Pompéia
2 Jack da Banana
Notas iniciais
Danielle fez os Jonas descerem do avião em fila indiana, de mãos dadas, arrumadinhos por ordem de idade, alegando que seria muito fácil perdê-los. Estava sendo pior do que Nick e Joe haviam pensado, estava sendo realmente muito pior do que se Denise estivesse controlando-os. Pelo menos a mãe deles os deixavam andar normalmente.
O hotel era realmente pequeno. Dois andares apenas, um bar embaixo chamado Viola di Venecia, paredes de grandes pedras irregulares acinzentadas. Um grande muro o resguardava, com pedras ainda maiores e ladeado com duas estátuas extremamente feias, verdes de limo.
- Okay, eu sei que vocês não queriam ser reconhecidos e nada, mas precisavam vir.. hm, pra cá? — Kevin perguntou preocupando-se em guardar na retina todos os detalhes da horrenda decoração.
— Uau, aquelas estátuas são lindas! — Danielle exclamou excitada, apontando para as duas estátuas que ladeavam o muro de acesso à estalagem Viola di Venecia.
— Sua mulher pareceu gostar — Joe sussurrou rindo-se.
— Ah, cala a boca!
— Meninos, não briguem! — ralhou Danielle já à porta principal da estalagem.
Realmente, aquelas férias não prometiam nada. Pelo menos era isso que todos pensavam, menos, é claro, Danielle, que parecia encantada com cada detalhe da estalagem. O bar embaixo era ligeiramente escuro e encantadoramente cheio de homens alegres — no sentido da embriaguês, se é que me entendem -, com intrigantes músicas em italiano sendo tocadas em um órgão a um canto por um homem de aparência decadente de bêbado, suas roupas pareciam ter acabado de ser retiradas da máquina de lavar depois de seu ciclo de secagem, como se ele estivesse acabado de acordar. Em outras palavras, um bêbado, velho, de roupas amarrotadas e que ainda apresentava sinais de loucura. Essa era a evidência mais intrigante e, talvez, interessante: não parava de falar ao telefone e seria totalmente normal se seu celular não fosse uma banana verde. Ele parava músicas na metade para atender seu telefone e falava entre soluços.
- Qual é a daquele cara? — Joe perguntou sentando-se em um dos bancos altos no balcão do bar após pedir uma refrescante e viciante latinha de Coca-Cola.
— Aquele é o Jack — o barman respondeu simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Joe não queria dormir para não ter sonhos estranhos e tinha plena consciência de que se retirasse o colar, teria uma noite de sono tranquila. Mas ele relutava em retirar o colar, sentia-se incompleto sem ele e demasiado confuso com ele. De alguma forma, aquele lugar, Viola di Venecia, tinha algo que lhe parecia estranhamente familiar, apesar de que ele não conseguia se lembrar de nenhuma vez ter frequentado lugar mais encardido e afastado do mundo que aquele.
Hesitou, mas resolveu por ir dormir. Ele adorava a noite e olhar a Lua era sua mais incrível distração, porém toda vez que o fazia, sentia-se incompleto, como se precisasse de companhia e a companhia que ele queria parecia estar fora de alcance, considerando que fazia parte de um devaneio de sua mente, somente seu sonho.
Naquela noite, não foi diferente. Joe não quis livrar-se do colar, e ao meio da noite, sentiu-se sacudir por um novo sonho...
Ela vinha em sua direção, mas não vinha em sua calma habitual. Ele estava parado a observá-la se aproximar rapidamente.
— Escute-me — falou com urgência na voz, sem nem ao menos chegar a ele.
— Diga. — ele respondeu ligeiramente aborrecido pela falta de afeto momentânea.
— Sei que está perto de mim. Estás na Itália, é onde eu estou. É chegada a hora de provar do meu amor, de provar-me seu amor. Eu sei que vai atender a meus pedidos porque só você pode nos ajudar...
— O que, exatamente, tu queres que eu faça? — ele perguntou agora tomado de uma curiosidade repentina.
— Procure pelo Jack. Jack da banana, ele saberá o que tens de fazer.
Ele não conseguiu refrear um pensamento risonho. Ora, francamente, Jack da banana...
— Por favor, faça o que eu digo. Ou nunca poderá me saber quem sou.
- Farei tudo que me pedires!
Mas esta última frase já não fazia mais parte do sonho. Joe, embora refreando uma crise de risos, sabia o que tinha de fazer e faria tudo o que, mesmo que por um sonho, sua amada pedira. Bem, ele estava de férias, não faria nada mal uma distração, nem que fosse fruto de sua cabeça mesmo... Mas ele começava a pensar cada vez mais que talvez não fosse coisa da sua cabeça. Seus sonhos eram vívidos, contínuos, como capítulos de um livro ainda não escrito.
