Notas iniciais
Eu peço desculpas por ter demorado tanto tempo pra postar. Estudos, estresse, desânimo e vários outros fatores foram responsáveis pelo meu sumiço. Juro fazer o possível para escrever com mais frequência! Se gostarem comentem, divulguem, porque isso é bem importante. Aproveitem!!

O trio passou os dias seguintes avaliando rotas e pensando no que levar. Fizeram uma pequena reunião na cabana de Ahadi para separação das tarefas. A nobre teria que ficar por conta dos mapas. Todos os livros, bússolas, mapas e desenhos seria ela que deveria se lembrar de trazer. O garoto ficaria responsável pela comida e suprimentos, que deveriam durar até chegar à vila mais próxima. Enquanto isso, o mercenário deveria separar as armas, brancas e de fogo, para caça e segurança. Por três dias o mercenário separou as armas, martelando em sua mente se era mesmo o que deveria fazer. Foi quando pensou nos outros companheiros, se já tinham separado suas coisas, mas do jeito que Zeki era miserável e Abellona metida demais para carregar uma bolsa minúscula, Ahadi sabia que tudo ia ficar pra ele.

Decidiu ir até sua irmã. Uru era realmente uma mulher sábia e linda. Era bem alta, mas um pouco menor do que Ahadi, morena de cabelos curtos até um pouco acima do pescoço, que estavam repicados por terem crescido um pouco mais nos últimos anos e decidiu cortá-los para ela. Era mais velha que o irmão, com seus 32 anos e uma aparência juvenil, porém cansada. Não muito magra, mas com algumas curvas acentuadas e era visivelmente forte, devido às diversas missões. Acabou ganhando musculatura. Sua boca era um pouco carnuda e seus olhos, antes de um tom violeta, agora estavam tomados por uma lâmina de cor branca leitosa, evidenciando a cegueira. Ela estava do lado de fora da cabana, com um vestido azul claro leve e com o filho pequeno de três anos, Taú, envolta de alguns bonecos enquanto o filho dava pequenas coisas pra ela sentir a textura.

— Achei que ia pra colocar ele para comer, Uru.

— Bem, ele gosta de testar minha memória. Sem falar também, que alguém se esqueceu de fazer o almoço. —disse entre pequenos risos — Veio me perguntar da sua viagem, não é?

— Não sei se é o certo, minha vida estava tranquila até agora. Mas se formos atrás do pomo, ou pior, se ele realmente existir e acharmos ele, estarei desafiando leis divinas, estarei desafiando a própria Sealan, e provavelmente serei morto em poucas horas depois de pegar o objeto.

— Não sei por qual motivo quer esse pomo, se é por egoísmo, altruísmo, luxúria. Mas sei que qualquer que seja o seu pedido, é para o bem, e tenho certeza que a Deusa sabe perfeitamente disso, não te prejudicaria. Mas meu medo, querido irmão, não é você. E sim, sua parceira.

— Abellona? Ela é a que mais pesquisou sobre isso. Está preparada.

— Não adianta preparar-se toda para localizar um artefato se ela está podre de alma. Peço desculpas meu irmão. Sei que gosta dela, mas infelizmente, ela sofrerá a ira da Deusa. E eu tenho medo sobre o que pode ser. Sealan é imprevisível.

— Eu estarei com ela, Uru. Estará em segurança.

— Não estará com Abellona o tempo todo, Ahadi. Uma hora ela passará por um momento de desespero e você não estará perto para ajudá-la. Por mais que você acha que irá acompanhá-la, você sabe que não será assim. Você vai afastar. E nesse momento, algo ruim acontecerá com ela.

— Prefiro pensar que sim, estarei lá por ela.

— Por que se importa tanto com ela Ahadi? Ela brincou com você. Usou você.

— Por que você todo dia ainda me pergunta daquele homem? Ele sim usou você.

Sabia que não devia ter falado daquilo. Havia tocado na ferida. O pai de Taú era um assunto realmente complicado. Muito delicado para todos daquela casa. Não devia ter falado nada, mas realmente precisava abrir a mente de sua irmã. Mas ela não entenderia. Ninguém entenderia se não sofresse na carcaça.

— Então faça o que seu coração pedir, meu irmão. Sua dúvida foi se eu apoio você em sua travessia. Eu apoio, por que sei que o que quer pedir, irá ajudar alguém, e não só você. Mas não me peça pra saber o que vai acontecer com alguém que até você mesmo sabe a resposta.

