Poltrona 19

12 Melhores amigos bem mais que amigos para sempre


Notas iniciais
Oi pessoal! Estão aproveitando a black friday? Estou felicíssima porque comprei vários livros! E estou aproveitando essa felicidade toda para postar um capítulo novo pra vocês. Espero que gostem!

– A princesa ta precisando de ajuda? – indagou Gabriel sem sorrir.

Não respondi, apenas levantei as mãos em direção à ele, para que ele as segurasse e me levantasse, o que ele fez. Assim que me levantou, me segurou pela cintura com apenas uma mão e manteve uma expressão séria me olhando. Eu não soube decifrar se ele estava bravo comigo ou qualquer coisa do tipo, porque só conseguia pensar que ele é o cara mais lindo que já vi na minha vida.

Me arrependi instantaneamente por ter sentido vontade de beijar Pedro. Quem é Pedro perto do Gabriel mesmo? Aliás, se eu tenho uma quedinha por ele, eu tenho uma queda do tamanho de um abismo por Gabriel.

– Onde você tava? – perguntei.

– Com meus amigos, já que você estava com os seus. – explicou Gabriel mantendo o olhar firme no meu e ainda com a expressão séria. Eu estava me controlando pra caralho para não agarrá-lo.

– Por que você é tão lindo? – perguntei quase suspirando. Dessa vez surgiu um sorriso disfarçado no canto de sua boca. Era Gabriel, apenas sendo Gabriel, sorrindo ao reafirmarem o que ele já sabe. – Me tira daqui. – pedi.

Gabriel me virou de costas para ele e abraçou minha cintura, olhei para o chão e Pedro não estava mais ali. Com a ajuda de Gabriel começamos a caminhar rumo a algum lugar que eu sinceramente não estava afim de saber qual seria, desde que eu estivesse com ele.

– Seria muito deselegante tirar os sapatos? – perguntei após algum tempo andando. Não estava mais aguentando ser obrigada a me equilibrar em cima daquele salto quinze.

Gabriel parou de andar, fazendo com que eu também parasse e se abaixou, retirando meus dois sapatos enquanto eu me segurava nele para não cair.

– Melhor? – indagou e eu afirmei com a cabeça. – Belas pernas. – elogiou se levantando com meus sapatos em mãos.

– Belo... – comecei a dizer e o sequei descaradamente. – Tudo. – elogiei e ele riu.

– Devo dizer que adoro você bêbada. Faz bem pro meu ego.

– E você não faz bem pra minha sanidade mental. – confessei o fazendo rir.

Ele se aproximou de mim e utilizando suas mãos, me levantou pela cintura e colocou meus pés sobre os dele, de forma que continuou andando e me carregando. Achei aquilo extremamente engraçado e ria cada vez que ele dava um passo. Ele ria provavelmente do quanto sou idiota.

Me foquei na expressão que seu rosto formava sempre que ele ria, no som de sua risada que me obrigava a sorrir mesmo que eu não quisesse e acabei parando de rir. De repente estava apenas sorrindo e o observando.

– Gabriel... – disse sussurrando em seu ouvido.

– Que? – perguntou Gabriel.

– Por que você é assim? – perguntei fechando meus olhos e escondendo meu rosto em seu pescoço. Ele continuava a andar lentamente comigo em pé sobre seus pés.

– Assim como?

– Tão sexy e atraente. – respondi.

– Eu sou? – ele perguntou com a voz rouca próxima ao meu ouvido enquanto tirou sua mão direita de minha cintura e a desceu para minha perna, alisando a parte de trás da mesma.

– E vagabundo. – afirmei. – Mas eu definitivamente quero você na minha cama hoje. – disse e ouvi sua risada rouca. Se eu queria antes, agora quero ainda mais.

– Quer? – ele perguntou.

– Muito. – respondi em seu ouvido.

