Poltrona 19
14 Clichê e confuso
Notas iniciais
Acordei e senti meus olhos arderem. No dia anterior, quando Gabriel simplesmente sumira, eu involuntariamente acabei chorando. O balanço parou de se movimentar e ali eu permaneci, imóvel, por muito tempo. Encarando o horizonte com olhos inexpressivos, enquanto lágrimas escorriam por meus olhos sem ao menos eu piscar. Eu nunca havia chorado daquela forma, as lágrimas simplesmente caíam, como tinha de ser. E quando eu finalmente me recuperei, tive de permanecer lá fora por mais algum tempo, até que meu rosto voltasse ao normal.
Vovó me disse que adorara Gabriel, meu avô concordou e meu pai perguntou se ele iria com a gente para a fazenda no próximo fim de semana. Eu não sabia. Descobri através de minha mãe que Gabriel fora embora dando a desculpa de que sua mãe havia o ligado pedindo que ele fosse e no caminho para casa, mamãe me perturbou perguntando se tinha acontecido algo em nosso relacionamento, para termos discutido mais cedo e eu tê-lo tratado mal até chegar na casa de minha avó. Me estressei tanto com aquilo que praticamente gritei que não tínhamos nada e que era melhor ela se desiludir e me deixar em paz. Ela realmente deixou, de tão assustada que ficou.
Natália me perguntou ainda na casa de minha avó se ele era mesmo um amigo e eu disse que sim, mas que já havíamos ficado. Consegui fugir do assunto alegando que a explicaria tudo em outra situação, então ela me perguntou o que havia acontecido e soube que ela foi a única que percebeu o quanto eu estava realmente mal. Mas preferi não falar sobre aquilo naquele momento. Na verdade, eu não queria falar sobre Gabriel e só por causa disso, era exatamente sobre o que todo mundo queria falar.
Quando cheguei em casa, fui direto para o meu quarto e fiquei encarando o teto por horas na tentativa frustrada de conseguir dormir, quando percebi estava chorando e foi nesse momento que tive vontade de bater minha cabeça contra a parede diversas vezes até desmaiar. Eu me sentia extremamente frustrada por estar tão emocionalmente abalada pelo que havia acontecido. E foi assim que adormeci.
Me levantei da cama e vesti calmamente minha roupa. Eu tinha bastante tempo para me arrumar, já que havia programado meu despertador para bem mais cedo que o normal. Pretendia chegar na hora certa no colégio e não atrasada. Queria vê-lo chegando na sala. Queria saber se ele apenas havia terminado qualquer envolvimento amoroso entre a gente ou também nossa amizade. Queria saber tanta coisa.
Ao terminar de me arrumar, fui para a cozinha e esquentei uma caneca de leite, então me sentei na mesa e fiquei encarando a parede em minha frente, bebendo calmamente minha bebida.
– Meu Deus, ta tudo bem, filha? – perguntou minha mãe em um tom verdadeiramente preocupado, ao entrar na cozinha.
– Bom dia pra você também. – respondi sem nem olhá-la.
– Bom dia, Isa. Desculpe, mas você já ta acordada e tomando café-da-manhã, isso é realmente estranho.
– É, eu sei.
– Você pode fazer um café pra mim? – pediu. – Preciso juntar uns papéis antes de sair.
– Aham. – respondi. Não queria irritá-la, pretendia pedir carona até a escola.
Ela saiu da cozinha e preguiçosamente me encaminhei até o armário, onde peguei uma caneca e segui rumo à cafeteira. Apertei o botão do meio e esperei que o café saísse, mas não foi o que aconteceu. Ao invés disso uma luz vermelha perto dos botões começou a piscar e revirei os olhos, indicava que estava faltando grãos.
– Está faltando muita coisa na vida de muita gente, ingrata cafeteira. – disse.
Procurei pelo pacote de grãos dentro do armário, o abri e despejei dentro da cafeteira, então apertei novamente o botão e ouvi o barulho escandaloso da máquina funcionando. Fechei os olhos ao sentir o cheiro do café invadindo minhas narinas. Sempre amei o cheiro de café, mas sempre odiei café. Mas pior do que café normal, é o café que minha mãe gosta: Puro. Sem açucar. Bléh.
– O Gabriel gosta de café. – disse mais uma vez conversando sozinha.
