Ponto de Ebulição | Zutara

11 Qᴜᴀᴛʀᴏ Pᴀʀᴇᴅᴇs


Notas iniciais
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𝒦𝒶𝓉𝒶𝓇𝒶

A respiração de Zuko ainda batia contra o meu pescoço, o aperto da mão dele na minha cintura afrouxou aos poucos. Quando ele finalmente recuou, o ar frio chocou-se contra a minha pele, e eu tive que cruzar os braços para disfarçar o arrepio violento que desceu pela minha espinha.

Sentei-me na beirada da cama, o homem à minha frente era apenas um reflexo quebrado, e, pelos espíritos, a forma como o meu corpo reagiu a ele me apavorava. Ele encostou as costas na parede novamente, o fogo entre nós não havia se apagado; apenas recuou, transformando-se em uma brasa que ardia sob a superfície.

Desde que eu havia chegado a este novo mundo, antes mesmo de saber toda a verdade, eu já sentia que precisava acreditar nele. Eu precisava ouvi-lo, entender o porquê de ele ter traído a todos nós — e a mim. Talvez eu pensasse assim apenas por causa do tempo em que fomos companheiros, mas havia algo muito mais profundo que eu não conseguia explicar.

E, pelo jeito, eu estava certa. Que bom que não me deixei cegar pela raiva a ponto de matá-lo.

Fiquei observando o contorno de seus ombros tensos, tinha uma última peça naquele quebra-cabeça que não se encaixava na minha mente. Uma ferida que eu precisava cutucar, mesmo sabendo que ia sangrar.

— Zuko — chamei, a minha voz quebrando o silêncio, ele ergueu os olhos, agora opacos pela fadiga. — Você disse que matar o seu tio foi o teste final de Ozai. Mas eu conheci Iroh. Ele não era um combatente comum, ele era o Dragão do Oeste, um Mestre do Lótus Branca, e ele amava você.

— Como ele deixou isso acontecer? Ele não tentou impedi-lo? Ele não tentou lutar contra Ozai por você? — Apertei as mãos no colo, sentindo um nó na garganta.

Uma sombra desceu sobre as feições dele, apagando qualquer traço de vulnerabilidade que restara do nosso quase beijo. Ele soltou uma risada ríspida, um som áspero que arranhou o silêncio do quarto.

— Ele não lutou, Katara — Zuko respondeu. — Porque ele achava que o meu sofrimento fazia parte de um "destino maior". Porque ele acreditava que eu precisava encontrar o meu próprio caminho através da escuridão.

Zuko levantou o rosto, e a dor crua que eu vi ali fez o meu fôlego falhar.

— Ele sabia, Katara. O meu tio sabia que a minha mãe estava morta.

Arregalei os olhos, chocada. — O quê? Como... como ele poderia saber?

— Iroh tinha contatos em todas as prisões e masmorras do Reino da Terra e da Nação do Fogo. Quando o Aang sumiu e o império começou a se erguer, ele investigou os laboratórios subterrâneos e encontrou os registros, então soube, muito antes de mim, que minha mãe tinha sido a primeira cobaia a morrer.

— Durante anos, enquanto eu me submetia àquelas torturas, enquanto eu dilacerava a minha própria alma e matava pessoas inocentes acreditando que estava comprando a vida dela, o meu tio sabia a verdade. E não me contou.

O choque me paralisou.

Iroh, o homem sábio que sempre nos servia chá, que falava sobre equilíbrio e paz, tinha mentido por omissão.

— Por que ele faria isso? — sussurrei, horrorizada. — Por que esconder algo assim?

— Porque ele achou que a verdade ia me fuder de vez — Zuko cuspiu as palavras, o ódio misturado com tristeza. — Ele achou que, se eu soubesse que ela estava morta, eu perderia a minha única âncora, que eu me entregaria à loucura, como a Azula. Ele preferiu me ver sendo usado como o cão a me dar a verdade. Ele mentiu para me "proteger", e , no processo, ele permitiu que eu me transformasse no monstro que o mundo inteiro teme.

Ele levantou do chão de forma abrupta, começou a andar de um lado para o outro no pequeno espaço entre a parede e a cama, a respiração pesada, os punhos cerrados.

— Esse foi o verdadeiro motivo pelo qual eu não hesitei quando Ozai mandou matá-lo — ele confessou, a voz embargada. — Quando eu invadi onde ele estava, ele me olhou com aquela expressão de pena, pediu perdão, e foi ali que eu entendi. Ele sempre soube.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Eu me levantei devagar, o meu corpo doendo de exaustão, mas a minha mente estava a mil por hora, e eu finalmente entendi a extensão absoluta da solidão dele. Zuko havia sido traído pelo pai e pelo homem que era a sua única figura paterna. Ele parou de andar e virou-se para mim. Os olhos estavam fixos nos meus, mas tinha um medo primitivo ali, um pavor que me desarmou completamente.

