Pokémon - Reconquest
4 Capítulo 3: Receio
Notas iniciais
Não havia dúvidas. Alguém havia gritado de forma apavorada e Kristen se sentiu gelado ao reconhecer uma voz feminina bem jovem. Tyrogue não ouvira nada, mas sentia a tensão de seu treinador e procurava, em vão, enxergar algo na densa escuridão atrás de si, intensificada pela névoa noturna.
Kristen cerrou os punhos por instinto, tentando desesperadamente enxergar o mínimo vulto que fosse, qualquer dica do que pudesse estar acontecendo. Elucubrava quantos Pokémon selvagens agressivos com seu território podiam se esconder naquele negrume vegetativo e embaçado quando ouviu o segundo grito cortar o ar. Parecia realmente muito distante e se olhasse para Tyrogue naquele momento, perceberia que ele ainda não havia ouvido nada. Mas dessa vez não havia como se enganar: não era um mero som desesperado, era um claro grito de socorro.
Atirando ao alto toda a cautela, Kristen correu imprudentemente na direção do som, embrenhando-se de forma inconseqüente e irreversível na mata. Podia ouvir, muito atrás, Tyrogue berrando e se esforçando para acompanhá-lo, mas incapaz de cobrir com mero esforço o espaço percorrido pelas pernas quatro vezes maiores que as suas.
Kristen enxergava o suficiente apenas para ver as silhuetas das árvores, evitando com isso um choque direto com os troncos, mas várias vezes só percebeu em cima da hora e corrigiu o trajeto usando os braços para proteger o rosto. O resultado foi uma porção de arranhões e hematomas com os quais ele não se importava – que, na verdade, não o faziam sentir dor alguma.
Aos poucos podia perceber uma ligeira iluminação se elevando das sombras à frente, o que não fazia o menor sentido para ele, já que se enfurnava cada vez mais naquela prisão de troncos e folhas.
Menos de três minutos de correria depois, Kristen desembocou numa clareira de tamanho respeitável com uma tímida fogueira no meio. Derrapando, controlou a respiração por puro instinto e varreu o local com os olhos. Viu três vultos: dois grandes de pé e um minúsculo, deitado num ângulo estranho à frente deles, mas se mexendo discretamente.
- HEY! O QUE ESTÃO FAZENDO?
Notando apenas brevemente as roupas rasgadas e as feições delicadas da menina no chão, Kristen correu na direção dos outros dois, que não esperavam a investida. O primeiro deles sequer teve chance de reagir quando a sola da sapatilha de Kristen afundou-se em seu abdômen com uma força absurda. Desequilibrando-se vários metros para trás, o homem barbudo e careca caiu curvado sobre o próprio corpo, contorcendo-se e gemendo numa voz ridiculamente baixa – tudo que seu fôlego permitia.
O outro homem vestia-se com uma blusa vermelha e uma calça preta e o rosto cadavérico trazia olheiras assustadoras. Só então Kristen reparou que ele carregava um pedaço de madeira lascada de meio metro numa das mãos.
- Vai aprender a não se meter onde não foi chamado, moleque!
Kristen desviou sem a menor dificuldade da primeira estocada, administrando movimentos calculados. O segundo veio mais violento, porém mais aberto; Kristen curvou-se para trás, desviando e avançando na direção do homem imediatamente depois. Quando este tentou mudar o sentido da arma para um retorno, Kristen já atingira o raio de ação que desejava.
Colocou a mão esquerda na base da madeira e a outra no antebraço do agressor de forma sincronizada, fazendo um movimento circular no mesmo sentido do golpe já fracassado. Como resultado, os dedos do oponente perderam a firmeza sobre seu instrumento, que caiu ao chão vários metros atrás de Kristen.
