Poltrona 19

13 Incrível demais?


Notas iniciais
Olá pessoal! Me desculpem pela demora. Estão curtindo as férias? Espero que sim, porque eu ainda estou tendo aula e estou morrendo de inveja de vocês. Aqui está mais um capítulo para os melhores leitoras do mundo! Haha. Boa leitura, lindos!

Abri os olhos e a primeira resposta que recebi do meu corpo a cerca dessa ação, foi uma ânsia de vômito que me fez levantar abruptamente, derrubando tudo o que estava sobre a cama e correr rumo ao banheiro, onde abracei o vaso sanitário como se ele fosse meu melhor amigo. Eu odeio vomitar, mas foi o que fiz e depois me deitei sobre o azulejo branco do banheiro me sentido extremamente fraca. Talvez eu tenha bebido um pouco demais ontem. Só talvez.

Ao lembrar da noite anterior, mais uma vez me curvei sobre o vaso sanitário e vomitei. Quando me deitei novamente no chão, estava sentindo falta de ar pelo simples esforço que tive de fazer. Estava me sentindo tão fraca, que qualquer movimento que fazia me deixava ainda mais mal. Mas o pior com certeza era a dor de cabeça insuportável, a qual nem sequer me deixava raciocinar sem começar a doer ainda mais. Aliás, eu poderia facilmente acreditar que minha cabeça explodiria a qualquer momento.

Respirei fundo e tentei me sentar, assim que o fiz, tudo girou e encostei minha cabeça na parede. Quando me recuperei comecei a engatinhar lentamente até meu quarto. Não acreditei que estava engatinhando, mas eu sabia que não conseguiria ficar em pé e só aquele esforço já estava me fazendo tremer. Comecei a ficar preocupada com a minha situação.

Avistei meu celular caído sobre o chão e sorri quando finalmente o alcancei, me espalhando sobre o piso gelado e respirando fundo. Encarei a tela do aparelho em minha mão, tendo a certeza de que precisava pedir ajuda para qualquer pessoa que não fosse minha mãe. Mas quem?

A primeira pessoa em quem pensei foi minha irmã, mas mesmo que ela fosse uma de minhas melhores amigas, me daria a bronca do século por ter bebido tanto a ponto de ficar assim. Depois pensei em Leticia, mas ela ia dormir na casa de Amanda e depois de ontem, não estou afim de discutir o assunto Isabelle-Gabriel-Amanda. Cheguei a pensar em Arthur, mas ainda não havia processado tudo que aconteceu entre nós, portanto não queria o ver. Pensei nos meninos, mas voltamos a conversar ontem e não me sentiria bem os incomodando com isso.

Disquei o número da última pessoa para quem eu queria ou deveria ligar, mas que mesmo depois de tudo, era a pessoa para quem eu me sentia mais confortável ligando e talvez a única pessoa que saberia me dizer o que fazer, sem me mandar tomar no cu. Ou talvez, era exatamente o que ele faria ao atender o telefone.

– Alô – disse uma voz do outro lado da linha. Eu reconheci a voz, mas definitivamente não era a que eu esperava ouvir. Não respondi, não consegui. – Isa? – a pessoa chamou novamente e eu apenas fechei os olhos, enquanto desligava a ligação e senti uma lágrima solitária escorrer pelo canto do meu olho. Por que eu estou chorando?

Abri os olhos apenas para conferir se havia ligado para o número certo e sim, infelizmente eu havia ligado para Gabriel e quem atendeu foi Amanda. Tive vontade de arremessar meu celular contra a parede, mas quando estava prestes a fazer isso o telefone tocou. Vi o nome de Gabriel na tela, mas com certeza seria apenas Amanda retornando preocupada, então recusei a chamada.

Involuntariamente disquei o número de outra pessoa e me arrependi no instante em que chamou pela primeira vez, ele não tinha nada haver com tudo isso e com certeza não merecia ser incomodado a essa hora da manhã por alguém com ressaca. Mas não dava pra voltar atrás, uma vez que ele veria a chamada em seu telefone e retornaria. Chamou diversas vezes e ninguém atendeu, já estava até respirando aliviada, quando ouvi sua voz do outro lado da linha.

– Alô – atendeu com a voz sonolenta.

– Gustavo? – perguntei.

– Sim. Tudo bem, Isa?

– Na verdade não. Desculpa ligar a essa hora, mas juro que você era minha melhor opção no momento.

