Poltrona 19
45 Remorso
Notas iniciais
Me virei para cima e encarei o teto por um bom tempo em silêncio.
– No que você ta pensando? – perguntou Gabriel.
– Nos problemas que eu não posso fingir que não existem. – confessei.
– Tipo?
– A Amanda me contou que é apaixonada por você. E nós prometemos uma pra outra que não ficaríamos mais contigo. – contei sentindo um aperto no peito – Eu não sou esse tipo de garota, Gabriel. Que quebra as promessas que faz pras amigas.
Olhei para ele e agora era ele quem encarava o teto. No escuro não pude ver sua expressão, mas ele ficou em silêncio por um longo tempo, parecendo pensar sobre o que eu havia acabado de dizer.
– Se você soubesse que eu quero ela e que pra ficarmos juntos bastaria você aceitar isso, você aceitaria? – questionou Gabriel me olhando.
– Claro que sim. – respondi sincera.
– Então não acha que ela faria o mesmo por você?
– O que você quer dizer com isso?
– Que eu quero você, Isa. – disse Gabriel olhando nos meus olhos e fazendo meu estômago se embrulhar num misto de emoções. Culpa, paixão.
– Eu só não queria machucar ela. – sussurrei.
– Nós não temos controle sobre tudo na vida, Isa. Não fica se culpando e se machucando por isso. Se coloca em primeiro lugar pelo menos uma vez. Não da pra viver sempre com a própria felicidade em segundo plano.
– É só que é difícil pra mim.
– Nós podemos conversar com ela juntos, o que acha? – sugeriu Gabriel. – Podemos fazer isso juntos.
– Eu não sei se isso melhoraria ou pioraria a situação.
Gabriel se inclinou sobre mim me olhando de perto.
– Nós vamos pensar em algo, ta bom? Só vamos deixar isso pra lá por um tempo, por favor. – ele pediu me dando um selinho e sussurrou contra minha boca. – Eu senti sua falta.
– Eu também senti. – confessei.
– Que horas são? Precisamos ficar de olho pra eu ir embora antes que sua mãe chegue.
– Não, não precisa, pode ficar. Ta na hora da minha mãe entender que eu já to bem grandinha.
Me levantei e vesti uma camisola qualquer, caminhei até a cozinha e peguei nossas roupas espalhadas pelo chão. Mesmo que eu tenha deixado Gabriel ficar, ela não precisava ver aquilo. Minha intenção era apenas dizer que ele dormiu ali, não assumir minha vida sexualmente ativa. Voltei para o quarto, guardei nossas coisas e me deitei. Não soube se seria uma boa ideia deixar Gabriel dormir apenas de cueca, mas não o obrigaria a dormir de calça jeans. Com sorte quando minha mãe nos ver estaremos cobertos, porque ela verá, já que deixei a porta aberta propositalmente. Vamos ver no que isso vai dar.
Gabriel adormeceu ao meu lado e não sei quanto tempo permaneci o observando ali de olhos fechados, respirando calmamente, mas peguei no sono mexendo em seu cabelo e observando sua expressão tranquila, que me transmitia a paz na alma da qual tanto preciso.
Acordei ouvindo conversas e demorei a perceber que elas vinham de dentro do meu quarto. Levantei a cabeça um pouco e pude ver minha mãe e meu pai discutindo parados no rumo da porta.
– Renatta, para de surtar! – ordenou meu pai.
– Ahn, bom dia, o que ta acontecendo aqui? – perguntei e Gabriel se mexeu ao meu lado, começando a despertar.
– Bom dia, filha! – respondeu papai. – Sua mãe ta surtando porque você dormiu com seu namorado. Acredite se quiser, ela me ligou e disse que eu precisava vir aqui imediatamente para ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Eu achei que ia chegar aqui e você teria tatuado uma folha de maconha na cara.
– Acontece que ela tem 17 anos e ele não é o namorado dela! – rebateu mamãe.
– Reunião de família? – sussurrou Gabriel brincando e eu ri mandando ele ficar quieto.
– Pelo amor de deus, Renatta! – gritou meu pai já impaciente. – Sua filha vai virar maior de idade daqui uns meses, vai pra faculdade e não vai ser mais seu bebêzinho! Nós estamos no século 21, se eles estão juntos eles vão dormir juntos! Acorda! Se não for debaixo do seu teto, vai ser em qualquer outro lugar!
– Não vai porque eu controlo a rotina dela.
– Claro. – zombou meu pai e de repente começou a imitar minha voz dizendo: – “Mãe, eu vou dormir na Leticia, ta?”. Você não acredita mesmo nisso, né?
Minha mãe já estava muito nervosa com a situação toda, mas eu e Gabriel não nos controlamos e começamos a gargalhar, o que deixou ela mais furiosa ainda. Foi então que meu pai percebeu que Gabriel acordara e fez um sinal de joinha pra ele com a mão, que Gabriel retribuiu da mesma forma.
– Você não ta levando isso a sério, né Paulo. Claro que não. Você só quer bancar o pai legal na frente dela, sem se preocupar nem um pouquinho com o futuro dela. – disse minha mãe fazendo o maior drama do mundo. – Você se esquece que eu engravidei nova e aí tive que adiar estudos, trabalho e minha vida toda?
– Porque nossa geração era assim, Renatta! Nós namorávamos cedo, casávamos cedo e tínhamos filho cedo. Era completamente normal as garotas virarem donas de casa e os homens a sustentarem. Mas hoje não é mais assim! Eles são a geração mais independente que já existiu! Esses garotos só vão casar e ter filhos no mínimo depois de terem uma carreira bem sucedida e uma vida estável. Você acha mesmo que eles arriscariam o futuro assim? Eles só tão se divertindo, meu deus! Deixa eles namorarem! Com a idade dela como você mesma disse, já não era virgem! A diferença é que eles tem juízo e sabem o que querem da vida.
– Se essa garota aparecer grávida, você vai arcar com as responsabilidades. – avisou minha mãe apontando o dedo na cara dele e virou as costas saindo do quarto furiosa e derrotada.
Meu pai se virou para nós com um sorriso no rosto e imitando minha mãe, apontou o dedo para Gabriel:
– Você engravida minha filha que você vai arcar com as consequências, ta me ouvindo? E depois de eu te dar uma surra, claro.
– Sim, senhor. – respondeu Gabriel fazendo sinal de continencia.