Levei o café até a mesa e voltei a bebericar meu leite. Algum tempo depois minha mãe reapareceu segurando um monte de pastas e usando seu terninho preto. Parei para reparar no quanto o tempo foi generoso com ela, minha mãe estava perto dos quarenta anos e continuava impressionantemente linda. Me pergunto porque ela ainda não arrumou um namorado como papai. Seus cabelos loiros e seus olhos claros, os quais eu e Natália herdamos, recebem destaque por conta dos ternos pretos que gosta de usar para ir pro escritório. Mamãe é advogada e tem uma carreira muito bem sucedida.
– Pode me dar uma carona até a escola? – perguntei enquanto ela pegava sua caneca.
– Sim, mas vamos logo porque não posso me atrasar.
– Só vou pegar minha mochila. – avisei e sai correndo até meu quarto.
Quando entrei no carro, notei que não havia sequer usado meus materiais até hoje. As únicas vezes que abri minha mochila desde o começo do ano, foi para guardar as apostilas que havia pegado no colégio e depois para tirá-las de lá. Me senti mal por isso, não posso reprovar no terceiro ano. Preciso criar vergonha na cara e parar de simplesmente dormir em todas as aulas, até o Bruno é mais responsável que eu.
Liguei o rádio e coloquei em uma estação qualquer. Segui o caminho todo simplesmente observando as ruas já movimentadas às 6h da manhã. Eu morrerei odiando as regras da sociedade. Já disse isso e direi quantas vezes forem necessário. Um dia ainda viro hippie e vou viver ao ar livre, fumando maconha.
Minha mãe estacionou em frente ao colégio e se despediu de mim, me dando um beijo na testa e desejando uma boa aula. Depois de já ter descido do carro, bati na janela e esperei que ela abrisse a mesma.
– Você é linda, mãe. – elogiei e sai andando antes que ela pudesse responder, vendo apenas o sorriso que surgira em seu rosto. Alguém precisava a lembrar disso.
Entrei no colégio e fui direto para a sala de aula, onde sentei no meu lugar. Olhei no relógio e era 6h45, mas a maioria dos alunos já estavam ali. Fiquei observando os alunos até que vi ele entrar na sala, Gabriel. Estava usando uma toca cinza, um moletom azul marinho, uma calça jeans preta e um all star branco. Sua mochila preta estava pendurada em seu ombro direito, enquanto em sua mão esquerda, ele carregava um copo térmico. Gabriel andou diretamente até sua mesa, onde colocou sua mochila e em seguida se sentou sobre a minha.
– Nunca estive tão perplexo em toda a minha vida. – afirmou tirando a tampa de seu copo e dando um gole na bebida. – Aceita café?
– Não, obrigada. – recusei. – Por que perplexo?
– Você não chega nessa sala antes das 7h50 e está aqui ás 6h50, eu estou perplexo pra caralho. Qual o motivo do milagre?
– Não consegui dormir direito. – respondi. O que era verdade, mas não o motivo por eu estar ali tão cedo.
– Nem eu. – ele confessou. – Por isso o café, preciso ficar acordado.
– Coca-cola é melhor. – argumentei. Não compreendo como as pessoas podem ser tão viciadas em café e se o motivo é se manter acordado, existem várias outras bebidas com o mesmo efeito, tipo a Coca-cola.
– Não, eu curto um bom café numa manhã fria.
– Clichê. – afirmei e vi um sorriso se formar em seus lábios.
– A garota dos livros de romance, acha que tem direito de me chamar de clichê? – perguntou me olhando. Por um breve momento fiquei confusa, tentando entender como ele sabia qual é meu gênero preferido de livros, mas me lembrei que ele já esteve no meu quarto e isso fica bem claro, levando em consideração a quantidade de livros de romance espalhados pela estante.
Não pude deixar de pensar que Gabriel é muito mais perceptivo do que as pessoas imaginam.
– Claro que sim, porque eu sou uma clichê assumida. Você é... confuso.
– Confuso. – repetiu divertido. – Já me chamaram de muita coisa, mas de confuso é a primeira vez.
– Muito, muito confuso. – reforcei. Não estava olhando para ele, mas podia sentir seu olhar sobre mim. Talvez a indireta tenha sido direta demais, mas eu realmente não esperava que ele fosse agir como se nada tivesse acontecido.
Senti um alívio ao ver Carol e Gustavo entrando na sala e caminhando em nossa direção. Eles estão sempre juntos? Pra que isso? Devo confessar que fico irritada com esses casais que passam vinte e quatro horas por dia grudados. Os dois não ficam se agarrando ou coisa assim, mas quase nunca os vejo separados. Quase nunca mesmo.