– Aconteceu alguma coisa? –indagou notavelmente preocupado.

– Eu bebi demais ontem, vomitei, minha cabeça ta doendo, to extremamente fraca e não consigo fazer movimento nenhum sem começar a tremer ou sentir falta de ar. Que que eu faço?

– Caralho, quer que eu vá praí?

– Não, juro que não precisa. Só não sei o que fazer pra melhorar. – respondi.

– Você precisa urgentemente comer, mesmo que seu estômago rejeite qualquer tipo de comida. Beber bastante água e se possível algum hidrotônico. E claro, tomar remédios.

– Obrigada, Guga. – agradeci. Guga? Da onde você tirou esse apelido, Isabelle? Ou essa intimidade para o apelidar com esse tipo de apelido escroto?

– Por nada, mas tem certeza que não quer que eu vá ai?

– Tenho sim, não quero dar trabalho. Obrigada mais uma vez. Até mais.

– Dê notícia mais tarde. – pediu. – Até.

Assim que desliguei o telefone, cheguei a conclusão óbvia de que sim, eu tinha que ter engolido a vergonha e pedido para Gustavo ir até minha casa. Onde eu ia arranjar comida, hidrotônico e remédio, se não conseguia nem sequer me mexer? Mas agora não ligaria para ele de novo, então liguei para a primeira pessoa que eu deveria ter ligado e que provavelmente já teria resolvido tudo isso. Disquei uma, duas, três vezes e ela não atendeu. Apenas na quarta tentativa foi que ouvi sua voz.

– São 8h da manhã, capeta. – disse Leticia assim que atendeu a ligação.

– Preciso urgentemente de ajuda.

– Que aconteceu?

– Preciso de comida, hidrotônico e qualquer tipo de remédio que funcione pra alguém que esteja tendo a pior ressaca da vida, antes que eu desmaie. – implorei.

– Onde você ta? – perguntou Leticia.

– Em casa. Eu não dou conta de levantar, minha mãe que vai ter de abrir a porta, mas não deixa ela chegar no meu quarto, por favor, ela não pode me ver na situação que to.

– Ta bom, já to indo.

Desliguei o telefone e o coloquei no chão ao meu lado, rezando para que Leticia não demorasse, eu tinha a impressão de que desmaiaria a qualquer momento. Eu não havia olhado as horas e me assustei ao ouvi-la dizer que ainda eram oito horas da manhã. Oito horas da manhã e eu já havia incomodado ela, Gustavo e descoberto que Gabriel e Amanda passaram a noite juntos. Muito bom!

Fechei os olhos e tentei ignorar qualquer dor que estava sentindo tanto fisicamente quanto psicologicamente. Meus pensamentos confusos faziam minha cabeça doer ainda mais, então a primeira coisa que fiz foi desligar a mente. Em seguida me foquei apenas no som de minha respiração. Inspirar e expirar. Acabei adormecendo novamente.

Acordei com alguém me chamando e avistei Leticia sentada ao meu lado na cama. Como eu parei na cama se estava deitada no chão?

– Que bom que está viva. – disse Leticia abrindo um sorriso.

– Ou não. – respondi voltando a sentir todos os sintomas da ressaca.

– Gabriel, me dá as coisas, por favor. – pediu Leticia.

Assim que eu ouvi aquele nome senti meu coração acelerar. Ele não podia estar ali. Não poderia ter sido ele a me colocar na cama. Ele não podia estar ali me ajudando depois de ter fodido com meu emocional. Me levantei rápido demais para verificar se era mesmo Gabriel e me arrependi no momento em que me senti zonza e cai de volta para trás.

– Opa, calma ai. – alertou Leticia.

Gabriel apareceu ao seu lado, entrando em meu campo de visão. Estava com o cabelo molhado, vestindo as mesmas roupas de ontem e segurando algumas sacolas nas mãos enquanto me olhava sério.

– O que ele ta fazendo aqui? – perguntei à Leticia. – Vou vomitar se tiver de encarar sua cara por mais um minuto.

– Foi ele que me trouxe até aqui e foi ele que comprou todas as coisas que você pediu, então se fosse você, seria um pouquinho mais educada. – disse Leticia, me ajudando a sentar na cama.