Meu pai mandou um beijo pra mim e se virou para sair dali, mas o chamei e ele virou para trás novamente.
– Obrigada por confiar em mim. – agradeci.
– Eu amo você, querida. Se cuida!
Assim que ele saiu do quarto fiquei pensando no quão verdadeiramente grata sou por ter um pai assim. Na cabeça da minha mãe ele sempre criou a mim e Nathália da forma errada, mas quem está errada é ela. Meu pai sempre soube que certas coisas são piores quando eles proíbem, como nesse caso. Eu sei que ele não leva o assunto tão na boa quanto parece e que ele se preocupa comigo ao extremo como qualquer outro pai, mas ele sabe que é melhor assim.
Me lembro de uma vez em que Natália levou seu primeiro namorado para um jantar em família lá em casa. Meus avós paternos estavam na cidade e passariam o fim de semana lá em casa. Tudo acabou muito tarde e no final das contas sobrou apenas ela e o namorado na varanda aos beijos. Enquanto eu ajudava minha mãe a organizar a cozinha, conversando com meus avós, meu pai se levantou, chegou na porta da varanda e simplesmente perguntou: "Natália, seu namorado irá dormir aqui? Porque precisamos organizar os quartos".
Minha mãe ficou perplexa e após Natália responder constrangida que se não tivesse problemas ele dormiria sim e meu pai confirmar que não havia, ele se sentou novamente na mesa e deu um gole calmamente em sua cerveja.
Meu avô perguntou:
– Ela não é muito nova pra você permitir isso?
E meu pai respondeu:
– Se eu proibir ela de beber, ela vai beber na rua mesmo assim e não vai ser pra mim que ela vai ligar caso algum dia acabe passando mal e precise de ajuda. Se eu proibir ela de dormir com o namorado, ela vai fazer isso na rua ou em algum motelzinho barato que não é de confiança. Tudo vai acontecer de qualquer forma. Então se eu simplesmente educá-las para terem consciencia de tudo que fazem e der confiança para elas, ela vai sentar comigo e com a família pra tomar uma cerveja sem esconder nada e estará dormindo com o namorado debaixo do meu próprio teto, protegida, sem mentiras. É a base da confiança que vou ter sempre minhas filhas como aliadas.
– Eu quero ser um pai como o seu pai. – disse Gabriel parecendo ler meus pensamentos. – Eu definitivamente gosto dele.
– É claro, se não fosse por ele você teria sido expulso daqui a vassouradas né. – rebati olhando para ele e de repente o tempo parou.
Ele sorriu e acompanhei os traços de seu rosto mudarem deixando seus olhos que já estavam pequenos por ter acabado de acordar, ainda menores. Observei sua covinha ali no canto da boca. Seu cabelo terrivelmente bagunçado. E sorri involuntariamente. Senti tanta saudade de vê-lo acordar.
– Adoro quando você me olha desse jeito. – ele disse afim de me provocar, mas eu não disse nada, porque sabia como estava olhando para ele e não queria esconder isso. Apenas me coloquei sobre ele e o beijei.
– O que você vai fazer hoje? – indaguei.
– O que você quiser.
– Então nós vamos passar o dia inteiro nessa cama, assistindo filmes e comendo brigadeiro.
– Só isso? – perguntou Gabriel. – Porque o dia inteiro é muito tempo pra gente passar aqui, sabendo que você não ta usando nada por debaixo dessa camisola.
– Depois que nós fecharmos a porta nós podemos fazer o que você quiser. –permiti.
– Eu quero muita coisa.
– Nós temos tempo.
Nós realmente passamos o dia todo juntos. Meu pai foi embora e minha mãe saiu deixando apenas um bilhete, acho que ela ainda tava meio grilada. Gabriel se foi já havia anoitecido e foi só por isso que lembrei da existência do meu celular, porque o peguei para ver se minha mãe que até então ainda não havia chegado, tinha mandado algum sinal de vida. Ela não mandou, mas foi quando vi que Vinícius havia me mandado mensagens. A primeira fora de manhã dizendo "Bom dia, linda! Você ta melhor?". A segunda a tarde "queria te ver hoje" e a última já a noite "manda notícias quando puder, to preocupado".
Não me senti bem naquele momento, comigo mesma e com tudo. É estranho pensar que conheço Vinícius há tão pouco tempo, porque de alguma forma sinto que estamos envolvidos há muito mais tempo e por algum motivo, me sinto culpada por ter passado a noite com um cara quando ele achava que eu estava sozinha. Eu não tenho que dar satisfações da minha vida a alguém que não é nada meu e com quem fiquei algumas míseras vezes, mas eu queria ser verdadeira com ele. Talvez porque Vinícius é um desses raros caras que encontramos por aí que realmente valem alguma coisa. É realmente um caso raro nesse mundo de hoje.
Vesti um casaco, peguei minhas coisas e saí de casa bem a tempo de ver minha mãe descendo de um carro que não era o dela e sim provavelmente do homem que o estava dirigindo. Estranhei porque eu nem sequer havia percebido que ela não saíra em seu próprio carro. Ela fechou a porta do automóvel com um sorriso largo no rosto e ele desapareceu no momento em que me viu. Fiquei parada a encarando enquanto ela caminhava em minha direção e arrumava a alça de sua bolsa pendurada no ombro.
– Quem é esse? – perguntei assim que ela abriu a boca na intenção de dizer algo.
– Um rapaz do trabalho, tivemos uma reunião. – respondeu mamãe.
– Trabalho... Reunião... – repeti com as sobrancelhas arqueadas em desconfiança. – Mãe, você acha que eu sou burra ou o que?
– Você me respeita, Isabelle. E onde você pensa que ta indo?
– Resolver umas coisas.
– Você tem aula amanhã.
– Eu sei, volto daqui a pouco.
Saí andando antes que ela me impedisse de ir, mas ainda olhei para trás umas duas vezes para encarar o carro preto estacionado ali que então deu partida e passou por mim. Não vejo minha mãe com um cara desde que ela se separou do meu pai e chega a ser difícil de acreditar que ela possa estar conhecendo alguém. Mas o modo com que ela estava arrumada, o sorrisinho com o qual estava no rosto e a forma com que ficou tensa ao me ver, a condenaram. Sem contar que reunião de trabalho num domingo não foi a melhor desculpa para se dar.
