Ponto de Ebulição | Zutara
8 Sᴏᴍʙʀᴀs ᴇ Lᴜᴢᴇs
Notas iniciais

A Cidade República era uma utopia de pedra e luz sob o sol da tarde, mas, como qualquer metrópole, tinha suas ruas escuras.
Katara e Zuko saíram das avenidas largas, embrenhando-se na Cidade Baixa. O brilho do ouro e do bronze deu lugar a vielas apertadas, letreiros que anunciavam macarrão barato e o cheiro denso de carvão misturado ao suor de operários. Para eles, era o ambiente mais familiar desde que despencaram da fenda.
Zuko andava no piloto automático; com os ombros caídos, ele arrastava a perna ferida de forma cada vez mais pesada.
Se o meu outro eu teve tudo isso... por que eu fui o escolhido para carregar a espada? O que há de tão errado em mim? O que aconteceu com sua mãe neste mundo? — pensava Zuko, enquanto a dor latejava cada vez mais.
Katara, por outro lado, lia as ruas por instinto. Avistou uma loja de penhores espremida entre uma casa de apostas e um bordel silencioso, e adentraram o local, trocaram os fragmentos de grafeno da armadura destruída por yuans — a moeda local cunhada com os emblemas da Tribo da Água, do Reino da Terra e da Nação do Fogo.
— Temos yuans suficientes para três dias, se não nos roubarem — disse ela num sussurro, passando por ele.
Três ruas depois, viram uma pensão encardida. A dona, uma senhora idosa do Reino da Terra com olhos opacos e um cachimbo de lótus na boca, não fez perguntas ao ver o casal encapuzado e enlameado. Recebeu o dinheiro adiantado e depositou uma chave sobre o balcão.
O quarto ficava no terceiro andar, no fim de um corredor com piso de madeira que gemia a cada passo. Dividir o quarto era o mais seguro. Quando a porta foi trancada, o som do ferrolho pareceu selá-los em uma armadilha. O recinto era minúsculo: uma cama de solteiro com lençóis duvidosos, uma janela suja com vista para um muro de tijolos e uma pia enferrujada onde uma torneira gotejava.
Zuko não disse nada; caminhou até a beira da cama e sentou-se de uma vez. O colchão afundou, ele apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu o rosto nas mãos, respirando lentamente, como se o ar nessa dimensão queimasse seus pulmões. Katara o observou de braços cruzados, ela suspirou, tirando o manto e jogando-o na única cadeira.
— Tire a túnica — disse ela, a voz mais ríspida do que pretendia.
Zuko não se moveu.
— As agulhas de gelo que lancei na floresta perfuraram as junções da sua armadura, e você está sangrando há horas. Se infeccionar, terá febre, e precisamos trabalhar juntos se quisermos sair daqui. Preciso de você inteiro. Tire a túnica — disse ela, um pouco mais calma.
Lentamente, como quem move membros de chumbo, ele levou as mãos à barra da túnica e, com um movimento rígido e doloroso, passou a túnica por cima da cabeça e descartou o tecido destruído no chão.
Katara já vira ferimentos de guerra e carregava suas próprias cicatrizes, mas, quando a luz amarela da lâmpada iluminou o torso de Zuko, ela prendeu a respiração.
O corpo dele era um mapa de atrocidades.
Não era só a cicatriz no rosto, pois havia cicatrizes por todo o corpo, cruzando as costas e, no centro do peito, bem acima do coração, uma cicatriz em forma de estrela. Mas o que a perturbou ainda mais foram as marcas de contenção: nos pulsos e ao longo das costelas, havia cicatrizes circulares de queimaduras elétricas e furos grossos de agulhas. Marcas do Ministério do Progresso. Marcas do protocolo de extração da dobra; os poucos que voltaram do centro de reeducação exibiam aquelas marcas.
Ele fez isso consigo mesmo... por quê? Para virar uma máquina de matar perfeita? — teorizou ela, horrorizada. Para provar a Ozai que poderia reprimir a própria natureza.
