Pokémon - Two Steel Friends
38 Visão Soturna
Notas iniciais
Pacientemente, meus olhos se abrem. Por um momento, tudo parecia estar em paz. Respiro fundo, apesar de minhas costas estarem doloridas. Estranhando, tento buscar na memória o que havia ocorrido. É aí que eu lembro de tudo. Visões nítidas do que havia acontecido. Rapidamente impulsiono todo meu corpo para frente, para me levantar, mas sou atingido por uma grande dor nas costas, e volto à cama, gemendo.
— Dessa vez não. – Diz uma voz. Seguindo o caminho dela, vejo Tom, sentado em um pufe, mexendo em seu Photopad – Suas costas ainda estão machucadas. Pense bem antes de sair correndo feito um doido. – Ele guarda o aparelho e olha para mim – Você sofreu uma pancada e tanto. Mas por sorte, nada está quebrado.
— Owly! – Tento me levantar, dessa vez com mais cuidado – Onde... Está o Owly?
Algo bate em meus pés. Steven. Ele se posiciona em frente da cama, impedindo que eu me movesse para fora da mesma.
— Agora ele está sendo tratado. – Ele pausa e respira fundo. Olhando para mim, com um semblante entristecido e preocupado, continua – Você precisa ser forte, Sony. Por ele e por você mesmo.
Sinto meu rosto começar a se contrair. Meus olhos doíam e pesavam, e eu sentia eles se tornarem mais e mais úmidos. Começo a soluçar. Steven emite alguns grunhidos. Ele tentava me reconfortar, mas seus olhos também estavam úmidos. Owly foi o primeiro Pokémon que capturei. Aquele momento era muito difícil. Então os flashs começam. Flashs dos momentos que tive com o meu Pokémon. Segurar já se tornou difícil demais, então eu desabo em lágrimas. Seguro minha cabeça com meus braços, apoiados sobre minhas pernas. O desespero toma conta de mim.
Thomas levanta-se e senta ao meu lado. Ele põe a mão sobre o meu ombro e tenta me reconfortar, mas nada funciona. Aquilo era minha culpa. Se eu não tivesse sido impulsivo... Se eu tivesse escutado aos avisos...
Mas algo dentro de mim sabia que não era minha culpa. Eu sabia que, não importava o quanto eu quisesse, isso iria acontecer, e talvez fosse ainda pior.
Eu fui avisado sobre tudo isso. Mas eu nunca pedi para ser.
● ● ●
O dia demorou para passar. Eu não tive forças para me animar ou sair da cama. Eu queria ver Owly, queria notícias, mas Thomas não cedia, pois isso podia piorar meu estado. Ele insistia que eu me alimentasse, mas a primeira refeição que eu fiz foi já tarde da noite, depois de muita insistência. Eu não sabia ao certo o que era isso. Eu não sabia se eu não queria comer, ou se a tristeza bloqueava minha fome, mas eu só consegui colocar, com dificuldade, algum alimento em meu estômago quando já estava passando mal.
Thomas deixou escapar que Silver também se preocupara comigo, mas tinha outras coisas para fazer, e assim que o dia melhorou, saiu do Centro sem avisar. Mas eu não ligava. Eu estava num estado em que eu não ligava para nada. Eu apenas estava triste.
Acabei recebendo a permissão para entrar no quarto de UTI que meu Pokémon estava. Ele estava em péssimo estado. Ele praticamente estava vivo por causa das máquinas. Eu não me conformava com isso. Era doloroso demais para mim.
— Por que ele tá preso nessas máquinas? Por que ele não é simplesmente curado na máquina? – Indagava-me, inconformado, com lágrimas caindo dos meus olhos.
— A máquina apenas serve para primeiros socorros. – Respondeu a Enfermeira Joy – Elas curam feridas provocadas por batalhas normais e repõe as energias dos Pokémon. Mas, infelizmente, esse tipo de máquina ainda não tem tecnologia o suficiente para cuidar de doenças e infecções ou ferimentos muito graves.
— Então... Então ele vai morrer?? – Digo, entrando em desespero. Meu rosto já estava ficando ensopado nessa altura.
— Não pense nisto. Estamos fazendo tudo o que podemos. Por favor, pense positivo. Se você ficar mal, seu Pokémon também se sentirá mal.
— C-certo... sniff... – Respondo, limpando meu rosto. Abaixo a minha cabeça e saio do sala.