Os dois pararam de frente pra gente, me encararam, se entreolharam e voltaram a me encarar.
– Eu estou... – Gustavo começou a dizer, mas não conseguiu terminar.
– Perplexo é a palavra que você está procurando. – afirmou Gabriel se levantando e indo se sentar em seu lugar.
– Exatamente. – concordou Gustavo. – Bastante perplexo.
– Ah, parem com isso. – pedi já ficando irritada.
– Isabelle, você no primeiro horário de aula é realmente a coisa mais inédita que já aconteceu nessa sala esse ano. – afirmou Carol colocando seus materiais sobre sua mesa.
– Isso significa que essa sala ta uma merda ein. – respondi e eles riram, cada um já sentado em seu respectivo lugar.
O sinal indicando o começo das aulas tocou e me arrependi no mesmo instante por ter chegado cedo. Se eu custo aguentar cinco horários de aula, imagina seis. Os alunos que não estavam na sala começaram a entrar e logo em seguida, também um professor de alguma matéria que não faço ideia. É isso que acontece quando você só dorme. Atrás dele vinha Bruno que arregalou os olhos assim que me viu.
– Puta que pariu. – ele gritou, parando no mesmo lugar e eu revirei os olhos.
– Perplexo, você está perplexo. – gritou Gabriel em resposta, depois começou a rir.
– Algum problema, Bruno? – perguntou o professor.
– Problema nenhum, você que deveria se sentir honrado. – respondeu indo para o seu lugar. – Nossa querida Isabelle está assistindo ao primeiro horário, pela primeira vez.
– E quem seria, Isabelle? – o professor tornou a perguntar.
– A loirinha do lado do Gabriel. – respondeu Douglas. Um garoto sentado no fundo da sala, porém do outro lado. Não sabia que as pessoas se lembravam de meu nome, já que não faço diferença nenhuma nessa classe.
O professor me olhou e então sorriu.
– Ah, a Nemitz. – disse. – Famosa na sala dos professores.
Foi a minha vez de assumir uma expressão de perplexidade. Eu não fazia ideia de quem era aquele cara, ou qual a matéria que ele leciona. Se fosse um antigo professor eu até entenderia o porquê de me conhecer, aliás, saber até meu sobrenome, mas nunca o vi na vida.
– Famosa por que? – perguntou Tatiane, a garota da voz de hiena.
– Digamos que ela tem a paciência curta com professores e já teve alguns probleminhas, inclusive, com uma outra professora também de Biologia. – respondeu.
Ah, por isso ele sabe quem eu sou. Leciona Biologia. Faz todo o sentido. Deve ser amigo da Débora, professora com quem briguei. Acho que já tenho um novo inimigo ou um novo alguém para testar minha paciência.
– Como assim? – perguntou a garota sentada ao lado de Tatiane, seu nome é Maria Paula.
– Isso vocês tem de perguntar à ela. – ele respondeu se virando para o quadro branco e escrevendo a data no mesmo. – Mas ela basicamente disse algumas coisas que a professora Débora estava precisando ouvir. – completou e fiquei incrédula. Bruno soltou uma risada tão alta que ecoou pela sala. Gabriel, Gustavo e Carol que também sabiam da história, o acompanharam.
Talvez tenha arrumado é um novo amigo, isso sim. E curti muito isso, porque há sempre vantagem em ter um professor como seu amigo.
– Ai que saco, parem de mistério, eu quero saber. – reclamou Tatiane.
– Pena que não te interessa né, Tatiane. – respondeu Gustavo abrindo seu caderno. Gustavo odeia mesmo essa garota, porque ele sempre dá um jeito de irritá-la. Tatiane não respondeu, apenas fechou a cara.
– Ah, mas essa história eu mesmo faço questão de contar. – disse Bruno se levantando do seu lugar.
– Bruno... – repreendi, mas ele me ignorou. Se encaminhou para a frente da sala e começou a contar toda a história.
O professor de Biologia não brigou com ele, deixou que ele contasse e ouviu a história como todos os alunos, dando muita risada. Alguns se lembravam do acontecimento, outros não. Mas no fim todos acharam hilário e o professor demorou para recuperar a atenção da classe e fazer com que todos se aquietassem para começar a aula, mesmo que já tivesse passado quase meia hora de horário.