Zuko sentiu o olhar dela; endireitou as costas, virando o rosto para a parede.
— Se vai me curar, faça logo — murmurou, a voz áspera. O constrangimento da vulnerabilidade física rivalizava com a humilhação.
Katara engoliu em seco.
Foi até a pia e abriu a torneira, puxando a água dos canos enferrujados. Purificou o líquido no ar, separando a sujeira até que a água pairasse sobre suas mãos como uma esfera.
Ela moveu-se; Zuko enrijeceu. Eram inimigos até poucas horas antes. A ideia de tê-la tão perto ativava seus instintos, o corpo dele começou a irradiar um calor absurdo, uma defesa involuntária.
— Fique parado — disse ela, suave.
Quando as mãos dela — cobertas por uma água que brilhava em um azul suave — tocaram as coxas e o abdômen dele onde o gelo cortou, o contraste foi imediato. A pele dele ardia em febre; a água dela era gélida e calmante.
Zuko soltou um gemido baixo e fechou os olhos com força. O frescor penetrou nos músculos tensos, limpando o sangue e acalmando a inflamação. Katara estava ajoelhada diante dele, com as mãos deslizando sobre a pele febril, focada no fluxo do chi. Ela sentiu a pulsação errática do coração dele e o cheiro de sangue, suor e algo amadeirado.
Era uma intimidade crua, desconfortável e perigosa.
— Você tentou extrair a dobra... não foi? — perguntou baixinho.
Zuko abriu os olhos lentamente, encarando o topo da cabeça dela.
— Foi necessário — respondeu, a voz quase inaudível. — Só assim aquele desgraçado me diria o que eu necessitava saber, e eu era a cobaia perfeita para o experimento — disse com o semblante distante.
A crueldade de Ozai encheu a boca de Katara de amargor. Zuko era o algoz da Nação do Fogo, mas ela sabia que ele sofrera, haviam sido aliados e companheiros de viagem, trocaram confidências, mas, no fim, ele os traíra e se tornou mais cruel do que antes.
— Mas você usou a dobra neste mundo — Katara disse, encontrando os olhos dele que a fitavam.
A respiração de Zuko falhou.
— Eu... eu não sei — hesitou, olhando para o chão. — Naquele momento, eu só queria continuar respirando, foi puro instinto, ou talvez seja algo neste mundo que me fez usar a dobra novamente. — disse, contemplativo.
Katara terminou de fechar os cortes, limpou as mãos na própria roupa.
— Esse mundo é mais vivo, a natureza pulsa, impactou minha dobra, deve ter impactado a sua também — disse. Ela pegou o manto cinza.
— Vou descer para comprar comida e descobrir em que ano estamos e o que aconteceu com o Avatar neste mundo, descanse... — Zuko tentou se levantar enquanto ela ainda falava, mas Katara o impediu com um olhar severo. Algo pulsou dentro dele. Quando foi a última vez que alguém cuidou dele? Ah, antes do Avatar desaparecer.
Uma onda de nostalgia o preencheu.
— Tente não incendiar o quarto — disse Katara.
Ele não respondeu; deitou-se na cama estreita, encolhido contra a parede.
─── ❖ ── ✦ ── ❖ ───
Katara voltou duas horas depois. A noite caiu, e as luzes da rua pintaram listras coloridas no teto do quarto. Zuko estava sentado no chão, encostado na cama. No centro de sua mão direita, uma pequena chama tremeluzia, dançava no ritmo de sua respiração, ele apenas a observava, como quem reencontra um velho amigo.
Katara fechou a porta, trazia um pacote de pãezinhos de carne e vegetais no vapor e, debaixo do braço, um livro grosso. Ele fechou a mão, apagando o fogo ao notá-la, os ombros voltando à postura defensiva.
— Comprei no mercado — disse ela, jogando o pacote no colo dele. O cheiro da massa quente fez o estômago de Zuko roncar.
Ela sentou-se na cadeira com o livro no colo.
