Ponto de Ebulição | Zutara
18 Eᴘíʟᴏɢᴏ
Notas iniciais
Zuko cumpriu a sua promessa.
Assim que a rampa do cruzador se fechou, ele trancou a porta de sua cabine. Sokka tentou bater duas vezes, resmungando algo sobre "precisarem de um plano", mas Zuko simplesmente derreteu a fechadura e o ignorou. O mundo lá fora podia queimar, se reerguer e queimar de novo, naquele momento, o universo inteiro dele se resumia à mulher o prensando contra a porta.
Para Zuko, foram dez anos de inanição absoluta, de uma saudade torturante, para Katara, havia se passado apenas um dia desde que o vira desaparecer na sala de extração. O desespero deles nascia de lugares diferentes, mas colidia com a mesma força arrasadora.
Ela percorria os ombros e o peito dele com mãos ávidas e incrédulas, arranhando a sua pele como se precisasse comprovar que ele não era um fantasma e que estava vivo, sólido e inteiro.
— Você é real? — Katara perguntou contra os lábios dele. — Por favor, Zuko, me diz que você é real.
— Eu estou aqui — ele disse, a voz rouca, prensando os quadris dela contra a porta. — Sou eu, meu amor.
Arrancaram as roupas um do outro com uma urgência, as mãos dele tremiam enquanto traçavam cada curva do corpo de Katara, maravilhadas com o calor e a maciez da pele que ele tanto ansiava tocar todos os dias daquela década.
— Dez malditos anos... — ele murmurou. — Você não faz ideia do que é passar todo esse tempo queimando por esse momento, eu passei cada noite imaginando como seria me perder em você. Sentir você se desfazendo nos meus braços... o quão quente e perfeita você seria.
— Me mostra — ela exigiu, ofegante. — Me faz esquecer, me possua com tanta força que apague para sempre a imagem de você desaparecendo.
O primeiro toque real, a forma como os corpos finalmente se uniram, arrancou um gemido de ambos. Foi cru, possessivo e absurdamente sagrado.
— Katara... — O nome dela saiu como uma prece quebrada no momento em que ele afundou nela, o corpo estremecendo por inteiro. — Meu amor, minha, minha...
— Não para — ela implorou, arfando e arqueando as costas contra ele. — Me faça sua, pois sou inteiramente sua.
Ele afogava dez anos de traumas no calor dela; ela se agarrava a ele para apagar o pânico de tê-lo visto morrer na sua frente. Quando finalmente desabaram nos lençóis bagunçados, exaustos, misturados em suor e gemidos, ele soube que cada segundo daquele inferno havia valido a pena.
— Eu te amo — ela sussurrou, depositando um beijo suave na pele do ombro dele.
Ele apertou o abraço, fechando os olhos.
— Você é a minha vida, e nunca mais vamos nos separar. Eu juro.
Quando o cruzador finalmente atracou no esconderijo da Resistência, o caos se instaurou. Os rebeldes quase atacaram a embarcação, convictos de que era uma emboscada do Império, foi preciso Sokka gritar até ficar rouco para impedir um massacre e acalmar os ânimos.
Zuko e Katara, no entanto, aproveitaram a confusão generalizada para sair de fininho, eles se infiltraram na base, trancaram-se no primeiro quarto que encontraram e voltaram a ficar incomunicáveis. Katara aparecia do lado de fora apenas o tempo suficiente para buscar comida e logo desaparecia de novo para os braços dele.
Deixaram Sokka sozinho com o fardo monumental de explicar o impossível para o resto dos insurgentes e justificar por que a irmã estava trancada com o temido Executor do Império. E, surpreendentemente, ele fez um trabalho brilhante.
A euforia isolada dos dois só chegou ao fim porque precisavam esclarecer o que apenas Zuko sabia.
Ele revelou tudo: não havia um único soldado imperial leal a Ozai naquele cruzador. Durante seus dez anos nas sombras, ele usou a sua posição de Executor para criar um esquadrão de elite secreto, formado inteiramente por simpatizantes da Resistência e soldados desiludidos com a guerra. Foram eles os responsáveis por evacuar os inocentes da capital antes que Zuko detonasse os explosivos sob o Ministério do Progresso, a cidade estava parcialmente em ruínas, a infraestrutura militar tinha virado cinzas, mas o sangue de inocentes não manchava as suas mãos.
Quando a reunião na sala de comando se encerrou, ambos puderam retornar ao refúgio que dividiam. Envoltos nos cobertores — com Zuko mantendo-a presa contra si como se, ao menor sinal de espaço, ela pudesse desaparecer —, Katara lhe fez a pergunta que a consumia.
— Você conseguiu salvá-la? — A voz dela era um sussurro. — A sua mãe?
O peito de Zuko pesou, ele segurou a mão dela, beijando os nós de seus dedos.
— Não — ele respondeu, a garganta apertada. — Ela já estava morta antes mesmo de Aang desaparecer. O salto de dez anos não foi o suficiente.
— Quando eu voltei... — ele continuou. — Na primeira vez, eu tentei ser bom, tentei salvar todo mundo. Eu mudei o passado, Katara, e o efeito borboleta foi catastrófico. Tudo deu errado. O Império nos esmagou, e você... você morreu na minha frente.
Os olhos dela se arregalaram, chocados.