Ahadi não disse mais nada. Sentou na frente da irmã segurando suas mãos, e beijou-as. Tinha um enorme carinho pela irmã, e sabia que tudo o que ela falou, ou que iria falar era verdade. Só queria ver ela bem, queria que ela visse o filho, ele mesmo, o sol. Tudo novamente. Passou cinco anos pensando que era o fim, que deveria aceitar a condição, mas parece que agora, tudo mudaria. Ela tinha razão. O que ele pediria realmente iria ajudá-la. Mas não podia pensar nisso agora. Era mais de meio-dia, precisava mesmo fazer alguma coisa para eles comerem. Deixou a irmã e o sobrinho sozinhos na grama e entrou na cozinha fazer o almoço. Enquanto separava os materiais, ficou pensando se os outros já haviam arrumado as coisas. Zeki talvez tivesse uma ideia de como pegaria os suprimentos, era esperto, mas Abellona? Sabia que estava preocupada com outras coisas.

Preparou o básico para a família comer, um mingau para o pequeno a base de trigo, cenouras, favas, e beterrabas, com pequenos pedaços macios de carne de porco, já que ainda não estava familiarizado com alimentos mais sólidos. Enquanto para ele e para irmã fez carne de carpa com lentilhas e rabanetes. Comeram rindo e conversando, mas Ahadi não parava de pensar na missão. Após o almoço, limpou a mesa, deixou a família descansando e decidiu ir até a casa de Abellona. Precisava saber até onde ela foi, ou se pelo menos tinha começado a arrumar as coisas dentro desses três dias.

******

O que seria necessário em uma viagem para buscar um pomo magnífico? Botas? Dependendo poderiam até ser úteis. E adereços? Nada muito pesado e alto, ou então ficariam preso nas arvores. Mas chapéus de pena com certeza iriam, e algumas tiaras. Afinal, nunca se sabe o que se encontrará no caminho não é mesmo? E claro, os vestidos. Para a senhorita Schwerin, vestes nunca poderiam faltar. Abriu o guarda roupa e começou a procurar o que levar.

Jogou todos os seus vestidos na grande cama do seu quarto, e começou a analisar um por um. Azuis, rosas, verdes, foscos, brilhantes, exagerados, simples, todos os vestidos que gostava foi colocando em uma grande mala de couro. Talvez não precisasse de todos aquelas peças, mas sempre achou que era melhor sobrar do que faltar. Quem sabe em alguma vilinha no caminho estivesse tendo uma grande festa? Não poderia usar qualquer roupa. Precisaria de uma roupa mais fina, própria para uma festa. Depois de guardar os vestidos era a vez dos sapatos. Esses já não eram muitos quanto os vestidos, mas ainda vinham em grande quantidade, tudo para combinar com as roupas. Depois adereços, perucas, jóias.

Quando terminou, havia cinco grandes malas esperando para serem carregadas ao longo da viagem. Quase ao mesmo tempo, uma das empregadas, Suzanne, entrou no quarto.

— Com licença senhorita? Vejo que está ocupada, mas... Há alguém querendo vê-la.

— Não estou no clima de ver ninguém agora Suzanne. Estou ocupada, não está vendo?!

— Sim... Sim... Claro, mas ele disse que queria ver a senhorita o mais rápido possível.

— Ele?

— Não sei seu nome, mas é um homem bem alto, quase 1,90 acho. Moreno, musculoso e bem assustador. Seu pai sabe que você anda com essas pessoas?!

— Meu pai não saberia de nada nem que estivesse de frente para ele. E eu tomo conta da minha própria vida muito obrigada. Volte às suas obrigações, descerei daqui a pouco.

Os olhos de Abellona estavam brilhando. Olhou-se no espelho, arrumou o cabelo e suas roupas e desceu para o Hall. Ao chegar encontrou Ahadi olhando um grande quadro, da família. Ele estava despojado, uma blusa larga que deixava totalmente a mostra seus braços grandes e fortes. Uma calça escura que encaixava de maneira perfeita em seu traseiro redondo, e um sapato um pouco desgastado, mas ainda bem usável.

— É meu avô. — Disse a nobre se aproximando do mercenário — Meu pai disse que foi o próprio rei que mandou pintar esse quadro. Usou até os pintores reais.

— Que rei bonzinho.

— Tão bonzinho que uma semana depois acusou meu avô de homicídio. A sorte é que tinham documentos e testemunhas, ele foi solto e depois disso o rei perdeu grande parte da audiência.

— E mesmo assim ele ainda está comandando todo mundo daqui. Já arrumou os mapas?

