Pokémon - Two Steel Friends
36 O Dia Chuvoso.
Notas iniciais
Eu não havia acordado com o melhor dos humores. A luz que escorria pela janela era fraca. O dia provavelmente havia começado nublado. Ao contrário de mim, Thomas estava totalmente energizado, fazendo flexões. “Quer sentar nas minhas costas?” ele pergunta.
— Eu passo. – Respondo, com todo aquele mau-humor matinal. Despreguiço-me e começo a caminhar vagarosamente até o banheiro para lavar meu rosto.
— Alguém não acordou do lado certo da cama hoje, não? – Diz Tom, com um sorriso de orelha a orelha.
— A cama é encostada na parede. – Respondo, já entrando no banheiro.
— Que sem graça.
O banheiro estava parcialmente em penumbra. A única fonte de luz vinha de uma pequena janela no alto da parede. Eu não senti a necessidade de ligar as luzes visto que o banheiro ainda estava observável. O local era meio espaçoso. Paredes e piso branco, com algumas marcas pretas nos cantos das paredes e entre os ladrilhos. Havia um chuveiro no canto da parede, que graças a Deus era elétrico, uma pia e um sanitário que parecia confortável, mas todos sabem como a porcelana pode ser enganadora.
Dirijo-me para a pia e abro a torneira. Junto um pouco da água que escorria em minhas mãos e jogo-a de vez no meu rosto. A água estava incrivelmente fria. Se eu tinha qualquer resquício de sono em mim, ele se esvaiu completamente. Respiro fundo e repito o processo, agora sabendo o quanto a água estava fria. Após lavar meu rosto, seco-o com uma toalha de rosto que estava pendurada perto da pia. Ela parecia limpa, mas estava com cheiro de usada. Eu preferi não pensar em quem e como havia usado aquela toalha e sai do banheiro, me sentindo mais acordado agora.
— Bom dia, Tom!
— Eu ainda não me acostumei com essa sua bipolaridade... – Responde mexendo no seu Photopad, sentado na cama.
— A QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE BIPOLAR? – brinco.
— É disso que eu tô falando, haha! – Ele então levanta, deixando o seu Photopad na cama e começa a mexer na mochila – Eu vou me aprontar um pouco antes da gente sair, beleza? – Ele então pega suas coisas e entra no banheiro, fechando a porta. Aquilo iria demorar, e eu sabia disso.
Eu não tinha muito o que fazer. Tom já devia ter tomado café, ou então estava em algum tipo de “regime para manter a massa”, então resolvo ir pedir alguma coisa na Lanchonete do PMC*. “Um misto quente e um copo de chocolate irão dar conta.” pensei.
Após a refeição, vou direto ao campo de batalha público que tinha do lado do prédio. Ele é geralmente cheio de treinadores, batalhando uns com os outros, mas hoje estava quase desértico, provavelmente por causa do clima. Havia algumas pessoas conversando nos bancos, e dois garotos tendo uma batalha calma, apenas para testar ataques. Tiro Steven de sua Pokeball e me abaixo, para fazer um carinho em sua cabeça.
— Dormiu bem, grandão?
— Lairon! – Respondeu, sorrindo.
— Melhor a gente montar estratégias para o próximo Ginásio. – Digo, levantando-me – Ele é do tipo...
— Gelo! – Responde uma voz masculina. Viro-me para a porta que dá acesso ao Centro e acho Thomas, encostado na parede.
— Ah, Thomas! Eu achei que você fosse demorar mais...
— Nada, só fui ajeitar a barba.
— Mas você demorou quase meia hora pra isso!
— Quando você tiver uma você vai entender.
Dou de ombros e olho de novo para o campo de batalha. Parece que os dois garotos estavam brigando por que um dos Pokémon havia lançado um ataque muito forte no outro. A batalha parecia que ia ficar mais séria por um momento, mas na verdade quem começou a desferir ataques foram os próprios garotos uns contra os outros. Os Pokémon pareciam estar torcendo por seus treinadores.
“Há dias que tudo fica meio estranho.” penso.
Não muito depois da batalha, começa a chover. Os meninos esquecem sua briga e saem gritando, a procura de um teto. Deixamos o local e adentramos o PMC para nos protegermos da chuva.