Thomas estava no corredor. Percebendo minha situação, ele ofereceu um abraço. Não estava em condição de negar. Precisava de todo afeto possível. De volta ao meu quarto, ligo para minha mãe. Ela me reconforta e manda boas vibrações. O que me alegrou um pouco foi o fato de que meu irmão mais velho havia mandado notícias mais cedo naquele dia. Ele me mandou lembranças. Eu sentia falta do meu irmão. Ele ficaria orgulhoso de ver que eu estava me tornando um treinador, assim como ele falou que eu seria.
Sentado na cama, fico refletindo sobre tudo isso que estava me acontecendo. Tento respirar fundo e me encher de pensamentos positivos, mas era muito difícil. Talvez Steven fosse o único que me entendesse. Ele se negou a sair do meu lado desde o incidente, e tentava me animar toda a hora.
A porta do quarto então se abre e entram Silver e Tom. Silver me dá um “Oi” e pergunta como estou. Por educação, responde que estou melhorando, mas a angústia que eu sentia era muito forte para eu estar “melhor”. Na hora eu não dei bola, mas Silver estava muito mais compassivo. Ele então se vira pra Tom e começa a falar sobre o que ele havia descoberto sobre a tempestade de ontem. Pelo que parecia, o Epicentro da Tempestade foi no Lago da Fúria. Algumas pessoas clamavam que os Pokémon que residiam no lago estavam estressados antes da tempestade. Por que o Silver está se importando tanto com essa tempestade? Não era da minha conta. Ele também citou que haviam homens vestidos de preto suspeitos andando pelo Lago da Fúria, Mahogany e também Goldenrod.
Homens de Preto Suspeitos.
Eu já havia ouvido muito sobre isso. Saí do ócio e comecei a raciocinar. Por que essas pessoas estavam nestes locais tão específicos? E, aliás, que grupo seria este? Lembro da Equipe Rocket. Eles sempre usam Preto como seu uniforme. Faria sentido serem eles. Lembro então de Mujirou. Sua ultima aparição não pareceu ser muito importante, mas sua primeira... Ele havia sequestrado um grande número de Magnemites. Mas pra quê? Se o tal grupo suspeito fosse mesmo a infame Equipe Rocket, o que eles estariam planejando? Eles tinham algo a ver com a tempestade? Minha cabeça dói levemente e eu começo a me sentir estranho, meio tonto. A sensação começa novamente. Flashs começam a aparecer, mas não consigo distingui-los.
— Sony?
Saio do transe. Volto à respirar normal novamente. Fecho fortemente os olhos e balanço a cabeça. Olho para frente e ambos Silver e Thomas estavam olhando, surpresa estampada em seus olhos.
— Tudo bem aí? – Pergunta Tom — Você tava olhando vazio... Respirando forte...
— Tô, tô... Eu só... Tava pensando...
— Bom. Amanhã vamos ao Lago da Fúria... Se quiser... – Tom não completa a frase. Ele olha no meu rosto, que se virava, demonstrando pura falta de vontade — ... Eu já imaginava. A oferta ainda está aberta, tá?
Tom moveu-se em direção à recepção do Centro. Silver pareceu querer falar algo, mas ele desistiu e liberou a vontade com um suspiro seco, também caminhando em direção à Tom. Falando a verdade, eu não dava a mínima para o que ele fosse falar naquele momento. Com certeza seria algo do tipo “É um Pokémon fraco, então pra que se importar tanto!”, assim como ele falou do Amphy.
Não importava.
Fui junto de Steven ao quarto onde meu Pokémon repousava. Tomei uma cadeira e fiquei tomando conta dele. As máquinas faziam um barulho repetitivo e estressante. Mas, mesmo assim, eu acabei sendo vencido pelo sono, e dormi sentado, com a cabeça apoiada em uma parede fria.
● ● ●
— Você irá ficar com torcicolo. – Fala uma voz suave, mas num tom impaciente. Era uma enfermeira. Ela olhava para mim, tentando esboçar uma expressão de seriedade, mas acaba demonstrando mais pena do que qualquer outra coisa.
— Bom dia... – Falo, de forma vagarosa, quase gemendo. Tentando ajeitar meu pescoço, percebo que ela realmente tinha razão. Meu pescoço agora estava doendo horrores pela posição nada confortável que fiquei. Por sorte, alguém da equipe me deixou um cobertor. Olho para Owly. Ele, por algum motivo parece melhor. O barulho que as máquinas faziam pareciam mais lentos agora. Mais calmos – Owly está...?
