Ponto Fraco
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ângela se despediu brevemente de Raíssa e rumou a passos certeiros para casa. Já passava da meia noite,ela pode constatar antes de bloquear a tela do celular e guardar no bolso do short. Praguejou mentalmente,seu pai a essa altura devia estar uma fera. Do jeito que o pai era protetor – e isso havia aumentado consideravelmente depois que se mudaram para o Rio -,já deveria ter uma escolta a procura dela pelas ruas cariocas.
Além da mentira – dissera ao pai que iria ver uma suposta academia para lutar muay thai,quando saíra por volta das cinco e meia,seu pai não iria suportar a ideia de saber que ela estava numa roda de rap. De nada adiantaria argumentar que não era perigoso,ou que havia ido apenas para ver a amiga – Raíssa foi uma das garotas a se apresentar na roda,ele não daria ouvidos.
— Droga! Eu não deveria ter demorado tanto – Ela sussurrou mais para si,ante a rua deserta. Agradeceu por estar com seu fiel all star,e não com um salto quinze,como viu em algumas meninas. A caminhada para casa parecia ainda maior,aquela altura.
— Falando sozinha? – Sentiu uma voz dizer ao pé de seu ouvido. Ela não sabia se sentia medo ou se arrepiava com a brusca aproximação de...
— Thiago! – Ela esbravejou. Sentiu seu rosto queimar de raiva ao ver o garoto rir sem pudores,ao seu lado. – Tá rindo de quê,moleque?!
— Precisava ver a sua cara de susto. Hilária! – Ele disse,sua respiração normalizando aos poucos. – Isso que dá,andar tão distraída,ainda mais essa hora.
O tom jocoso do loiro já havia ido embora,dando lugar ao que ela mais odiava em Thiago: a sua prepotência. Ele era arrogante,convencido e tinha um meio sorriso que lhe tirava do sério. Raíssa que a perdoasse,mas seu irmão era a personificação de insuportável.
— Aliás,o que cê tá fazendo fora? – Ele quis saber.
— E te interessa? – Ela retrucou. – Desde quando a minha vida é da tua conta?
— Ih,baixa a bola,ô estressadinha. – Ele continuou,em tom de deboche. – Taí,é um apelido melhor pra você... — Ele se aproximou da garota,sua boca perto demais do ouvido dela. — Aposto que de anjinha,cê não tem nada.
Ângela tinha os olhos fechados quando a voz mansa do loiro chegou até ela. Proximidade essa que ela não gostava. O perfume amadeirado do garoto também já havia lhe alcançado,e por Deus,já lhe causava certa vertigem. Thiago era cheio de indiretas,fazia de irritar a garota um passatempo divertido. Tudo o que ele sempre fazia lhe tirava do sério,essa era uma certeza.
— Mas era só o que me faltava! – Ela o empurrou com força,ou com toda a força que ela achava que tinha. Perto de Thiago,não conseguia nem derrubá-lo no chão,como fazia com os caras do futebol. – Vê se me erra,seu...
— Olha a boca,mocinha! – Ele disse num falso tom mandão. – Não vai querer que seu papai fique sabendo disso,vai?
Ao ouvir o nome do pai ser mencionado,seu corpo paralisou. Ele deveria estar perdendo os cabelos de tanto arrancar pela preocupação,e ele ali,a fazendo perder tempo.
— Idiota! Você não manda em mim,tá pra nascer o garoto que vai conseguir – Ela bradou,entre dentes – E eu posso muito bem contar pra Carla o que o filhinho dela faz fora de casa,quando ela vai dormir. O que acha?
Ela já sorria,vitoriosa – adorava ganhar uma discussão,teimosa do jeito que era,ainda mais quando era ele o oponente,quando o garoto deu de ombros.
— Você não vai fazer isso,- ele se limitou a dizer,voltando a se aproximar dela. Ângela podia jurar que seu coração havia acelerado com o gesto – e sabe por quê?
Os dois mantinham contato visual,os olhos verdes da menina contrastando com o tom castanho de Thiago. Por algum motivo,a loira não se viu conseguindo sustentar aquela troca de olhares por mais tempo,e abaixou seu rosto. Sua intenção era encarar seus pés ou até achar algo interessante no chão de ladrilhos,mas um obstáculo a fez parar: a boca do loiro,tão despretensiosamente próxima. Um claro alerta de perigo,era o que sua mente gritava. Tão vermelha quanto ela não gostava de se lembrar,ou quanto a noite permitia observar.
Ela sentiu dois dedos do menino levantando seu rosto para encará-lo novamente.
— Sabe,Angel? – Ele a chamou pelo apelido que ela mais odiava,junto com seu sorriso jocoso. A voz cálida,quase como um sussurro que naquele momento,lhe arrepiava a espinha. Ela apenas negou,impedida de fazer algo mais a respeito. Estava ocupada demais sentindo seu estômago revirar dentro dela. – Porquê você não me viu aqui.
Ele desceu o olhar para a menina,um sorriso nada santo estampando sua face,antes de se afastar a passos largos,em direção a casa que ficava na rua de baixo.
Quando Ângela se recuperou do efeito que o loiro causava nela,uma fração de segundos depois,ele já se encontrava distante dali,pelo menos o bastante para que ele pudesse escapar do chute em seu amigo que ela queria dar.
— Idiota! – Ela gritou,mas ele pareceu não se importar,do outro lado da rua.
— Você já disse isso,coração. – Ele se virou para dizer,se divertindo com a irritação da loira. – Sonha comigo.
Irritada,terminou o caminho que faltava até sua casa,temendo pelo o que estava por vir com o major,sem perceber que um loiro convencido e teimoso a esperava entrar em casa.
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