádio da nossa dimensão e jogando para cá. É uma transmissão de mão única.
— Eu não sei se você sobreviveu à... — A transmissão de Sokka continuou. — Mas se estiver viva... fuja...
Houve uma pausa angustiante, preenchida apenas pelo som de explosões abafadas ao fundo da transmissão.
— E Katara... — O tom de Sokka mudou bruscamente. O pânico foi substituído por um ódio puro. — Vi os registros da queda. Aquele filho da puta caiu na fenda com você, se ele estiver vivo... se aquele desgraçado estiver perto de você... fuja dele, Katara. Ele é um monstro; se você não puder fugir... mate-o.
O silêncio na caverna se tornou denso e sufocante.
O corpo de Zuko enrijeceu ao redor de Katara, ele deu um passo para trás, como se as palavras de Sokka tivessem ativado um gatilho, lembrando-o do monstro que ele era aos olhos do mundo.
Katara girou nos calcanhares, virando-se para encará-lo. A expressão dele, a mandíbula tensa e os olhos desviados para o chão, estava envolta em uma névoa de culpa.
— Zuko... — ela começou, estendendo a mão.
— Ele tem razão — Zuko a interrompeu, erguendo a mão para impedir que ela o tocasse. — É isso que o seu irmão sabe. É isso que o mundo sabe. Para ele, eu sou a porra do lacaio de Ozai, o homem que o caçou, que queimou os esconderijos da Resistência, que executou sua família e a Toph...
A transmissão morreu com um chiado agudo.
Katara ignorou a hesitação dele e encurtou a distância, agarrando o pulso dele com ambas as mãos para forçá-lo a olhar para ela.
— Não se atreva a recuar de novo! — Katara exigiu. — Você me prometeu! Nós fizemos um pacto, Zuko, você disse que enfrentaríamos o Ministério do Progresso juntos!
Zuko olhou para as mãos dela e depois para seu rosto. Ele puxou o braço com força, mas não o suficiente para se soltar dela.
— Você não entende! — Zuko rosnou. — Katara, eu queimei a base militar em Kyoshi. Eu afundei a frota de Hakoda. Eu tenho o sangue de centenas de aliados seus nas minhas mãos. O seu irmão está certo em me odiar. Se nós cruzarmos esse portal, você vai estar do lado do inimigo número um da Resistência, Sokka vai tentar arrancar a minha cabeça antes de eu conseguir abrir a boca.
— E eu não vou deixar! — Ela apertou os dedos na pele dele, erguendo o queixo para desafiá-lo.
— E como você vai impedir?! Vai dizer a eles que mudei de lado da noite para o dia?! — Ele deu um passo à frente. — Eles vão achar que eu fiz lavagem cerebral em você! Vão tentar me executar, e se você entrar no meio, vão te chamar de traidora!
— Você acha que eu esqueci do que você fez?! — Katara berrou de volta. — Acha que eu não vejo os rostos das pessoas que perdi?! Eu sinto isso todos os dias! Mas a diferença é que agora eu sei por que você fez isso!
— O Sokka não sabe da verdade — ela continuou, abaixando o tom de voz até virar um sussurro. — Ele não sabe o que o Ozai fez com você. Ele não sabe sobre a sua mãe, sobre a extração... ele não sabe o que aconteceu com a gente neste mundo, Zuko.
A menção implícita de tudo o que haviam compartilhado nos últimos dias — as lágrimas, o desespero e, principalmente, os beijos que quase destruíram a sanidade dos dois — fez o ar entre eles ficar pesado e espesso novamente. O olhar de Zuko caiu para a boca dela, a luxúria rompendo a máscara de culpa.
— Caralho, você é louca... — ele murmurou, a voz rouca, quase reverente. — Estar disposta a colocar a sua vida em risco por um monstro...
— Você nunca foi um monstro. — Katara rebateu, o rosto a centímetros do dele. — Eu sei quem você é agora. Nós vamos contar a verdade a eles. Juntos. Mas primeiro, temos que salvá-lo. Quem está comigo agora?
Zuko fechou os olhos, cedendo, quando os abriu, o ouro líquido de suas íris queimava com determinação.
— O seu parceiro — a resposta dele saiu definitiva.