Percebi que paramos de andar e abri os olhos, estávamos na calçada da casa de Pedro. Gabriel estava encostado ao muro e eu desci de seus pés, no mesmo instante ele abaixou e colocou com cuidado meus sapatos no chão, próximos de nós. Ele colocou a mão em minha panturrilha e se levantou subindo a mão por minha perna, até parar em minha coxa.

– Seríssimo, belas pernas. – disse me puxando para si. – Não só pernas, na verdade. – afirmou com a boca colada em minha orelha.

– Já podemos ir pra minha cama? – perguntei abraçando seu pescoço.

– Cuidado com o que pede, Isabelle. Eu sinceramente não to afim de ficar me controlando ou medindo consequências. – respondeu Gabriel.

– Não se controla. – pedi quase em desespero, aproximando minha boca da dele.

– Você está bêbada.

– E com tesão. – afirmei e o beijei com intensidade.

Levei minha mão esquerda até seu cabelo e entrelacei meus dedos no mesmo. Gabriel permaneceu com uma de suas mãos em minha coxa e a outra direcionou à minha cintura, onde não permaneceu por muito tempo, pois ele a desceu para minha bunda e a apertou por cima do tecido de meu vestido, enquanto minha mão direita arranhava seu braço.

Ouvi alguém pigarrear perto de nós e me separei de Gabriel. Olhei para o lado e avistei Arthur nos encarando extremamente bravo.

– Tu sabe que isso é quase estupro, né? Ela não tem consciência nenhuma de seus atos. – disse Arthur.

– Primeiro: Não estamos fazendo nada demais, se o virjão acha que sim, posso fazer nada. Depois, eu tenho certeza de que ela tem idade o suficiente pra saber o que quer e o que não quer. E tu sabe que não tem nada a ver com a nossa vida, né? – rebateu Gabriel.

– Eu to de boa, Arthur. – afirmei.

– Agora vaza daqui. – ordenou Gabriel e eu olhei brava para ele.

– Olha o jeito que tu fala comigo, idiota. – ameaçou Arthur.

– Eu falo do jeito que eu quiser. – respondeu Gabriel.

– Dá pra pararem? – pedi. – Parecem duas crianças, puta que pariu. E eu to bem, Arthur, então pode mesmo ir embora.

– Eu preciso falar com você, Isabelle e só saio daqui contigo. – afirmou Arthur e Gabriel deu uma risada irônica.

Eu me afastei de Gabriel e respirei fundo para manter a paciência com os dois.

– Tem que ser agora? – perguntei ao Arthur.

– Mesmo que não tivesse, aqui tu não vai ficar. – ele respondeu.

– Por que tu não nos deixa em paz e vai arrastar a bunda atrás da Bianca? – indagou Gabriel. – Ah é, porque ela te trocou. De novo.

Assim que Gabriel terminou a frase, Arthur explodiu e avançou na direção dele. Em um instante ele estava parado, no outro acertando um soco na cara de Gabriel, que revidou na mesma hora.

– Parem com isso, porra. – ordenei ao mesmo tempo em que Arthur tentava acertar outro murro em Gabriel, que se esquivou e no momento seguinte tentou acertá-lo.

Aquilo com certeza não seria uma boa ideia, mas não tinha ninguém ali perto que pudesse me ajudar a separar a briga, então no momento em que Arthur recuou para trás, para se esquivar do soco de Gabriel, me enfiei no meio dos dois, sendo por pouco, eu não acertada por Gabriel.

– Tu ficou louca, Isabelle? – gritou Gabriel com o braço parado no ar e o punho fechado.

Gabriel estava me olhando furioso e Arthur atrás de mim. Segurei o punho de Gabriel e o baixei ao mesmo tempo em que empurrei Arthur para trás, os deixando o mais longe possível. Gabriel estava com o lábio sangrando e ao olhar para trás vi que Arthur estava com um corte na sobrancelha.

– Pra que isso? Pra que agirem feito dois idiotas? – gritei extremamente com raiva. – Se existe alguma droga de problema entre vocês, se espanquem longe de mim e me deixem fora disso.

– O único idiota aqui é esse ai. – disse Gabriel apontando para Arthur.