— Ele está bem. Está se recuperando melhor que o previsto. Pode ficar tranquilo. – Meu coração voltou à bater normalmente com essas palavras. Um grande peso saiu de minhas costas – Mas... Você... – Ela me olha com certa pena e suspira – Eu gostaria que você se retirasse, pelo menos por algumas horas.
Aquilo foi um choque. O que ela estava dizendo? Pra eu abandonar meu Pokémon no momento que ele mais precisa? Bruscamente fui derrubando as cobertas no chão e me ajeitando na cadeira, Já sugando todo ar com a boca para falar tudo o que pensava, sem “coar”.
— Não... me entenda mal... – Ela interrompeu, antes que pudesse pronunciar qualquer coisa – Isso que peço é importante tanto para sua saúde quanto a de seu Pokémon. – Não entendo, mas saio da posição de ataque, para tentar absorver o que ela tentava me passar – Para o enfermo se recuperar completamente, os seus entes queridos não podem estar estressados. Seu Pokémon sente se você está bem ou não. Se você ficar cobrando muito, tanto de você quanto dele, ele pode absorver essa energia e isso irá prejudicá-lo.
— Mas eu... não tô...
— Sim, está. E aliás, essa alto cobrança também irá prejudicar você cada vez mais e mais. Tanto mental quanto fisicamente. Lembre-se: Mente sã, corpo sã. – Olho para baixo. Ela tinha razão. Eu estava muito depressivo, e se eu passasse isso para meu Pokémon, ele iria se recuperar mais lentamente. Pego o lençol no chão e começo a enrolá-lo sobre minhas mãos – Então é por isso que pedimos que você saia por hoje. Dê um passeio, tome um ar, alimente-se direito... Tente pensar um pouco menos no paciente. Sei que é difícil, mas é o necessário. Se algo ocorrer, ligaremos de imediato. O que acha?
Dou um longo suspiro, e levanto da cadeira, deixando o cobertor, todo enrolado, para trás, em cima da cadeira.
— Certo...
Saio da sala, relutante. Vou até o quarto onde estava hospedado antes e pego minha mochila. Não tinha um lugar fixo para ir, mas eu precisava sentir a luz do sol.
Já na recepção, dou de cara com Thomas. Ele esbanja grande alegria por me ver fora da UTI, mesmo com aquela cara fechada. Ele me dá um abraço de ombro e começa a tentar me animar.
— Bom dia, rapaz! O Owly está melhor?
— Sim... Eles pediram para que eu relaxasse um pouco quanto à isso.
— Você parece péssimo. – Diz Silver – Não parece ter dormido bem ou comido nada.
— É... Eu fiquei com dor no pescoço por dormir na cadeira... Mas não tô com fome...
— Olha, você precisa comer. – Silver começa a fuçar na mochila dele – Aqui, toma alguns biscoitos. Se você quer ser meu rival, então pelo menos tem que estar bem alimentado.
Sorrio e recolho os biscoitos. A quem eu estava enganando? Estava faminto.
— Por que não vem com a gente ao Lago da Fúria?... – Pergunta Thomas mais uma vez, esperançoso.
— Eu irei. Preciso respirar um pouco. – Falo, abrindo os pacote de biscoitos – Não é, Steven?
— Lairon! – Responde a criatura, sorrindo alegremente, ao ver seu treinador de volta com boas vibrações.
Saímos do Centro e nos movemos para o norte da cidade, inevitavelmente passando por aquela loja suspeita. O Vendedor com o bigode estava arrumando a calçada da loja. Por incrível que pareça, não houve muitos danos ao local, mesmo com a tempestade. Podíamos, obviamente, tomar a trilha da Rota 43 como caminho, mas a mesma podia estar facilmente alagada, fora o fato de ser uma rota de difícil acesso por si só, fazendo com que poucos treinadores gostassem de andar por ela. Diziam ser uma experiência gratificante, pelo fato de terem alguns Pokémon raros – e bem fortes – residindo o local. Esse porém era outro motivo para não tomar mos aquela Rota. Por algum motivo, todos os Pokémon na área ao norte de Mahogany estavam se comportando de maneira estranha.
A única maneira de nos locomovermos até lá, então, era por ônibus. Havia um terminal na cidade, e um dos ônibus era um Expresso para o Lago.
O terminal parecia movimentado. Ônibus iam e viam e filas enormes se formavam nas paradas dos ônibus. Exceto por uma – A parada do Lago da Fúria.
Não parecia que havia muita gente querendo ir pra lá. A maioria pareciam entusiastas, fotógrafos amadores, universitários fazendo pesquisas científicas “em nome da faculdade”... Haviam muitas pessoas voltando do Lago, entretanto. E estas pareciam estar com uma certa pressa.