— Todos eles mentiram para mim, Katara — ele murmurou, a voz reduzida a um sussurro. Ele deu um passo hesitante na minha direção. — O meu pai mentiu por sadismo. O meu tio mentiu por pena.

Zuko engoliu em seco, o olhar descendo para as minhas mãos antes de voltar para o meu rosto.

— E eu estou apavorado. Porque agora... você é a única coisa real que me resta neste mundo bizarro. Nós fizemos um trato, nós somos parceiros nessa vingança, mas eu olho para você e sinto que, mais cedo ou mais tarde, você também vai mentir para mim.

Eu abri a boca para protestar, mas ele ergueu a mão, interrompendo-me.

— E sabe o que é mais patético? — ele riu, uma risada quebrada, cheia de autodepreciação. — Eu sei que eu mereceria. Depois de tudo o que eu fiz, depois de ter caçado você e o Sokka, depois de ter ajudado a destruir a sua vida... se você me usar para encontrar o Aang e depois mentir para mim, se me esfaquear pelas costas no último segundo, seria apenas o universo cobrando a minha dívida. Eu entendo. Eu aceito.

As palavras dele bateram em mim como um soco, a resignação nos olhos dele, a aceitação absoluta de que ele era indigno de lealdade, acendeu uma fúria dentro do meu peito, não raiva dele, mas raiva do que fizeram com ele.

Dei dois passos rápidos, cruzando a distância entre nós, e agarrei o tecido da túnica dele na altura do peito, puxando-o para baixo até que os nossos rostos estivessem no mesmo nível, ele arfou surpreso, as mãos dele pairando no ar.

— Escute bem, príncipe, porque eu só vou dizer isso apenas uma vez — falei, a minha voz saindo dura, afiada, olhei diretamente nos fundos dos olhos dele. — Eu odeio o que você fez. Eu odeio o império do seu pai. Eu odeio a dor que nós tivemos que suportar, e eu posso gritar com você, posso querer quebrar a sua cara de vez em quando.

Os olhos dele piscaram, absorvendo cada palavra, a respiração presa.

— Mas eu nunca vou mentir para você. — A minha voz suavizou um pouco, mas a promessa continuou inquebrável. Apertei o tecido da roupa dele com mais força. — Nós somos aliados de novo. Talvez nós estejamos muito quebrados para sermos amigos, mas nós somos parceiros, se eu tiver que te enfrentar um dia, Comandante, eu farei isso olhando nos seus olhos, eu nunca vou te apunhalar pelas costas.

Ele ficou em silêncio.

A tensão nos ombros dele começou a derreter, o peito subindo e descendo com força contra os meus nós dos dedos. Aos poucos, as mãos dele desceram e envolveram os meus pulsos, não para me afastar, mas para segurar o meu toque contra o peito dele.

O calor da pele dele queimava sob as minhas mãos.

Parceiros — ele repetiu num sussurro quase reverente, os olhos mergulhando nos meus com uma intensidade que me fez perder o fôlego novamente.

O olhar dele desceu, fixando-se na minha boca. A promessa havia quebrado a última barreira entre nós, o fio de tensão que nos cercava estalou. Zuko soltou meus pulsos, mas apenas para avançar, ele deslizou as mãos grandes e quentes para a minha nuca, os dedos embrenhando-se nos meus cabelos e puxando-me levemente para trás, expondo o meu pescoço. Ele me segurou com uma possessividade que enviou um tremor pelo meu corpo, não houve hesitação desta vez; ele colou os lábios nos meus com urgência.

O impacto me fez arfar. O beijo não foi doce, nem cuidadoso. Foi uma colisão brutal de anos de ódio, luto e uma atração que finalmente encontrou oxigênio, abri a boca para ele, recebendo-o.

Soltei o tecido da túnica dele e subi as mãos pelos seus braços rígidos, cravando as unhas em seus ombros largos. A língua de Zuko explorou a minha com uma fome voraz que enviou um choque elétrico direto para o meu ventre, ele rosnou baixo, um som rouco e áspero que vibrou contra a minha boca e me fez arquear o corpo instintivamente na direção dele.

Em um movimento brusco, as mãos dele desceram da minha nuca para a minha cintura, ele me puxou com força, colando nossos quadris de forma que não restasse espaço entre nós. Eu podia sentir a excitação dura e evidente dele pressionada contra a minha barriga, a prova física de luxúria que ele não conseguia mais mascarar, roçando em mim através do tecido das nossas roupas.

