Pokémon: The New World - Interativa
14 Confissões De Um Pokémon Em Crise
Notas iniciais
– Mas o que... O-onde estou? – Perguntou a Kirlia azulada, atordoada.
Estava deitada em uma maca de hospital, em um quarto de um Pokémon Center. Era um quarto simples, somente a maca, uma pequena tevê sob uma cômoda de frente para o paciente e uma pequena mesinha para pôr comida. As paredes eram pintadas de branco, estavam descascando nas laterais por causa do desgaste. Um cômodo bem sem graça e sem vida alguma.
A menina se levanta com um pouco de dificuldade e vai até a porta. A abre e fecha cuidadosamente, para ninguém escutar. Segue pelos corredores até a sala de espera, de onde grande falatório vinha. Conseguiu chegar até lá sem muita dificuldade já que não havia nenhuma enfermeira tomando conta dos leitos, um desleixo grave da coordenação médica. Parou atrás de uma parede, de onde poderia escutar tudo que era dito e ver todos ali presentes sem ser notada por ninguém.
– Cara, que droga, cara! – Exclama Lairon, afinando um pouco a voz. – Afinal de contas, quem eram aqueles bruxos? Quer dizer, magos... Ah, sei lá o que eles eram!
– Só se identificaram como bruxos. E se forem mesmo, têm uma magia bem poderosa. Aquele Fairy Wind tá doendo a minha alma até agora... – Flygon fala, se doendo um pouco ao se movimentar bruscamente. Estava com uma pata, a cauda e a lateral da cabeça enfaixadas.
– E vocês por acaso poderiam nos explicar o que vocês são? E por que estavam atrás de mim e de Chimchar? – O Nidoking pergunta, também estava com a pata e a cauda enfaixadas. A seu lado, Chinchar com um pé engessado, se balançando freneticamente sentando na cadeira.
– Mas a gente já te explicou! – Grita Emolga. A esquilinha parecia estar bem, não aparentando dano. – Se não quer acreditar, não podemos fazer nada! – Cruza os braços e faz biquinho.
– E por acaso deveríamos acreditar? – O macaquinho de fogo pela primeira vez se pronuncia. – Vocês chegam, falam várias coisas absurdas sobre Lendários e tudo mais, e quer que acreditemos? Rá, tá bom.
– A garota já disse, se não quer acreditar, não podemos fazer nada! – Uma voz rouca e muito irritada fala lentamente, fazendo todos no local se calarem. Kirlia reconheceu imediatamente a voz mas não pôde ver o dono pois o mesmo se encontrava num canto isolado.
– Lucario, a gente sabe que você tá meio bolado pela Kirlia ter perdido o amuleto e por ela ter levado um beijo do Sylveon, — Flygon, após falar isso, se prende para segurar o riso e por pouco quase não consegue. – mas isso não te dá o direito de descontar em nós!
– Eu vou. Matar. Aquele. Sylveon. – O lutador fala entre dentes, pausando dramaticamente a frase. Kirlia ficou na ponta dos pés para poder ver o amigo, queria saber se estava ferido ou não. Conseguiu vê-lo, estava sentado no chão, encostado na parede, braços cruzados e pé em constante movimento.
– Ódio guardado não vai adiantar em nada. – Serperior surge sorrateiramente pela outra porta da recepção, assustando a alguns. Sua cauda também estava enfaixada. – O melhor será se você extravasar essa raiva.
– Realmente, é melhor que guardar pra você. – Tyrogue completa, aconselhando o companheiro. – Hey, gente, a Kirlia ainda não acordou não? Acho que alguém deve ir lá ver como ela está...
– Não preciso que fiquem o tempo todo cuidando de mim. – A menina resolveu aparecer para todos. – Eu estou bem, obrigada pela preocupação. – Ela então coloca a mão no pescoço e se lembra de seu amuleto roubado. – Eles realmente levaram meu pingente, né?
– Sim, levaram. Não se preocupe, nós vamos recuperar. – Lucario diz, confortante e mais calmo. – Eu te prometo, irei atrás daquela fadinha trap para recuperar seu amuleto.
– Oh, é muita gentileza sua, Lucario. – Kirlia responde, corando um pouco. Um sorriso desanimado, porém sincero, na boca.
– Poderíamos ter ganhado, se talvez alguns aqui não tivessem ficado só olhando as coisas acontecerem ao invés de ir agir...
– Só pra avisar que a indireta foi muito bem recebida, Tyrogue. – Lairon provoca, irônico. – E eu e Emolga fizemos sim alguma coisa, mas vocês nem nos deram atenção!
– Ah claro, fizeram tanta coisa que no final nem com arranhões saíram, quanta eficiência... – Chimchar também implica.