— Os... Mapas?

— Sim, disse pra deixar os mapas sobre sua custódia, que o garoto podia se preocupar só com a comida. Arrumou-os?

—Ah... Claro, os mapas... Eu... Ainda não os preparei, estava mais preocupada com nossas roupas.

— Roupas? Você ficou três dias separando roupas?

— Ficaremos muito tempo fora, precisamos de roupas.

Ahadi olhou-a sem acreditar. Subiu direto para o quarto da moça ignorando os empregados. Ao entrar, olhou as enormes malas e riu de nervoso.

— Abellona, a gente vai a pé! No máximo no lombo de mulas! Quer que uma mulinha carregue essas malas que mais parecem elefantes?! Quantas roupas você colocou aí?!

— Quase o guarda-roupa todo...

— Sem chance. No final quem vai ter que levar essa merda toda vai ser eu. E isso não vai rolar. — Disse abrindo todas as malas e tirando as roupas — tem coisa aqui que você nem vai precisar!

— Como sabe? E se tiver uma festa?!

— A ideia é ser discreto. Se tiver uma festa se vestirá igual uma camponesa, normal. Já está na hora de aprender a ser um pouco mais humilde e menos egoísta.

— Assim você me insulta, Mercenário! E para de olhar meu guarda-roupa! Não te ensinaram a dar privacidade a uma dama?!

— Você não tem muitas roupas pra viagem. Vou procurar alguma na rua.

— Vai roubar?!

— É.

— Você é doido! Não pode fazer isso!

— Fica aí e recolha seus mapas e anotações. Quero todas encima da cama quando chegar. E não toque em uma peça de roupa sequer!

Ahadi deixou a mulher sozinha no quarto. Sem escolha, Abellona foi até a sala da porta de madeira e começou a recolher os mapas.

*****

Pravin e Zeki estavam fazendo uma lista. Quais os melhores alimentos para levar em uma viagem de morte? Trigo e grãos não poderiam faltar de todo jeito. A carne talvez pudesse ser achada no caminho da floresta, mas seria bom levar alguns peixes salgados para caso bata o desespero. Pães definitivamente seriam úteis. Além disso, sementes, nozes, e temperos, que permitirão a comida durar algum tempo a mais. De alimento, isso bastaria. Agora o problema seria pegar essas coisas. Era mal-falado, amaldiçoado. Como entrar numa loja ou fazenda, perguntar, pegar, e sair naturalmente? Não, talvez seja melhor fazer isso a noite.

Mas mais que isso: onde pegaria esses alimentos? As lojas todas ficam trancadas com travas para evitar furtos. Algumas fazendas possuem guardas e cães farejadores. Os dois seriam, com certeza, massacrados. Que outra forma de conseguir comida? Não entraria na floresta, até por que não teria tudo o que precisavam. A velhinha do fim do bairro não teria o suficiente par eles ou para ela. Ele teria que buscar a fonte em algum outro lugar.

Saiu andando pela cidade, precisava pensar em outra coisa. Arejar a cabeça. Pravin tentava, enquanto isso, pegar uma borboleta ou outra que voava em torno dele. Foi quando avistou uma moça. Era bem nova, talvez 19 anos? 20? Ela estava com uma grande cesta com várias frutas e andava apressada com os cabelos presos em um coque de qualquer jeito. Usava um avental branco e corria de forma engraçada. A julgar pelas roupas, definitivamente trabalhava pra algum mahaan. Mas não nos grandes salões, na cozinha! Decidiu segui-la. Com um pouco de sorte entrava e pegava um pouco de alimento das grandes dispensas.

Caminharam por alguns quilômetros até que chegaram numa grande casa, com dois andares, branca e azul, com grades prateadas e um grande jardim com flores variadas. A menina entrou na casa pela porta dos fundos da cozinha. Zeki entrou escondido na sala e se escondeu em uma das despensas. A cozinha estava vazia. Havia uma cozinheira bem gorda e carrancuda, a menina nova que havia seguido, e outra menina baixinha e gordinha, de cabelos negros encaracolados e pele negra, talvez da mesma idade dele. Com um pouco de sorte elas não viriam onde estava agora. Virou pra trás e encontrou tudo o que precisava e tratou de colocar na mochila depressa. Quando de repente a porta se abre, revelando ser a menina negra.

— Quem é você?! O que faz aqui?! Eu vou chamar a Gordy!

— Não, não espera! Eu não vou pegar muito! Eu só preciso de pouco! É... É pra mim, e meu macaco. Ele ta doente de fome, preciso de um pouco.