– Faz todo sentido, já que ele também dormiu na casa da Amanda. – respondi. – A propósito, ela é mesmo boa de cama como dizem por ai? – perguntei olhando diretamente para Gabriel e sorrindo irônica.

– O que ta acontecendo aqui? – indagou Leticia.

Gabriel estava me encarando, mas não abriu a boca para dizer nada, continuava com sua expressão séria. Ah que vontade de deformar aquele rostinho perfeito.

– Nada. – respondi. – Mas te convido a se retirar da minha casa, Gabriel.

– Te convido a calar a porra da boca, Isabelle. – rebateu Gabriel.

Eu pretendia rebater, mas não seria legal começar uma discussão na frente de Leticia, que já estava nos olhando completamente intrigada. Gabriel tirou duas cartelas de remédio de dentro das sacolas que estava segurando, juntamente com um hidrotônico e entregou para Leticia, que me obrigou a tomar os remédios, alegando ser um para a cabeça e o outro para o estômago.

Quando tomei o hidrotônico me senti um pouco melhor, mas quando Leticia tirou um pão de dentro de uma das sacolas e o cheiro invadiu minhas narinas, senti náuseas.

– Respira fundo. – pediu Gabriel vindo em minha direção. Ele me pegou no colo e eu estava me sentindo mal demais para protestar.

Gabriel me levou até o banheiro e Leticia veio logo atrás. Ele me colocou sentada em frente ao vaso e se agachou ao meu lado, logo em seguida pegando o pão com Leticia que permaneceu em pé.

– O banheiro não é o lugar mais higiênico do mundo para comer, mas você vai vomitar assim que engolir qualquer coisa. Então vai ter de fazer isso aqui. – explicou me entregando o pão. – Leticia, você poderia buscar uma xícara de leite pra ela?

– Não gosto de leite puro. – avisei.

– Um leite com achocolatado saindo. – anunciou Leticia se retirando do banheiro.

Gabriel me entregou o pão e indicou que eu deveria comê-lo. Segurei o pão com minhas duas mãos e o encarei. Senti a mão de Gabriel tocar meus cabelos e percebi que ele estava fazendo um rabo de cavalo para segurá-los enquanto eu vomitaria. Não sei como ele sabia que eu vomitaria, mas a cada vez que eu inspirava o cheiro daquele alimento, eu tinha certeza de que ele estava certo.

Respirei fundo, mordi o pão, engoli e o joguei no chão me curvando sobre o vaso e vomitando. Gabriel sussurrava coisas como "você vai ficar bem" enquanto segurava meu cabelo. Senti vontade de chorar por ele estar assistindo aquela humilhação.

– Vai embora, por favor. – pedi. – Estou morrendo de vergonha.

– Não tem motivo pra sentir vergonha de mim. – assegurou, me ajudando a levantar e ir até a pia do banheiro, onde enxaguei minha boca.

Me olhei no espelho e avistei um zumbi, estava literalmente parecendo um figurante de filme de terror, com o cabelo todo bagunçado e a maquiagem borrada. O vestido que peguei emprestado de Amanda estava destruído. Gabriel deu um beijo em meu ombro e me lembrei de Arthur fazendo exatamente a mesma coisa na noite anterior, então comecei a chorar.

Gabriel permaneceu em pé me segurando em seus braços enquanto eu chorava em silêncio. Eu não sabia se estava com raiva de mim, dele ou de Arthur, mas não conseguia segurar o choro. Senti Gabriel me virando para ele e abraçando minha cintura, então afundei meu rosto em sua camisa e parei de tentar segurar as lágrimas.

– Nós temos que conversar, mas não agora. – afirmou. – Agora você precisa realmente comer e sem vomitar.

Assenti e deixei que ele me levasse de volta para o quarto, me colocando sentada sobre a cama. Leticia apareceu logo em seguida com a xícara de leite e eles me obrigaram a comer outro pão e beber tudo que estava na xícara, o que consegui com bastante esforço.

Gabriel explicou que a primeira coisa que eu tentasse comer, meu estômago rejeitaria de imediato, mas que depois da primeira tentativa, se eu me empenhasse conseguiria e ai a fraqueza passaria. A dor de cabeça e outros, passariam com o efeito do remédio. Ele estava certo.

Após algum tempo deitada e sendo vigiada pelos dois que ficaram em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos, eu comecei a me sentir melhor. Foi quando aproveitei para tomar um banho e me livrar do cheiro de álcool. Tomei o que foi o banho mais demorado da minha vida e quando voltei para o quarto, adormeci.