– Ataques a distância, já ouviu falar, meu bem? – Emolga rebate às provocações.
– Hey, gente, não vamos nos desentender! As coisas já estão complicadas demais para nós! – Flygon grita, numa tentativa falha de acabar com a troca de farpas.
– Também não acho que é uma boa ideia brigar agora, inclusive nem queria estar metido nisso, só acho que julgar os outros sem ver o que realmente fizeram pelo grupo é errado! – Lairon protesta, exaltado.
– Ah claro, como se você e sua amiguinha tivessem feito muita coisa. Nem saíram do lugar direito! – Chimchar continua, ignorando a '’advertência’’ de Flygon.
– Isso não quer dizer que não fizemos nada! Argh, quer saber de uma coisa, pensem o que vocês quiserem. – Lairon então corre para fora do hospital. Os outros ficam sem reação com aquilo, não sabiam '’a que lado defender’’.
– Vou no refeitório buscar algo para comer. Não me esperem aqui tão cedo. – Emolga também sai do ambiente, pegando o corredor à direita que dava direto na enorme cozinha do Centro.
– Pô, valeu mesmo hein, mal chegou no grupo e já consegue arrumar briga. Eu mereço. – Lucario bufa, revirando os olhos.
– Mas não fui eu quem começou, foi o Tyrogue! – Se defende o macaco de fogo, apontando para o lutador.
– Não importa quem começou, agora a besteira já foi dita! – Serperior se irrita e grita, calando a todos. – Enfim, vou tentar consertar isso conversando com Lairon. Flygon, poderia falar com a Emolga, por favor? – A dragão concorda e segue o corredor. A serpente sai da clínica médica a procura do amigo.
Rodou alguns metros até que o encontrou em uma praça pouco movimentada mais afastada do centro comercial da cidade, sentado observando alguns Azurill’s brincarem. Em sua face, uma expressão desanimada e triste. A serpente foi se aproximando lenta e silenciosamente, mas acabou sendo percebido.
– Não precisa se preocupar comigo, eu estou bem. Só quero um tempo sozinho. – Lairon fala, desanimado.
– Não, você não está bem. – Serperior fica a seu lado, o encarando. – Quer conversar sobre? Desabafar, talvez?
– Arh, não tem nada para conversar. É só que... – Ele para, analisando as melhores palavras para usar. – E-eu tentei ajudar, mas, como de costume, ninguém me percebeu. ''Ah, por quê reparar naquele tal de Lairon se temos Pokémon mais poderosos no time?’’ é sempre assim!
– Hm, poderia me explicar melhor isso? – Serperior se mostrava atencioso, e mesmo já entendendo o que acabara de ser dito, pediu uma explicação a fim de fazer o outro desabafar tudo o que queria.
– Tudo bem, pense comigo. Por que raios prestariam atenção em mim se temos batalhando por nós um Lucario, uma Kirlia, uma Flygon e um Nidoking? Eles são de raças fortes por natureza, a Kirlia mesmo ainda não estando em estágio final é bem poderosa e aprende uma variedade de ataques. Já eu, só começarei a valer alguma coisa quando evoluir. – Suspira, com ar derrotado.
– Bem, até dá pra entender seu ponto de vista das coisas. – Serperior diz, pensativo. – Mas isso não tem muito a ver com a acusação que lhe fizeram.
– É claro que tem, cara! – Exclama Lairon, exaltado, mas logo voltando a se acalmar. – Deixa eu ver o que eu posso fazer pra você entender melhor. Na batalha que tivemos mais cedo, seja sincero, em quem você mais apostou? Do nosso time?
– Admito que pensei que Lucario e Flygon junto com a Latias pudessem cuidar daqueles três. Mas acabou que a Flygon e sua Guardiã nada conseguiram fazer e Lucario foi incapacitado de se mover logo no finalzinho da luta, mas acho que a culpa por perdemos não foi só deles, e sim de todos nós. Sabe, acho que só perdemos aquela luta porque nenhum de nós se empenhou direito. Certo que aquele trio era bem forte, mas s..
– Como você sabe que eu não me empenhei em derrotá-los se estava prestando atenção no Lucario e na Flygon? – Lairon o corta. O menor fica esperando uma resposta do esverdeado, resposta essa que não recebe. – Viu? Entende o que eu quero dizer agora?
– ... Tem razão. Depositamos tantas esperanças nos '’mais fortes’’ que esquecemos de analisar o que os ‘'mais fracos’’ faziam pelo grupo. No final, com a nossa derrota, acabamos culpando você e a Emolga, sendo que na verdade nem vimos o que vocês fizeram para nos ajudar. Lucario e os outros não levaram a mesma culpa porque acompanhamos todos os movimentos deles. – Serperior conclui. — É isso que te incomoda, não?