Como eu havia decidido criar vergonha na cara e começar a estudar, abri minha mochila e tirei meu fichário de dentro da mesma. O abri e encontrei uma bolsinha, contendo algumas canetas, lapiseira e coisas desse tipo. Peguei uma caneta para começar a escrever e então vi de relance que Gabriel estava me encarando. Olhei para ele e sua expressão era a mesma de mais cedo, a mesma que Gustavo havia feito, Carol e Bruno. Ele estava perplexo.
– Ah, vai tomar no cu. – reclamei.
– Cara, para com isso, você ta me assustando. – ele respondeu rindo e chamando a atenção do pessoal para nós, que se virou para trás. – Ela vai copiar a matéria, velho. – ele explicou para eles.
– Isa, ta tudo bem com você? – perguntou Carol brincando.
– Eu não posso reprovar, ta? Não fico mais um ano nessa escola nem se me pagarem. – expliquei. – E cheguei a conclusão de que até o Bruno estuda mais que eu.
– Opa, até o Bruno não. – reclamou Bruno. – Eu sou um ótimo aluno.
– Temos certeza que sim. – afirmou Gabriel em um tom irônico.
– Você não pode falar nada, idiota. – rebateu Bruno.
– Mas eu nunca aleguei que sou um bom aluno. – respondeu Gabriel e Bruno se virou para frente, assim como o resto.
Pela primeira vez no ano lá estava eu, copiando a matéria e prestando a atenção na aula de Biologia. Senti até orgulho de mim mesma. O melhor foi que como perdemos bastante tempo com toda a minha história, o horário passou muito rápido. Só não posso dizer o mesmo do horário de Química, que pareceu ter durado uma eternidade, ao invés de apenas cinquenta minutos.
Quando o sinal indicando o intervalo tocou, agradeci mentalmente e guardei meus materiais. Peguei dinheiro para lanchar e encontrei Leticia me esperando na porta da sala.
– Que demora! – ela reclamou.
– Eu estava guardando meus materiais, porque eu os usei hoje, acredita? – perguntei dando um breve abraço nela.
– Não. – ela respondeu sincera, me fazendo rir.
Descemos as escadas e fomos direto para a fila da lanchonete. Eu tenho preguiça de comprar comida no intervalo porque primeiro temos de pegar fila para comprar as fichas e depois pegar outra fila para pegarmos o lanche.
A lanchonete fica sempre aberta para podermos comprar as fichas em qualquer outro momento e o recomendado é até que compremos de uma só vez, fichas o suficiente para usar durante toda a semana. Mas mesmo que esperar em filas seja algo que me deixa irritada, comprar fichas com antecedência parece o tipo de coisa que o Gustavo faria, porque é todo organizado, não eu. Literalmente, porque vi que ele foi direto para a fila do lanche. Sem contar que, como é que eu vou saber o que vou querer comer durante a semana? Vai que num dia quero um bolo de chocolate e no outro um salgado? Ou num dia quero um suco e no outro um refrigerante?
Foi nessa brisa que cheguei até o caixa sem nem perceber que a fila andou. Comprei ficha pra um bolo de chocolate e um suco de laranja. Pensando bem, eu sempre vou querer comer bolo de chocolate.
Fomos para a fila de pegar o lanche e reparei que Leticia estava calada, o que era estranho, já que nos vemos com pouca frequência agora, então sempre que nos vemos queremos conversar. Mas preferi não comentar nada por enquanto e apenas esperamos nossa vez em silêncio.
Foi emocionante finalmente pegar meu bolo, poderia dizer que meus olhos brilharam ao vê-lo. Eu definitivamente amo o bolo desse lugar. Mas um dos problemas causados pelas duas filas, é que o intervalo dura apenas vinte minutos, portanto se você perde tempo nelas, significa que perdeu tempo para comer. É por isso que a inspetora todo ano passa de sala em sala avisando sobre a compra de fichas com antecedência. Não porque eles se preocupam com nossa degustação eficaz e correta dos alimentos e sim porque querem economizar saliva ao berrarem com os alunos para que eles saiam do pátio e entrem nas salas.
Avistei nossos amigos sentados em uma mesa e estava quase caminhando até la, quando percebi que Leticia estava indo em outra direção. O que só podia significar duas coisas: Ou ela brigou com alguém ou quer conversar comigo. A primeira opção é a menos provável, mas mesmo assim a segui até um banco rezando para que fosse isso.
Nos sentamos e Leticia comeu um pedaço de bolo, antes de acabar com o suspense.
– Preciso falar com você. – afirmou.
