Ponto de Ebulição | Zutara
5 Cʜᴏǫᴜᴇ ᴅᴇ Eʟᴇᴍᴇɴᴛᴏs
Notas iniciais

O Templo do Ar do Oeste era um esqueleto de pedra pendurado de cabeça para baixo sobre um abismo; onde os monges antes deslizavam pelos ventos, havia apenas ruínas. A Nação do Fogo bombardeou o local, e a ordem de Ozai o transformou em uma zona de quarentena tóxica.
O ar cheirava a enxofre, misturado a uma névoa arroxeada, que era a radiação espiritual, vazando de uma ferida aberta no tecido da realidade.
Katara deslizou pela encosta; ela usava a névoa espessa para esconder sua assinatura térmica. Depois da emboscada no Ministério, cada sombra parecia armada, mas ali a tecnologia imperial era cega. Os sensores davam curto-circuito.
— Sokka? — ela disse, emergindo em um pátio enfeitado com estátuas destruídas de Avatares antigos.
— Aqui embaixo! — a voz abafada veio de um nível inferior.
Ela saltou pelos escombros, amortecendo a aterrissagem com uma fina película de água. Encontrou o irmão cercado por fios expostos, baterias e condensadores de Qi.
No centro de tudo, flutuava a anomalia.
Era uma fenda do tamanho de uma porta, rasgando o ar em tons vibrantes de azul e violeta escuro; a energia estática fazia o cabelo de Katara flutuar e seus dentes doerem. Era o Mundo Espiritual tentando sangrar para o mundo físico.
— Você está inteiro — Katara soltou o ar que prendia nos pulmões e abraçou o irmão com força.
Sokka retribuiu o abraço rapidamente, sem parar de teclar no visor do antebraço. Ele estava sujo de graxa preta e trazia um corte feio na testa.
— Aquele filho da puta do Zuko foi rápido, mas eu fui mais. Quando ele invadiu minha rede, detonei um pulso eletromagnético e escapei pelos esgotos.
— Ele sabia que vínhamos para cá, Sokka. Minha frequência foi hackeada logo depois. O Leviatã deve estar chegando.
Sokka praguejou.
— Nosso tempo acabou. Se aquele desgraçado veio pessoalmente, ele trará os Dragões Negros. Preciso de exatos três minutos para sincronizar a fenda com os dados que conseguimos.
Katara virou-se para a névoa, puxando água de seu cantil, o líquido circulou seus brancos como serpentes brilhantes
— Trabalhe. Eu cuido da retaguarda.
— Katara — Sokka parou por um segundo, olhando para o vórtice. — Quando isso abrir, vamos pular. Não sabemos se Aang está do outro lado, se vamos cair num abismo cheio de monstros ou cair do nada, para todo o sempre. Está pronta?
Katara olhou para o irmão com firmeza.
— O mundo hoje é um pesadelo, Sokka. Pular no desconhecido é o menor dos nossos problemas. Aang é a única arma capaz de derrubar Ozai. Vamos trazê-lo de volta ou morrer tentando.
O chão tremeu, mas não era um tremor natural da terra, e sim um abalo mecânico e ensurdecedor. O vento mudou de direção abruptamente, varrendo a névoa e revelando o céu nublado; acima do desfiladeiro, o cruzador pairava como uma divindade de metal escuro. As turbinas criavam correntes de ar tão violentas que Zuko precisou firmar o passo na ponte de comando antes de descer para a superfície.
Zuko vestia um traje tático flexível e a capa escura do primeiro Comandante, que chicoteava violentamente ao vento. Uma máscara preta cobria a metade inferior de seu rosto, moldada como o antigo e temido Espírito Azul, duas espadas cruzadas nas costas brilhavam sob a luz difusa da nave.
Ele aterrissou a vinte metros de distância com a leveza letal de um predador. Os guardas formaram um semicírculo de contenção, bloqueando todas as saídas das ruínas. Zuko ergueu o olhar para o centro do pátio arruinado. Lá estava ela, sua antiga aliada, companheira de viagem, e nos últimos anos uma das últimas forças que ousava desafiar o Ministério.
