Polaroid
24 When the Future is Right Now
Percy
Todos os anos, a escola de Percy fazia uma parceria com uma universidade e promovia duas feiras de profissões, uma no começo de cada semestre. Ele já estivera em feiras assim com amigos mais velhos afim de conhecer garotas, claro. E sabia que universitários podiam ser muito chatos. Não todos, claro, mas boa parte deles se achava superior, como se ter terminado o ensino médio e escolhido um curso fosse uma coisa incrível.
Percy não precisava se preocupar com isso, claro. Desde que seu pai soubera que Sally estava grávida, o garoto tivera sua vaga em Administração garantida em cinco faculdades diferentes. Ninguém perguntou a ele se era isso que queria, mas ele já não se importava. Estava cansado de brigar com o pai.
Era Annabeth quem preocupava Percy. Ela podia ficar muito estressada quando tinha alguma prova, mas estava impossível ultimamente. O garoto sabia o porquê e queria muito poder ajudá-la, mas ela ficaria muito brava se descobrisse que o pai dele pagara a conta do hospital. Annabeth era muito inteligente, muito mesmo, mas conseguir uma bolsa numa faculdade disputada como a que ela queria não era fácil, já que ela não era a única pessoa muito inteligente no país.
As chances dela eram altas mas, como dissera ao namorado na semana anterior depois de gritar com ele porque estava atrapalhando seus estudos, não era só sobre ser inteligente ou não. Era sobre conseguir algo que queria desde que era uma criança brincando com Lego. Sobre provar para a família e todos que em algum momento duvidaram dela que podia, sim, fazer qualquer coisa que desejasse. Mais que tudo, para que todo seu esforço com boas notas e trabalhos extra curriculares não fosse em vão.
Depois do discurso dela, Percy segurara as mãos dela, a arrastara até o andar de baixo e lhe dera um copo de água.
—Às vezes você também precisa respirar, okay? – ele havia dito, correndo os dedos pelo cabelo dela.
Annabeth rira dele por tê-la feito correr nas escadas feito louca para simplesmente beber água. Naquela noite, ela estudou por mais uma hora, depois eles foram comer numa lanchonete.
Percy colocou um caderno na mochila e foi até o quarto do irmão. Ele bateu na porta e esperou. Alec abriu e o deixou entrar.
—Já estão terminando? – perguntou ele, indo até a mesa em que Annabeth estava sentada.
—Quase. Alec só precisa acertar mais uma e acabamos – ela disse, sem olhar para ele, escrevendo num caderno.
—Vou esperar então. Não me decepcione, pirralho – ele sorriu e parou ao lado da mesa.
—Quanto é seis elevado ao quadrado? – a loira perguntou.
—Hum... – Alec fez uma careta e se sentou na cadeira. – Doze?
—Não – Annabeth respondeu, paciente. – Lembra que o expoente, que é o dois, é o número de vezes que você tem que multiplicar a base, que é o seis, por ela mesma. E aí?
Alec pareceu entender o que ela queria dizer, mas não era muito bom com cálculos.
—Trinta e seis – Percy falou, sem emitir som algum.
—Trinta e seis – gritou Alec.
—Isso mesmo – Annabeth revirou os olhos.
—Que bom que terminaram, agora vamos – Percy estendeu a mão para a garota.
Annabeth guardou suas coisas calmamente antes de se levantar e abraçar Percy, ele abaixou o rosto para beijar os lábios dela.
—Eca! – Alec gritou. – Saiam logo daqui.
Annabeth riu, deu um beijo na bochecha do menino – que ele limpou com as mãos – e arrastou Percy para fora do quarto.
—Eu não sei o que é mais impressionante, a união de vocês ou você saber a resposta.
Eles foram para garagem e entraram no carro de Percy. Passaram na casa de Jason e na de Nico. Jason fez questão de se sentar no meio.
—Annie, você sabe que adoro você, mas sinto falta do banco do carona – Jason disse no caminho.
—Foi por isso que resolveu sentar no meio, J? – Percy disse e todos riram, exceto Jason.
—Vamos lá, Jason – Annabeth sorriu para ele. – Pare de ser tão ciumento. Todo mundo já entendeu que você ama a Thals.
Enquanto Jason tentava se explicar, Percy estacionou. Eram quatro e trinta e cinco, cinco minutos depois do horário anunciado pelo diretor, então não devia ter muita gente ainda. Os cinco andaram até a porta de entrada e pararam. Thalia segurou a maçaneta e encarou os amigos.
—Prontos para espiar o futuro? – ela disse, séria, e abriu a porta.
Thalia riu e entrou, seguida pelos outros quatro. Eles seguiram pelo corredor até a quadra de basquete. No caminho Percy viu alguns de seus colegas do time de natação carregando caixas, provavelmente com os materiais que haviam usado na decoração.
Se não fosse pelas cestas, seria difícil perceber de primeira que aquele espaço era usado para a prática de esportes. Dezenas de desconhecidos estavam espalhados pela quadra, cada um com vários papéis ou objetos na sua frente, em cima de carteiras, que os colegas de Percy deviam ter levado das salas de aula até lá. As paredes estavam cheias de cartazes com frases de efeito, recrutando alunos para as faculdades.
—Vamos fazer perguntas sem sentido para esses caras e rir deles depois, vocês vêm? – Nico perguntou.
—Não, obrigado – Percy respondeu. — Vou ajudar a Annabeth a carregar a tonelada de formulários e panfletos que ela com certeza vai pegar.