– Que foi? – perguntei fingindo indiferença, enquanto degustava meu precioso bolo de chocolate.
– O que ta rolando entre você e o Gabriel, Isabelle? Eu quero a verdade e não tente fugir do assunto. A briguinha de vocês na sua casa foi o ápice da minha desconfiança.
Fechei a cara no mesmo instante e respirei fundo.
– Acredite ou não Leticia, não ta rolando nada. – respondi.
– E o que foi aquilo na sua casa?
– Primeiro nós discutimos lá na festa por uma coisa babaca, então eu tava estressada com ele e depois, também fiquei irritada por ele ter transado com a Amanda, já que ela alegou que não rolaria nada entre eles. Foi isso.
– E por que você ficou irritada com isso? – ela perguntou.
– Eu já disse, Leticia. – respondi exaltada. – A Amanda afirmou que não rolaria mais nada entre eles e rolou.
– Ta, mas se você não se importasse, não teria ficado irritada.
– Ela mentiu. – rebati.
– Sim, mas eu por acaso fiquei do jeito que você ficou? Não, Isabelle! Não! O que me faz ter certeza que você ou está tendo alguma coisa com ele, ou gosta dele. E eu não gosto de nenhuma das opções.
– Não é nenhuma das opções. – respondi quase gritando. Não quero falar disso, não quero falar do Gabriel. Não quero falar sobre gostar do Gabriel ou sobre ter ou não algo com ele, porque eu não tenho mais porra de nada com ele.
– Eu tenho o tempo inteiro a sensação de que você está me escondendo alguma coisa. – ela afirmou e me senti mal no mesmo instante. – Não só você, Amanda também. Me sinto distante das minhas duas melhores amigas, isso é um saco.
– Me desculpa, Lê. Eu também me sinto assim, mas é porque estamos em salas diferentes. Tira da sua cabeça essa ideia de que é por causa do Gabriel, porque nós somos amigos e eu passo muito mais tempo com ele agora do que com você. Se tu for surtar por causa dele, vamos discutir sempre.
– Tudo bem. – ela concordou. – Mas não sei o que pensar sobre a Amanda, nós continuamos na mesma sala, nada mudou. Exceto ela, é claro.
– Conversa com ela. – aconselhei.
– É, vou tentar.
O intervalo acabou e nem sequer havíamos comido, então levei meu bolo e meu suco para a sala para comer lá. Assim que me sentei em meu lugar, repassei minha conversa com Leticia na cabeça. Eu me sinto extremamente mal por esconder dela tudo que já rolou entre mim e Gabriel, mas eu sei muito bem que ela não aprovaria isso e acabaríamos brigando. E não quero brigar com ela. Sem contar que não é mentira o que eu disse, nós realmente não temos mais nada, então pra que falar disso? Afinal, nunca me distanciei dela por causa dele.
O vi entrar na sala conversando com seus amigos. Lembrei do que Leticia disse sobre Amanda, sobre ela estar diferente sem motivo aparente e sobre sentir que ela está escondendo algo. Quando o vi rindo de algo que Bruno falou, não pude deixar de pensar que talvez, Amanda goste dele. Seria fácil de entender, muito fácil. Porque é tão fácil gostar dele.
Ele percebeu que estava o olhando e sorriu para mim. Não sorri de volta, mas não desviei o olhar, já que ele já havia percebido. Esperei um pouco e depois comecei a comer meu bolo, enquanto os alunos se sentavam pois a professora de Inglês entrou na sala.
Eu adoro a aula de Inglês, então foi fácil prestar atenção na mesma. Ainda mais enquanto comia meu bolo, comer sempre me deixa de bom humor. Mesmo que isso fosse meio impossível, decidi não ficar pensando naquela história e foi bem melhor assim. O horário passou rápido e a aula foi divertida, já que a professora Karine é uma das mais divertidas que temos. Em seguida tivemos aula de História e também consegui manter o foco, porque gosto de disciplinas da área de humanas.
No segundo intervalo, preferi ficar na sala ouvindo música e escrevendo alguns trechos numa folha qualquer. O tempo passou muito rápido e quase chorei ao ver a professora de Matemática entrando na sala. Naquela aula sim, eu duvido que conseguiria prestar atenção.
Tentei ao máximo manter o foco, mas eu não conseguia acompanhar direito o raciocínio da professora e sempre ficava frustrada. Acho que é isso que me irrita tanto nessa matéria, eu odeio não entender algo que quero entender e quase sempre não entendo Matemática.