– Exatamente. – Lairon estava cabisbaixo e aparentava um pouco de tristeza. – Sabe, é chato os outros não reconhecerem seu esforço em uma batalha. Tá, eu e a Emolga realmente não fizemos lá essas coisas, mas tentamos ajudar, sim!! Mas nem mesmo você, que é tão observador, reparou. É, fazer o que, acho que o meu problema só se resolve com a minha evolução para Aggron mesmo.
– Hey, não é bem assim! Você, mesmo na forma de Lairon, pode fazer alguma coisa digna de ser notada por todos! É só você procurar uma '’missão’’ a qual você se encaixe bem. Acho que, um dos fatores para você e a Emolga terem saído como '’os que nada fizeram’’ hoje foi porque aquela batalha requeria mais velocidade e astúcia, coisa que, convenhamos, vocês dois não possuem.
– É, esse fator também não ajudou a gente. Emolga não tem astúcia nem percepção nenhuma das coisas, e eu mal consigo correr. Mismagius, Sylveon e Delphox eram bem rápidos, atacar eles foi realmente complicado.
– Sim, até mesmo para mim foi um pouco difícil, só consegui acertar a Agatha porque a peguei distraída. – Serperior dá a palavra final da conversa.
O silêncio se instala entre os dois. Os Azurill’s riam e se divertiam ali o máximo que podiam, tirando alguns risos dos dois mais velhos.
– Sabe, independente de eu ser notado ou não nas lutas, eu gostaria mesmo de evoluir logo para Aggron. – Lairon recomeça a conversa.
– Por que toda essa obsessão pela evolução? Eu poderia saber? – Serperior indaga, curioso.
– É que, eu gostaria de ser igual ao meu pai. – Ao falar isso, Lairon acaba soltando um sorriso involuntário. – Sei que isso é meio infantil, mas fazer o que se é isso que eu quero. Ele sempre foi uma espécie de muralha viva, raramente perdia as lutas em que entrava. Sempre na defesa, não importava quantos ataques levasse, ele continuava em pé, e ainda conseguia contra-atacar o adversário. Ele é até hoje minha maior inspiração.
– Não é infantil, Lairon. Afinal, se seu pai for realmente tudo isso que diz, qualquer um gostaria de se igualar a ele, não? Mas, por que se refere a ele no passado?
– Porque não sei se ele ainda é vivo em meio a todo esse caos que a Terra está entrando. – Responde, com a voz sem vida. – Sabe, já faz um tempo que não vejo nem ele nem o resto de minha família. Foi por causa de um tsunami que atingiu a cidade em que eu vivia. Em meio a correria, me perdi de todos, e desde aquele dia nunca mais os consegui achar.
– Oh, sinto muito, se eu soubesse que era por este motivo nem teria tocado no assunto... – Diz Serperior, com sinceridade e de certa forma abalado pela história conturbada do amigo.
– Tudo bem, você não sabia, não têm porquê se desculpar. – Sorri o metálico, um sorriso fraco porém expressivo. – Vamos voltar ao Poké Center? Já devem estar preocupados com a gente, já faz um tempo que estamos aqui.
– Certamente, vamos voltar então. – Serperior começa indo na frente, Lairon ainda demora um pouco para começar a andar.
{...}
– Serperior? Serperior, acorda, cara!
– Hm? O que você quer, Lairon? São duas da manhã! – O Grass bufa, irritado por ter sido acordado.
Duas da manhã. Para ser mais exato, duas e vinte e cinco da manhã. Todo o Centro Pokémon já dormia, exceto por Lairon, que estava bem eufórico que o normal para essa hora. No quarto de Serperior, o menor já o estava chamando incessantemente à algum tempo, só obtendo resultado agora.
– Eu sei, eu sei! Acontece que... Eu vi aquela Delphox bruxa lá no Vale do Crepúsculo!!
– A Agatha? – Pergunta, ainda meio sonolento e com a voz instável. – Espera aí, o que raios você tava fazendo lá no Vale à essa hora?
– Eu tava sem sono e resolvi ir pra lá ver a lua cheia... Ah, isso não vem ao caso agora! A raposa ainda tá lá, vamos abordá-la!
– Com qual finalidade?
– Recuperar o amuleto da Kirlia oras! Vamos, antes que ela vá embora!! – Insiste o rochoso.
– Acho que isso não é uma boa ideia, cara...
– E daí? Vem logo! – Bruscamente puxa o amigo da cama, que se vendo forçado daquele jeito, por fim aceita ir ao vale.
Ao chegarem lá, silenciosamente o metálico guia o esverdeado ao local onde supostamente Agatha estaria. E realmente estava.