Acordei e a primeira coisa que vi, foi Gabriel dormindo sentado em um pufe. Procurei por Leticia e ela não estava mais ali, avistei apenas a porta aberta. Ela foi esperta, minha mãe surtaria se visse a porta do meu quarto fechada sabendo que eu estaria lá dentro com um garoto.

Me sentei na cama e encarei novamente Gabriel, sabendo perfeitamente o motivo pelo qual eu havia chorado mais cedo em seus braços. Era raiva por saber que eu realmente desconfio que ele esteja apenas brincando com a minha cara, como Arthur me alertou na noite anterior. E o fato de ele estar ali, cuidando de mim, só fez com que meu coração doesse mais com a esperança de que não, ele não fosse tão cafajeste assim. Eu estava com raiva dele por me causar tudo isso.

Caminhei até Gabriel e o sacudi pelo braço, fazendo com que ele acordasse assustado.

– Onde está Leticia? – perguntei.

– Ela teve de ir embora. – ele respondeu com a voz rouca e esfregando os olhos.

– Bom, obrigada por ter cuidado de mim e por tudo isso, mas agora quero que você vá embora. – afirmei virando as costas e me abaixando para pegar meu celular, que ainda estava no chão, onde o deixei.

Olhei as horas e o relógio marcava 12h57, eu havia dormido muito pouco, por isso ainda me sentia exausta.

– Nós precisamos conversar e você não vai fugir disso. – disse Gabriel.

– Na verdade não há o que ser conversado, você dormiu com Amanda e foi isso, pronto. – respondi fingindo mexer no celular, só para não ter de olhar pra ele.

– Porque você ficou com o Arthur.

– Fiquei, não transei. – rebati, agora o fitando. Ele estava parado em pé de frente para mim.

– Quem garante? Ele te trouxe pra casa.

– Você dormiu na minha casa e rolou alguma coisa entre a gente, Gabriel? – perguntei na defensiva com a voz um pouco mais baixa, por saber que a porta estava aberta e minha mãe poderia ouvir.

– Ta, mas eu só fiz o que fiz, porque você fez merda primeiro.

– Não tente jogar a culpa das merdas que você faz em mim, Gabriel.

– Mas a culpa é sua. – ele respondeu dando ênfase no "sua", o que me fez explodir de raiva. – Ao te ver ficando com o Arthur, tu queria que eu fizesse o que? Batesse palmas pro casalzinho? E se fosse o contrário? Se fosse eu ao ter ficado com Amanda primeiro?

Ao dizer aquilo ele acabou com qualquer lista de argumentos que eu tivesse. Porque sim, se fosse o contrário, se tudo tivesse acontecido comigo no lugar dele, vendo ele ficar com Amanda, eu provavelmente teria ficado com tanta raiva que beijaria o primeiro cara que aparecesse na minha frente. Mas eu ainda estava morrendo de raiva.

Ouvi algumas batidas na porta e me virei rapidamente, avistando minha mãe parada ao lado da mesma e nos observando.

– Atrapalho alguma coisa? – ela indagou.

– Não, mãe.

– Hoje é aniversário de sua avó e vai ter um almoço em família na casa dela, estava apenas esperando você acordar para irmos. – explicou.

– Tudo bem, o Gabriel já estava de saída.

– Na verdade, Gabriel, você não gostaria de ir com a gente? – mamãe convidou e eu fiquei perplexa. Eu não queria o Gabriel nos fazendo companhia em um almoço de família justo hoje.

– Se não for incômodo, eu adoraria, Renatta. – respondeu Gabriel sorrindo para ela.

– Claro que não é incômodo! Se arrume, Isabelle. Estarei os esperando na sala.

Dito isso, mamãe se retirou e olhei enfurecida para Gabriel, que também se retirou do quarto sem dizer nada, ou sequer me olhar. Bufei e comecei a me arrumar rapidamente. Coloquei um vestido vermelho que havia ganhado de minha avó, justamente para deixá-la feliz e uma sapatilha da mesma cor. Penteei meu cabelo, escovei os dentes e fui até a sala, onde encontrei Gabriel e minha mãe conversando animadamente.