– Cala a boca, Gabriel. – ordenei. – Por que você fica provocando? Que inferno! Cade a porra da tua maturidade?

– Não existe. – respondeu Arthur.

– Cala a boca você também, Arthur. – ordenei me virando para ele. – E para de tentar ficar controlando a minha vida, porque a porra da vida é minha e eu faço o que bem entender dela.

– Foi mal, Isabelle. Mas eu realmente preciso falar com você.

– Acredito que não tenha necessidade de ser agora.

– Eu faço questão que seja agora. – afirmou Arthur.

– Você não vai conversar com ele. – disse Gabriel me puxando para si.

– É do seu interesse. – reforçou Arthur – É sobre esse idiota ai.

– Você quer mesmo que eu quebre a sua cara, né? – ameaçou Gabriel e eu o repreendi com o olhar.

– Por favor. – implorou Arthur, ignorando Gabriel e me lançando um olhar suplicante.

– Tudo bem – concordei.

– O que? – Gabriel indagou incrédulo.

– Me espera perto do portão, só que do lado de dentro. Eu já vou entrar, Arthur. – ordenei e Arthur sorriu vitorioso para Gabriel, então se retirou.

Olhei para Gabriel e ele estava prestes a explodir de raiva.

– Se tu sair daqui, eu vou quebrar todos os ossos dele. – disse Gabriel olhando para um ponto fixo ao longe. Puxei a gola de sua camiseta para cima e limpei o sangue em seu lábio.

– Quem não deve, não teme. – respondi ainda analisando seu lábio preocupada.

– É, mas eu devo muito. – confessou e eu arqueei a sobrancelha direcionando meu olhar para seus olhos. – Não tem nada a ver contigo, mas ele vai falar merda até te colocar contra mim.

– Se não tem nada a ver comigo, então não tem porque eu ficar contra você.

– Por favor, Isa. – ele pediu agora olhando para mim.

– Eu quero saber o que ele tem pra falar. – confessei.

Gabriel bufou e voltou a olhar para outro lugar qualquer, mas eu segurei seu rosto e o virei para mim.

– Coloca um gelo nesse machucado. – pedi e o dei um selinho. Me afastei de Gabriel e sai dali em direção ao Arthur. Percebi que ainda estava bêbada ao começar a andar.

Sabia que Gabriel estaria revoltado, estressado e bravo comigo, mas eu realmente queria descobrir o que Arthur queria falar comigo. Principalmente por ele ter dito que era sobre Gabriel.

Assim que atravessei o portão, avistei Arthur sentado sobre uma mesa de pedra ali perto. Me aproximei e parei em sua frente com os braços cruzados, esperando que ele começasse a dizer.

– Pra falar a verdade, eu nem pretendia falar nada contigo. Tava só te procurando quando apareci lá fora e te vi com o Gabriel e como ele faz questão de fazer com que meu ódio por ele só aumente, eu resolvi falar.

– Então fala logo, Arthur.

Ele suspirou e me olhou.

– Você gosta desse cara? – perguntou.

– A questão aqui não é essa, você disse que queria falar comigo, então vai falar ou não?

– Lembra que me mudei para a sala de Bianca no segundo ano? – perguntou Arthur e eu afirmei com a cabeça. – Ela era da sala do Gabriel. Nós estávamos juntos e ela ficou amiga dele, mas eu não liguei, porque nunca tive ciúme dela com seus amigos. Até que ela terminou comigo. Então, depois de um tempo descobri que eles estavam ficando e ela me jurou que começaram a ficar só depois que terminamos, porém, que ela terminou justamente porque tava gostando dele e isso já me fez ficar com raiva o suficiente.

– Eu entendo, mas não acho que isso seja o suficiente para odiá-lo tanto.– afirmei.