— Então... — ela balbuciou, juntando as peças. — Você voltou de novo, e escolheu ser o monstro. Você escolheu ser odiado, caçar rebeldes e carregar toda essa escuridão, por dez anos inteiros... só para que a linha do tempo se mantivesse intacta?
— Eu me tornei um monstro com uma única esperança — sussurrou. — Encontrar você de novo. Garantir que, no dia de hoje, você estaria respirando.
O impacto do sacrifício dele, a percepção de que ele se condenou à vilania mais repulsiva apenas para mantê-la viva, a desarmou completamente. Ela chorou, apertando-se contra ele como se quisesse fundir seus corpos para sempre, repetindo o quanto o amava até adormecer.
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Os meses que se seguiram foram caóticos.
Logo nos primeiros meses após o reencontro, incapazes de arriscar mais nenhum segundo separados, eles celebraram uma união simples e íntima, selando de vez o que o tempo tentou roubar.
A paz se estendia para além daquele círculo particular, o mundo livre começou a se reerguer, formando um Conselho das Nações unificado. Zuko assumiu o manto como chefe da Nação do Fogo, dedicando seus dias a desmantelar a máquina de guerra, Sokka, retornou ao Sul e foi nomeado o chefe do que restava da Tribo da Água, liderando a reconstrução com o mesmo brilhantismo que os manteve vivos na guerra.
Mas havia um segredo, uma última mancha de escuridão que Zuko manteve escondida de todos.
Ozai não havia morrido na explosão.
Por três anos, ele manteve o pai aprisionado em uma cela de segurança máxima, no antigo palácio. Foi seu carcereiro e seu carrasco, visitou aquela cela incontáveis vezes, ele o torturou, quebrou o espírito do homem que tentou quebrar o mundo, seu mundo.
Até a noite em que Katara se sentou na beirada da cama deles, com um sorriso nervoso, e colocou a mão de Zuko sobre o próprio ventre.
— Eu estou grávida — ela sussurrou, e os olhos dela brilharam com uma alegria contagiante.
A felicidade o atingiu de forma avassaladora e ele a abraçou, rindo entre lágrimas, tomado por uma onda de êxtase puro. No entanto, no segundo seguinte, o peso da realidade desabou e uma culpa asfixiante subiu pela sua garganta. Ele seria pai, estava gerando uma vida. "Como ele poderia segurar uma criança pura com as mesmas mãos que desciam às masmorras para torturar aquele desgraçado?"
Horas mais tarde, enquanto Katara dormia tranquilamente, ele se desvencilhou dos lençóis em silêncio. Tomado por uma necessidade urgente de expurgar aquela mancha, ele foi até as profundezas do palácio, encontrou Ozai e acabou com a vida dele de forma rápida e fria, cortando o último laço com o monstro que o gerou.
Quando retornou ao quarto, o pânico o dominou, Zuko não aguentou o peso do segredo. Desabou de joelhos ao lado da cama, acordando-a, e confessou tudo. Contou sobre Ozai, falou rápido, atropelando as palavras, esperando o horror no rosto dela, esperando que ela o chamasse de monstro, que dissesse que ele havia se tornado igual ao pai.
Katara apenas suspirou, ela se ajoelhou ao lado dele, pegou o rosto do marido entre as mãos e olhou fundo nos seus olhos.
— Eu já sabia, Zuko.
Ele piscou, paralisado.
— Eu sou sua esposa — ela continuou, sem um pingo de julgamento. — Eu conheço cada sombra sua. Eu vejo os seus demônios, amor, e escolho amar cada um deles, porque sei o porquê de eles existirem.
As lágrimas, que ele não sabia que estava segurando, caíram livres.
— Eu o matei — a voz de Zuko saiu rouca e embargada. — Fui até lá, e acabei com isso. Nosso filho não vai crescer em um mundo com rancor. A guerra, amor... ela finalmente acabou. Para mim, também.
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𝔸ɴᴏ𝕤 ᴅᴇᴘᴏɪ𝕤.
O sol de fim de tarde banhava os jardins do palácio com um calor gentil e o som de risadas infantis ecoava pelo pátio.
Zuko observou Sokka correr, fingindo tropeçar, enquanto os dois filhos dele — um casal de gêmeos com a mesma energia caótica do pai — pulavam nas suas costas. Perto da fonte, Katara dobrava pequenos dragões de água, arrancando gargalhadas maravilhadas dos dois filhos do casal. O mais velho, com os olhos dourados do pai, tentava imitar os movimentos da mãe, enquanto a mais nova tentava agarrar a água voadora, rindo sem parar.
Ele se aproximou, passando os braços ao redor da cintura de Katara por trás, descansando o queixo no ombro dela e descendo a mão com carinho para pousá-la suavemente sobre a barriga, a gravidez recente trazia a doce promessa de mais uma vida. Ela relaxou no abraço dele imediatamente.
— No que você está pensando, Senhor do Fogo? — ela provocou baixinho, virando o rosto para depositar um beijo suave no maxilar dele.
Zuko olhou para as crianças correndo na grama, olhou para o céu limpo, sem fumaça de guerra, sem dirigíveis, sem anomalias temporais.
Apertou Katara contra si, sentindo a batida calma do coração dela contra o seu peito.
— Estou pensando — sussurrou Zuko, sorrindo contra a pele dela — que o amanhã é exatamente como nós sempre quisemos.
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