— Seu macaco? Você tem um macaco?

— Sim! É meu grande amigo! Bem... Não vou pegar muito...

Ele achava que isso ia colar. Em geral pessoas são mais amáveis quando animais estão envolvidos. Afinal, era um miserável e ela parecia muito nova. Sem preconceito formado. Mas agora prestando atenção, com certeza ela parecia ter sua idade. Ela menor que ele de fato, cabelos grandes e bem cheios. Olhos castanhos escuros e olhava pra ele com medo e curiosidade. Ela tinha traços bem bonitos.

— Qual seu nome? — ela quebrou o silencio.

— É... Zeki. E o seu?

— É Úrsula. É um abhaaga não é? Escuta, não posso te deixar aqui muito tempo! Se eu sou vista com você, sou expulsa daqui! Eu vou avisar alguém que está aqui!

— Não! Por favor. —Disse segurando seu pulso — E-Eu não te incomodo mais. Só preciso de pouco... Não vai nem sentir falta!

— Eu... Eu vou... Afastar a cozinheira Gordy. Pega o que precisar e vai embora. Mas só o que precisar!

Com isso ela foi embora e tirou a cozinheira gorda e carrancuda do lugar. Zeki então foi rápido. Encheu a mochila com nozes, temperos e alguns outros alimentos e foi embora. Olhou para trás mais uma vez, garantindo que ninguém o viu e saiu da casa. Correu para longe do bairro e chegou a sua barraca surrada. Nela, colocou a mochila no chão e começou a contar o que tinha. Quase tudo da lista estava lá, faltavam apenas algumas frutas, legumes que seriam mais fáceis de buscar e depois procuraria pedaços de carne pra levar.

—Ela foi bem legal Pravin. Ajudou a gente com muita coisa. O que falta agora pra gente é a carne, o importante. Mas isso a gente consegue à noite! Ficaremos prontos no dia exato!

*****

Ahadi tinha em mãos uma das sacolas da sua irmã com roupas pra viagem. Não havia muito, mas era o suficiente para a busca. Blusas, calças e vestidos mais simples. Nada que chamasse a atenção, e Abellona teria que lidar com isso. Voltou para a mansão, colocou tudo em uma pequena mochila que também havia trago, escutando diversas reclamações da nobre.

— Você quer mesmo que eu use essas cores?! Essas vestimentas?! Não combina comigo! Eu vou parecer uma mulher qualquer da cidade!

— Ótimo. Assim ninguém irá te reconhecer e conseguiremos seguir viagem tranquilamente, sem maiores problemas.

—Você não pode estar falando sério!

— Depois de dois anos achei que você já me conhecia Abellona! Sabe que falo sério!

— Sim, infelizmente sei!

— Já separou os mapas?

— Sim! Já separei, estão em cima da mesa.

O homem pegou os mapas e voltou a organizar a mochila. A nobre o tirava do sério. Às vezes se perguntava de onde veio tanto egocentrismo e vaidade. Assim como qualquer mulher de Great Fall, ela foi criada sobre os cuidados da mãe, que era uma pessoa bondosa, bela e amada por todos. Não havia uma pessoa na cidade que não conhecia a formosa Anelise. Depois que ela veio a falecer devido a uma doença forte, seu pai fez questão de escolher a melhor tutora da cidade, Karen. Uma mulher também de bom coração, mas um pouco mais lenta do que uma mulher deveria ser. Deixava-se levar pelo momento, as pessoas que diziam o que deveria fazer. Seu pai era um homem detestável, porém nunca estava em casa pra fazer alguma diferença profunda na vida psicológica da filha. Que ele saiba pelo menos. Ahadi estava pronto pra sair do quarto e levar a mochila para a cabana quando foi pego de surpresa pela pergunta da jovem.

— Quem foi?

— Quem foi o que? — perguntou mesmo sabendo do que se tratava.

— Sabe do que to falando. Trocou-me por quem?

— Abellona... — suspirou derrotado — Não te troquei por ninguém. Afastei-me de você justamente por causa da sua loucura por poder e riquezas. Mais do que já tem. Afastei-me por que queria me usar pra conseguir suas coisas de uma forma mais fácil. Afastei-me de você por era egoísta e nunca se importou comigo de verdade. Não teve mulher nenhuma nessa história, nunca teve. Nem nunca conseguiria. Ainda gosto de você, e só por isso eu volto me arrastando igual um cachorro vira-lata mal tratado que se arrasta atrás de quem lhe dá comida. Não significa que perdoei tudo o que fez pra mim, mas seria pior pra eu saber que você foi buscar um item divino, que convenhamos, nem sabemos se existe ou não, sozinha, correndo risco de morrer naquela floresta. Eu não ia conseguir conviver com essa dor. Mas me conhece bem demais pra saber que quando eu cansar, eu deixo você onde está e vou embora.