Sem perder a oportunidade, Kristen segurou o pulso do homem com a mão que estava agora livre, torcendo-o de forma ampla e precisa. Menos de dois segundos depois do último golpe de bastão, o homem jazia de joelhos numa posição extremamente desconfortável, de costas para Kristen e sem poder mover um músculo relevante sequer sem ter o pulso partido. Kristen não o verbalizara, mas a dor em seu pulso era alerta suficiente.
Kristen se virou ao ouvir o grito que reconheceu como sendo de seu Tyrogue, que acabara de atingir o braço do primeiro homem derrubado com uma voadora espalhafatosa mas precisa. Este deixou cair o canivete de ponta fina que carregava na mão livre – a outra ainda apoiava o estômago, de modo que ele mantinha o corpo curvado.
- Tyrogue!
Tyrogue respondeu com um grito de batalha, postando os dois braços diante do rosto e encarando o humano muito maior que ele de forma furiosa. Este, por sua vez, pôs a mão no cinto e retirou uma Pokébola, arreganhando os dentes.
- Seus intrometidos!
Quando ele atirou a Pokébola para o alto, Kristen viu se formar no ar o vulto de uma ave pequena, indistinguível naquela névoa. Ela descreveu um círculo no ar, abrindo bem as asas e descendo num movimento rasante com o bico afiado mirando certeiramente a clavícula de Tyrogue, revelando sua identidade ao passar feito um borrão pela luz da fogueira.
Este se desviou de última hora da investida principal, mas as garras do Spearow gravaram três feios arranhões no lado esquerdo de seu peitoral. O sangue escorreu e Tyrogue não obteve muito sucesso ao tentar esconder a expressão de dor, embora se mantivesse firme.
- Acabe com ele dessa vez, Spearow!
Quando o pássaro descreveu o segundo arco, Tyrogue não parecia querer desviar. Olhava confiante para Spearow, mas não havia como saber se sua estratégia era apenas arriscada ou completamente suicida.
- TYROGUE!
Spearow quase sentia seu bico faturando um generoso naco de carne quando um minúsculo quadrúpede saltou sobre o Pokémon lutador e cabeceou-o certeiramente no dorso, bem no meio das duas asas.
A ave foi atirada a vários metros de distância num movimento rotatório, mas recuperou o equilíbrio de alguma forma, aprumando-se e batendo as asas por uns segundos para recuperar a estabilidade.
O momento de distração custara a Kristen seu domínio sobre o oponente. Com seus reflexos de lutador, conseguiu pôr as mãos diante do rosto a tempo de evitar que o canivete atirado o acertasse no rosto. Sentiu a mão direita fazer contato com a lateral da arma fria e bater em algum ponto desconhecido da escuridão.
O homem que ele prendia engatinhara para longe e Kristen só olhou a tempo de ver o brilho vermelho materializando diante dele uma aranha verde com detalhes em amarelo, preto e vermelho, cujo corpo era quase do tamanho do seu Tyrogue. O homem recém-libertado se mantinha agora de pé com uma Pokébola na mão direita e a esquerda massageando o outro pulso.
- Se vocês querem resolver isso com Pokémon, então será com Pokémon!
Só então Kristen se lembrou de que o Eevee estava do seu lado da linha. Olhando por cima do ombro, viu que a menina se levantara. À luz tremeluzente da fogueira, ela parecia ainda mais suja e maltratada, mas trazia no rosto uma expressão obstinada e uma Pokébola nas mãos.
- Quem é você? – perguntou a garota, num tom bastante agressivo.
- Podemos discutir isso depois que nos livrarmos da confusão.
Tarde demais. Spinarak cuspiu uma grossa teia branca em linha que se projetou na direção de Tyrogue. O mesmo sentiu a perna esquerda se atar desconfortavelmente ao chão, mas não havia tempo para avaliar estragos; o bico do já recuperado Spearow brilhava de forma ameaçadora. A ave abriu as asas, mas a menina se adiantou:
- Use a areia, Eevee!