Passei reto por eles e fui direto para o carro, onde entrei e me sentei no banco da frente. Após alguns minutos, vi Gabriel entrar e se sentar no banco de trás, enquanto minha mãe se sentava no banco do motorista. Seguimos o caminho todo com minha mãe contando para ele coisas sobre meus avós e quando finalmente chegamos ao nosso destino, pedi que minha mãe nos desse um tempo pra conversar.

Assim que minha mãe estava longe o suficiente para que não pudesse ouvir nada, olhei para Gabriel.

– É a minha família. – disse séria. – Você não acha que ta passando dos limites?

– Passando dos limites, por que, Isabelle?

– Conhecer a família de uma garota com quem você só ta zuando, não é algo demais? – perguntei

– Agora eu entendi tudo. Você acha que eu to zuando com a sua cara!

– Eu não acho, tenho certeza. – rebati. – Então pensa duas vezes antes de entrar naquela casa, Gabriel, porque eu amo a minha família. – afimei, virando as costas para ele e andando em direção a entrada da casa.

Pensei que ele iria embora, mas ouvi seus passos atrás de mim. Não soube como interpretar aquilo e por um breve momento, senti vontade de sorrir, pensando na hipótese de que Gabriel estava sendo sincero com seus sentimentos e toda essa minha preocupação com ele é em vão.

Chegamos até a porta da casa e minha mãe ainda estava parada na mesma, conversando com minha avó, que sorriu assim que me viu.

– Olha quem está me dando a honra da presença. – disse vovó Elizabeth me puxando para um abraço apertado.

– Feliz aniversário, vovó. Eu te amo.

–Obrigada, querida. – respondeu vovó desfazendo o abraço e me dando um beijo na testa. – Eu também te amo.

– Mãe, esse é Gabriel. Gabriel, essa é minha mãe, Elizabeth – disse minha mãe apresentando os dois.

Vovó cumprimentou Gabriel com toda sua educação e seu jeito doce que só ela tem. Pediu para que ele entrasse e se sentisse completamente a vontade, enquanto fechava a porta atrás de nós e nos guiava para a varanda. No caminho, ela fez a pergunta que já era esperada.

– Namorado da Isa?

– Não, apenas amigo. – respondeu Gabriel.

– Apenas amigos? – vovó tornou a perguntar completamente desconfiada.

– Posso garantir. – respondi.

– Nesse caso... Pessoal, Renatta e Isabelle chegaram, trazendo o Gabriel-só-amigo. – anunciou vovó assim que chegamos na varanda, chamando a atenção de todos que estavam ali conversando.

– Bem-vindo a casa da vovó Elizabeth, Gabriel-só-amigo! – disse tia Marina se aproximando e cumprimentando todos nós.

Vovó me matou de vergonha ao dizer aquilo em voz alta, mas foi uma atitude bem pensada, já que ninguém ousou me perguntar se ele era meu namorado, coisa que todos perguntariam. Apenas fizeram piadinhas com o "Gabriel-só-amigo" até demais, mas tudo bem.

Estavam ali além de minha avó, tia Marina com seu marido André e a filha de uns 13 anos, Laura. Tia Juliana, o marido Fábio e os três filhos: Diego, Sophia e Larissa. Diego é o mais velho e tem 22 anos, Sophia é a filha do meio com 18 anos e Larissa a caçula, com 12 anos. E tio Eduardo, com a esposa Bruna e os dois filhos, Danilo de 14 anos e Rodrigo de 13 anos.

Eu, Natália, Diego e Sophia sempre fomos mais próximos, por termos idades mais próximas. Até um tempo atrás sempre saíamos juntos, mas Diego e Natália se afastaram por causa da faculdade e Sophia e eu sempre brigamos demais, eram nossos irmãos que nos controlavam, então acabamos afastando também.

Cumprimentamos todos que estavam ali e fiquei feliz por terem tratado Gabriel tão bem, apesar de eu não saber exatamente se estava ou não com raiva dele. Me senti incomodada apenas com Sophia, que o engoliu com os olhos e como se não bastasse, tentou jogar charme pra cima dele. Ela apenas parou quando a fuzilei com o olhar.

Agora, felicidade mesmo, foi o que senti ao ver o vovô saindo de dentro da casa, conversando com meu pai e minha irmã. Natália correu até mim e me deu um forte abraço, depois olhou para Gabriel que estava ao meu lado.

– Adivinha quem é. – pedi ao Gabriel que nos olhava assustados.

– Puta que pariu, não tem como não adivinhar, vocês são muito iguais. – respondeu Gabriel.

