Polos opostos
1 You're everything to me
Notas iniciais
As parte em itálico são falas ditas pelos personagens retiradas do próprio episódio 8x16. Quem não viu, cuidado com os spoilers!
Boa leitura!
Não tinha coragem o bastante para encará-lo denegrir-se por sua causa. Não por um erro que havia cometido. Donna sabia que Harvey conseguiria – afinal, ele sempre conseguia –, então por que daquela vez não havia sido capaz de segurar-se? Por que não havia tido fé o bastante de que ele honraria com a promessa que havia feito?
Thomas era maravilhoso, mas
(ele não era Harvey)
isso era o bastante para colocá-lo acima de sua própria firma? Um homem com quem vinha saindo há tão pouco tempo? Sobre o que isso se tratava de fato?
“Você fez isso porque o ama.”
As palavras de Alex ecoavam em seu âmago, o vinho recém-ingerido amargava na boca.
“O que você significa para ele?”
O que significava para Harvey? A verdade é que não sabia nada além daquilo que ele deixava transparecer. Mas na época em que ele havia tido aqueles surtos de ansiedade, a própria psiquiatra dissera que o que Harvey sentia por Donna era
(obsessão? Loucura?)
intenso demais.
“O cara está disposto a se estirar na linha do trem por você e me pediu que eu o amarrasse.”
Donna respirou fundo. Não havia sido capaz de acompanhar o massacre que seria. Permanecera ao lado de fora, não poderia ver Thomas enterrando o império que Harvey havia demorado tanto tempo para construir. Tudo por sua causa. Boba, infantil, a tola e sonhadora Donna.
“E o que ele significa para você, Donna?”
Tudo. Quanto havia lutado por Harvey para que ele chegasse onde estava? Mais do que havia lutado por si mesma, sendo a sombra dele por anos, a conselheira leal que jamais o abandonou porque
(o amava tanto, tanto que doía. Por que ele não era capaz de ver? Porque não havia reciprocidade entre eles?)
sempre olhara por ele desde a época da promotoria.
Por anos, havia expurgado esse sentimento, encarcerando-o dentro de si como um condenado à forca que apenas espera sua sentença ser realizada, sufocando-se mais e mais com isso, buscando ar fresco em relacionamentos que tendiam a não durar porque sempre o colocava acima de todas as coisas.
Havia tentado, não havia? Com Thomas as coisas simplesmente pareciam certas, mas parte dela sempre dizia que não, que não conseguiria. Que nenhum homem jamais seria para ela o que Harvey era, não importava o quanto buscasse. Seria sempre Donna-sem-Harvey.
E então, o alívio de saber que ele havia sido salvo no último momento por uma manobra ousada de Zane. Manobra esta que lhe custara a licença de advogar. Deveria sentir-se triste e miserável, ligar para Rachel e perguntar como ela estava com isso tudo, mas só conseguia pensar em Harvey.
Tomou mais um gole do vinho, mas ele parecia vinagre em sua boca. Não havia atendido à ligação dele, sequer ficado para comemorar como usualmente fariam. Também não tivera coragem de encarar Thomas após a própria alegação.
“Só sei que ele é alguém que não sei como tirar de dentro de mim.”
Havia sido o fim do relacionamento mais feliz que já tivera em todos esses anos desde que havia começado a trabalhar com Harvey.
“Mas a verdade é que não sei se um dia conseguirei.”
A dor nos olhos de Thomas não era justa. Sentiu como se o tivesse usado, traído, para depois jogar fora. Essa não era toda a verdade, mas era o sentimento que passava por sua mente.
E talvez não conseguisse porque não quisesse tirá-lo de dentro de si. Não queria. E admitir isso para si mesma era um tanto libertador, o sentimento de leveza apossando-se de Donna ao mesmo tempo em que terminava o vinho intragável.
Foi quando ouviu as batidas à porta, os pés alcançando o chão gélido da sala e encaminhando-se na direção da entrada, abrindo-a antes mesmo de checar quem era.
Não houveram palavras naquele momento, apenas a troca de olhares que os levou para o próximo passo, ao beijo tão desejado que lhe fez lembrar de cada momento que (não) havia tido com Harvey, as mãos dele percorrendo seu corpo como se conhecessem cada curva—e elas conheciam.
Não havia dúvidas ali, apenas a certeza de que ele era tudo para si, e que aquele sentimento era recíproco. Eram polos opostos que atraíam-se na mesma direção.
Fale com o autor