Me senti meio enciumada por ela ter preferido esconder isso de mim, porque eu poderia tê-la ajudado e dado apoio. Ela pelo menos ainda sabe como ter um encontro ou se portar em um? Deve saber, porque agora faz sentido a quantidade de vezes que ela tem saído com "as amigas".
Me senti meio estranha pensando que ela pode estar ficando e até transando com algum cara. Eu não sei quem é ele, não sei o que ele faz da vida, não sei qual são suas intenções, não sei se ele é um bom partido, não sei sequer se ele merece ela. E ele pode ser um cara qualquer que ta querendo apenas sexo e depois vai deixá-la machucada, sem saber lidar com isso, porque não é mais uma menininha de 17 anos com toda uma vida pela frente. De repente me senti mal por julgar a forma com que ela me trata, talvez seja exatamente assim que ela pense em relação a mim. Ela apenas se preocupa, mesmo sabendo que eu ainda tenho muitas chances de acertar e errar.
Eu não sei mais se quero ela com um cara novo, de repente me senti tensa com a ideia de ela levando alguém para casa e me apresentando um padastro. Eu não quero ter um segundo pai, eu já sou grata pelo que tenho. Eu amo meu pai.
Droga, to agindo feito uma garotinha egoísta e mimada.
Fiquei pensando nisso durante todo o trajeto até que cheguei ao meu destino. Parei em frente ao prédio e o encarei sentindo um frio na barriga. Ta na hora de eu resolver os meus problemas com homens.
Peguei meu celular e abri a conversa de Vinícius.
Eu: "Você ta em casa?"
Vine: "Sim, por que?"
Eu: "To aqui na porta do seu prédio, você pode descer pra gente conversar?"
Vine: "Você não quer subir? Eu ligo na portaria e mando o porteiro te liberar"
Eu: "Prefiro que você venha aqui, se não for atrapalhar"
Ele não respondeu mais e isso me deixou tensa. Cheguei a cogitar a possibilidade de ir embora e desistir de ter essa conversa. Mas de repente ouvi o barulho do portão do prédio se abrindo e ao olhar para trás, avistei Vinícius sorrindo para mim. Meu peito se apertou.
Ele se aproximou, mas não me cumprimentou. Apenas parou de frente para mim com as mãos dentro dos bolsos do casaco.
– Tem certeza que não quer subir? – perguntou Vinícius. – Eu tava terminando de preparar algo pra eu comer.
– Não, obrigada. – respondi tentando sorrir.
– Nem quer ir numa cafeteria tomar um chocolate quente? É a melhor coisa pra se fazer no frio. – ele insistiu.
Não respondi, mas dessa vez sorri de verdade, olhando pra ele tentando ser tão legal comigo. Ele devolveu o sorriso e olhou para baixo, olhou para o lado e fitou a rua por um tempo.
– Tava só tentando adiar o que você vai fazer. – justificou Vinícius.
– Como você sabe o que eu vou fazer? – perguntei. – Aliás, como você sempre sabe o que vai fazer?
– A culpa ta explícita na sua cara. – ele respondeu e eu dei uma risada anasalada.
– To começando a achar que não sei esconder nada.
– Sabe qual é a pior parte? É que o fato de você vir aqui, conversar comigo, mesmo não tendo que me dar satisfação de nada, me faz perceber que você é ainda mais incrível do que eu já imaginava.
– Eu juro, com todo meu coração, que tudo que eu queria era ter te conhecido em um outro momento, porque não sei explicar o motivo de eu estar tão mal por fazer isso se nos conhecemos há duas semanas! – confessei. – Isso chega a ser ridículo!
– Nós nos envolvemos rápido e demos certo, acho que foi isso.
Isso me fez lembrar do trecho de uma música do Renato Russo que gosto tanto, Vento No Litoral: "Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou". Talvez seja exatamente isso.
– Seria uma bela história, não seria? – pensei em voz alta. – Um casal que se conheceu no meio de uma multidão, numa avenida qualquer de Curitiba, numa noite fria.
– Seria. – ele concordou sorrindo.
Nós ficamos em silêncio por um bom tempo sem saber o que dizer um ao outro, mas resolvi o quebrar com uma pergunta para qual queria muito que a resposta fosse sim.
– Nós podemos ser amigos? – perguntei. – Eu sei que essa é a última pergunta que queremos ouvir em momentos assim, mas... Eu realmente queria isso.
– Podemos sim. – respondeu Vinícius me tranquilizando.
E mais uma vez surgiu aquele silêncio.
– Não quer mesmo subir? – foi a vez dele perguntar. – Como amigos...
Eu ri, mas achei melhor não.
– Eu tenho aula amanhã. Na verdade preciso ir.
– A gente se vê por aí então?
– Com certeza.
Sem pensar me aproximei dele e dei um beijo em seu rosto.
– Se cuida, Vine. – pedi antes de me virar e sem olhar para trás ir embora. Olhar pra trás as vezes dói muito.
As coisas entre mim e o Gabriel voltaram ao normal e foi só então que percebi que senti muita mais falta dele nos meus dias do que pensava. Foi quando cheguei no colégio na segunda-feira e ele estava me esperando encostado no muro do colégio para que pudessemos ficar juntos até o sinal pro segundo intervalo tocar. Também quando no horário de Educação Física ao invés de jogar futebol, ele ficou sentado comigo na arquibancada conversando. E quando no final da aula fomos juntos embora.
Meu pai nos buscou no colégio porque eu passaria a semana na casa dele, nos levou para almoçar num restaurante e depois nos deixou para que pudesse ir trabalhar. Assim que entramos no meu quarto, Gabriel notou algo de diferente antes de mim. Um quadro novo na parede, protegendo o disco do Oasis que ele havia me dado de presente. Me lembro de que pedi para o meu pai enquadrá-lo.
– Gostou? – perguntei sorrindo e em resposta ganhei um beijo.
Era minha velha rotina de volta. Uma rotina que não tinha nada de diferente, nada de inovador e nada de surpreendente, mas que me fazia bem porque Gabriel fazia parte dela. Porque naquela tarde, deitados na minha cama, ele com a cabeça repousada sobre minha barriga e abraçado com as minhas pernas, adormeceu fazendo carinho em mim enquanto eu fazia cafuné nele, ouvindo Oasis tocar baixinho no meu celular. E eu me peguei pensando que a vida não é feita só de grandes momentos, as vezes a felicidade também se encontra numa tarde de preguiça olhando pra alguém que você ama.