O portal às costas dela emitiu um gemido grave, a espiral de água começando a desacelerar. O caminho para o Mundo Espiritual estava prestes a colapsar.
— A conexão está quebrando! — Zuko alertou, ele inverteu a posição das mãos deles, entrelaçando os próprios dedos nos dela com uma força que transmitia absoluta segurança. — Katara, se o Sokka está encurralado no Templo do Ar, o tempo na nossa dimensão está correndo de forma diferente. Não temos um segundo a perder.
Katara assentiu, sentindo a adrenalina varrer a exaustão de seu corpo.
— Nós não vamos deixar o Ozai vencer. Não de novo.
— Não — Zuko concordou, os olhos faiscando com uma fúria assassina que fez o coração dela bater mais rápido, tanto de pavor quanto de atração irracional. — Estamos juntos agora, vamos encontrar um jeito.
Sem soltá-la, Zuko a puxou para si, e então, saltaram para dentro da fenda, sendo engolidos pelo caos absoluto.
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O som da caverna desapareceu, o espaço ao redor distorceu-se, a gravidade invertendo, girando e esmagando-os de todos os lados. Ao longo de todo o percurso caótico, a única constante era o aperto de Zuko ao redor de Katara.
Quando finalmente foram cuspidos para fora do portal, colidiram contra o solo, caindo sobre um banco espesso de musgo úmido. Eles rolaram por um declive íngreme, parando apenas quando as costas de Zuko bateu com violência contra a base de uma árvore. Ele soltou um gemido, absorvendo quase todo o dano da colisão para protegê-la. Katara acabou esparramada sobre ele, as pernas entrelaçadas nas dele, o rosto enterrado na curva do seu pescoço.
Acima deles, um pequeno rasgo dimensional piscou uma última vez e, com um estalo silencioso, fechou-se por completo.
Mas ao invés do Mundo Espiritual, estavam de volta ao inferno que chamavam de lar.
— Você... você está bem? — ela sussurrou, analisando o rosto dele em busca de ferimentos, ela ergueu o rosto, apoiando as mãos nos ombros largos dele.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, as mãos grandes dele, deslizaram pelas costas dela, tateando a coluna e os braços para garantir que nada estava quebrado.
— Eu estou inteiro — ele respondeu. — E você? Se machucou?
— Não. Você amorteceu a queda. — Ela engoliu em seco, hiperconsciente de como estavam posicionados. Ela estava montada sobre o quadril dele.
O aviso de Sokka ainda ecoava na mente dela: Fuja dele... ele é um monstro... mate-o. Mas, olhando para o homem sob ela, com a respiração ofegante, os cabelos longos e escuros desgrenhados caindo sobre a cicatriz que marcava seu rosto, e a preocupação genuína gravada em cada traço... Zuko era o oposto de um monstro.
Zuko percebeu a mudança no olhar dela, a lembrança da transmissão de Sokka estampada ali. O maxilar dele travou.
— Precisamos ir... — ele murmurou, quebrando o contato visual.
Contudo, um guincho metálico, agudo e completamente antinatural se fez presente, ele tapou a boca de Katara com uma das mãos em um movimento rápido, os olhos vasculhando a floresta ao redor deles.
O chão tremeu sutilmente, algo colossal e pesado se aproximava, esmagando a vegetação.
Zuko saiu debaixo dela com agilidade, puxando-a pela mão. Eles se esgueiraram para trás da gigantesca raiz da árvore onde haviam caído, que formava uma espécie de caverna estreita, profunda o suficiente para escondê-los. O espaço era apertadíssimo, os corpos voltaram a se colar.
Através de uma pequena fresta eles observaram.
A aberração surgiu, não era um animal comum. Era uma besta de quatro patas, com fios de cobre pulsantes, placas de aço e pequenos motores estavam fundidos cirurgicamente ao corpo da criatura.
Zuko apertou os braços ao redor dela quando prendeu a respiração.
— Os experimentos... — Zuko sussurrou — Ozai não está apenas extinguindo a dobra, ele está capturando os seres que cruzam as fendas e os fundindo com tecnologia. Aquele desgraçado está criando monstros cibernéticos, moldando-os como cães de caça.