— Eu sei... Mas sei você via alguem. As notícias correm rápidas. Sei que não era oficial, mas... Só quero um nome. Sei que não está com ela mais, por que se estivesse, não teria apoiado a viagem comigo.

— Sirena. Esse é o nome

— A madhy... Ela é bonita...

— Sim, mas não a vejo já tem um tempo. Agora está quase de e temos que ir para cabana. Será mais fácil sair por lá.

Foi quando teve coragem de olhar pra ela. Seus olhos brilhavam, mas de tristeza, estavam vermelhos e olhavam fixamente para a parede. Havia dor em seus olhos. Será mesmo que depois desses dois anos, ela ainda sentia alguma coisa por ele? Será que ela tinha esperanças que eles voltariam? Assim como ele? Ou ainda, isso seria realmente possível? Uma nobre e um mercenário. Isso nunca ocorreu antes e nem nunca ocorreria. Seria impossível. Saindo de seu transe, viu que lágrimas teimosas escorregavam preguiçosas no rosto de Abellona. Ela estava machucada. Saber de Sirena foi demais pra ela. Achava que tinha chance. Ele foi até a jovem e limpou as lágrimas, abraçando-a em seguida.

—Acha que Zeki conseguiu pegar a comida? — perguntou, com a voz chorosa, mas se recompondo.

— Acho que sim. O moleque é esperto. Ele conseguiria da maneira dele. Só precisamos esperar e torcer.

— Espero que sim. A vila mais próxima de Great Fall consegue ser ironicamente longe. Sete dias de caminhada.

— Pelo menos vai deixar de ser sedentária. Um pouco de força nessas pernas. Ajudaria.

— Engraçadinho. Vamos direto para a sua cabana?

— Sim. E já quero deixar tudo junto, organizado. Com sorte, sairemos para a viagem ainda essa semana.

— Mentiria se não dissesse que não estou ansiosa. Ou com medo.

— A menina que não acredita em nem metade da história da cidade está com medo?

— Sim. Pode não haver demônios e Ikugun, mas pode haver assassinos.

— Eu sou tecnicamente um assassino.

— De guerra, nunca vi matando ninguém inocente por dinheiro.

— Sim, verdade. Oi, fica calma. Está acompanhada. O baixinho e eu estamos do seu lado.

— Por que confia nele?

— Ele é esperto. Inteligente. E digamos que ele está mais próximo de mi do que imagina.

— O que quer dizer?

— Nada que acreditasse — terminou o assunto rindo.

******

Chegada à noite, Zeki foi atrás das carnes. Fez questão de procurar em um armazém afastado o suficiente da grande cidade. Ficou nos altos arbustos esperando o último funcionário ir embora pra casa e o último guarda cair no sono para entrar no armazém. O cheiro de banha já estava entrando em suas narinas. Mas estava costumado, inclusive com a rotina deles, então seria igual das outras vezes. Esperaria o silêncio tomar conta, se esgueiraria na parte de trás do armazém onde tinha um pequeno buraco na madeira, pegaria alguns pedaços de carne e sumiria. Iria direto para a cabana de Ahadi e entregaria tudo. Com sorte, sairiam amanhã de madrugada.

Ele então ficou escondido por uma, duas, três horas. E, entretanto, tudo parecia igual antes. Ou pior: a segurança tinha aumentado, alguns estavam armados, e havia cães por todos os lados. Sim, o trabalho teria que ser bem mais silencioso e trabalhoso. Não podia ser visto e não queria atacar ninguém. Será que não foi tão cuidadoso assim das últimas vezes? E por que aquele armazém estava tão reforçado? Mesmo que tivesse sido visto, não era para tanto. Sim, alguma coisa estava acontecendo. Precisaria mudar a rota. Mas por onde?