– A história não acabou, Isabelle. – explicou Arthur e prosseguiu. – Um dia estava numa festa e vi Gabriel pegando outra menina, sendo que tecnicamente ele estava com Bianca, ai conversei com a menina que estava bêbada e consegui fazê-la confessar que já estava com ele há um tempo. Resumindo: Gabriel estava fazendo Bianca e a garota de trouxa, ficando com as duas ao mesmo tempo. Eu contei isso pra Bianca e quando ela foi tirar satisfação com ele, Gabriel alegou que eu estava inventando tudo porque ainda gostava dela e estava com raiva dele. Não sei como, mas ele conseguiu convencê-la disso e Bianca não queria nem olhar mais pra minha cara.

– Sinto muito, Arthur.

– Eu consegui fazê-la ver Gabriel com a outra garota e ai tudo voltou ao normal. Quer dizer, quase tudo. Bianca terminou o que tinha com Gabriel, voltamos a conversar e até a ficar, mas ela nunca mais foi a mesma comigo. A gente voltou e separou diversas vezes depois disso, porque ela sempre achava um problema em mim ou em nossa relação.

– Essa garota não te merece. – afirmei.

– A questão é que o odeio por ter tirado Bianca de mim, o odeio por ele ter magoado ela e o odeio porque mesmo depois de tudo que ele fez, Isabelle, ela sempre coloca um problema em nossa relação porque ainda gosta dele.

Quando ele terminou eu não sabia o que dizer. Agora eu compreendia o motivo de Arthur odiar tanto Gabriel e mesmo que aquilo não tivesse nada a ver comigo, como Gabriel garantiu, eu também me senti com raiva dele.

– E o fato dele estar com você, só fez esse ódio aumentar. Se ele te magoar como magoou Bianca, eu juro que espanco ele.

– Eu entendo tudo isso e confesso que fiquei com raiva do Gabriel. Mas ele ter feito isso com Bianca, não significa que também vai fazer comigo. Eu fico feliz que se preocupe comigo, mas deixa que eu cuido disso, ta bom?

– Você lembra de como nos conhecemos? – perguntou Arthur ignorando totalmente o que eu havia dito.

– Eu estava sozinha na Educação Física, então você apareceu e disse "Você quer jogar futebol?"e eu pensei que você tinha alguma deficiência mental. – disse e ele riu. – Então quando eu admiti não saber jogar futebol, você disse "Quer jogar vôlei?" e eu respondi que não gostava de esportes, ai você perguntou: "Quer ir ao cinema?"

– E você se lembra do que respondeu?

– "Me dê um bom motivo que não seja pipoca, coca-cola e o ingresso que você vai pagar." – respondi.

– Exato, mas eu não consegui pensar em um bom motivo.

– Você me encarou e disse: "Eu acho que gastaria toda minha mesada comprando pipoca, cola-cola e ingressos pra você, só pra te roubar um beijo". – disse e involuntariamente sorri ao me lembrar daquilo.

– Você "aceitou", mas disse que não ia ao cinema com estranhos. Então nos tornamos amigos, aliás, melhores amigos e um dia você me chamou pra ir ao cinema.

– Não, não chamei. Eu apenas disse: "Ei, ta afim de me pagar pipoca, coca-cola e uma poltrona confortável para sentar por mais ou menos duas horas?". – disse e nós dois rimos.

– E eu roubei o beijo. – disse me olhando. – Foi uma das melhores decisões que já tomei. – afirmou Arthur, me fazendo sorrir. – Diferente da sua decisão de ficar com Gabriel.

No momento em que ele disse aquilo, o sorriso que estava no meu rosto desapareceu.

– Aliás, suas amigas sabem disso? A Leticia sabe disso?

– Não. – respondi.

– Tenho certeza que vão concordar comigo.

– Ninguém pode saber, Arthur. Você não pode contar, por favor.

– Por que não? Foi ele que te pediu isso? – indagou se levantando da mesa em que estava sentado e ficando em pé de frente para mim.

– Eu só te peço que não conte pra ninguém, por favor. – implorei.

Arthur suspirou e ficou calado. Ele me encarava e pude ver preocupação em seu olhar, em seus olhos verdes que eram os meus preferidos. Eu sempre me perdia em seu olhar e naquele momento, olhando para os meus olhos verdes, de alguma forma soube que ele faria qualquer coisa que eu pedisse.

