Pomo de Sealan
2 II
3 AM – Bairro Abhaaga
Não havia ninguém no pequeno campo esverdeado, coberto de grandes folhas do que pareciam ser cenouras. Zeki estava nas ruas olhando através das cercas aquele campo desde a tarde anterior, apenas esperando a Velha Bruxa cair no sono.
Assim que as luzes se apagaram, o pequeno maltrapilho arrancou devagar uma das tábuas de madeira e entrou no campo. Apenas três cenouras eram os suficientes para o que o garoto queria.
Zeki era novo, não passava de 12 anos. Era relativamente alto pra sua idade e tinha cabelos e olhos castanhos escuros. Suas roupas, embora desgastadas, eram sempre de cores chamativas. Blusas com tons alegres e bermudas de cores básicas — como marrom ou bege. Nunca estava sozinho, tinha ao seu lado um macaco Cebu, o qual o chamou de Pravin, e tem sido seu companheiro desde então.
Era um abhaaga, então sempre viveu na miséria, a custa de esmolas e pequenos e grandes furtos para conseguir ao menos o que comer para apenas uma hora do dia. Entretanto, não foi o seu berço de concreto ou sua repentina pobreza que o deixou nessa classe, e sim uma "benção". Se é que isso era uma benção.
Ao nascer, ele e outras pessoas a qual ele desconhecia foram abençoadas pela própria Deusa ao nascer. Entre eles estavam as bençãos da Empatia, da Força, da Fera, e a sua, a benção da Morte. Seu poder — chamemos assim — permite que o possuidor veja como alguém poderá morrer no futuro. Uma das vantagens é sua quase independência em relação ao fenômeno, ou seja, o abençoado poderá escolher se quer usar ou não a benção na maioria das vezes.
Por ser a mais trágica das bênçãos, os moradores de Great Fall consideravam o pequeno miserável um demônio, que se chegassem perto poderiam ser mortos por suas "palavras cobertas de horror e feitiçaria". Mas a verdade era que Zeki era um menino bondoso, que se preocupava com as pessoas e que só buscava aceitação e um amigo que fosse humano.
Ao pular de volta a cerca, foi para sua casa, que era na verdade um barril afastado no bairro, e lá separou as três cenouras. Uma, era para seu amigo Pravin. A outra para ele mesmo. A terceira era para um velho que acabou se machucando e ficou parado perto da casa dos Schwerin. Pegou a cenoura e umas frutinhas que tinha pegado mais cedo, um cobertor quente e longo, colou dentro de uma mochila maltrapilha e saiu do barril.
— Vamos Pravin. É você quem vai entregar a mochila. Sabe que não posso nem chegar perto deles.
(...)
Pravin havia acabado de entregar a mochila quando ele e seu amigo olharam para a casa dos nobres. Havia musica alta tocando, convidados chegando e risos altos. Um desses convidados era o mais temido mercenário de Great Fall, Ahadi.
— Parece que alguém foi convidado para uma festa nobre. Só pode ser por interesse. Vem Pravin, vamos chegar mais perto daquela janela.
O salão estava iluminado, a melhor banda da cidade tocava na sala. Os membros mais importantes estavam dançando e assediando as empregadas e solteiras da festa. Ao fundo, via-se Ahadi conversando com a filha do anfitrião da festa, Abellona.
— Foi por isso que ele veio. Ela o convidou. Mas não parece ser uma conversa amigável. Não acha?
Pravin concordou. Ambos estavam com semblantes sérios. Pouco tempo depois, ambos sobem para o andar de cima despistadamente. Com a intenção de segui-los, Zeki subiu pelas trepadeiras e achou uma janela aberta. Entrou e abriu a porta da sala de limpeza, encontrando os dois de costas no final de um corredor, em frente a uma grande porta de madeira. Eles entraram, e o garoto rapidamente correu para impedir que a porta se fechasse com ele lá fora. Achou uma mesa com um pano cobrindo-a e escondeu atrás dele.
— Que sala medonha — disse a Pravin, bem baixo — e pra que tantos mapas e livros? Isso vai ser interessante.
Como um rato, o menino escutava a conversa dos dois.
— O que você quer Abellona?
— Invadir o templo de Sealan, pegar o mapa, e ter em nossas mãos o que podemos por direito.
Ahadi arregalou seus olhos para a nobre.
— Fala pra mim que isso é loucura, Abellona! Não podemos simplesmente sair e procurar uma lenda!
— Não é uma lenda. Aquele demônio é uma lenda! Mas o pomo é real. Eu sei que é. Sealan não criou Great Fall apenas com barros e tijolos. Tem magia no meio, e uma muito poderosa. Magia que nem Ela suporta.
— Mesmo que seja. Como quer ir atrás disso? Você não tem armas, nem força, nem senso de direção!
— É por isso que quero que me acompanhe Ahadi... só conseguirei chegar no pomo com sua ajuda...
— E acha que vou te acompanhar por que?...
— Por que vou te pagar por isso. Em dinheiro e em poder. Do jeito que quer
— Não quero poder Abellona.
— Mas quer salvar sua irmã. Precisa de poder pra isso! Olha, só pensa comigo, todos acham que Sealan é a Deusa que nos protege, que criou Great Fall para nos ajudar e que tudo o que está aqui foi por conta dela. Pode até ser, mas não foi sozinha! Tem mais do que apenas magia de deus no meio disso tudo! Ela não é a nossa salvadora, e com esse pomo eu posso provar.
Zeki escutou o que precisava ouvir. Uma oportunidade de ter o poder de Sealan. E o melhor: usá-lo para se livrar dessa maldição! Se o que a nobre tivesse dito fosse verdade, então era uma chance de ser normal finalmente.
— Supondo que eu aceite sua... proposta. Por onde começaria? Você só tem lendas passadas de geração em geração. Nada concreto.
— De uma coisa eu sei, tudo se converge pra Floresta Makasantye.
— A floresta que você entra e não volta... Não vai rolar, Abellona. Eu tenho amor a minha vida, quero me manter vivo pra minha irmã. Se quiser ir morrer, irá sozinha.
Ahadi saiu da sala deixando Abellona sozinha. Ela, por sua vez, berrou seu nome jogando a chave nele e seguindo-o.
— É nossa chance Pravin!
Saindo pelo mesmo lugar de onde vieram, o garoto correu direto para o seu barril. E vários pensamentos rondaram sua pequena cabeça. Não queria mais essa maldição. Por causa dela ele não tinha amigos, família, uma casa com cômodos, ou até mesmo uma cama que se preze. Tudo o que ele sempre desejou pode se tornar realidade, mas precisava de ajuda pra isso.
Mas o medo tomava conta. Buscar o pomo sozinho? Sem chance. Com a nobre? Ela o deixaria morrer na primeira oportunidade. O medo tomou conta de seu corpo e se viu obrigado a desistir da missão. Entretando, uma voz o encorajou a continuar.
—Não desista do trajeto Zeki. Eu sei que parece complicado e sombrio, mas sem você por perto eles não irão sobreviver. Você é esperto, inteligente, sabe como se virar em situações de risco e de perigo, e embora Ahadi seja mercenário, ele não conseguirá sozinho.
Naquele momento, em que ele escutou as palavras de sua própria Deusa, ele soube, que aquela missão era pra ele, e se ele não continuasse, ele não teria uma vida plena e feliz.
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