O túnel de Anne Priscìle. Ela foi uma miserável como ele, há muitos anos, que invadia o mesmo armazém, na época não era tão cheio, mas o suficiente para viver por dois dias. Para não ser pega, Anne Priscìle cavou um túnel que dava pra uma das partições do lugar. Ela usava o túnel em intervalos para não ser pega. Mas um dia ela foi encontrada morta na fonte da praça central. Seu corpo estava todo cortado, pareciam cortes de estilete. Seus olhos castanhos estavam abertos, com sangue no lugar das lágrimas. Estava vestida, e de acordo com a “investigação”, ela não foi abusada. Até hoje ninguém sabe o que aconteceu com ela. E nem saberá...

Entrar no túnel demandava tempo, pois sua entrada era bem escondida em algum lugar da floresta sombria. Precisava encontrá-la na floresta. Estava de noite então parecia bem mais escura e assustadora do que normalmente era. Não havia sons, barulhos de animais, nem nada. Apenas o som de seus pés descalços pisando nas folhas e galhos secos. Não se lembrava daquela parte da floresta, então o cuidado teria que ser redobrado e não poderia ir muito longe, ou então se perderia.

Podia estar perto do armazém, mas sentia que havia andado por muito tempo. Foi quando viu uma grande árvore ao longe, num lugar mais escuro da floresta. Um carvalho. Parecia em seus últimos momentos de vida. Os seus galhos tortuosos e enormes se estendiam pelas outras árvores e pelo chão, formando um mar por entre suas raízes e folhas secas caídas. Ao se aproximar percebeu um amontoado de cipós, galhos e cascas de árvores em seu tronco. Estava tudo junto, amontoado, como se tivesse sido colado com alguma coisa. Encostou-se ao amontoado, era mesmo pegajoso e estava preso no tronco de árvore. Fedia a comida podre e carniça. A meleca era extremamente grudenta e maleável, e ao tirar um pouco do grude, conseguiu ver um buraco no tronco da árvore.

O buraco era grande o suficiente para um adulto passar. Havia lascas faltando na borda, o que mostrava que havia sido feito por alguma coisa pontiaguda. Olhou para os lados e entrou no buraco. Pelo visto calculou bem mal, foi ao pular para o outro lado caiu em queda livre, em cima de seu tornozelo torcendo-o. Era uma dor suportável, então se permitiu continuar o trajeto pelo longo túnel escuro que se seguia. Olhou ao redor procurando qualquer fonte de luz que fosse, e achou umas velas. Conseguiu acendê-las e continuou em frente.

Um dia essa curiosidade irá te matar. Não duvido que já viu acontecer algumas vezes.

— Calada! Preciso pegar as carnes.

Claro que precisa. Precisa provar que você vale a pena para o mercenário sombrio e para a nobre que te odeia.

— Ahadi prometeu me ajudar...

E mesmo após várias tentativas ainda acredita nas pessoas. Eu te admiro, Zeki. Não acredito que eu teria a mesma força.

E a voz novamente foi embora. Procurou afastar a conversa da mente e foi andando pelo túnel. Ele era bem apertado e abafado. Para andar tinha que encurvar-se, com o intuito de não bater em nada. Ao caminhar pelas curvas via insetos, larvas, alguns animais — vivos e mortos — até chegar numa bifurcação. Então os túneis dão para mais de um lugar. De um lado, escrito precariamente na terra dura, estava escrito “armazém, enquanto que do outro estava “saída”. Saída do que? Talvez ela tenha tentado fugir por essa rota, mas foi pega... Pobre garota.

Seguiu pelos túneis, e dentro de algum tempo viu o túnel se fechar e continuar acima dele. Precisava subir, e não havia uma corda por perto. Olhou para suas mãos. Sem unhas, mas podiam servir para subir. Avaliando mais, havia um buraco circular tampado por alguma coisa. Precisaria empurrar para conseguir entrar no lugar. Talvez se ele subisse e se apoiasse com suas costas e seus pés, conseguiria empurrar a tampa. Já fez isso algumas vezes, mas não em um buraco com uma largura tão grande... Mas precisava tentar.

Apoiou-se da melhor maneira possível e começou a subir. Deus! Como foi difícil! A terra entrava embaixo de suas unhas causando uma sensação incômoda. As pontas da terra seca e de algumas raízes duras e mortas fincavam suas costas e perfuravam as solas dos seus pés. Olhou para cima e via que faltava pouco para chegar ao topo. Já estava vermelho, e suava devido ao esforço. Talvez ele não estivesse mesmo em boa forma, certo?

Quando chegou à abertura, forçou ainda mais seu corpo contra a parede e começou a subir a grande tábua de madeira. Não se movia. Alguma coisa pesada estava em cima dela. Mas o que poderia ter? Precisava arrumar forças para conseguir mover a tábua, seus amigos precisavam disso.