A criatura parou perto do declive onde eles haviam caído instantes atrás. Zuko envolveu Katara escondendo o rosto dela no peito dele, o corpo tenso e pronto para convocar as chamas se a criatura avançasse. Mas a aberração perdeu o interesse, virou as costas e seguiu seu caminho, desaparecendo lentamente.
Nenhum dos dois se moveu por um longo minuto após o som dos passos ter sumido completamente.
— Você viu aquilo? — Katara perguntou, a mente tentando processar a atrocidade. Ela ergueu o rosto para encará-lo, o horror lutando contra uma faísca de desconfiança.
— Você sabia disso? — ela perguntou, a voz baixa. — Sabia que ele estava criando essas coisas?
Zuko balançou a cabeça devagar.
— Não — ele respondeu, soando frio e amargo. — O meu trabalho para o Império sempre foi do lado de fora, no campo. Eu caçava os alvos, destruía as bases, mas nunca tive acesso aos níveis inferiores do Ministério do Progresso ou aos projetos de engenharia.
Ele desviou o olhar para o declive onde a criatura havia desaparecido.
— As únicas vezes em que eu entrava naqueles laboratórios... era como cobaia — Zuko completou.
O rosto de Katara suavizou, a desconfiança morreu assim que nasceu.
Zuko ergueu os olhos, observando o horizonte, Katara seguiu o olhar dele.
— Aquelas formações... — ela murmurou. — O portal não nos jogou de volta em um lugar qualquer. Nós estamos na cordilheira norte.
Ele estreitou os olhos, calculando rapidamente a topografia e a altitude do terreno acidentado.
— O Templo do Ar do Norte fica logo além daquele desfiladeiro — ele deduziu. — Estamos a menos de meia hora de caminhada.
A mensagem fragmentada que Sokka enviou explodiu na mente de ambos. É uma armadilha. Ozai sabia sobre a fenda.
— Sokka está lá em cima — Katara disse. Ela soltou a mão de Zuko apenas para destampar o cantil, a água fluiu para fora, circulando ao redor de seus pulsos, pronta para o combate.
— Fique perto de mim e atenta. — Zuko instruiu, as chamas já tremeluzindo nas palmas das mãos.
Eles avançaram pela encosta em um ritmo frenético. Quando finalmente alcançaram o cume e se esgueiraram pelos destroços que davam acesso ao pátio principal, o cenário de pesadelo se revelou em toda a sua brutalidade.
Tanques da Nação do Fogo esmagaram as colunas milenares, e, encostado em uma parede, coberto de sangue e segurando seu bumerangue com os braços trêmulos, estava Sokka.
Dois soldados apontavam suas armas, prontos para incinerá-lo.
— NÃO! — Katara berrou, a água do cantil explodiu em chicotes, cortou o ar e congelou as pernas dos soldados. Mas a ameaça maior veio de cima: um tanque mirou o canhão diretamente para onde Sokka estava caído.
Antes que ela pudesse mover a água, uma muralha de chamas atravessou o pátio. Zuko saltou à frente deles, com um único soco no ar, ele enviou uma rajada de fogo tão massiva e quente que o metal do tanque derreteu sob a pressão, explodindo a máquina em uma chuva de destroços.
Os soldados paralisaram, chocados ao verem o "Executor do Império" destruindo suas próprias tropas. Katara aproveitou a confusão e criou uma densa neblina de vapor, engolindo o pátio inteiro.
— Sokka! — Ela deslizou até o irmão, agarrando-o pelos ombros. Ele estava pálido, com um corte profundo que sangrava em sua perna e a respiração estava irregular.
— Kata... — ele murmurou, quase inconsciente, os olhos desfocados. — Você... você está viva...ou será que eu morri...
— Eu peguei você. Eu peguei você — ela chorou, curando a ferida o suficiente para estancar a hemorragia. — Zuko, a passagem secreta! Atrás da estátua do bisão!
Zuko rasgou a neblina, abrindo caminho com chamas que mantinham os soldados afastados. Ele cobriu a retaguarda enquanto Katara arrastava Sokka pelos túneis, labirintos que os soldados eram pesados demais para acessar.