— Estamos há quase setenta anos à frente do nosso tempo.
Ele parou com o pãozinho na metade do caminho, os olhos arregalados.
— Setenta anos? Como isso é possível? A fenda... ela não era só um portal para o Mundo Espiritual?
— Parece que distorceu o tempo tanto quanto o espaço — Katara explicou enquanto lia. — O Aang deste mundo morreu de causas naturais há muito tempo. Há um novo Avatar. Uma dobradora de água da Tribo do Sul chamada Korra.
A notícia atingiu Katara de forma estranha. No mundo deles, Aang era uma eterna esperança; saber que em outra dimensão ele cresceu , fundou uma cidade, teve uma família — inclusive com uma versão dela mesma, como descobria ao folhear o livro — lhe causou uma vertigem emocional e trouxe um encerramento melancólico. Ele teve uma paz que seu Aang nunca conheceu.
Zuko largou o pãozinho, a fome sumindo.
— E... e a Nação do Fogo? E Ozai?
Katara folheou as páginas até o fim da Guerra dos Cem Anos.
— Você — disse lendo. — O você deste mundo foi banido aos treze anos, caçou o Avatar, mas se juntou a ele. Ajudou Aang a derrotar Ozai e assumiu o trono como um Senhor do Fogo pacifista.
Zuko balançou a cabeça, as mãos trêmulas.
— Isso é uma piada de mau gosto. Eu cacei o Avatar por anos. Eu quase o matei em Ba Sing Se. Como o outro eu... — ele não conseguiu finalizar, a revelação quebrando seu raciocínio.
— Ele escolheu o caminho certo. Talvez você fizesse a mesma escolha se Aang não tivesse sumido naquele maldito dia — respondeu Katara.
— Ozai morreu? — perguntou, absorto.
— Não. Aang tirou a dobra dele com dobra de energia, Ozai apodreceu numa prisão de segurança máxima e morreu velho.
A imagem do tirano intocável limitada a um velho sem poderes numa cela úmida arrancou de Zuko uma risada seca. Era uma ironia cruel. Zuko pegou o livro das mãos dela e virou as páginas em busca de respostas. A página exibia uma foto antiga em sépia: um homem velho, gordinho, com um sorriso caloroso sob a barba branca.
O título dizia: "O Dragão do Oeste, e membro da Ordem da Lótus Branca."
Zuko encarou a foto sem expressão, leu as linhas em voz alta:
— "Após a libertação de Ba Sing Se, o General Iroh abriu uma loja de chá, o Dragão de Jasmim, onde o Senhor do Fogo Zuko o visitou em busca de conselhos. Iroh faleceu pacificamente em idade avançada..."
Os olhos de Zuko correram até a imagem do sorriso de Iroh, e uma melancolia o tomou. A memória da voz do tio no dia em que o assassinara colidiu com a realidade impressa na página. Neste mundo, também não encontraria respostas — pelo menos não naquele livro. Ele teria que ir mais a fundo, talvez pedir ajuda à garota, mas ela não confiava nele o suficiente, embora ele confiasse nela.
Desde que estavam juntos naquele novo mundo, um instinto inexplicável o puxava para ela. E, para confundir ainda mais sua mente, pequenos fragmentos começaram a surgir em sua cabeça: flashes rápidos e confusos de um passado que ele nunca viveu, mas que parecia real.
Eram memórias fragmentadas deles dois mais velhos, adultos, dividindo o mesmo espaço em silêncio.
Foi exatamente por isso que ele lhe propôs a trégua mais cedo, tinha certeza absoluta de que ela recusaria. E, se ela dissesse não, ele sabia que a deixaria matá-lo, mas, para sua surpresa, ela aceitou. Sem saber o que se passava na mente dele e esperando o pior, Katara esperou um colapso parecido com o que ocorreu na praça, mas viu apenas resignação.