Nem tudo são rosas, meu querido. Acho que você terá que mudar a estratégia ou pelo menos voltar e trazer o Ahadi aqui.

— Não, isso está fora de cogitação. Eles estão dependendo de mim. Não quero parecer fraco.

Você já está fraco querido, não come há semanas, e está ferido. A não ser que consiga muita força para mover a tábua, terá que deixar a carne para mais tarde.

Isso não podia acontecer. Ele tinha garantido a Ahadi que ele conseguiria... Que ele era capaz. Fazia mais por ele do que pela nobre. Não, ele ia conseguir. Mais uma vez puxou fôlego e começou a empurrar novamente a tábua. Quando começou a ficar sem ar, percebeu que a madeira moveu-se alguns centímetros. Colocou seus dedos para fora, segurando-a pelo lado e puxou mais uma vez. Quando uma abertura maior se formou, passou com o menor barulho possível. Estava dentro.

Passou pela abertura e olhou ao redor. Estava numa sala pequena. Havia uma mesa e uma cadeira de madeira, com alguns cadernos, livros, papéis e tintas espalhadas. Com certeza estava na sala do chefe, mas por que aqui? Olhou ao redor e percebeu que estava vazia. Não havia um item sequer, apenas os que já havia visto na mesa. Procurou por algo e em uma das gavetas e achou uma chave. Devia ser da ala das carnes. Pegou-a e saiu da sala no silencio.

Havia guardas por todos os lados, andando com velas, grandes pedaços de madeira e alguns estavam armados com pequenas pistolas. Se ele fosse visto, com certeza era seu fim. Passou pelos cantos, sombras, se escondendo em meio aos armários e barris espalhados ao longo do lugar. Chegando perto da sala das carnes, uma porta chamou sua atenção. Era de tamanho normal, porém era mais clara que as outras portas que viu. Ao chegar perto viu como era a maçaneta. Ouro e prata. Com certeza propriedade nobre. A fechadura também era decorada.

“Talvez seja aqui que essa chave entra afinal, e não nas carnes...”. Mas para que tanta proteção? Destrancou-a com silencio e entrou. Não acendeu velas para não chamar atenção, mas esperou sua visão se acostumar com a escuridão parcial. Após algum pouco tempo, olhou o conteúdo da sala. Grandes caixas lacradas, empilhadas aos montes. Procurou alguma que estivesse aberta e quando achou, percebeu o que tinha lá dentro. Vidros de remédio. E aos montes. Todas as caixas continham enormes quantidades de remédio. Mas por que estavam aqui? A cidade precisava deles!

— Ei, garoto! Não devia estar aqui!

Zeki olhou para trás e viu os guardas parados, impedindo a passagem pela porta. Esperou chegarem mais perto e quando avançaram, subiu nos caixotes e pulou por cima de todos passando pela porta. Correu para a porta onde guardavam as carnes e se apressou para pegar umas três peças e fugiu pela pequena janela.

Foi em direção a floresta quando escutou o latido de cachorros. Já havia sido perseguido por eles antes, só precisaria despistá-los e se esconder. Dessa vez, entretanto, não importava o quanto corresse, eles estavam sempre o achando. Subiu em árvores, escondeu em troncos, e corria, sentindo todos os músculos de seu corpo arderem. Foi em um momento de distração que não percebeu quando um dos cães pulou em suas costas, mordendo e rasgando sua clavícula. Debateu-se desesperado sentindo as dores quando viu uma pedra afiada. Pegou-a e acertou o cachorro, conseguindo se soltar e fugir. Avistou novamente o carvalho morto e entrou no começo do túnel, esperando os cães irem embora.

Não havia mais barulho de passos ou de cães. Isso era bom. Mas ainda assim sangrava, e precisava dar um jeito na ferida. Olhou para si mesmo, estava todo machucado e arranhado. As roupas, já em frangalhos, estavam piores. E o pior, sua marca aparecia. Em sua cintura, marcada como se fosse a ferro estava o motivo de sua desgraça, a marca da Deusa. Havia, em um tamanho mediano uma caveira negra, com um semblante sério. Suas extremidades eram fluidas, como se fossem feitas pelo fogo. E agora, estava a mostra. Foi quando escutou novamente o barulho de passos e se equipou com um galho que estava do seu lado. Ao olhar para a entrada, viu o Ahadi.

— Você está mesmo machucado. O que foi que você fez para apanhar tanto assim?

— É uma história um pouco longa... Mas consegui as carnes!