— Sokka! — gritou a garota, gesticulando com fúria. A água em seus braços capturou a umidade do ar e transformou-se em estacas de gelo afiadas, e com um soco seco, ela disparou contra os soldados.
Os Dragões Negros ergueram escudos de energia, mas a força bruta do gelo quebrou as barreiras, derrubando a primeira linha de defesa. Zuko não se mexeu, ergueu uma mão, ordenando silêncio aos homens. Deu um passo à frente, com os olhos fixos nela, e o ar ao redor estalava em eletricidade estática.
Sacou as espadas, o som do aço contra o metal das bainhas foi um grito metálico e cortante; ele avançou sozinho para enfrentar Katara, ordenando que os Dragões Negros cercassem a área e neutralizassem o garoto.
Contudo, assim que os soldados investiram em direção a Sokka, uma série de cargas eletromagnéticas e granadas de pulso previamente armadas por ele detonaram em cadeia, criando uma muralha defensiva de faíscas e energia que barrou o avanço da tropa.
— Eu disse que estaria aqui — a voz de Zuko soou grave, abafada pela máscara.
— Veio assistir à sua própria derrota, príncipe? — retorquiu ela, a voz pingando veneno. Ela formou chicotes grossos de água na mão. — Ou veio matar mais alguém da sua própria família? Ah, verdade, sobrou apenas aquele que puxa sua coleira.
O estômago de Zuko revirou com violência.
— Renda-se e entregue os dados, e eu ordeno que a execução do seu irmão seja rápida, e você poderá ter uma vida comum, após ser extinta sua capacidade de dobrar.
— Vá para o inferno.
Katara atacou primeiro, lançou os chicotes em cruz, num movimento rápido para tentar decapitá-lo. Zuko moveu-se com velocidade, avançou direto para o golpe e interceptou a água com precisão, o impacto dissipou a força do ataque, e ele invadiu a defesa dela em um piscar de olhos.
Ele cortou o ar em um arco perfeito, Katara dobrou a umidade do ambiente, criando um escudo de gelo espesso no último segundo. A lâmina bateu no gelo com uma chuva de faíscas brilhantes, empurrando-a três passos para trás.
Ele está mais forte, pensou ela, lutando para manter o equilíbrio sobre as pedras. Então é verdade que perdeu a capacidade de usar fogo.
Nestes dez anos de perseguição, este era o primeiro combate direto entre os dois. Demorou anos para que Sokka reunisse as peças daquele quebra-cabeça tecnológico e místico, compreendendo a viabilidade e calculando cada passo para abrir uma passagem segura para o Mundo Espiritual e resgatar Aang.
Nos primeiros anos, após perder toda a sua família e o lar, Sokka e Katara sobreviviam como podiam. Foi apenas nos últimos três anos que colocaram o plano em ação: resgatar Aang. E ela sabia que quando encontrasse o portal teria que exterminar Zuko, o traidor jamais deixaria que eles escapassem com vida. Era ela, Sokka ou ele.
E se, para resgatar Aang e ter uma chance real de salvar o mundo, ela tivesse que morrer, levaria este desgraçado com ela.
Uma luta suicida. Ela estava preparada.
— Por que as espadas, comandante? — provocou ela, desviando do segundo golpe e mandando uma onda cortante em direção aos joelhos dele. — O Senhor do Fogo tirou sua liberdade e proibiu o fogo? Esqueceu como se dobra?
Zuko saltou sobre a onda, usando o impulso para atacar do alto com as lâminas descendo como garras implacáveis.
— A dobra é a arma dos bárbaros — respondeu, aterrissando com força e estilhaçando o gelo que Katara criara sob seus pés. — O aço não tem emoção, não falha.
— Verdade, eu soube, você nunca falha, nem quando assassinou seu tio Iroh a sangue frio! — gritou ela, girando o corpo e criando um redemoinho de água para sumir momentaneamente de sua vista.
O som daquele nome estilhaçou a máscara de frieza de Zuko, uma raiva quente, antiga e reprimida explodiu em seu peito, ele atacou com fúria cega, as espadas zunindo no ar, e Katara bloqueava os golpes com extrema dificuldade.