Repentinamente, imagens invadiram sua mente. Estátuas cintilantes à luz da lua... Um palácio submerso em lava... E ainda ouviu uma risada aguda... Um choro de criança...
Estaria ele ficando paranóico? Mas porque nada daquilo podia ser verdade? Talvez fosse só mais um indício de sua loucura interior refreada, mas talvez ele fosse mesmo predestinado a ter aqueles sonhos, talvez aquela garota que lhe atormentava o sono e enchia-lhe o coração fosse mesmo verdadeira... Ela dissera que era chegada a hora. Se fosse mesmo verdade — o que ele queria acreditar que fosse -, ele teria de agir logo, antes que perdesse a chance. Ela parecia ansiar por sua ajuda e ele estava decidido a cumprir sua promessa. "Seria capaz de morrer por você"...
- Nick, Kevin, preciso dar uma palavrinha com vocês — Joe gritou da porta do quarto 556-B da estalagem onde se hospedara.
As duas portas à sua frente se abriram e Nick saiu, as mãos cobertas de anotações, papéis amassados espalhados pelo quarto, papel e lápis na mão: Estava compondo.
Da outra porta, saiu Kevin, lutando com uma camiseta, tentando enfiá-la com pressa. Pelo visto, ele e Danielle estavam se entendendo bem, se é que o horário me permite observar.
— Fala rápido, 'to ocupado! — Nick falou sem levantar os olhos do bloquinho de papel, batendo compulsivamente o lápis contra a cabeça.
— É, fala rapidinho... — Kevin confirmou.
Então levantaram os olhos e notaram as expressões do irmão. Joe estava com olheiras sob os olhos e mantinha o rosto sério, coisa nada típica dele.
Nick largou o bloquinho na hora e Kevin se ocupou em empurrá-los quarto a dentro e passar a chave na porta.
— O que foi que aconteceu? — ele perguntou ligeiramente assustado.
— Lembra dos meus sonhos, né? — Joe falava fazendo cara de paisagem, olhando para a parede de pedra polida — Eu tive outro essa noite e muitos outros durante esse último mês...
Ele narrou seus sonhos para os irmãos, que ouviam estáticos, apenas concordando ou discordando com sussurros inaudíveis. Joe achou que seus irmãos eram bom ouvintes, ouviam quietos e postavam observações às horas certas.
— E o que você pretende fazer? — perguntou Nick por fim.
— Vou cumprir minha promessa. Vou procurar esse tal de Jack da banana — Nick não refreou uma risadinha. Joe fingiu não escutar — e vou encontrá-la.
— Joe, pensa bem, cara. — Nick pediu preocupado — Você nem ao menos sabe o nome dela, foram só sonhos, você não prometeu nada para ninguém de verdade, só...
— Eu sei — Joe apressou-se em dizer — Seguinte: vou procurar esse cara, se eu não o encontrar e ele não souber nada a respeito disso tudo, vou saber que são somente sonhos, mas se eu o encontrar e ele tiver a mínima noção do que se tratam esses sonhos e de onde veio esse colar, vou atrás de descobrir sobre essa garota e vou, se precisar, até o inferno pra encontrá-la. Se vocês me apoiam, ótimo, se não, foi bom conversar com vocês.
— Joe... — Kevin começou receoso. Arriscou um olhar para Nick, depois continuou. — Vamos com você aonde quer que você vá, então por favor, não vá até o inferno!!
Em um momento comovente, os três irmãos se abraçaram.
— Hey, vocês estão aí dentro?
Era Danielle batendo na porta delicadamente (Lê-se: "Derrubando a porta de tanto bater").
— Esqueci da Danielle! - Kevin sussurrou desesperado — Não posso ir atrás de vocês e deixar ela aqui...
— Tudo bem, já me acostumei com a nossa malinha rosa-choque ;D
— Quer dizer... ela pode ir junto, não é mesmo?
Kevin não esperou resposta porque sabia que se deixasse espaço para os irmãos pensarem melhor, não deixariam que levasse a mulher com eles, se é que eles fossem mesmo para algum lugar.
— Oi, o que está acontecendo por aqui? — perguntou Danielle adentrando o quarto onde Joe e Nick ainda permaneciam abraçados.
— Ounti, mais ti chena ninda!! — a garota exclamou apertando as bochechas dos cunhados.
— Poupe-me, sua mala! — Joe exclamou, embora rindo.
— Você sabe que eu amo vocês!
— Carrrram — Kevin fez o barulho de quem limpa a garganta para chamar a atenção.
— Mas eu amo mais o meu maridinho — apressou-se em dizer.
— Okay, Danielle, precisamos conversar. Existe uma coisa que está na hora de você saber...
E os três irmãos narraram os acontecimentos à Danielle e deixaram-na a par de todos os seus planos.
— Certo... — ela suspirou ao fim. — Onde quer que vocês forem, eu vou junto eeeee, não há nada que possam dizer que vai mudar minha decisão.
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