— Você quase morreu e está mais preocupado com as carnes. Se fosse problema eu mesmo teria pegado, garoto.

— Imagino que sim... Ai. — reclamou de dor ao mexer os ombros.

— Não vou te puxar assim. Continua pelo túnel e vire a direita.

— Você fez aquela parte do túnel?

— Não. Apenas modifiquei. Vamos, vai sangrar até a morte se continuar assim.

O homem desceu e seguiu o garoto pelo túnel. Por mais que as circunstâncias sejam estranhas, Zeki não podia agradecer mais aos céus por ele ter aparecido. Andaram pelo túnel até chegar ao final da rota “saída”. O lugar era do tamanho de um quarto. As paredes eram de terra seca e batida. Havia uma cama pequena, duas cadeiras de madeira, uma mesa redonda e um baú. O garoto sentou-se na cadeira e observou o mercenário abri-lo com uma chave de ferro. De dentro foram tirados vários itens médicos que Zeki nunca tinha visto. Algodões, medicamentos, alcoóis. Só tinha um problema: a marca. Ele precisaria tirar a blusa.

Era uma vergonha, uma maldição. Não queria que ele visse! Não mesmo! Mas no fim, não serviu de nada. Na pequena mesa redonda, Ahadi colocou os medicamentos e já foi tirando a blusa do garoto, que impediu na hora.

— O que está fazendo?!

— Acha que eu vou conseguir dar um jeito nisso com você usando essa roupa?

— Acho! Acho que consegue!

— Tira logo essa blusa garoto.

Com medo, ele tirou. O homem pareceu nem se importar com a marca. Como se não existisse. Apenas tratou dos ferimentos e costurou as mais abertas. Deusa, como doía! Nunca se lembrou de sentir uma dor tão intensa. Mas também nunca tinha sido mordido e rasgado por cães raivosos antes. Ele distraiu... Se ao menos ele tivesse estado alerta, tudo seria diferente.

Ele não estaria ferido.

Ele não seria um estorvo para o Ahadi agora mesmo.

Ele teria pegado uma quantidade bem maior de pedaços de carne.

Deveria parar de pensar nisso. Não é a primeira vez que ele se machuca. Já passou por isso várias vezes. Quando ele acabou deu pra ele uma blusa e uma calça nova e saiu para guardar as coisas no baú. Ele viu e não quis comentar. Mas sem pensar duas vezes ele vestiu as roupas novas. Estavam um pouco largas, mas melhor do que usar uma blusa rasgada aos montes com sangue.

Saíram da sala e do túnel indo em direção à cabana. O homem levava as carnes enquanto o garoto só acompanhava. Depois de um tempo era possível ver a casa do mercenário. A irmã fazia questão de iluminar ao máximo as entradas com as velas. Não por ela, mas pelo filho mesmo. E entrada da cabana era coberta de flores e iluminação. Com certeza coisa da Uru.

Ao entrar, foi recebido com carinho pela irmã e por seu filho, que por alguma razão estavam acordados. Na sala, sentada no sofá, estava Abellona Schwerin.

— Espero que saibam sair sem serem vistos.

— Por que isso agora?

— Nosso querido rei deu um comunicado. Quem for visto fora dos limites dessa cidade é preso e condenado. — Disse balançando um papel com os escritos — Meu pai assinou essa coisa. Já estão colocando guardas nas saídas da cidade e seus arredores. Não dá pra entrar nem sair.

— Não poderão usar os subterrâneos, meninos. Com certeza o rei já mandou fechar todas as passagens conhecidas, além de militarizar os pontos mais estratégicos. Se quiserem mesmo ir atrás do Pomo, precisarão de uma estratégia muito maior. Alguém descobriu sobre vocês e querem impedir a missão.

“Sua alteza real e líder supremo de Great Fall, Snorri Annlúin, tem o prazer de anunciar a nova medida de segurança de seus leais súditos. A partir deste exato momento, qualquer ser humano que ultrapassar a linha fronteiriça da cidade, seja para ida, seja para volta, será severamente punido com a lei.

Essa medida serve para por em segurança vossas senhorias, que ultimamente, além de sofrer com a falta de medicamentos, houve rumores de ataques e furtos contra os senhores de bem.

Queremos deixar explícito que a medida foi aprovada por Vossa Majestade e que está sendo implantada o quanto antes pelos melhores guardas e militares já treinados e vistos.

Vossa Majestade Snorri Annlúin, Senhor Aethel Schwerin e Marechal L. H. Bernocth”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.