Eevee virou-se imediatamente de costas para a ave, alternando escavadas com as patas traseiras e despejando uma chuva de areia em Spearow, inclusive em seus olhos. A ave sacudiu-se, incomodada, mas isso custara a Eevee a liberdade: uma nova teia surgiu, atando suas duas patas dianteiras e sua cabeça ao chão.
- Agora, Spearow! – urrou seu treinador – Em linha reta na sua frente, pegue o Eevee primeiro!
Sem ter a menor noção visual do que se passava, Spearow confiou em seu treinador. Mergulhou cegamente na direção da raposa e a menina atrás de Kristen não conteve o grito desesperado. Kristen começou a se mover na direção deles, mas não daria tempo.
O sangue espirrou desagradavelmente quando o rígido bico varou a carne de Tyrogue. Praticamente atirando-se sobre Eevee do jeito que seu pé preso permitia, este se tornara voluntariamente o alvo do ataque. O bico cravou-se em seu ombro, mas não sem prejuízo para o oponente. Tyrogue havia agarrado o pássaro com as duas mãos e sua frágil estrutura óssea se debatia em agonia sob os dedos bem treinados do lutador.
- TYROGUE! O QUE ESTÁ FAZENDO?
Tyrogue esticou os braços com a ave na ponta e puxou-a com tudo para si, chocando a própria cabeça contra o topo da cabeça da ave. Repetiu o processo outras duas vezes e atirou a ave na direção oposta à da lareira, com as penas bastante amassadas e um hematoma ensanguentado na cabeça, visivelmente desacordado.
- Merda, Spearow!
- Spinarak, enrole-os por completo com a teia!
Spinarak tornou a cuspir teias, mas Tyrogue nem se deu conta da cascata de sangue que escorria de seu feio ferimento, abrindo os braços diante de Eevee e sentindo o tronco ser enrolado pela seda resistente. Quando sentiu que este estava espesso o bastante, Tyrogue agarrou o fio da teia com as duas mãos e puxou o corpo para trás com força.
O frágil corpo de Spinarak não suportou a pressão e foi puxado pela própria teia, precipitando-se no ar em alta velocidade bem na direção de um dos punhos de Tyrogue, cujo impacto projetou-o praticamente aos pés do próprio treinador, bem longe do embate. Este olhou para baixo, sem parecer acreditar. Retornou o próprio Pokémon, reparando que seu companheiro já fizera o mesmo com o Spearow abatido.
Tyrogue começava a sentir os efeitos dos combates consecutivos. Além das feridas expostas – uma delas bem grave -, havia os impactos menores que ele suportava, desde o confronto com Marill até as próprias cabeçadas no Spearow. Sentiu a vista duplicar, em seguida embaçar e, por um momento, só não caiu no chão porque a rede de seda em seu tronco e pernas não permitia. Manteve-se, porém, teimosamente de pé diante de Eevee num gesto de proteção.
A menina correu os cinco passos que a separavam dos Pokémon, caindo de joelhos e atacando ferozmente a seda com as unhas, esforço totalmente feito em vão. Kristen se adiantou, ficando entre o grupo e os dois criminosos, este distantes entre si por mais de cinco metros.
- Agora é comigo. Atacaram uma menina... dois contra um... usaram armas. Se tem uma coisa que eu não tolero, é covardia.
Ambos pressentiram o perigo na voz de Kristen e já tinham uma ótima idéia do que ele era capaz. Entreolhando-se com um discreto aceno, ambos deram as costas deliberadamente e correram em direções opostas, perdendo-se no escuro da floresta. Kristen não lamentou nem um pouco. Apenas olhou para os espaços agora vazios onde eles estavam por uns instantes, em seguida aproximou-se dos Pokémon, agachando-se diante de Tyrogue e amparando-o com uma das mãos.
Olhou de forma bastante preocupada para o ferimento aberto que manchava a seda de vermelho a uma velocidade assustadora. A menina aferrava as unhas sem esmalte à prisão dos Pokémon, mas sem sucesso, começando a entrar em pânico.