Ficamos em silêncio por longos e constrangedores minutos. Era óbvio que nós dois queríamos a mesma coisa, mas nenhum se atrevia a fazer algo. Depois de tudo pelo que passamos, eu sabia que Arthur não teria coragem de tomar uma atitude e eu tenho orgulho demais para isso.

Dizer "depois de tudo pelo que passamos" deixa tudo muito mais dramático do que parece, mas a verdade é que tudo foi muito mais dramático do que parece. Eu gostava muito de Arthur e durante o tempo em que ficamos — que foi muito -, éramos grudados demais, principalmente pelo fato de que já éramos amigos antes. E ai quando tudo acabou nós nunca mais conversamos e ele ainda mudou de sala, afetando também, um pouco da amizade dele com os meninos. Amizade que já tinha sido afetada pelo que ele fez comigo, pois quando os meninos descobriram, isso gerou uma briga muito grande entre eles.

E de repente, depois de tanto tempo, Arthur aparece de novo na minha vida tentando me alertar sobre Gabriel. Ai nessa festa conversamos e nos divertimos como se nada houvesse acontecido, como se o passado pudesse ser enterrado, mas agora estava bem nítido que não podia. A verdade é que eu gostaria muito de que houvesse uma forma de fazer isso. Muito mais do que eu deveria.

– Queria não ter te deixado. – afirmou Arthur com a voz baixa.

Tive vontade de dizer que também queria que ele não houvesse feito isso, mas do que adiantaria dizer isso agora? Eu não deveria ser gentil com ele e ajudá-lo a se livrar desse remorso, ele não foi gentil comigo ao me magoar.

– Porque agora eu teria coragem de fazer o que quero. – completou.

– Deveria fazer. – incentivei. Foi nessa hora que percebi que cada parte de mim estava na esperança de que ele tomasse a atitude que eu não tomaria, porque isso não seria uma atitude sábia, mas se partisse dele, eu daria a mim mesma a desculpa esfarrapada de que o erro foi causado por ele.

Lentamente, Arthur deu o passo que faltava para que não houvesse mais distância nenhuma entre nós e com receio levou sua mão até minha cintura. Ele parecia ter medo de seguir em diante, por algum motivo que eu não conseguia entender, talvez achando que eu não entendera o que ele queria fazer, mas quando percebeu que eu não reagi, ele selou nossos lábios.

Assim que seus lábios encontraram os meus, involuntariamente levei uma de minhas mãos até seu rosto e começamos um beijo com um desejo, que até então eu não percebera que ainda existia. Tanto da minha parte, quanto da dele. Arthur me envolveu em seus braços, mantendo meu corpo colado ao seu, enquanto envolvi os meus em seu pescoço. Eu não conseguia pensar em mais nada além de como eu senti saudade de seu beijo.

Aquele talvez fora o beijo mais intenso que dera em alguém nos últimos tempos, e o mesmo foi interrompido minutos depois, pelo susto que levamos ao ouvir o som estridente de uma chave e um outro objeto se chocando contra a mesa de pedra ao nossos lado. Nos separamos depressa e olhamos na direção da mesa, então reconheci a chave da minha casa, meus sapatos e Gabriel de costas andando para longe.

Olhei de volta para Arthur que estava me observando. Sem dizer nada, peguei minhas coisas sobre a mesa e corri na direção de Gabriel. Eu deveria ter dito algo para Arthur antes de deixá-lo para trás, mas a verdade é que eu não sabia o que dizer, não sabia nem sequer o que fazer.

– Desculpa. – pedi, assim que me aproximei o suficiente de Gabriel para que ele pudesse me ouvir. Mas aparentemente o som da minha voz fez com que ele explodisse de raiva.

– Tu não pode me fazer de trouxa, garota. – gritou se virando para mim. O olhar que ele me lançou, fez com que automaticamente eu abaixasse a cabeça.