***
– Mais um dia dos namorados sozinho! – gritou Bruno ao entrar na sala. – Sabem o que isso significa? Que eu sou um cara muito feliz!
Nós rimos e foi somente nesse momento que percebi ser 12 de Junho. Mais um dia dos namorados sozinha! Sabem o que isso significa? Que eu sou uma fracassada!
Queria ter me lembrado desse pequeno detalhe antes, porque assim teria faltado na aula. Não adianta, não importa o que qualquer pessoa diga a respeito desse dia, que não está nem aí, não dá a mínima, não faz diferença nenhuma em sua vida ou sei lá o que, em algum momento isso incomoda e irrita sim – ou causa inveja mesmo. Seja pelo fato de que suas redes sociais se enfestam de fotos de casaizinhos e declarações de amor ou porque parece que todos ao seu redor precisa ficar esfregando na sua cara as surpresas que ta preparando, sobre os presentinhos que ganhou/ganhará e sobre o encontro romântico que terá. E foi exatamente o que aconteceu naquele colégio a manhã toda.
– Me diz por favor que você também queria levar um tiro na cabeça. – disse Carol olhando para a mesma direção que eu. Uma garota que se exibia pro pátio inteiro durante o intervalo, com um urso gigante na mão e um buquê de rosas na outra.
– Não, você não está sozinha nessa. – confirmei. – Não que eu quisesse um urso medonho daquele, mas um presentinho seria legal. Uma cesta de chocolate quem sabe.
– Por que isso importa tanto pra vocês? – perguntou Gabriel com a boca cheia de batata ruffles, sentado sobre a mesa em que estávamos. A tia da lanchonete já mandou ele descer umas três vezes e ele continua ali.
– Porque significa que importou o suficiente pro cara pra que ele fizesse alguma coisa. – respondi.
– Os caras só fazem isso por pura pressão. – rebateu Gabriel.
– Nem é. – intrometeu Gustavo, que até então estava quieto. – Se o cara gosta da mina de verdade ele faz porque quer e porque sabe que ela vai ficar feliz.
– Ainda bem que o Bruno não ta aqui pra ouvir uma viadagem dessas.
Faz somente alguns dias que Carol e Gustavo voltaram a andar juntos. Eles estão tentando ser maduros e não deixar que o fim do relacionamento deles atrapalhe a amizade, que inclusive, já tinham muito antes de começarem a namorar. Mas em alguns momentos ficam explicitamente sem graça, constrangidos ou sem saberem o que fazer. Hoje é uma dessas situações. Acredito que passar o dia dos namorados com seu ex, não deve ser a sensação mais confortável do mundo.
– A Bianca ganhou chocolates. – observou Carol e procurei por ela no pátio. Ela exibia uma caixa dos mesmos para suas amigas.
– Mano, não é possível! Essa menina ta sempre dando pra alguém?
– Você quer um bombomzinho de presente? – zombou Gabriel.
O fuzilei com o olhar, mas ele começou a rir e respondi educadamente:
– Vai se foder.
Ta, não tão educadamente assim.
Eu voltei pra sala me sentindo mais derrotada que antes. Em um universo paralelo, eu seria apaixonada por um cara normal e não um extremamente problemático, nosso romance seria lindo e promissor, ele me compraria uns presentinhos e passaríamos o dia juntos. Mas não. Eu sou apaixonada pelo Gabriel. O máximo que eu posso esperar dele é dividir a conta da pizza. Ta, eu to exagerando. Me deixa ser dramática.
Eu estava quase cochilando durante o horário de Física, enquanto o professor falava algo sobre eletromagnetismo, que por acaso, eu devia estar prestando atenção caso queira sobreviver as provas de Julho, quando a aula foi interrompida pela diretora Rosângela. Aquele foi o acontecimento do dia.
– Com licença, professor. Eu tenho algumas entregas pra duas alunas da sala. – disse Rosângela e bastou que ela falasse isso pro caos se instaurar na sala, simplesmente porque ela segurava um buquê de rosas gigante em mãos e uma funcionária que a acompanhava carregava uma cesta de chocolates gigante.
Anão, corta essa. Quem são as filhas da puta que vão receber esse negócio no meio da aula? Tomar no cu. Eu já imaginava que as entregas que fossem direcionadas pro colégio seriam passadas pros alunos no último horário, mas ainda tinha esperança de que isso não acontecesse na nossa sala.
– O buquê é pra senhorita Bárbara Ferreira. – ela anunciou de repente.
Eu estava completamente jogada na minha cadeira, mas naquele momento me ajeitei com a mesma pressa com que Carol olhou pra trás e acho que a expressão de surpresa dela devia estar se parecendo muito com a minha. Puta merda. Puta merda. Puta merda.
– Pra mim? – perguntou Barbara gaguejando parecendo completamente indignada.
Eu estava achando aquele momento sensacional, principalmente pelo “não é possível” que Tatiane soltou.
– Puta não recebe rosas, Tati? – provocou Bruno.
– Olha o respeito, Bruno! – repreendeu Rosângela, mas eu já estava gargalhando. – E é pra você sim, Barbara.
Ela sequer conseguiu se levantar, então Rosângela levou o buquê até a mesa dela que começou a vasculhá-lo pelo cartão que a diria quem foi o remetente. Eu estava muito curiosa para saber, mas seja lá quem foi, fez com que eu ganhasse o dia. Se tem alguém que merecia um buquê nesse dia, essa pessoa é a Barbara. Eu só não seria capaz de imaginar que ela esteja saindo com alguém e isso me deixou perplexa.
– E a segunda entrega... – prosseguiu Rosângela. – É pra aluna Isabelle Nemitz.
Eu tava sorrindo olhando pra Barbara e quando me dei conta de que aquele era meu nome, olhei pra diretora com a mesma cara de perplexidade com que Barbara havia olhando. Carol olhou pra trás novamente. Gustavo olhou pra trás. Bruno olhou pra trás. E a sala inteira olhou pra trás em minha direção. Então Gabriel me lançou um olhar que traduzia perfeitamente a única palavra que ele conseguiu dizer:
– QUE?
– Que palhaçada é essa? – perguntou Bruno confuso. – Você ta saindo com quem agora? Ainda é aquele cara da faculdade? Porque eu to começando a ficar irritado com ele!
Eu me levantei me sentindo meio constrangida e na verdade bem confusa, não vou mentir que a primeira coisa na qual pensei foi que fora Gabriel quem me mandou aquilo, mas tava nítido na expressão dele que não foi. E isso com certeza não tem a cara dele. Foi só uma esperança boba.