Uma das mãos dele escorregou sorrateira para debaixo da minha blusa, a palma calejada tocou a pele nua da minha lombar, traçando a linha da minha espinha com dedos possessivos. O contraste do calor absoluto da mão dele com o ar frio do quarto me fez perder qualquer resquício de sanidade.

As nossas respirações misturaram-se num som rouco e abafado. Um gemido involuntário escapou da minha garganta quando Zuko mordiscou meu lábio inferior, sugando-o com força, antes de descer uma trilha de beijos pelo meu maxilar, mordendo de leve a pele sensível do meu pescoço. O hálito dele arrepiou cada terminação nervosa do meu corpo, suas mãos apertaram as minhas coxas, erguendo-me ligeiramente contra o corpo dele, fazendo-me sentir exatamente o quanto ele me queria.

Minhas mãos desceram desesperadas, tateando a túnica e invadindo o tecido, sentindo a textura das cicatrizes direto na pele nua do peito dele. Quando a falta de ar finalmente se tornou insuportável, nós nos separamos, ofegantes, com os lábios inchados e vermelhos, nossas testas continuaram coladas, os olhos fechados, os peitos subindo e descendo em sincronia no pequeno quarto abafado.O silêncio agora não era mais feito de luto, mas de uma eletricidade pesada, crua e carregada de promessas.

Zuko exalou devagar, o polegar dele traçando a linha do meu maxilar, ele deslizou a mão para fora da minha blusa com relutância, o toque queimando até o último segundo.

— Nós... nós precisamos parar — eu sussurrei, a minha voz não passando de um fio irregular, entregando a completa falta de convicção no que eu dizia. Os meus dedos continuavam agarrados à túnica dele, traindo as minhas palavras e recusando-se a soltar o tecido.

Zuko fechou os olhos por um instante, o maxilar tenso, ele encostou a testa na minha mais uma vez, soltando um suspiro trêmulo e frustrado que bateu quente contra os meus lábios.

— Eu sei — ele respondeu num murmúrio áspero. As mãos dele desceram para os meus pulsos, segurando-os com cuidado para afastá-los do peito dele, embora não quisesse me soltar de verdade. — Se eu não parar agora, Katara... eu não vou conseguir parar depois, e nós temos uma guerra esperando por nós.

A menção à nossa realidade atingiu a minha mente como uma corrente gelada, dissipando parte da névoa da luxúria e trazendo o peso colossal da nossa missão de volta.

Engoli em seco e assenti devagar.

— Amanhã — Zuko disse, o polegar ainda acariciando a minha bochecha. — Amanhã nós vamos descobrir onde fica o centro espiritual desta cidade. Se o Aang construiu tudo isso, deve haver um santuário. Um portal, algum lugar onde as barreiras entre o mundo físico e o Mundo Espiritual sejam abertas.

Assenti, sentindo o cansaço do dia e a adrenalina do nosso beijo finalmente esmagarem os meus músculos. As minhas pernas ainda tremiam pelo calor do corpo dele. — Nós vamos encontrá-lo, vamos voltar e queimar o Ministério do Progresso até não sobrar uma única engrenagem.

Zuko não sorriu, mas o canto dos lábios dele curvou-se em algo que se assemelhava a uma promessa. Ele deu um passo para trás, criando a distância segura que nós dois desesperadamente precisávamos para não fazermos uma loucura maior ainda ali mesmo.

— Durma, Katara — ele murmurou, apontando com o queixo para a cama, os olhos varrendo o meu corpo uma última vez antes de se forçar a desviar. — Eu fico no chão.

Não discuti. Tirei as botas e deitei-me sobre os lençóis ásperos, virando-me de lado para poder observá-lo, Zuko sentou-se novamente no chão, guardando a minha retaguarda como costumava fazer antes.

Nos últimos dez anos, lutando para sobreviver, eu não tive tempo para romance. Desejo e afeto eram luxos que a guerra nunca me permitiu ter, por isso, apesar da frustração que ainda queimava no meu corpo, minha parte racional estava aliviada por termos parado.

Ainda assim, assustava-me o quão rápido eu havia me entregado àquele toque, parecia tão certo, um encaixe tão perfeito, como se de alguma forma nós pertencessemos um ao outro. Era insano, e havia tanto para digerir. Eu precisava da mente e do coração sob controle para o que estava por vir. Mas, deitada naquele colchão ouvindo a respiração dele, percebi a verdade: depois daquele beijo, manter o controle perto dele seria a minha batalha difícil.

Fechei os olhos.

A desconfiança havia morrido, e no lugar dela, algo muito mais perigoso acabara de nascer.

Notas finais
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