—Como se eu precisasse de ajuda – ela disse e eles riram. – Divirtam-se.
—Vocês também – Jason falou.
Percy e Annabeth trocaram um olhar. Esperam que Jason fosse com eles, ele era o tipo de pessoa que definitivamente faria perguntas idiotas, mas não sendo vela da irmã. E além do mais, apesar do episódio no carro, estava bem mais tranquilo com relação ao namoro com Nico.
Eles não disseram nada e foram falar com os universitários irritantes. Annabeth discutiu com pelo menos três deles. Não foram brigas, foram discussões sobre assuntos complexos, como política e economia, coisas que Percy não fazia a mínima ideia do que queriam dizer.
Muitas vezes, durante as aulas, ele ouvia alguns alunos discutindo aquelas coisas, exibindo sua “sabedoria”, como se, por saber argumentar sobre aquilo, estivessem sempre certos. Percy não conseguia entender como alguém simplesmente escolhia dedicar tempo a certas coisas.
Annabeth realmente pegou dezenas de formulários e panfletos. Ela os colocou numa pasta que trouxera. Quando ela começava a falar com algum dos representantes das universidades Percy pegava a pasta da mão dela, para evitar que o objeto furasse os olhos de alguém. A garota gesticulava muito quando se animava.
Essa era uma das coisas que Percy percebera nela nos últimos tempos. Ela também tinha mania de colar post-its em tudo. Seu caderno da escola era colorido, cheio deles. E todos os panfletos que Percy segurava no momento também teriam um assim que ela parasse para olhá-los com calma.
—Oi – Lou surgiu do nada, ela usava um vestido azul largo e botas. – Perdi muita coisa?
—Bom, Annie já falou com metade desse pessoal – Percy disse.
—Legal. Vou andar com vocês, tudo bem? – ela disse, olhando para os lados.
Percy concordou. Annabeth terminou de falar com a moça do Arizona, cumprimentou Lou e elas conversaram com mais duas pessoas até a ficha de Percy cair. Louise estava estranha, olhando ao redor pelo mesmo motivo que Jason estava de vela de Thalia e Nico, os dois estavam se evitando.
Depois do episódio com garotos e garotas divididos entre as casas de Lou e Jason, os dois passaram uma semana sem olhar um para o outro – Lou não olhava, na verdade – e depois disso eles se encontraram e concordaram em dar um tempo.
E, pelo visto, eles temiam provar uma deliciosa “torta de climão” se se encontrassem. E provavelmente estavam certos.
Uma hora e meia depois de chegarem, conseguiram falar com todo mundo que as duas garotas queriam. A caminho do bebedouro, eles passaram por Thalia, Nico e Jason. Louise se escondeu atrás de Annabeth, o que não funcionou muito bem já que Lou era alguns centímetros mais alta.
—Você quer carona, Lou? – Percy perguntou. Teria que fazer duas viagens, mas também não queria um pedaço daquela torta.
—Não, valeu. Eu vim com o carro da minha tia – ela respondeu. Eles se despediram e Annabeth ficou esperando no estacionamento enquanto Percy ia chamar os outros dois.
Percy deixou os amigos em casa e levou Annabeth para a dele, ela iria dormir lá. Sally havia comprado uma cama para o quarto de hóspedes só por causa dela. A mãe de Percy confiava neles. Bom, confiava em Annabeth. A mochila de roupas que ela trouxera de casa antes da escola estava no quarto.
Percy subiu para tomar banho e Annabeth ficou na sala, conversando com Sally sobre as notas de Alec. Depois que Annabeth tomou banho e Percy fez a lição – como Sally conferiu, assim como fazia com Alec – os dois subiram para o quarto de Percy e foram analisar os papeis que Annabeth pegara na escola.
—Você já escolheu uma faculdade? – Annabeth perguntou, tirando post-its da mochila.
—Mais ou menos. Não é como se eu precisasse – ele deu de ombros. – Meu pai vai acabar escolhendo por mim de qualquer jeito.
—O que? E você vai deixar? – ela o olhou, espantada, largando os post-its no chão.
Eles já tinham falado de faculdades muitas e muitas vezes, mas geralmente era sobre o que Annabeth queria ou pretendia.
—Eu mal tenho dezoito anos. Não faço ideia do que quero da vida, mas sei que não quero confusão. Principalmente com o meu pai. Então, é, vou fazer a droga do curso de Administração que ele quer – Percy disse, calmo.
Annabeth parecia horrorizada.
—Não. Deve ter algo que você queira fazer. Algo que faça você feliz. Achei que queria fazer Administração, mas, Percy... Se não gosta disso, não tem absolutamente nenhum motivo para fazer. Seu pai não pode mandar no seu futuro, não desse jeito.
Percy fez um som que não expressava nem concordância nem discordância.
—Vamos lá... Se você me disser que não gostaria de ser pago para tirar fotos eu paro de falar agora mesmo – ela cruzou os braços.
Percy ficou olhando para ela. Sempre tivera certeza quanto simplesmente a fazer o que Poseidon queria. Por mais que amasse fotografar, nunca tinha visto isso como uma possibilidade de profissão. Talvez um hobby.
—Não vou dizer que não seria legal – ele deixou um pequeno sorriso se formar.
Enquanto ele pensava Annabeth tinha encontrado o programa de Fotografia de três universidades diferentes, que empurrou para ele.
—Olhar não pode fazer mal, não é? – ele pegou os panfletos.
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