Peguei a cesta em mãos ao som de comentários da sala inteira e até Rosângela me olhou com um sorrisinho no rosto que me deixou ainda mais constrangida. Quando estava voltando para meu lugar olhei para Barbara e sorrindo ela disse apenas mexendo os lábios: “Foi o Nicolas”.
AI MEU DEUS DO CÉU. QUE COISA MAIS FOFA. POR FAVOR SE CASEM. E NÃO FAÇAM ISSO COM O CORAÇÃO DE UMA SHIPPER.
Ao me sentar de volta em meu lugar, a diretora agradeceu a atenção e se retirou. Carol lançou a pergunta para qual eu queria muito saber a resposta.
– Quem foi que mandou? – ela perguntou.
– Não faço ideia! – respondi.
– Agora chega de alvoroço, turma! Vamos voltar a atenção pra aula, vocês tem teste semana que vem! – disse o professor tentando retomar o controle sobre a sala. – Vamos continuar a aula, todo mundo prestando atenção!
Abri a cesta na procura de algum cartão, papel ou qualquer coisa que me desse respostas e a única coisa que encontrei foi um bilhete escrito “Through chaos as it swirls, it's us against the world”. Eu reconheci o trecho de Us Against The World, uma música antiga do Coldplay que eu amo, mas ela não me dava pista nenhuma. Passei o restante da aula lendo e relendo aquele papel e quando o sinal tocou, Carol voltou a perguntar.
– E aí?
– Tudo que tinha no bilhete é um trecho de uma música do Coldplay. – contei. – É minha banda preferida, mas todo mundo sabe disso.
– Eu não sabia. – rebateu Carol. – Mas relaxa, uma hora você vai descobrir.
Nós organizamos nossos materiais e saímos do colégio, comigo tentando carregar uma cesta de chocolates sem chamar a atenção, mas era impossível. Eu queria ganhar presente, mas não queria todo mundo me olhando por causa disso. Por isso dei graças a deus quando eu e Gabriel já estávamos distantes da multidão de adolescentes, indo embora para casa. Ou pelo menos eu achei que estávamos, até eu perceber que aquele não era o caminho da minha casa.
– Onde estamos indo? – perguntei.
– Almoçar e depois vamos pro parque Barigui. – ele respondeu
– Por que nós vamos pro parque Barigui?
– Porque eu quero.
Revirei os olhos para ele. Gabriel e suas típicas respostas.
– Eu não vou passar o dia todo andando com isso aqui na mão. – reclamei apontando para a cesta, mas na verdade eu só estava me remoendo pra ele perguntar sobre. Não é possível que ele não esteja nem um pouquinho incomodado. Alguém me mandou aquilo, então alguém está interessado em mim.
– Você não queria ganhar presentes? Agora carrega. – zombou Gabriel.
É, ele não está, mas pelo menos carregou ela pra mim pra eu parar de resmungar. Nós almoçamos e fomos mesmo pro parque, o que não entendi, já que não tem nada de muito interessante no Barigui. Além das capivaras, é claro. Eu adoro as capivaras dessa cidade.
– Queria adotar uma. – disse Gabriel enquanto observávamos as mesmas ao redor do lago. – Ia chamá-la de Nemitz.
– Nossa, como você ta engraçadinho ein. – ironizei dando um tapo em seu braço.
Nós estavamos deitados abaixo de umas árvores, um pouco distante do resto das pessoas. Tava um tempo bom apesar do frio. Ultimamente quase não temos visto o sol por Cuririba.
– A gente podia abrir essa cesta aí né, eu quero chocolate. – disse Gabriel puxando a cesta para si e desfazendo o laço que amarrava o embrulho. – Fiquei sabendo que tem todo tipo de chocolate nesse negócio. Amargo, ao leite, branco, crocante, maciço, recheado e tem até bicoito e marshmallow.
– Sério? – perguntei me sentando para olhar os produtos, mas parei no lugar e fiquei olhando pra cara do Gabriel, enquanto ele abria um bombom. – Como você sabe disso?
Ele comeu o bombom na maior calma e paciência, e quando terminou, soltou fingindo indiferença:
– Foi o que a vendedora disse.
O sorriso que surgiu no meu rosto naquele momento foi proporcional a felicidade que eu senti. E acreditem, foi muito grande. Eu não tava conseguindo acreditar naquilo. Foi Gabriel. Foi mesmo o Gabriel. Ele se deu o trabalho de me comprar um presente no dia dos namorados e mandar entregar no colégio. Eu comecei a surtar internamente e quanto mais tentava esconder isso, mais queria voar na cara dele de tanta gana. Foi mais ou menos o que fiz.
– Não acredito que foi você! – gritei me jogando em cima dele. Segurei seu rosto com uma mão e o enchi de selinhos.
– Meu deus, como você é insuportável! – reclamou Gabriel tentando se esquivar dos meus beijos com um sorriso no rosto. – Nós estamos em um local público, sai de cima de mim que tem crianças nos olhando! E tira esse sorriso macabro do rosto!
Eu não saí de cima dele e nem parei de sorrir, muito pelo contrário, apenas apoiei meu cotovelo na grama e apoiei meu rosto na mão, de forma a ficar olhando diretamente pro seu rosto.
– É serio, eu não acredito que você fez isso. – confessei meio retardada de tão feliz.
– Não foi ideia minha, foi ideia do seu irmão. – contou Gabriel. – Ele me mandou mensagem no meio da aula dizendo que queria mandar flores pra Barbara, mas tava há uma semana pensando que isso é meio babaca e que ia ser ridículo. Eu não sei porque ele veio falar justo comigo, mas eu o incentivei e aí depois de você ficar de mimimi, resolvi fazer alguma coisa. Mas não acostuma não, porque eu não faço esse tipo de coisa. Falo sério. Eu não faço. E esses chocolates aí são tudo meu, eu vou comer tudo.
– Você me deu presente de dia dos namorados, Gabriel. Aceita que você me ama.
Ele me ignorou, mas eu conseguia notar que ele estava segurando um sorriso.
– Por que "Us Against The World"? – perguntei.
– Porque eu gosto dessa música e ela me lembra você. – respondeu Gabriel dando de ombros. – Coldplay me lembra você.
