Poni Vanish
2 Dia 2
Looker mal dormiu aquela noite, remoendo-se pelas sucessivas falhas cometidas em sua análise na véspera. Não costumava cair em truques tão simplórios como os daquela tarde.
Era talvez a idade chegando? Já não era exatamente jovem, talvez fosse o momento de seguir os passos de Nanu e aposentar-se. Pensou na possibilidade de visitá-lo em Ula’ula, ver como ele reagiu após ter se afastado dessas operações internacionais com as quais estava sempre envolvido.
Mas não hoje.
Seu orgulho falava mais alto que a culpa; os pensamentos melancólicos deveriam ficar para depois desse caso resolvido. Não era a primeira vez que lidava com desaparecimentos, certamente haveria uma explicação lógica para aquilo.
A parte da manhã seria dedicada para formular as diferentes hipóteses. Verificaria quais pokémon vivem na região, se havia alguma presença pokémon fora do comum, se poderia ter sido mais um caso de abdução como os que investigara no ano anterior. Não que acreditasse nessa última ideia, mas não a descartaria até que pudesse provar não ser o caso.
Para sua surpresa, foi recebido com um grande sorriso assim que chegou para trabalhar na base de operações da polícia.
— Eu tinha ouvido elogios sobre você — uma policial virou-se para Looker no momento em que o viu chegar —, mas não imaginava que era pra tanto?
— Hã?
— Os desaparecidos. Foi você quem os encontrou, não foi? Bom trabalho!
O olhar de surpresa do investigador denunciou o quão perdido ele estava com a informação.
— Eu não estava sabendo. Onde eles estão?
— Na enfermaria, fazendo os exames preventivos. Aparentemente não se lembram de nada.
— Eu vou interrogá-los. Esse caso está longe de ter sido resolvido.
— Vá com calma, bonitão! Eles devem estar abalados, não force a barra com eles…
Looker encarou seriamente a policial. Ela não deveria estar fazendo pouco caso da situação. Provavelmente ela não sabia dos outros dois rapazes que desapareceram ao seu lado na noite anterior.
Se bem que nem mesmo ele tinha certeza se a dupla realmente desaparecera.
Foco.
Não era o momento para se desconcentrar. Ainda havia muito para se investigar, na verdade. A começar pelos dois que foram encontrados após três dias de sumiço. Alguma coisa eles teriam de se lembrar, ao menos de alguma pista que pudesse esclarecer como eles sumiram sem deixar rastros, ou o porquê de o terem feito.
Mas, como previsto, eles não tinham muito a dizer, sem qualquer memória do acontecido. Os dois mal se conheciam, tendo se encontrado pela primeira vez no dia do desaparecimento. Batalharam entre si de forma amistosa, ao que tudo indica, na mesma clareira em que Looker encontrara os outros treinadores na véspera. A última lembrança de ambos era de estarem andando juntos em direção à cidade para que pudessem descansar no centro pokémon. Nenhum dos dois suspeitava que tanto tempo se passara desde então, acreditando terem perdido uma ou duas horas de lembrança em vez dos três dias pelos quais estavam desaparecidos.
Looker, contudo, era bom no que fazia. Conseguiu pegar duas informações importantes na curta conversa com os jovens.
Primeiro, que o menor deles estava bastante desconfortável na cadeira, como se algo o impedisse de ficar parado por mais de quinze segundos, constantemente procurando uma nova posição. Não descartava a possibilidade de alguma mentira no relato, apesar de que ele teria de ser um ator muito bom para poder enganá-lo; mais provável era que fosse algum incômodo físico, como dor nas costas ou nos quadris.
O segundo ponto, assumindo a narrativa deles como verdadeira, era a respeito de como haviam desaparecido. As informações batiam com o que ele mesmo presenciara. O que lhe dava a certeza de um pokémon estava diretamente envolvido com o incidente.
Restava descobrir agora qual a espécie do pokémon, e se ele era selvagem ou controlado por um treinador. Com essas duas informações, poderia ir atrás dos motivos.
Saindo apressado da enfermaria, deu de cara outra vez com a policial com quem conversara mais cedo. A face dela, contudo, não tinha qualquer sombra da descontração de outrora, a palidez denunciando o teor das palavras que viriam de sua boca:
— Ainda bem que te achei! Você tinha razão, temos mais um desaparecido!
— Dois. — A resposta de Looker foi rápida e seca, uma tentativa de não se estender com algum comentário sarcástico. Eu tinha razão, olha só!
— Como disse?
— São dois desaparecidos. Vem comigo, preciso de ajuda com uns relatórios…
~ ~ ~
Perdido entre pilhas de papéis e a tela do computador, o sorriso na face de Looker era sinal de sua primeira vitória após uma manhã inteira e metade da tarde entre levantamentos. Relatórios de desaparecimentos, análise de habitat, registro dos treinadores em visita na ilha. Nada passaria desapercebido por ele.
As hipóteses foram reduzidas para apenas quatro linhas evolutivas de pokémon como responsáveis, levando em conta as características de hipnose e ausência de memória dos alvos.
Em ordem de probabilidade: Gastly. Drowzee. Inkay. Morelull.
Talvez fosse sensato descartar o último. Os esporos característicos dele explicariam o porquê de os desaparecidos não se lembrarem de nada, mas eram muito mais voltados para o sono que a ilusão. Para não falar na luminescência da espécie, uma característica rara e facilmente percebida em uma observação externa.