Como sempre, ela explicou a matéria, resolveu alguns exemplos e depois ordenou que resolvêssemos alguns exercícios que passou no quadro. Também como sempre, eu achei que conseguiria resolvê-los ao vê-la fazendo os exemplos, mas quando eu tentava fazer, sempre me perdia em algum ponto. Bufei de raiva depois da vigésima tentativa de resolver a merda do problema.
Senti minha cadeira ser puxada para o lado e olhei assustada para Gabriel, quem estava a puxando. Quando estava perto dele, ele puxou minha mesa, juntando com a dele.
– Você não faz ideia do quanto tava engraçado te ver irritada, mas já to até com dó. – disse Gabriel.
– Há-Há. – respondi irônica.
– O que tu não ta conseguindo fazer?
– Tudo! Eu definitivamente odeio Matemática! – respondi.
Gabriel não respondeu, apenas apagou tudo que eu tinha feito, ou tentado fazer e começou a me explicar do início. Depois me obrigou a fazer o outro exercício e quando eu consegui, fiquei eufórica. Olhei para ele que estava concentrado em seu próprio exercício e foi ai que me senti frustrada, muito mais frustrada que antes. Me senti frustrada por Gabriel ter o raciocínio bom em humanas e em exatas. Por ele não ser só bonito, divertido, incrível e ter bom gosto musical, mas também ser inteligente. Me senti frustrada por ter acordado cedo pra caralho hoje só porque precisava saber se continuaríamos a ser amigos e porra, eu não quero ser só amiga dele. Como é que ele consegue ficar tão sexy até mesmo resolvendo um exercício de Matemática? Desde quando ele gosta de Matemática?
O sinal indicando a troca de horários tocou e rapidamente comecei a guardar meus materiais, pois o próximo horário seria Educação Física.
– Conseguiu resolver o exercício? – perguntou Gabriel.
– Sim, obrigada. – respondi seca.
– Ta tudo bem? – ele perguntou novamente.
– Sim. – respondi fechando minha mochila, então me levantei e sai andando rapidamente da sala.
Caminhei direto para a quadra de futebol e me sentei na arquibancada, algum tempo depois vi o pessoal da sala se aproximando. Geralmente durante a Educação Física, alguns meninos jogam futebol, outros jogam vôlei com as meninas e algumas pessoas simplesmente não fazem nada, assim como eu. Mas geralmente eu não fazia nada junto com minhas melhores amigas e ali estava eu, sozinha e frustrada com minha própria vida.
Geralmente o professor de Educação Física nos ameaçava dizendo que reprovaríamos de ano, se não fizéssemos nenhum esporte. Então alegávamos que nos Estados Unidos ser líder de torcida é considerado como fazer um esporte e que era exatamente isso que estávamos fazendo, torcendo pelos garotos enquanto eles jogam futebol.
No fim, ele apenas nos dava uma bronca, mas continuávamos sem fazer esporte nenhum e passávamos de ano, porque ficamos amigas do professor e conseguíamos o enrolar. Nós sempre conseguíamos tudo, porque somos melhores amigas e estávamos sempre juntas. Agora me sinto tão sozinha. Tão sozinha longe de Leticia e longe de Amanda. Sozinha e perdida numa bagunça causada por Gabriel e eu nem sequer posso culpá-lo por algo, porque quem se enfiou de cabeça nessa bagunça toda, fui eu.
Os meninos colocaram seus materiais na arquibancada e se encaminharam para o centro da quadra de futebol, enquanto apenas outras três meninas se sentaram ali para assistir. Avistei Gabriel e Bruno, decidindo os times com o resto do pessoal. Bufei.
– É claro que ele joga futebol, tem alguma coisa que ele não faça? – perguntei em voz alta, irritada. Preciso parar com essa mania de conversar sozinha.
Procurei por meus fones de ouvido na mochila, mas nem tive tempo de conectá-los ao celular, pois avistei alguém se aproximando. Era Gustavo, que se sentou ao meu lado.
– Que foi? – ele perguntou me observando.
– Nada, por que?
– Saiu da sala correndo, ta se isolando... Tenho certeza que tem algo errado. – respondeu como se fosse óbvio, cruzando as próprias mãos na frente do corpo.
– To só confusa com umas coisas. – expliquei. – E não to me isolando, eu apenas costumava fazer isso com minhas amigas. Sentar aqui e ficar gritando com os caras que estavam jogando futebol, porque eles eram nossos amigos...