– Sabe o que o Chris Martin disse sobre essa música uma vez? Que ela é sobre encontrar alguém que você ama, quando você conhece alguém e de repente tudo fica bem novamente.
Gabriel balançou a cabeça negativamente, ainda com aquele sorrisinho ali e passou a mão pelo rosto ao dizer:
– Cala a boca, Isabelle.
Quando olhou para mim e viu o jeito com que eu estava o olhando, começou a rir e me empurrou pro lado, mas foi sua vez de se colocar sobre mim. Só que ele me beijou de verdade.
Nós ficamos deitados na grama e eu peguei meu celular, conectei o fone de ouvido a ele, abri minha playlist e coloquei para tocar no modo aleatório. Coloquei um fone no meu ouvido e o outro no ouvido de Gabriel sem nem pedir permissão. E passamos o resto da tarde ouvindo música, conversando sobre besteiras e nos entupindo de chocolates.
– Vamos, precisamos ir. – avisou Gabriel se levantando de repente.
– Por que? Onde vamos? – perguntei enquanto ele me puxava pelas mãos, obrigando que eu me levantasse também.
– Você vai descobrir.
Nós saímos pela entrada contrária de onde entramos e demos de cara com um morro. A nossa frente havia uma rua extremamente inclinada e foi exatamente em sua direção que Gabriel seguiu.
– Eu não vou subir essa rua nem a pau. – avisei, mas Gabriel apenas me ignorou e continuou andando rumo a destruição das minhas pernas. Bufei e comecei a segui-lo. Aquela era provavelmente a rua mais inclinada que eu já subi, juro. Tive a sensação de que se eu perdesse o equilíbrio sairia rolando rua abaixo, até que pararia ao bater nos postezinhos da saida do Barigüi. – Isso não é justo comigo, eu sou sedentária.
– Canta "The Climb" aí pra te dar motivação.
– Cala a boca, Gabriel.
– There's always gonna be another mountain, i'm always gonna wanna make it move, always gonna be an uphill battle, sometimes i'm gonna have to lose... – ele começou a cantar em tom de zoação na intenção de me irritar e funcionou, senti vontade de mandá-lo ir se foder. Mas minutos depois eu estava com a música na cabeça e só percebi quando Gabriel começou a rir, porque eu cantarolava involuntariamente:
– Ain't about how fast I get there, ain't about what's waiting on the other side, it's the climb.
Quando finalmente chegamos ao fim da rua, minhas pernas estavam doendo, minha respiração descompassada e minha vontade de viver era zero. Parei onde estava, apoiei minhas mãos nos joelhos e esperei minha respiração se regularizar.
– Eu não aguento mais andar. – reclamei.
– A gente ainda tem um longo caminho pela frente.
– Onde nós vamos, Gabriel?
– Eu não vou contar. – afirmou Gabriel.
– E se eu decidir que não quero ir? – rebati.
– Você vai, tu é curiosa pra caralho.
Nem respondi porque se eu fizesse isso o xingaria. Mas ele estava certo, minha curiosidade é maior que tudo. Eu fui e de fato foi um caminho muito longo. Subimos eternamente por uma rua que não parecia mais ter fim. Se eu tivesse que descrever o trajeto que fizemos diria algo como "aí você segue reto até chegar em outro continente ou quem sabe no inferno". Eu preciso dar um jeito nesse sedentarismo. Começar a fazer umas caminhadas, academia, sei lá. Não me identifico nada com esse título de "geração saúde".
Uns 385 quarteirões depois, viramos para a direita e finalmente percebi onde estávamos. Não que fosse algo possível de se ignorar mesmo que a distância, devido ao seu tamanho, mas não tinha me dado conta de que era exatamente em sua direção que seguimos por todo aquele tempo.
– A torre panorâmica. – observei e Gabriel sorriu para mim.
– Chegamos ao nosso destino. – ele anunciou enquanto passávamos por um portão e adentrávamos o terreno da Oi.
– Por que me trouxe aqui? – questionei.
– Já veio aqui?
– Quando eu era criança com a escola, mas não me lembro de nada.
– Você pode esperar um minuto? – ele pediu e eu assenti. Gabriel entrou na recepção do local e se direcionou até o balcão de atendimento. Vi ele cumprimentar o segurança como se fossem amigos de longa data e conversar com a recepcionista. Achei tudo bem estranho. Não é possível que o Gabriel conhece até os funcionários da torre panorâmica.
Enquanto ele conversava com o pessoal, observei uma placa que indicava as regras e horário de funcionamento do local: "Terça a Domingo das 10h às 19h. Venda de ingressos até as 18h30." Gabriel me chamou e fui até ele, tanto a recepcionista quanto o segurança sorriram simpaticamente para mim e eu retribui o sorriso. Me puxando pela mão, Gabriel me levou até um elevador pequeno e estreito, onde uma mulher sentada em um banquinho interrompeu sua leitura de "O Morro dos Ventos Uivantes" de Emily Bronte, para nos receber e subirmos.
Foi muito rápido para subir e quando as portas do elevador se abriram estávamos em uma vista de 360º de Curitiba. Chegamos ali bem a tempo de ver o pôr do sol. O céu já havia adquirido os tão lindos tons alaranjados. Me aproximei do vidro extremamente encantada com a vista.
– Sabia que estamos a 109,5 metros de altura, o que equivale a um edifício de 40 andares? – disse Gabriel parando ao meu lado. Observei um dos painéis ilustrativos a minha frente, através deles é possível visualizar toda a cidade através dos quatro pontos cardeais.
Comecei a andar por toda a extensão circular ao redor do painel de Poty Lazzarotto que conta o processo de crescimento da cidade e tive a vaga lembrança de uma das minhas professoras do Ensino Fundamental explicá-lo a minha turma. Parei alguns segundos para observar um mapa de Curitiba desenhado no chão e procurei pelo meu bairro e então, olhei de volta para a vista pensando que minha casa, era apenas um pontinho perdido no meio de todas aquelas construções.
Procurei por Gabriel e ele me observava com um sorriso no rosto, encostado em uma das grades do vidro. Foi quando percebi que só havíamos nós dois ali.
– Por que a torre está vazia? – perguntei desconfiada, me lembrando de ter visto que o funcionamento é até as 19h.
– Porque ela está fechada para nós. – respondeu Gabriel.
– Fechada para nós? Isso é sério?
– Eles só vendem ingressos até 18h30 e evacuam o local as 19h, mas hoje encerraram tudo as 18h. – explicou.