Por outro lado, as descrições dos efeitos eram no exato estilo do que um Gastly ou Haunter fariam. Em contraponto havia a ausência de registros da espécie vivendo como criatura selvagem na ilha, dando a Looker um suspeito em potencial, um único treinador registrado que carregava um Gengar consigo; era também um ilusionista a trabalhar com apresentações de mágica. Poucos tinham acesso à informação de que Arthur Mesmer utilizava o pokémon para realizar boa parte de seus truques, o que exigiria certo cuidado de Looker na investigação para não revelar o segredo, especialmente se o mágico fosse inocente.
Está faltando alguma coisa… Tenho que ter deixado algo passar…
Os alvos dos desaparecimentos eram bem específicos. Todos treinadores, nativos da ilha Poni, idades entre 15 e 18 anos. Os dois primeiros não se conheciam, bem como nem sabiam quem eram os outros dois. A segunda dupla, no entanto, era de colegas que moravam próximos entre si em um vilarejo próximo à costa.
Por coincidência, Mesmer iria se apresentar por lá naquela noite.
As peças estavam começando a se encaixar.
~ ~ ~
Um rapaz se posicionava ao centro do palco no pequeno teatro da cidade. Looker o observava de longe, julgando o apresentador que supôs ser Mesmer. Não que o rapaz fosse ruim, ele tinha certo carisma ao mostrar suas habilidades, mas os truques realizados não eram dos mais elaborados. Saber que ele usava do auxílio de um pokémon como mecanismo para alguns dos números apenas o fazia parecer mais fraco.
Quase uma hora depois, a apresentação se encerrara sem qualquer grande truque que lhe chamasse a atenção, apesar de o resto do público tê-lo ovacionado. Não importava; não era esse o motivo que o trazia até ali. Tratou de esgueirar-se pelas laterais, esperando por um momento no qual o ilusionista tivesse terminado de guardar seus equipamentos para abordá-lo assim que este saía de seu camarim.
— Com licença, senhor Mesmer!
— Pois não? — ele puxava uma caneta delicada do bolso da camisa, imaginando se tratar de um fã.
— Eu gostaria de ter uma conversa em particular, caso não se importe…
— Se for a negócios você deve tratar com meu agente…
— Você não entendeu. Polícia Internacional — ele levantava o distintivo, ao que o mágico reagiu com uma leve surpresa. — Creio que possa me ajudar com uma investigação. Por favor, entre.
Mesmer demonstrava certo sangue frio com a abordagem, um sorriso torto era a única alteração notável em seu semblante enquanto retornava ao camarim, seguido por Looker. Sentaram-se um de frente para o outro, ao que o ilusionista comentou:
— Por favor, seja breve e direto. Preciso partir para Melemele ainda hoje.
— Certo. Estamos tendo uma situação inusitada com alguns treinadores, como esses aqui — Looker entregou uma imagem com os dois primeiros desaparecidos, os que haviam sido encontrados na noite anterior.
— Não sei o que quer saber, mas não posso ajudar. — Mesmer respondeu, balançando lentamente a cabeça. — Quem são esses?
— Estou lidando com um caso de desaparecimentos. E minhas suspeitas estão levando para o uso de hipnose.
O rapaz arregalou os olhos, tirando sua atenção ligeiramente dispersa da cartola em um dégradé roxo que segurava em seu colo de volta para a face de Looker.
— Não sei o que você está tentando insinuar, mas creio que você não sabe nada sobre hipnotismo.
— De fato, meu conhecimento é um pouco limitado — explicava-se o detetive —, por isso mesmo estou lhe procurando. Sei que você usa o hipnotismo de seu Gengar no espetáculo, creio que seja um especialista na área.
— Fale baixo, por favor! — Mesmer o interrompeu, limpando a garganta com um leve ruído antes de prosseguir. — O efeito da hipnose depende de vários fatores e os efeitos dela variam de acordo com a fonte. Eu treinei meu pokémon especialmente para os espetáculos, quero que o público realmente acredite no que está vendo. Outras espécies já agem para que os alvos não se recordem de nada. Mas uma coisa é certa, os efeitos só duram enquanto a fonte estiver próxima ao alvo.
— Deixa eu ver se eu entendi, se algum pokémon hipnotizou esses treinadores, quer dizer que ele tem que estar com eles por todo esse tempo?
— Nenhum pokémon conseguiria sustentar os efeitos de uma hipnose por vários dias, se é o que está insinuando. O alvo vai resistir para retomar o controle, por isso os truques costumam durar não mais que alguns minutos. A menos que você esteja falando em indução de sono. Aí, usando dois pokémon diferentes, é possível alternar entre hipnose e sonolência por mais tempo até que o alvo comece a resistir aos efeitos.
— Não sei se eu lhe entendi bem, mas agradeço pelo esclarecimento.
— Se você quiser eu posso lhe mostrar na prática…
— Agradecido, mas vou recusar. Está liberado.
Mesmer logo levantou-se, um recado indireto para que Looker logo se retirasse.
— Eu que agradeço, espero ter sido útil em sua investigação. E se precisar de mais alguma informação, pode me ligar. — Mesmer estendeu seu cartão de visitas ao detetive. — Mas se for pra entrar de graça no meu show eu vou fingir que não ouvi.
— Pode ficar tranquilo. — Looker deu um breve sorriso com a brincadeira do ilusionista, virando-se para a saída.
Antes de passar pela porta, contudo, recebeu uma última dica do ilusionista.
— Hypno.
— Como disse?
— Um dos poucos pokémon capazes de usar hipnose em humanos. Creio que seja um deles que você procura.
— Obrigado.
Looker ficaria pensando naquelas palavras por um bom tempo depois de partir.
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