— Tudo aqui é diferente! Na nossa linha do tempo — falou ela — Lá o Aang não despertou a tempo, Ozai usou a tecnologia para subjugar a todos, eu luto todos os dias para sobreviver e você nos persegue como um cão adestrado.
Zuko encarou-a.
— Aqui você foi justo, um herói — ela continuou. — Devemos trabalhar juntos, encontrar uma saída, ir para o Mundo Espiritual e levar o Aang até nosso presente. Você pode me ajudar, ser o herói também.
Mesmo com os flashes recentes invadindo sua mente, Zuko não sentia a menor vontade de ajudar a ir atrás de Aang; aquilo sequer era uma prioridade para ele. Pelo contrário: apenas a menção de Aang e a ideia de vê-la ao lado do Avatar causavam-lhe um mal-estar, um aperto amargo e inexplicável no peito.
No entanto, ele não diria uma única palavra sobre isso, nem permitiria que seus pensamentos divagassem naquele rumo. Tinha prioridades muito mais urgentes.
— Não tenho motivos para ajudar nesta guerra perdida, não vou ao Mundo Espiritual encontrar seu namoradinho, tampouco vou salvar o mundo — disse ele rispidamente.
Katara se afastou dele, mas ele a encurralou no canto do quarto.
— Preferiria ter-me estilhaçado na fenda. Nosso trato é claro, te ajudo a voltar para nossa realidade, somos aliados, mas minha ajuda se encerra aí — disse Zuko.
— Então está me dizendo que, quando voltarmos para a nossa realidade, somos inimigos novamente, que você prefere continuar sendo a arma daquele filho da puta? — disse ela, cutucando o peito dele.
Por mais que a lógica e o ódio dissessem o contrário, ver aquele novo mundo e testemunhar o que ele poderia SER tinha mexido com algo dentro dela. De alguma forma, por mais irracional que parecesse, Katara queria que ele mudasse, que escolhesse um caminho diferente, embora ela mesma não soubesse explicar o motivo daquele desejo.
— Este mundo prova que podemos fazer escolhas diferentes. O Zuko desta realidade tinha a mesma cicatriz, o mesmo pai sádico, e escolheu outro caminho, você não vê? — ela argumentou.
— E se eu voltar? Vamos todos ser amigos? Não me faça rir, não há redenção para mim, e eu não quero. Ao cruzarmos a fenda de volta, tudo volta ao que era. O mundo me odeia. Você mesmo me odeia — disse Zuko.
Katara virou-se para encará-lo de frente, os olhos azuis carregados de franqueza.
— Eu o odeio, a você, seu pai e tudo que representam; vocês mataram minha família, meus amigos. Mas somos aliados aqui e podemos continuar. Não estou falando para sermos amigos, e sim para você me ajudar — disse Katara.
Zuko olhou fixamente por longos minutos, ponderando se valia a pena compartilhar o que buscava. Algo dentro dele, um impulso invisível, alimentado por aqueles flashes desconhecidos o impeliu a aceitar.
— Eu topo, mas preciso de sua ajuda com algo mais importante — disse ele.
Katara assentiu, balançando a cabeça positivamente.
— Preciso saber o que aconteceu com a minha mãe neste mundo — disse ele tenso, como se confessar esse desejo exigisse um esforço sobre-humano.
— Só isso? — Disse ela, surpresa pelo tom contido dele .
— Após saber o que preciso, e se encontrarmos um caminho de volta — disse, a voz grave —, eu vou com você para o Mundo Espiritual, achamos o Aang, matamos o filho da puta do Ozaí e salvamos o mundo como você tanto deseja.
— Então, depois de muito tempo, comandante, vamos lutar do mesmo lado. — Katara concordou.
Eles trocaram um olhar cúmplice, mas Katara se afastou, criando uma distância segura no cubículo abafado, enquanto Zuko se encontrava em pé, com um olhar cheio de significados. A distância física entre eles continuava ali, intransponível e calculada, mas algo invisível havia se rompido.
No fim, ficaram ali, unidos não mais pelo ódio mútuo, mas por um propósito.
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