– Esse é Gabriel, Nat. Um amigo de escola, mamãe o obrigou a vir.

Eles se cumprimentaram com um abraço e se separaram bem a tempo de meu pai aparecer e parar de frente para nós com os braços cruzados na frente do peito.

– Quem é esse, Isabelle? – indagou bravo.

– Gabriel, senhor. – respondeu Gabriel estendendo a mão para o meu pai, que o deixou no vácuo e bastante sem graça ao ter que abaixar a mão de volta. Logo em seguida meu pai começou a rir.

– Sempre quis fazer isso. – afirmou papai ainda rindo e puxando Gabriel para um abraço desengonçado.

Meu pai sempre foi o tipo de pai que todo mundo gostaria de ter. Divertido, companheiro e liberal. Todo mundo sempre gosta dele devido ao seu bom humor e ele sempre foi como um amigo para mim e Natália, principalmente por sempre ser o que nos livrava das broncas e castigos da mamãe.

Papai me deu um de seus abraços que me fazem sumir dentro de seus braços e me sentir tão protegida quanto quando ele me pegava no colo quando eu era criança.

– Estava com saudades. – confessei.

– Eu também, minha linda. – respondeu papai.

Logo em seguida segui rumo ao meu avô, para o abraçar, deixando para Natália a função de explicar pro meu pai quem era Gabriel. Eu não sabia que meu pai estaria ali, mas fazia todo o sentido, já que ele sempre se deu muito bem com meus avós. E agora sim eu estava com dó do Gabriel, porque como ele era a visita e o primeiro garoto que eu levava a uma reunião de família, mesmo que eu jurasse de pés juntos que ele não era meu namorado, papai o constrangeria o resto do dia dizendo que sim e fazendo piadinhas tanto com ele, quanto com coisas relacionadas a isso.

Apesar de ter chegado ali contrariada com a companhia de Gabriel, passei uma das melhores tardes da minha vida. Ele se deu tão bem com minha família, que certo momento quando ele estava conversando empolgado com meu pai e meu avô sobre futebol, eu fiquei apenas os observando com um sorriso bobo no rosto.

Durante o almoço, acabaram fazendo algumas perguntas sobre ele e sua família, das quais várias foram respondidas por minha mãe animadamente, já que ele havia contado esse tipo de coisa para ela na primeira vez que foi até minha casa.

Depois do almoço, eu, Natália, Sophia e Diego contamos várias histórias de nossa infância e adolescência juntos. Sobre nossa infância, contamos histórias como a vez em que dormi em cima de um colchão inflável na varanda da fazenda em que estávamos e acordei ainda em cima do colchão, porém flutuando na represa em que costumávamos nadar. Da vez em que brincamos de pique-esconde e Natália acabou dormindo escondida dentro do guarda-roupa, fazendo com que a família ficasse desesperada atrás dela. Quando Diego fez xixi na roupa de tanto fazermos cócegas nele e quando sem querer coloquei fogo no cabelo da Sophia que teve que o cortar pela metade.

Sobre nossa adolescência contamos da vez em que eu peguei no flagra Diego e Natália se beijando e consegui fazer com que eles me levassem a um tanto de festa maneira em troca do segredo. Do nosso ano novo em família que bebemos escondido dos nossos pais, mas bebemos tanto que acabamos passando mal e descobriram tudo. E da vez em que recebi a missão de roubar um maço de cigarro do bolso do meu avô enquanto ele dormia, consegui, fomos fumar pela primeira vez e me engasguei com a fumaça, tendo um ataque de tosse que quase me matou e deixou todo mundo em desespero. Gabriel ria tanto que chegou a pedir um tempo para se recuperar.

Pouco a pouco as pessoas foram indo embora e então, chamei Gabriel para ir a um lugar. Levando-o para meu cantinho da reflexão, o balanço enferrujado, onde me sentei e ele se sentou ao meu lado.

– Sinto como se estivesse invadindo minha privacidade. – disse fitando a grama verde abaixo dos meus pés, que anos atrás não alcançavam o chão.

– Por que?

– Esse é meu lugar preferido no mundo, nunca trouxe alguém aqui. E acredite, não queria ter trago.

– Me desculpe.