A raposa de fogo se encontrava sentada em uma pedra, observava com encanto a bela lua que iluminava a noite. Estava com sua coloração preta e vermelha (pelo menos parecia estar, a escuridão pode ter dado uma escurecida na cor real dela) e portava um cachecol azul envolta do pescoço. Serperior e Lairon se abaixaram atrás de uma enorme moita à alguns metros da bruxa, que pareceu não perceber nenhuma aproximação.
– Viu? Eu disse que ela estava aqui! – Lairon exclama um pouco alto demais, atraindo a atenção da garota que rapidamente se vira para trás, mas nada vê devido às moitas que escondiam os dois '’espiões’’.
– Xiu, fale baixo! – Serperior bate com sua cauda na cabeça do amigo. – E realmente, parece ser ela, mas também pode ser qualquer outra Delphox que decidiu vir aqui hoje.
– É claro que é aquela bruxa! Ela é negra! E olhe ali, acima do cachecol, dá pra ver um colar. Com certeza é o amuleto da Kirlia que está com ela!
– Hey, é verdade. – Serperior analisa melhor. Por fim, consegue ver o tal pingente. – Só não me lembro da Delphox de mais cedo usar um cachecol...
A raposa repentinamente se levanta da pedra e começa a sair do vale pela floresta que havia nele. Quer dizer, pela floresta que aparentava haver...
– Ela tá fugindo por aquela floresta!! Serperior, vamos atrás dela! Rápido! – Lairon exclama de um jeito mandão, já começando a seguir a garota.
– Depois de me pedir tão delicadamente assim nem tem como recusar, vamos perseguir ela. – Diz, vagarosamente rastejando atrás do Steel. – '’Péra’’, desde quando essa floresta existe? Até ontem de manhã isso aqui era só um campo aberto...
Os garotos vão a seguindo cautelosa e silenciosamente, queriam passar despercebidos, só sendo notados no momento certo. E assim, o trio adentra a floresta que teoricamente não deveria existir ali.
{...}
– Hey, Kirlia?
– L-Lucario? O que faz aqui? Tô tentando dormir!
Em um outro quarto do Poké Center, Lucario também tentava acordar Kirlia, que acabou se irritando um bocado por ter tido seu sono interrompido. O lutador aparentava estar com sono também, e com um pouco de frio, já que se enrolava em sua capa a todo tempo.
– B-bem, éhr... Se importaria de ir comigo até lá fora? – Pergunta, meio encabulado, o Fighting.
– Agora?!? Mas já é de madrugada! – Exclama a fada.
– E-eu sei, é só que... Tem algo que eu queria te mostrar.
– Ah, tudo bem. Só espero que seja algo que realmente valha a pena. – Ela concorda relutante.
Os dois saem em silêncio do Poké Center. Lucario guia a amiga pela cidade, cada vez mais eles se afastavam do centro comercial e residencial.
– Afinal de contas, onde está me levando? – A fada azulada, impaciente e curiosa, pergunta.
– Bom... Lembra que você disse que queria ver a lua cheia lá no Vale do Crepúsculo?
– Sim, lembro. Lembro também que o Serperior não deixou porque não pretendíamos ficar hospedados aqui durante a noite.
– Exato. Mas os planos mudaram, acabamos por ficar nos quartos do Centro Pokémon para nos recuperarmos. Então, acho que agora não atrasará em nada o grupo se você sair para ver a lua.
Ao acabar de dizer isso, Kirlia e Lucario chegam ao Vale do Crepúsculo. A lua refletia em todo o gramado do local, a luz rosada da mesma realmente dava um aspecto lindo e mágico ao campo. A Psychic, assim que o vê, se encanta e abre um enorme sorriso. Logo, ela corre para a pedra que havia na beira do penhasco, se senta lá e começa a olhar fixamente para a lua. Lucario vai atrás dela e se senta a seu lado.
– Nossa, é realmente lindo!!
– Sim, é.- Lucario diz, um tanto indiferente. – Bem, acho que fui um pouco culpado por terem levado seu amuleto, se eu tivesse me esforçado mais poderia me livrar da paralisia e recuperá-lo daquele Sylveon emo. Para te recompensar, pensei em te trazer aqui esta noite. E então? Fiz uma boa escolha?
– Wow, é a melhor recompensa que eu poderia ganhar. Isso aqui é maravilhoso! – Exclama, alegre e sorridente. – Obrigada, Lucario. Obrigada mesmo.
– Não tem de que. – O metálico dá um sorriso simples, porém sincero para a Fairy.
Kirlia sorri novamente e encosta sua cabeça no braço do encapuzado, que pareceu surpreso com a ação, mas nada fez para impedir. E assim o '’casal’’ passa o resto de sua noite, observando a tão formosa lua que iluminada tão graciosamente o campo.
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