- Hey, fique calma! Espere um minuto.
Kristen virou-se e ficou de gatas na grama, tateando toda a extensão do chão. A menina sequer lhe deu atenção, até que ele retornou com o canivete que o homem havia atirado nele antes.
- Adoro esses canivetes...
Virando o instrumento ao contrário, Kristen friccionou o isqueiro no cabo e uma chama discreta surgiu e logo se apagou. Imaginando o trabalho que teriam tido para acender a fogueira de pequeno porte que os iluminava, Kristen protegeu o isqueiro com a outra mão em concha e acendeu-o mais uma vez.
- O que está fazendo? – perguntou a menina, impaciente e desesperada.
- Shhh... apenas observe.
Kristen roçou com cuidado a chama do isqueiro na teia que prendia o tronco de Tyrogue. A chama não lambia o fio, morrendo logo por causa da umidade, mas carbonizava o tecido com incrível rapidez. Logo havia apenas uma espécie de roupa negra revestindo o tronco de Tyrogue e Kristen passou o canivete com muito cuidado do peito ao abdômen, dividindo a armadura de seda em duas partes.
Ele repetiu o processo com os pés de Tyrogue, até que esses se descolassem do chão. Em seguida entregou o canivete-isqueiro à menina e arrancou com as mãos os restos de seda de Tyrogue, que desabou em seus braços, desmaiado.
Kristen deitou-o com cuidado no chão, avaliando o buraco no ombro da melhor forma que conseguia com aquela iluminação precária. Sem pensar duas vezes, arrancou a própria camisa pela cabeça e rasgou-a em duas. Com o pedaço menor, ele limpou todo o sangue que escorrera pelo tronco de Tyrogue e pressionou o ferimento no exato instante em que a menina acabara de libertar seu Eevee, que estava bastante sujo de terra e seda, mas não parecia, de forma alguma, machucado.
A menina observou com atenção quando Kristen apoiou a cabeça mole de Tyrogue sobre sua perna, enrolando todo o lado esquerdo de seu peito e ombro com o outro pedaço da blusa. Apertou o nó com força e largou-se na grama, limpando o suor da testa com um suspiro.
Só então se deu conta de que a menina o olhava bem atentamente, sem deixar de notar, porém, que ela mantinha a expressão desconfiada e apertava o cabo do canivete com força entre os dedos.
- Eu... ahn... me chamo Kristen.
- Ryla Mazoku. Você é o tal do lutador que estão falando na TV, não é?
O nome dela fora dito de forma seca e ríspida, como se ela quisesse dizer antes d’ele perguntar. Já a pergunta parecia sinceramente curiosa.
- Hã... sim, sou eu. O que aconteceu, afinal?
Kristen tocou o braço dela e ela se retraiu, colocando o canivete diante do corpo e parecendo novamente ressabiada. Kristen retirou a mão como se tivesse se queimado, tentando passar um pedido silencioso de desculpas no olhar.
Se encararam por uns instantes e Kristen pôde notar o quanto ela era bonita sob as feições ariscas e a sujeira. Seus cabelos eram do tom mais neutro de preto que Kristen já vira, escorrendo até o ombro, desgrenhados e sujos de terra batida. Tinha a estrutura corporal pequena, mas as formas ligeiramente arredondas de quem fora gordo na infância: braços e coxas polpudos, bochechas redondas e seios bastante firmes de tamanho médio. A pele morena e os olhos grandes e muito expressivos que quase não piscavam davam a Kristen a impressão de que estava lidando muito de perto com algum animal ferido ou acuado, bastante assustado, mas ao mesmo tempo muito carente, apenas sem saber em quem confiar.
Trajava uma blusa azul com uma estampa impossível de distinguir sob a terra. Sua calça jeans estava bastante surrada e usava bizarras pantufas igualmente sujas que pareciam ter o formato de algum animal escuro. A blusa estava com um enorme rasgo na parte frontal do abdômen e ele não pôde deixar de notar que seus dedos gorduchos tremiam de frio, ausentes de luvas.