Eu tinha um milhão de perguntas na cabeça, porque não estava acreditando naquilo. Como Gabriel havia conseguido convencer a fecharem a torre mais cedo só para nós?
– Eu vim aqui durante quase uma semana inteira só pra fazer amizade com os funcionários e disse para eles que te pediria em namoro aqui em cima. – esclareceu Gabriel parecendo ter lido meus pensamentos.
Eu sabia que aquilo não aconteceria, mas mesmo assim meu coração saltou dentro do peito, principalmente pela forma com que ele disse aquilo sem desviar os olhos do meu. Tudo que consegui responder foi:
– Você é ridículo.
Não soube porque disse isso, mas foi quase que como um mecanismo de autodefesa. Eu me senti nervosa e extremamente ridícula por desejar internamente que aquilo pudesse ser verdade.
– Sabe da onde surgiu essa ideia? – perguntou Gabriel se aproximando. O céu agora estava rosa e as luzes da cidade começavam a se acender. Consegui avistar o Parque Barigui ao longe, de onde havíamos vindo andando. Também se tornara minúsculo visto de cima e seu lago era o único motivo pelo qual se destacava no meio de tudo.
– Não faço ideia.
– Eu fiquei curioso quanto aquele livro que você gosta tanto, o tal "Cidades de Papel" e não sei por que diabos resolvi ler, porque é absolutamente uma merda. Falo sério. Que merda! – disse Gabriel e eu dei uma risada anasalada. – Eu fiquei por horas me perguntando como algo daquele tipo poderia ficar tão famoso, mas tudo bem, vida que segue. E aí tem uma parte em que a mina do nome engraçado...
– Margo Roth Spiegelman. – o interrompi.
– Tanto faz. Então, a Margo leva o carinha principal...
– Quentim.
– Tanto faz. A Margo leva o Quentim ao topo do prédio do SunTrust e lá ela faz a metáfora que justifica o nome do livro.
– "É uma cidade de papel". – disse em voz alta me lembrando exatamente dessa parte, os trechos que sei de cor por terem me marcado tanto. Me aproximei do vidro sentindo um misto de emoções. – "Todas aquelas pessoas de papel vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas. Todas as crianças de papel bebendo a cerveja que algum vagabundo comprou para elas na loja de papel da esquina. Todos idiotizados com a obsessão por possuir coisas. Todas as coisas finas e frágeis como papel. E todas as pessoas também."
Suspirei fundo.
– "Uma cidade de papel para uma menina de papel".
– É... Quando li aquilo, me lembrei desse lugar e imaginei que você fosse gostar de vir aqui. Sei lá. – justificou Gabriel.
Sorri com aquilo. Sorri com a ideia de Gabriel lendo um livro por minha causa, de ter se lembrado de mim e de ter feito tanto esforço para que eu vivesse algo que ele achava que talvez eu pudesse gostar.
– Não é uma merda quando você se identifica. – justifiquei o fato de eu gostar tanto desse livro. Caminhei rumo a um banco e me sentei nele. – É essa a grande questão. Não é apenas um romance bobo. Eu compreendo a mensagem que o John Green passa e dói como um tapa na cara. A Margo quer se desprender das amarras que são colocadas em nós pela sociedade a medida que vamos crescendo, somos privados de nossas próprias escolhas e ela tem a coragem de jogar tudo para o alto e ser considerada louca, para conseguir a liberdade que ela precisa pra se sentir bem, feliz e sentir que está vivendo de verdade sua própria vida.
"Eu a admiro muito e compartilho de seus ideais, mas jamais teria sua coragem. No fundo, sei que sou completamente Quentim, alguém que planeja toda sua vida. Eu não concordo com toda essa ideia de escola, faculdade, trabalho, aposentadoria e morte, mas eu sou a garota dos planos, objetivos e sonhos..."
– A lista de sonhos. – lembrou Gabriel se sentando ao meu lado.
– É. E não dá pra ignorar isso. Eu não vou conseguir ser alguém sem seguir esses tópicos. Não vou conseguir nada. Não é como se liberdade não fosse o principal tópico da minha lista, a liberdade apenas não existe. Ela é o único sonho inalcançável.
– O que é liberdade pra você? – indagou Gabriel.
– Não sei, sair por aí sem destino, viajando e...
– Isso é ser rico, Isabelle. Não é ser livre.
– É poder não ser obrigado a trabalhar.
– Você não é obrigado! – ele contestou.
– Mas eu preciso!
– Precisa pra que? Pra viver uma vidinha perfeita? Percebe que pra todos liberdade é existir alguma forma de viver a vida perfeita sem precisar fazer absolutamente nada? Isso não é liberdade! Isso é preguiça! Liberdade é espírito. É você trabalhar porque gosta e não porque se sente preso e forçado a isso. Liberdade existe, nós é que não sabemos o que nos faz livres. Na verdade, nós não fazemos a mínima ideia do que estamos fazendo com as nossas vidas. Ninguém sabe.
Ele estava certo. Suspirei e coloquei minha pernas por cima das suas, apoiando minha cabeça em seu ombro. Queria saber o que me faz livre. Queria saber o que me tiraria essa sensação de que não sou dona da minha própria vida e que ninguém é, de que a única forma de sentir que estou vivendo e de que estou sendo eu é tendo uma lista de sonhos, que no final quando realizados, me levam de volta a indesejada realidade.
– Obrigada por ter me trago aqui. – agradeci entrelaçando nossas mãos. Ele beijou a lateral da minha cabeça e voltamos a apreciar a vista em silêncio, vendo o dia se transformar em noite e as esperanças serem deixadas para o amanhã.
***
Aquele fim de semana eu levei ela pra uma festa comigo. Só nos dois. Era uma festa de república de algum curso da faculdade do meu irmão. Ele era a única pessoa lá que nos conhecia. Não havia nenhum de nossos amigos, não havia ninguém do colégio, não havia nenhum conhecido. Foi como se a gente tivesse saído de Curitiba e talvez seja por isso que eu me diverti tanto. Sério, eu me diverti real. Foi a primeira vez que saí com Isabelle sem entrar na paranoia de ficar medindo cada coisa que eu faria, quem estava no lugar, onde estávamos e o que estávamos fazendo. Não tinha joguinho, dessa vez não.