Gabriel voltou a andar na mesma direção em que estava seguindo e mantinha os punhos fechados. Eu me sentia culpada pela forma que ele estava e mesmo que tenha gritado comigo, por algum motivo, eu continuei a segui-lo. Essa sim não foi uma sábia decisão.

Depois de algum tempo andando, decidi que precisava tentar dizer algo, mas nada me vinha à mente.

– Desculpa. – pedi mais uma vez.

– As coisas não funcionam assim. – ele respondeu sem me olhar, com o tom de voz um pouco alterado, mas dessa vez sem gritar. Porém, a raiva ainda era notável em sua fala. – As coisas definitivamente não funcionam assim.

– E como funcionam, Gabriel? – perguntei.

– Funcionam da forma que eu quero. – ele respondeu parando e me olhando uma última vez.

No instante seguinte Gabriel beijou uma garota que estava em sua frente. Não era uma garota qualquer, ele havia andado entre toda aquela aglomeração de pessoas justamente para achá-la. E ele achou. Achou a pessoa perfeita para me provar que as coisas funcionam mesmo da forma que ele quer. Achou Amanda e a beijou, me deixando tão perplexa que não consegui desviar o olhar.

Pisquei devagar diversas vezes, enquanto digeria tudo aquilo. Olhei para o lado e avistei Leticia olhando para mim. Eu continuava paralisada no mesmo lugar, então ela se aproximou.

– O que foi isso? – indagou Leticia voltando a olhar para o casal ao nosso lado. Agora que eu havia conseguido desviar o olhar, não olharia de novo em hipótese alguma.

– Só vim avisar que to indo embora. – disse ignorando sua pergunta. – Já que você vai dormir na Amanda, se puder deixar minhas coisas que estão lá, na minha casa amanhã, eu ficaria agradecida.

– Deixo sim. – ela respondeu me analisando.

– Até mais. – despedi e sai andando.

Enquanto eu caminhava para fora daquela casa, tentava entender o que diabos aconteceu. Eram coisas demais passando pela minha cabeça, tantas coisas que eu caminhava depressa e olhando somente para o chão.

– Isa? – ouvi alguém me chamar. Olhei para o lado e avistei Arthur, que estava sentado sobre a mesa de pedra, no mesmo lugar em que nos beijamos a alguns minutos atrás.

Olhei para ele e respirei fundo, então mesmo depois de tudo, fiz algo que me pareceu sensato.

– Você pode me levar embora? – pedi. Eu disse para Leticia que iria pra casa, mas eu não tinha como ir embora. Me senti aliviada ao vê-lo balançar a cabeça positivamente.

– Vamos. – chamou se levantando.

Saímos da casa de Pedro e ele me guiou até um carro estacionado do outro lado da rua, onde entrei e me sentei no banco do passageiro. Arthur ligou o carro e começou a dirigir, então fechei meus olhos e encostei minha cabeça na janela.

– O que aconteceu? – ele perguntou em um tom baixo e preocupado.

Eu não pretendia responder, mas pensei que Arthur talvez fosse a única pessoa com quem eu poderia falar daquilo.

– Ele disse "você não pode me fazer de trouxa", "as coisas não funcionam assim" e "funcionam da forma que quero", então beijou Amanda. – respondi abrindo os olhos e observando o movimento na avenida do lado de fora do automóvel.

Arthur permaneceu em silêncio por um longo tempo e eu cheguei a achar que era ele quem não pretendia dizer nada, até que ele disse.

– É ele que faz as garotas de trouxa, não o contrário. Você deveria estar na mão dele e fez algo que mostrou que não. Você tirou ele do sério da pior forma possível e levando em consideração que tu abalou o ego dele, até acho que foi pouca coisa ele agarrar a Amanda. Porque esse é o Gabriel, Isabelle, apenas fazendo mais um de seus joguinhos, do qual você não pode tirá-lo do controle. Mas você vai se negar a acreditar em mim e eu também não to mais afim de me meter nisso, então to só tentando esclarecer as coisas pra você e se quiser mudar de assunto, fique a vontade.