Eles correram na escuridão por minutos que pareceram horas, até Katara empurrar uma porta camuflada, desaguando em um antigo refúgio subterrâneo, Katara deitou Sokka suavemente no chão, suas mãos brilharam com água curativa, focadas no irmão.
Zuko fechou a porta atrás deles, a respiração ofegante, as mãos apoiadas nos joelhos. Ele estava exausto, a adrenalina cobrando seu preço, ele encostou-se na parede.
A tosse de Sokka quebrou o silêncio, ele piscou, a visão clareando aos poucos, ele viu o rosto aliviado da irmã. E então, por cima do ombro dela, nas sombras, ele viu o brilho de olhos dourados e a cicatriz vermelha e repulsiva do filho de Ozai.
O instinto de sobrevivência e o ódio de dez anos falaram mais alto que a razão. Com um grito, ignorando a dor de seus ferimentos, Sokka empurrou Katara para o lado com brutalidade. Ele sacou uma faca que mantinha escondida na bota e avançou na direção de Zuko.
— SOKKA, NÃO! — Katara gritou ao cair no chão.
Sokka não estava pensando. O luto por sua família, por seus amigos, a convicção de que Zuko havia torturado sua irmã... tudo culminou naquele único golpe. A faca desceu em um arco letal, mirando o coração do Príncipe da Nação do Fogo.
Zuko teve tempo, o treinamento militar lhe permitia desviar com facilidade, ou até mesmo incinerar o braço de Sokka antes que a lâmina chegasse perto. Ele viu o movimento perfeitamente. Mas ele também viu Katara caída, se levantando desesperada e prestes a se atirar entre eles.
Se Zuko desviasse, Sokka, desequilibrado e furioso, atingiria a própria irmã, se Zuko usasse o fogo, ele mataria a única família que restava a Katara.
Zuko relaxou a postura, abrindo a guarda completamente. Ele apenas ergueu o braço esquerdo para proteger os órgãos vitais. O som da faca rasgando carne e músculo ecoou no pequeno espaço, a lâmina entrou fundo no ombro e no alto do peito dele, parando apenas ao raspar contra o osso da clavícula. O impacto o jogou contra a parede com um baque, e um jorro de sangue manchou o chão da caverna.
Sokka congelou, os olhos arregalados de choque, os dedos ainda segurando o cabo da faca cravada no peito de Zuko, o filho da puta não revidou.
Zuko tossiu, uma linha de sangue escorrendo pelo canto da boca. Ele olhou diretamente nos olhos apavorados de Sokka, as mãos descansando ao lado do corpo, recusando-se a lutar.
— Eu não... — Zuko ofegou, a voz falhando, ele tossiu o sangue, sustentando o olhar do Sokka. — Eu não sou mais o monstro do Império.
— VOCÊ ENLOUQUECEU?! — Ela agarrou Sokka pelo colarinho da túnica e arremessou o próprio irmão para longe de Zuko, Sokka caiu no chão, atordoado e ofegante, com as mãos manchadas de sangue.
Katara foi para perto de Zuko, as mãos tremendo enquanto pairavam sobre a faca cravada perto do pescoço dele, lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto.
— Por que você não desviou, seu idiota?! — Ela disse, a água do cantil envolvendo suas mãos enquanto começava a trabalhar em volta da ferida antes mesmo de arrancar a lâmina. — Você podia ter morrido!
Zuko sorriu, um sorriso pequeno, quebrado e manchado de vermelho, ele ergueu a mão, os dedos encontrando o rosto dela.
— Eu merecia isso e ele poderia machucar você — Zuko sussurrou, o olhar dele estava focado apenas nela, como se Sokka nem estivesse na sala. — Eu fiz uma promessa para mim mesmo. Entre nós... eu seria o escudo.
A respiração de Sokka estava acelerada, ele olhava de Zuko para Katara, o ódio inicial dando lugar a uma confusão ao ver a sua irmã, chorando enquanto curava o inimigo.
— Katara... — Sokka gaguejou, atônito. — O que... o que está acontecendo? O que ele fez com você?
Katara apertou o maxilar, enquanto estabilizava a ferida de Zuko, ela finalmente se virou para Sokka.
— Temos muito o que conversar, Sokka — ela disparou, a voz ainda permeada de raiva e desespero.
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