● ● ●
A chuva demorou um certo tempo para cessar. Já era horário de almoço quando finalmente saímos do Centro. Havíamos almoçado no local, embora Thomas ficasse reclamando que “sabia preparar um macarrão melhor que aquele”. A cidade estava com um tom bem diferente. Cheia de poças, refletindo toda aquela cor acinzentada das nuvens. Passando por um dos portões principais da cidade, o ao leste, que dava acesso à rota 42, os guardas pediram para que tomássemos cuidado se passássemos por Mahogany, pois a cidade estava com risco de tempestades. Não liguei muito e arrastei Tom, que estava implorando para ficarmos na cidade até tempo melhorar, para o início da rota.
A rota era composta por basicamente árvores à direita e morros à esquerda. Mais para frente era possível ver o MT. Mortar, agigantando-se. A estrada de terra no meio da rota estava toda lamacenta pela chuva. Steven não gostava muito dessa lama, mas ele não estava preocupado com isso na hora. Ele apenas ficava admirando a grande montanha, sentindo vontade de subir nela.
A rota 42 não era apenas famosa por ter o MT. Mortar. Ela também continha dois pequenos riachos, que fluíam das montanhas e se encontravam em um pequeno lago. Se o céu estivesse azul, a paisagem seria ainda mais bonita. Enquanto caminhávamos, sentíamos um leve chuvisco. Isso não nos incomodou muito. Até Steven estava gostando dessa leve garoa. O problema é que o tempo acabou piorando imprevisivelmente, nos forçando a buscar abrigo dentro do MT. Mortar.
— Eu odeio esse cheiro de terra molhada. – Comento.
— Ué, por quê? É tão agradável!
— Agradável por que você não tem rinite! – Respondo, dando uma fungada para conter o muco que começara a formar dentro do meu nariz – Já até sinto minha garganta começar a doer.
— Dramático, heh.
Logo, nos sentamos na entrada da caverna. O barulho da chuva misturava-se com o barulho das cachoeiras que escorriam por dentro da caverna, que era levemente escura, sendo banhada apenas pelas luzes de buracos nas paredes e teto, sendo um deles o local por onde entramos. Thomas logo puxa seu Photopad, mas faz uma cara de desgosto segundos após usar o mesmo. A julgar pelo meu PokéGear, Thomas havia ficado sem sinal e não iria conseguir utilizar a Internet. Ele então guarda seu aparelho e bufa, se despojando e olhando pra cima. Eu percebi que o clima entre nós havia ficado meio “vazio”, e ambos estávamos ficando entediados. Eu nunca fui uma pessoa boa em iniciar conversas, nem tinha assuntos ao meu dispor a qualquer momento. Tive algumas tentativas antes de finalmente perguntar algo para o rapaz, já batendo o chão com os dedos para produzir algum som.
— ... Err... Então...
— Hm?
— É que... Sei lá... A gente se conhece faz tão pouco tempo e estamos viajando juntos... Praticamente não nos conhecemos...
— Parando pra pensar... Tem razão..
— Bem... Então...
— Hm?
— Sei lá, fala algo da sua vida?...
O rapaz respira e olha pra cima – Bom, o que falar? Tenho o sonho de me tornar repórter e quero fazer vestibular pra UG**. Meus pais, ou melhor, apenas meu pai, é contra, pois ele quer que eu me torne um cozinheiro e mantenha o negócio da família. Minha mãe nunca ligou pra o que eu faço ou deixe de fazer, desde que eu ganhe o dinheiro e status que ela me idealiza. – Ele suspira – Nunca fui um bom treinador como meus colegas de classe. A única insígnia que um dia eu tive foi roubada. No momento estou desempregado e meus pais só vão me ajudar a pagar meu Photopad se eu passar nesse bendito vestibular. Eu até tento fazer algum dinheiro com minhas fotos e uns bicos de “cara que aparece no outdoor”, mas as vezes o grande dilema é pagar esse bagulho que me custou uma fortuna, ou comer e ter onde dormir.
— Oh... Mas... Seus pais não deixam você ficar na sua casa?
— Em casa? Hah. Briguei feio com meu pai da última vez que estive lá. E minha mãe nem pra me defender...
— O que aconteceu?
Thomas suspira e não responde, fazendo uma cara nada amistosa, olhando para uma das cachoeiras dentro da caverna. Sinto-me mal e logo peço desculpas por possivelmente ter entrado em algum assunto delicado sobre a família dele. Ele sorri e olha pra mim de volta, soltando um sorriso reconfortante.