– Quando eu era criança costumava acreditar que tudo era possível. Uma vez cismei que queria voar, foi então, que pela primeira vez, minha mãe teve de me desiludir, com medo de que eu acabasse pulando de algum lugar alto e me machucasse. – contei e pude ouvir uma singela risada vinda de Gabriel. – Chorei por horas simplesmente porque eu sabia que podia voar, mas ninguém acreditava em mim. Então, no fim de semana seguinte cheguei aqui e tinha esse balanço, meu pai me sentou em um, sentou minha irmã no outro e disse: "estão prontas para voar?". Ordenou que segurássemos firme nas correntes do balanço e nos empurrou tão alto, que enquanto via tudo de cima, sentindo o vento jogar meus cabelos para trás... – respirei fundo – eu senti como se estivesse voando e que papai acreditava em mim.

Pude ver Gabriel sorrindo, com a cabeça encostada em uma das correntes e os olhos fechados.

– Mas os anos se passaram e cada ano que passou, levou de mim um pouquinho mais da minha fé. Nas coisas, nas pessoas e na vida. – confessei, vendo Gabriel abrir os olhos e me olhar. – Então quando eu me sento aqui é como se papai me empurrasse de novo e me fizesse ver a vida de cima, de forma que eu me lembro do porque vale a pena sonhar ou acreditar, mesmo quando parece impossível.

Gabriel não disse nada, mas eu pude ver em seus olhos que havia muito que ele quisesse dizer.

– A pior coisa que pode acontecer a alguém, é a vida lhe roubar a fé ou os sonhos. – continuei a dizer. – Quando olho para meus pais e penso em tudo que a vida lhes tirou, penso que não é essa a vida que quero pra mim. Eu quero ter fé nos sonhos, no amor e principalmente na vida. Porque pior do que perder a fé, é perder a vontade de viver.

– Nem todo mundo teve alguém para te empurrar pra cima, quando precisou. – disse Gabriel desviando os olhos e fitando o chão.

Tudo que eu havia dito, era exatamente tudo que eu pensava e tudo que eu temo. No entanto, apesar de ter dito aquilo mais como uma confissão, eu soube que de alguma forma havia tocado em um ponto fraco de Gabriel e de repente eu entendi. Ele havia perdido exatamente tudo aquilo, a fé em seus sonhos, no amor e principalmente na vida.

– Você perdeu a fé em tudo quando Alice morreu? – perguntei.

– Ás vezes você apenas é obrigado a se colocar para cima, independente das consequências. – disse ignorando a minha pergunta. – E eu não perdi a fé em Deus.

– Eu não acredito em Deus. – confessei.

– Temos um paradoxo ambulante aqui. A garota que acredita em tudo, não acredita em Deus?

– Eu acredito que somos nós que fazemos nosso próprio destino e que somos nós que fazemos com que a vida aconteça, não Deus.

– Bom, para alguns a vida não acontece da forma que estes gostariam, então quando você perde a fé em tudo, você precisa ter fé em pelo menos alguma coisa. – afirmou. – Em que existe um motivo para tudo acontecer. – completou com a voz baixa.

Eu ia rebater, mas ele se levantou do balanço e caminhou, parando de frente para mim, onde segurou as correntes ao meu redor e abaixou seu rosto na altura do meu, selando nossos lábios em um longo selinho. Gabriel se afastou e caminhou novamente, dessa vez parando atrás de mim.

– Não deixe que te empurrem para baixo, Isabelle. – pediu Gabriel puxando meu balanço um pouco para trás, fazendo com que eu apertasse com mais força os dedos ao redor das correntes que estava segurando. – Preciso que saiba que você é incrível. – disse tão próximo ao meu ouvido, que fechei os olhos ao sentir sua respiração tocar a pele em meu pescoço. – E é por isso que estou oficialmente desistindo de você. – afirmou empurrando meu balanço fortemente para frente.

Eu soube que com a força que ele havia me empurrado, o balanço subiria a uma altura incrível. Mas ao invés de me sentir viva, como em todas as vezes que aquilo acontecia, o peso daquelas palavras fez com que eu me sentisse sendo puxada exatamente para baixo, com a mesma velocidade que a lágrima que havia se formado em meu olho, caiu sobre o chão. Então abri os olhos e ele não estava mais ali.

Deveria ter desistido antes de eu me apaixonar por você, Gabriel.

Notas finais
E então, o que acharam? Me bombardeiem com seus pensamentos! Beijinhos e até o próximo capítulo!