Talvez seja por isso que aquela foi a primeira vez no ano que eu fiquei bêbado de verdade. Um bêbado feliz, no caso. Porque na última vez fui carregado pra casa pelo Gustavo e pela própria Isabelle. Acordei com uma tonelada de culpa e arrependimento nas costas, além da maior ressaca moral de todas.
Por isso não sei em que momento da noite resolvi que seria uma boa ideia levá-la pra minha casa, mas quando percebi já estavamos descendo do taxi na porta do meu condomínio.
– Olha só, eu aposto que consigo. – disse Isabelle com os braços abertos, tentando andar em linha reta sobre as faixas do asfalto no meio da rua.
É claro que ela não conseguia, mas eu me diverti observando-a tentar até que chegamos na porta da minha casa. Isabelle se jogou no gramado da entrada e eu fiz o mesmo. É, acho que estamos mesmo bêbados.
– O céu ta limpo hoje, ta bonito. – ela observou. – Acho que não existe nada nessa vida que me faça refletir mais que o céu. Talvez seja por isso que tenho tanta paixão por ele.
– Existem mais reflexões que eu não saiba? – perguntei.
Ela ficou em silêncio, pensativa e de repente começou a explicar.
– Sabe que quando olhamos para as estrelas, na verdade estamos vendo o passado delas? As vezes elas podem nem mesmo mais existir e ter se transformado em outro corpo celeste. Porque o que enxergamos não é a estrela e sim a luz que ela emitiu para o espaço. E mesmo a luz viajando pelo espaço por cerca de 300 mil quilômetros por segundo, a distância entre os corpos celestes é tão grande que ela pode levar anos até chegar a nós.
"Suponhamos que uma determinada estrela esteja há mais de 4 anos-luz de distância de nós, isso significa que ela está a trilhões de quilômetros da Terra e que sua luz demora mais de 4 anos para chegar até nós. Então quando a enxergamos, estamos vendo a luz que ela emitiu há mais de 4 anos atrás e quando ela deixar de existir, ela só se apagará para nós daqui mais de 4 anos. Só então perceberíamos que ela deixou de existir. Isso não é fantástico?"
Quase sempre fico impressionado com as coisas que se passam pela cabeça da Isabelle. É como se ela enxergasse um universo que ninguém mais é capaz. Como se ela enxergasse seu próprio universo e tudo nele fosse muito mais bonito do que na realidade realmente é. Ou seja apenas ela mesmo que o deixa mais bonito.
– Se parece muito com a vida, né? – prosseguiu Isabelle com suas divagações. – Vivemos vendo coisas onde não existem. Acreditando que há amor onde nunca existiu. Depositando esperanças onde não existem saídas.
De repente ela tocou num ponto que tem me tirado o sono por muitas noites.
– Me senti assim por muito tempo ainda acreditando em nós dois, mas então eu parei pra pensar em outra coisa. – ela confessou olhando para mim. – O Sol também é uma estrela e todas as estrelas nascem, evoluem e morrem. Isso acontecerá algum dia até mesmo com o Sol e tudo terá seu fim. A vida, o universo, nós. É estranho e assustador pensar nisso, mas me fez parar de temer as consequencias do universo. É me lembrar que tudo tem um fim que me faz querer viver o momento até esse fim chegar. E então eu também parei de temer as consequencias de sentir tudo que sinto por você, porque eu não sei como isso vai acabar, mas eu não me arrependo do agora.
Eu não queria que ela prosseguisse, mas ela não parou. Ela não parecia querer parar. De repente ela parecia disposta a dizer tudo que estava entalado na própria garganta e eu sabia que ia me doer ouvir.
– Um dia, ainda no começo de tudo, você chegou na minha casa bêbado de madrugada, após eu ter decidido pela primeira vez que era melhor ignorá-lo e sair dessa cilada. Parecia confuso por achar que eu não te queria, mesmo que na verdade eu queresse muito, e chegou a deduzir que fosse porque eu sentia algo pelo Arthur. – lembrou Isabelle. Eu me lembrava dessa noite, foi quando descobri seu diário. – Então você me perguntou "tu era apaixonada por ele?" e eu respondi em dúvida que achava que sim. Já você afirmou com convicção que se eu achava, então não era, como quem explicava que essa é uma coisa que cada parte do nosso corpo sabe.
"Hoje eu sei que você estava errado. E certo também. Porque eu fui sim apaixonada pelo Arthur, mas descobri isso quando senti algo muito maior por outra pessoa, que não chegava a ser metade da paixãozinha que senti por ele. Foi quando eu descobri um sentimento muito maior e cada parte de mim realmente soube."
Ela finalmente se calou e eu não fazia ideia do que dizer. Eu sabia que ela estava se referindo a mim. E é justamente por não saber o que dizer que me mantive calado. Olhei para o céu e não pude deixar de pensar que algumas pessoas também são estrelas. Não são aquilo que pensamos ser.
– Vem, vamos entrar. – chamei me levantando querendo fugir de todo aquele momento antes que eu enlouquecesse. Já estou enlouquecendo aos poucos.
– Eu to bem aqui. – reclamou Isabelle.
– Ah é?
Ela assentiu como quem não se levantaria mesmo e eu me abaixei, a peguei e joguei sobre meu ombro. Foi difícil carregá-la casa adentro, principalmente porque ela não parava de rir e eu não sabia se ria junto ou se me preocupava com acabarmos acordando alguém.
Assim que entramos no meu quarto tranquei a porta, a coloquei sobre a cama e a beijei. Eu não tinha a intenção de acabarmos transando, porque conseguia me lembrar perfeitamente da promessa que fiz a Alice sobre não levar qualquer garota pra casa principalmente pra isso, mas é claro que não consegui parar. Mas esse não é o grande problema de tudo. Sei que no fundo Alice não se importaria com isso, mas ela não se orgulharia nem um pouco do cara que tenho sido. Principalmente com Isabelle.
Enquanto sentia o desejo em seu beijo e seu perfume misturado ao cheiro de álcool. Enquanto sentia suas mãos entrelaçarem meus cabelos e seguir o formato de minha cabeça, até que suas unhas descessem por minha nuca me causando arrepios involuntários. Enquanto sentia seu corpo encaixado ao meu me excitando cada vez mais e deslizava minhas mãos por sua perna nua, que deveria estar tampada pelo vestido que agora estava levantado demais para isso. Pensei que sabia exatamente o que Alice me diria se soubesse o que estou fazendo:
"Espero que remorso tenha a fragrância do perfume dela"
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