- Desculpe... eu não quis... assustá-la nem nada do tipo.
- Como você apareceu do nada?
- Ah... eu ouvi seus gritos.
- Hum. Estava por perto? – ela parecia mais desconfiada a cada pergunta, o que deixava Kristen nervoso.
- Pra dizer a verdade, não faço a mínima idéia. Me guiei pelo barulho dos gritos e depois pela fogueira... e quando vi a situação, achei que devia agir primeiro e perguntar depois.
- Hum.
Eevee, agora livre, rodeava o inconsciente Tyrogue com uma expressão triste. Kristen se pôs de pé e esfregou a sujeira das calças. Estendeu a mão para Ryla por hábito, mas ela preferiu se erguer sozinha, sempre mantendo os olhos em Kristen, com o canivete bem firme na mão.
- Escuta... por que não me conta o que houve? Eles eram ladrões ou algo do tipo?
Pela primeira vez, ela desviou o olhar. Por um breve instante, encarou o chão, mas logo pareceu tomar coragem, tornando a fitar o mais novo conhecido.
- É... algo do tipo. Eu tentei buscar minha faca na barraca, mas eles rasgaram a lona e me puxaram de lá antes.
Ela apontou com a cabeça a barraca na qual Kristen não havia reparado. A barraca era de lona simples e ainda menor que a dele, mas algo muito afiado perfizera um rasgo vertical numa das laterais da lona, inutilizando-a completamente. Ryla ficou cabisbaixa e Kristen observou-a de perto.
- Eu juntei um ano pra conseguir essa barraca. E isso acontece no meu primeiro dia de viagem...
- Olha... minha barraca não é grande para os dois, mas...
- Mas o que? – cortou Ryla — Eu não vou dormir dentro de uma barraca com você, pode esquecer.
- Não é nada disso. – Kristen ergueu os braços, se apressando em explicar, percebendo que a paranoia dela era constante – Olha, não temos como andar até um Centro Pokémon a essa hora, muito menos procurar uma hospedagem. Amanhã posso lhe comprar uma barraca, por isso eu não me importo de dormir do lado de...
- Ei, pára por aí! Eu te conheci hoje, não saio aceitando presentes de homens estranhos que acabaram de me conhecer. Geralmente isso significa que vão se aproveitar de mim.
Kristen coçou a cabeça, percebendo que seria muito difícil convencê-la. Eevee farejava todo o corpo de Tyrogue, quase compulsivamente.
- Em todo o caso, é melhor você ficar perto de mim, pelo menos por hoje. Pode ficar com o canivete e eu ando na frente se você se sente mais confortável estando no controle. Mas se esses caras voltarem, você estará em perigo... sem falar que pode haver outros. Não tem fogueira onde eu estou, eles não vão me achar tão fácil quanto te acharam. Pegue suas coisas e vamos lá, pela manhã decidimos como ficam as coisas.
- Hunf. Por que você me ajudaria se também acabou de me conhecer.
Kristen, que já começava a recolher a lona danificada da barraca dela, colocou a cabeça pra fora, depositando uma mochila preta remendada e um velho par de tênis na grama, um deles com a sola praticamente solta. Ele sorria de maneira satisfeita.
- Dentre as muitas coisas que meu pai me ensinou, estavam o cavalheirismo e a caridade. Não posso deixar uma garota abandonada no meio da floresta. Você claramente também não tem dinheiro, então...
- Hey, isso não é da sua conta! – Ryla colocou a mochila sobre as costas, furiosa.
- Não precisa ter vergonha. No início você comentou que me conhecia, não é? Pois bem, eu fiz uma pequena fortuna com os títulos e a academia e tudo mais... realmente tenho mais dinheiro do que preciso. Não consigo simplesmente ver boas pessoas com dificuldades e ignorar.