Tudo que Arthur falou fez tanto sentido que me doeu mais do que vê-lo beijando Amanda. Eu não queria e nem conseguia acreditar que a intenção de Gabriel era me fazer de trouxa. Eu não conseguia imaginar ele fazendo isso comigo. Mas a forma com que ele agiu, tudo que ele disse, toda a história que Arthur me contou sobre ele hoje, tudo, absolutamente tudo, indicava que era exatamente o que ele estava fazendo.

– E de que forma ele está me fazendo de trouxa? – perguntei.

– Tu já foi pra cama com ele? – remendou Arthur com outra pergunta.

– Não. – respondi.

– É, então ele ainda não vai desistir. – afirmou Arthur. – O jogo dele é usar a garota enquanto faz ela se apaixonar, pra depois meter o pé na bunda. Ele só quer sexo e se diverte em ver mulher se jogando aos seus pés. A verdade é: Que cara não se diverte?

Aquilo calou a minha boca e senti uma lágrima solitária descer pelo meu rosto. Eu queria que fosse mentira, eu precisava que fosse mentira. Talvez dessa vez fosse diferente, talvez Gabriel gostasse de mim e eu fosse a exceção, como nesses livros idiotas de romance. Sempre existe a exceção. Talvez eu fosse a exceção de Gabriel. Eu tinha que ser, porque pensar no contrário, por algum motivo me abalou completamente.

O carro parou e percebi que havíamos chegado na minha casa. Quando Arthur desligou o carro e cessou o barulho do motor, o único som audível era nossas respirações. Olhei para a calçada e isso foi o suficiente para que eu derramasse todas as lágrimas que estava segurando. Involuntariamente comecei a chorar, pois havia me lembrado do dia em que eu e Gabriel vimos o sol nascer.

Eu não queria chorar na frente de Arthur e nem queria que ele se preocupasse em me consolar, como estava se preocupando. De relance o vi aproximar sua mão de mim e afastar, abrir a boca diversas vezes para dizer algo e depois desistir. Ele visivelmente não sabia o que fazer.

Limpei minhas lágrimas e engoli o choro, no mesmo instante senti Arthur me dar um beijo no ombro e me virei para ele sorrindo gentilmente.

– Eu amo você – ele sussurrou e lágrimas silenciosas voltaram a descer pelo meu rosto. Dessa vez, com um singelo sorriso as fazendo companhia. – Melhores amigos bem mais que amigos pra sempre, não lembra? – indagou e eu apenas afirmei com a cabeça, desistindo de parar de chorar, porque era uma missão impossível.

Arthur secou em vão as lágrimas que insistiam em cair de meus olhos.

– E não posso quebrar a tradição... – disse olhando nos meus olhos e aproximando seu rosto do meu, logo em seguida me dando um selinho que foi aprofundado para um beijo.

Quando eu e Arthur nos conhecemos, ele virou o meu melhor amigo e o meu preferido entre todos os meninos, obviamente porque no fundo eu gostava dele. E quando começamos a ficar, eu ainda me referia a ele como o meu melhor amigo, mas as pessoas sempre riam disso.

Um dia, eu revoltada disse à ele “As pessoas deviam entender que estarmos ficando ou não, não interfere no fato de que você é e sempre será meu melhor amigo” e então ele respondeu “Melhores amigos bem mais que amigos pra sempre” e me beijou. Aquilo foi uma promessa e o beijo após aquela frase, virou uma espécie de tradição entre a gente.

Era engraçado tudo aquilo estar acontecendo de novo, ao mesmo tempo em que era extremamente estranho. Interrompi o beijo, mas não me afastei dele.

– Obrigada por ter me trago em casa. Obrigada por tudo que fez por mim e obrigada por ser você, Arthur. – disse brincando com os fios de seu cabelo. – Eu também amo você. – balbuciei e o dei um último e longo selinho, sai do carro e entrei em casa.

Notas finais
Queria agradecer por não terem me abandonado até hoje. De verdade.