– Bom, não deve ser tão difícil. – disse Gustavo se levantando.
– Ahn? – perguntei sem entender.
– Vai Bruno, acaba com eles seu gostoso... – Gustavo começou a gritar, colocando as mãos ao redor da boca, para que o som de sua voz saísse mais alto. Os caras olharam pra ele e ele continuou a gritar. – Tira essa camisa, Gabriel, prova que vale a pena lavar roupa nesse tanquinho...
– Que droga você usou, Gustavo? – gritou Bruno da quadra.
– Você, gatão. To viciado em você! – Gustavo gritou em resposta.
A esse ponto eu já estava chorando de rir, assim como quase todas as pessoas que estavam ali. Eu nunca na minha vida imaginaria Gustavo fazendo algo assim e me senti feliz, por saber que ele estava fazendo aquilo para que eu fique bem e para que eu não me sinta sozinha. De repente, eu realmente não me senti mais, foi quando me levantei e comecei a gritar também.
– Acerta esse gol, Diego. – gritei para um dos meninos em campo, que estava prestes a fazer um gol, mas chutou para fora.
– Espera, pra que time estamos torcendo? – perguntou Gustado me olhando. – Acho que isso é importante.
– Pros nossos amigos, é claro.
– Mas eles são péssimos. – afirmou Gustavo.
– Pra isso nós existimos. Para distrair o time adversário e incentivar o nosso time a ser menos pior.
– Faz sentido. – ele concordou sorrindo. – Você sabe o que é um gol, Douglas? Porque parece que não, otário. – gritou para um jogador do time adversário.
– Você é bom nisso, acho que já podemos montar uma equipe de líderes de torcida. – disse rindo.
– Só se eu for a chefe de líder de torcida. – ele respondeu sério, mas logo em seguida também riu.
Olhei para a quadra e Gabriel estava prestes a fazer um gol, mas o tal Douglas otário, conseguiu tomar a bola dele.
– Joga feito homem, Gabriel. – gritei e ele parou no meio da quadra para me apontar o dedo do meio enquanto ria.
– Cade os modos, garoto? Não sabe nem fazer um gol e quer ter moral? Metade das suas admiradoras desistiriam de você, se te vissem jogando feito mulherzinha.
Funcionou. Alguns minutos depois ele conseguiu fazer um gol e me lançou um olhar significativo, que me fez morrer de rir. Se existe algo que funcione com um cara é ferir seu orgulho. Ele faria aquele gol nem que pra isso tivesse que quebrar a perna de todos os jogadores na quadra.
– E você ein, Bruno? Sabe jogar ou só ta ai pra ficar no meio de homem? – gritei.
– Cara, você pega pesado. – afirmou Gustavo gargalhando.
– Acerta a porra do gol, viadinho! – ordenei.
Foi assim que passamos todo o horário de Educação Física, xingando os jogadores e recebendo olhares de ódio. Só fomos interrompidos pelo professor de Educação Física que apareceu para fazer a chamada. Quando me viu ele perguntou das meninas e tenho certeza que se ele tivesse feito isso no começo da aula, eu teria chorado, mas então só respondi que estávamos em salas diferentes e que agora estava treinando novas torcedoras, vulgo Gustavo.
Quando faltava alguns minutos para a aula acabar, os meninos encerraram o jogo e nosso time terminou como o vencedor. Eu e Gustavo comemoramos e pegamos nossos materiais para descer da arquibancada, onde conversei com quase todo mundo e percebi que mais uma vez estava fazendo amizade com homens ao invés de mulheres. Eu não vou mudar nunca.
Avistei Bruno correndo em minha direção e antes que eu pudesse entender o que estava prestes a acontecer, ele me envolveu em um abraço e esfregou seu cabelo suado em minha camiseta.
– Me solta, Bruno! Ai que nojo! Que nojo! Que nojo! – reclamei tentando me esquivar.
– Realmente bem nojento! – concordou Gustavo, foi então que Bruno me soltou.
– Você ta é com ciúmes, tava me chamando de gatão alguns minutos atrás – zombou tentando abraçar Gustavo.
– Eu vou te dar um chute no saco, cara – ameaçou Gustavo fugindo dele.
Comecei a rir, até que tudo aconteceu muito rápido. Gabriel apareceu na minha frente, me suspendeu no ar e me jogou sobre o seu ombro.
– Vamos pessoal? – ele chamou no mesmo instante em que o sinal indicando o final da aula tocou.