— Não se desculpe, não é culpa sua. Eu só... Não acho que posso contar sobre isso agora...
— Eu entendo... Sua vida parece meio chata... Mas você parece tão legal e feliz...
— ... Por trás de um sorriso numa foto, você não consegue saber como uma pessoa se sente por dentro, não?... – ficamos em silencio por alguns minutos. Thomas percebe o clima que criamos e resolve voltar a animar o ambiente – Mas, e você? Aposto que pelo menos você tem algo interessante pra dizer.
— Oh... E-eu?... – Respiro e penso no que falar da minha vida – Bem, eu estou colecionando insígnias. Quero ser o campeão de Johto desse ano, sabe... – Thomas ascende – Mas... O que eu realmente quero ser... digo, o que quero fazer da minha vida... Eu... Já pensei em tanta coisa... Ser um Detetive... Ser um Desenhista... Ser um Músico... ou até mesmo... dedicar minha vida apenas às batalhas... mas... Isso é meio viável, pelo que diz meu pai. Gym Leaders ganham pouco do governo, pois não são valorizados, então geralmente eles tem outro trabalho além desse. Ser da Elite 4 é extremamente difícil. É difícil para entrar, é difícil para se manter com o título, já que você não pode perder muitas batalhas, fora ser um título muito valorizado, então você tem que se acostumar com falar diante de muitos, e eu sou particularmente tímido.
— Dizem que um trabalho não é ruim se você gosta dele. Quer dizer, salário vai ser o de menos se você faz o que faz com paixão.
— Disso eu sei, fora que tem outras pessoas que se especializam em batalha também de várias outras formas – remuneradas ou não... Mas eu não tenho certeza se eu quero APENAS batalhar na vida, entende.
— Completamente. Eu como treinador sou um ótimo cozinheiro.
— Achei que você fosse um fotografo – respondo.
Rimos da situação, e eu decido continuar falando um pouco mais. Eu ainda não tinha falado muito de minha família. Meu pai teve que fazer uma viagem à trabalho para outra região. Meu irmão mais velho, que devia ter uns 25 anos agora, atualmente estava tentando viver a vida em Sinnoh. Dizia ele que tinha comprado uma loja por lá e tinha que tomar conta. Não recebi muitas notícias, mas minha mãe diz que ele está passando por uns apertos. É a única coisa que ela fala. Minha tia por parte de pai é uma ótima treinadora de tipos metálicos, tanto que virou Gym Leader. Meu tio... Ele é uma “lenda”. Não por ser muito bom, mas por que ele sumiu há muito tempo, e agora apenas temos histórias. Mas dizem que ele era um bom treinador, e que eu pareço um pouco com ele. Thomas escutou atentamente todos os detalhes que eu dava. Eu acabei falando tanto, que minha boca acabou ficando seca, e quando preparo-me para me refrescar com minha garrafa de água, acabamos percebendo que a chuva havia acabado. Fazendo um tempo, inclusive.
— Parece que a chuva cessou... – Abro minha mochila e coloco a minha garrafa dentro – Nós vamos agora?
— Pelo visto sim. – Ele se levanta e recolhe suas coisas. Faço o mesmo e peço para que Steven, que estava descansando perto de nós, levantasse para prosseguirmos.
A rota estava agora toda enlamaçada. O céu ainda estava nublado, e uma fina garoa descia. Nesta rota, haviam dois pequenos lagos, meio que escondidos entre morros e árvores. As pontes que atravessavam os lagos eram precárias, mal construídas, e por isso as pessoas preferiam atravessar o caminho por dentro do MT. Mortar. Com um pouco de coragem, atravessamos o primeiro lago. Thomas decide parar e tirar umas fotos da paisagem, e, enquanto isso, eu decido me embrenhar um pouco nas árvores para, digamos, me aliviar.
Antes de voltar, acabei sentindo o vento mudar de direção. O ar era puro, e uma tênue névoa parecia se concentrar. Não entendendo a situação, olho em volta, e percebo uma figura quadrúpede, longe, envolvida em uma densa névoa. A figura então desaparece, junto com a neblina e todo aquele vento que soprava. Eu estranho a situação, mas resolvo deixar pra pensar depois. Ainda há um longo caminho até Mahogany.
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