— Assim como você, que mata sem remorso, está usando a dobra do sangue? O que seu namoradinho perfeito diria? — debochou ele, desferindo estocadas tão rápidas que ela precisou transformar a água em um gêiser para escapar para o alto.
Do alto, Katara puxou um reservatório subterrâneo de água acumulada nas ruínas, e uma onda colossal, escura de lama e detritos, ergueu-se atrás dela como um tsunami pronto para esmagar a todos.
— Morra, seu traidor! — gritou ela, jogando os braços para baixo com toda a sua força.
Zuko olhou para a imensa parede de água que bloqueava o céu. Suas espadas não serviriam para nada ali, mas a tecnologia sim. Ele ergueu o braço e deu a ordem:
— Fogo de supressão! Foco total na parede de água!
Treinados com a precisão implacável, os Dragões Negros agiram em sincronia perfeita, e acionaram os gatilhos de ignição térmica integrados às suas manoplas, liberando cartuchos de plasma comprimido direto em seus reatores, onde geradores de plasma forçaram uma combustão química artificial.
O fogo artificial não era vermelho nem laranja, mas carmesim, profundo e violento, e uma torrente devastadora de chamas colidiu diretamente com o centro da onda de Katara. O choque foi brutal, e a água colidiu com o fogo, gerando uma explosão de vapor que jogou ambos para longe. A onda de choque derrubou os guardas e fez o cruzador aéreo balançar perigosamente no ar.
Katara bateu contra um pilar de pedra, perdendo o fôlego, e a visão embaçou-se pelo vapor escaldante. Através da fumaça densa, a silhueta de Zuko levantou-se cambaleante, a meia-máscara caiu na explosão, e seu rosto estava totalmente à mostra: a cicatriz vermelha e feia.
— CONSEGUI! — a voz de Sokka rasgou o vapor. — Katara, a fenda está estabilizada!
Katara virou o rosto, o vórtice brilhava como um furacão de luz roxa, sugando pequenos detritos para o vazio.
Zuko recuperou a compostura com esforço, a disciplina voltou com força à sua mente, e ele não podia deixá-los escapar.
— Fechem o perímetro! — gritou aos guardas. — Parem o insurgente, eu cuido da garota!
Zuko correu em direção a Katara com as espadas em punho, e ela revidou com discos cortantes de gelo, recomeçando o duelo em meio aos escombros que desabavam.
— TEMOS QUE PULAR! AGORA! — Sokka berrou, correndo para a beirada da fenda.
Mas um disparo de plasma de um dos guardas atingiu em cheio o console que Sokka criou para estabilizar o vórtice, e o aparelho explodiu em uma chuva de faíscas. O som que se seguiu foi o de um vácuo absoluto, pois o zumbido virou um guincho agudo, e a gravidade ao redor multiplicou-se por dez.
— SOKKA, RECUA! — gritou Katara, vendo a fenda puxar pedras gigantescas.
Zuko tentou firmar as botas no chão, mas a sucção era implacável, e a energia espiritual caótica reagiu violentamente; o sangue de Zuko e o de Katara, respingados nas ruínas durante a luta, começaram a brilhar.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! — Sokka segurava-se desesperadamente em uma coluna, lutando contra o vento.
A fenda pulsou uma última vez, e a energia da batalha colapsou em si mesma. Um braço de luz espiritual pura irrompeu do portal, avançando direto para o centro do conflito: Katara e Zuko.
Katara ergueu um muro de gelo; Zuko usou um escudo para se proteger, mas foram sugados de uma só vez, e a luz branca engoliu os dois. Katara cruzou o olhar com Zuko no momento em que entenderam que não tinha para onde escapar.
— KATARA! — O grito desesperado de Sokka sumiu no estrondo final.
O mundo físico desapareceu.
O barulho das turbinas, o calor, o frio, tudo transformou-se em um clarão branco e cego. Eles foram devorados pelo vazio.
Atrás deles, a fenda se fechou com um estalo seco, deixando Sokka sozinho, de joelhos, o rapaz encarou o vazio onde Katara estivera um segundo antes.
O silêncio reinou absoluto nas ruínas.
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