Enquanto nos dirigíamos à nossa fila, percebi algo: Um rapaz de preto. Outro rapaz de preto... Agora eram dois rapazes e uma mulher. Os três de preto. Eles então pareciam falar em algum “telefone”.
— Déjà vu! – Exclamo. Ambos Silver e Thomas perguntam sobre o que eu falava – Eu acabei de ter um Déjà vu. Aquelas pessoas de preto... Elas...
— ATENÇÃO TODOS! DESCULPEM TOMAR O TEMPO DE VOCÊS, MAS ESTE SERÁ UM ASSALTO EM NOME DA EQUIPE ROCKET. COLABOREM E NINGUÉM SAIRÁ FERIDO! – Esbraveja a mulher. Então, do nada, vários homens e mulheres de preto começam a aparecer de toda parte, Todos eles com aquele mesmo emblema no torso de suas roupas: O característico “R” da equipe.
Steven rosna. Quatro membros correram até a parada que estávamos. Um Houndour estava com eles, já preparado para o ataque. O rosto de Silver estava vermelho, raiva era visível em seus olhos. Enquanto isso, Thomas procurava um jeito de esconder seu Photopad.
— Vocês aí. Passem seus pertences... – O rapaz olha para Steven – E seus Pokémon também. Vocês parecem ter uns Pokémon bem raros.
Me ponho na frente de Steven, que continua rosnando, arranhando suas garras no chão.
— Melhor colaborarem, ou então... – O capanga se abaixa e dá uns tapinhas na cabeça do Houndour, que rosna e começa a latir – sentirão como é gostoso levar um Fire Fang do nosso lindo cãozinho.
— VÃO SE DANAR! – Grita Silver. Ele saca uma Pokéball e a joga pra cima. O Houndour ataca, mas é bloqueado pelo Pokémon que sai da Pokéball – Croconaw – que contra-ataca usando um Aqua Tail. O Pokémon adversário é jogado para trás, latindo com dor.
— SEU PIRRALHO, COMO OUSA! – Grita o capanga. Os outros ficam sem saber o que fazer, pois não é muito comum que reajam à Equipe Rocket.
— S-Sil...
— VAI FICAR PARADO É? VOCÊ TEM A PORCARIA DE UM LAIRON, USE CONTRA ESSES VERMES!
— C... Certo! – Não soube como agir, mas tomei a frente. Não estava me sentindo bem para batalhar, mas teria que fazê-lo agora.
— Eu também ajudarei! Vamos, Arnie! – Diz Tom, liberando seu Arcanine.
— D-Droga... Eles tem Pokémon muito fortes... – Diz um Capanga, incerto.
— Vamos revidar, né, caramba! Você é um homem ou um Ratatta? – Pergunta a capanga, já pegando duas Pokéballs.
— MEU RATTATA É MUITO FORTE PRA SUA INFORMAÇÃO!! – Revida o rapaz, puxando uma Pokéball, provavelmente a que havia o Pokémon mencionado.
— PAREM DE VADEAR E BATALHEM A SÉRIO, INÚTEIS! – Gritou Silver – CROCONAW, BRICK BREAK NAQUELE HOUNDOUR!
— Entre na frente, Litwick! – Manda a Capanga. O Pokémon, por ser fantasma, intercepta o golpe do Croconaw, e de quebra, o queima com suas chamas, do alto de sua cabeça.
— Droga... DROGA!
— Você é um bobo se acha que vai ganhar da gente assim. Temos Pokémon muito bons à nossa disposição! Vá, Pelliper!
A moça, além de seu Pokémon vela, lança um Pokémon pássaro, com um grande bico, com cabeça e corpo praticamente desproporcionais. Sua plumagem era branca e azul, e ele emitia um som um pouco assustador.
Os outros capangas também estavam armados com seus Pokémon. O Houndour também estava voltando a se recuperar. Haviam capangas por toda a parte, muitos, inclusive, já haviam cometido seus crimes, alguns até roubado Pokémon. Era incrível como alguns capangas, inclusive, tinham Pokémon que não eram nativos da região de Johto ou Kanto. Claro. É normal encontrar um ou outro vivendo, por aqui, mas outros são extremamente raros de se encontrar selvagens.
Isso me faz pensar sobre quantas pessoas estes monstros já roubaram.
Isso me enchia de raiva, mas, ainda assim, eu não sabia se isso era suficiente para batalhar à sério com eles, já que eu estava preocupado com Owly no momento.
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