– Vamos onde, Gabriel? Me solta! – ordenei.
– Acho que não, ein. Não ficamos muito contentes com os xingamentos, acho que você merece pagar o mico de ser carregada pelo colégio. – ele respondeu e começou a andar.
– Eu também acho. – concordou Diego.
– Vou espancar vocês! – ameacei, mas eles fingiram que nem ouviram e continuaram andando. Então, comecei a estapear as costas de Gabriel.
Quando saímos da quadra, encontramos Carol parada esperando por nós. Ela me cumprimentou enquanto ria e eu apenas acenei com a mão e continuei a bater em Gabriel. Morri de vergonha quando chegamos ao aglomerado de pessoas que ficavam nos observando e simplesmente desisti de estapear Gabriel, passei apenas a xingá-lo a cada passo que ele dava. A cada xingamento, ele ria mais.
Certo momento levantei a cabeça e avistei meus amigos no meio da multidão. Leticia, Vitor, Pedro e Alexandre estavam rindo da minha situação, então fiz uma careta para eles que riram ainda mais. Porém, ao olhar para Amanda e Lorena, a novata com quem ela fez amizade, não vi um sequer pingo de humor no rosto de Amanda. Engoli em seco.
Me lembrei do que havia pensado mais cedo, sobre talvez Amanda gostar dele. Se isso fosse verdade, ela provavelmente estaria morrendo de ciúmes de mim. Me surpreendi ao perceber que comecei a sorrir, mas não me contive. Eu deveria me sentir mal por ter gostado de imaginar Amanda com ciúmes de mim com ele, mas me desculpe, Amanda... Eu também gosto desse cara.
Os perdi de vista assim que saímos do colégio e me senti aliviada quando Gabriel me colocou no chão. É claro que o dei mais alguns murros, mas ele apenas riu da minha cara, pois se divertiu bastante com tudo isso.
– Bem que você podia me levar assim para casa, amor. – disse Carol para Gustavo.
– É mais fácil você carregar esse magricelo. – intrometeu Gabriel, nos fazendo rir.
– Odeio ter que concordar. – disse Gustavo fazendo uma careta.
– Tenho de ir, até amanhã. – anunciou Gabriel se despedindo de todos.
Ele me deu um beijo no rosto e seguiu rumo à uma BMW preta estacionada próximo a nós. A janela do motorista estava abaixada e pude ver uma mulher com os cabelos castanhos acobreados soltos e perfeitamente arrumados, usando um óculos escuro e muito bem maquiada, o que dava para observar apenas pelo batom vermelho em seus lábios. Ela estava conversando no celular e era impressionantemente bonita e elegante. Eu já havia visto aquela mulher em uma foto que o Gabriel me mostrou, é a mãe dele.
Quando Gabriel entrou no carro, ela sorriu abertamente para ele que lhe deu um beijo no rosto e em seguida tomou o celular da mesma. Fiquei encantada com o sorriso sincero que surgiu no rosto de Gabriel quando sua mãe tentou pegar o celular de volta e ele não deixou. Involuntariamente acabei também sorrindo. Quando a mulher percebeu que ele não devolveria o aparelho, deu a partida no carro e eles foram embora.
Assim que o carro saiu dali, avistei um carro familiar estacionado do outro lado da rua. Não era uma BMW e sim apenas um Honda Civic, mas que me deixou bem feliz. Era o carro de minha mãe e eu estava perplexa por ela ter vindo me buscar no colégio. Me despedi do pessoal e atravessei a rua, então entrei no carro sorridente e a dei um beijo no rosto.
– Boa tarde, querida. Como foi a aula? – ela perguntou dando partida no carro.
– Legal! – respondi. – O professor de Biologia gosta de mim, o Gabriel conseguiu me ensinar Matemática, eu e Gustavo bancamos as líderes de torcida e Gabriel me carregou em seu ombro pelo colégio.
– Vou querer saber os detalhes enquanto almoçamos. – ela disse sorridente enquanto dirigia. – Onde quer almoçar?
– Em qualquer lugar. Mas você não tem que ir trabalhar?
– Vou pro escritória mais tarde. – ela respondeu.
– Pode ser em casa mesmo, ta passando de bom. – afirmei.
Apesar de tudo eu realmente havia gostado do meu dia e era a primeira vez em anos que almoçaria com minha mãe em meio de semana. Não conseguia parar de sorrir e me senti extremamente grata por essa segunda-feira ter me surpreendido de uma forma positiva.
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