- Ah, é? – debochou Ryla enquanto trocava as pantufas pelo outro par de calçados – E o que te faz pensar que sou uma boa pessoa?
Kristen dobrou a lona habilmente em quatro movimentos, apontando os Pokémon com a cabeça. Eevee lambia carinhosamente o rosto de Tyrogue, que permanecia imóvel, mas em paz.
- Isso é uma coisa que todos precisamos aprender com os Pokémon: gratidão. Seu Eevee ajudou meu Tyrogue quando ele estava prestes a tentar uma tática que provavelmente significaria a derrota. Depois ajudou-o uma segunda vez em condições semelhantes. Isso criou uma dívida de honra, por isso Tyrogue não hesitou em se ferir para proteger o Eevee. E agora o Eevee está tentando desesperadamente reanimá-lo. E no fim das contas ninguém lembra quem está devendo a quem, não importa, contanto que se ajudem.
Ryla olhou para o próprio Pokémon sem acreditar. Eevee, sua companheira inseparável, sua única amiga no quotidiano repugnante do qual provinha, nunca tivera contato com outros Pokémon. Mas agora estava ali, empenhada em ajudar um completo desconhecido.
- Quando você se recuperou o suficiente para levantar, podia ter corrido, aproveitando que os ladrões tinham mudado o foco pra mim. Mas você escolheu ajudar o meu Tyrogue e a mim na luta. Isso criou uma dívida, agora preciso te ajudar.
- Mas foi você que me salvou para início de conversa. – retrucou Ryla, meio hesitante.
- Não importa, lembra? – Kristen deu uma piscadela e retornou Tyrogue para a Pokébola.
Eevee saiu de onde estava e se roçou carinhosamente nas pernas de Ryla. Kristen agachou até ficar ao nível dela. Depositando sua mão sobre a cabeça peluda do animal, ele abriu um belo sorriso. Ela parecia gostar imensamente do carinho.
- Muito obrigado, Eevee. Ele vai ficar bem, não precisa se preocupar.
Kristen novamente se pôs de pé, desta vez de costas para Ryla. Ela estava com a expressão estranha, afinal Eevee nunca demonstrara sinais de carinho por outro humano. E mais ainda, aquele garoto que mal a conhecia virara prontamente as costas para ela, sabendo que ela portava um canivete e que não confiava nele nem um pouco. Ele também retirara a camisa naquele frio grotesco apenas para aliviar a dor e o sangramento de seu Pokémon. Ele apenas ignorava todos esses fatores e atirava terra úmida sobre as quase derrotadas chamas da fogueira.
- Aff, muito bem. Sei que vou me arrepender, mas eu vou com você, pelo menos por enquanto. Pra onde é?
Kristen só respondeu quando as chamas se apagaram de vez. Olhando ao redor, ele fez uma cara muito preocupante. Apagar a fogueira era necessário, mas ele já desmontara a barraca e o senso de direção dele não figurava entre suas melhores habilidades.
- Hã... er... vejamos...
Mas ele sentiu um prazeroso comichão no tornozelo quando Eevee cheirou-o fortemente. Em seguida, ela ziguezagueou pela mata ao redor, até que finalmente ergueu a cabeça para a dona, sorridente, gritando ao ar seu próprio nome. Kristen sorria abertamente.
- Eevee! Vou ficar te devendo mais essa. Vamos logo, eu deixei minhas coisas para trás, inclusive um ovo.
Eevee guiou-os por um caminho quase invisível entre raízes e troncos. Kristen sabia que Ryla jamais ia querer dar-lhe uma das mãos para não se perderem, então a toda hora prestava atenção para saber se ela estava acompanhando, ao mesmo tempo em que se perguntava como conseguira percorrer tudo aquilo numa velocidade tão absurda antes sem cair nenhuma vez.
Com um grito alegre de Eevee, Kristen visualizou sua barraca, imensamente feliz por ela parecer intocada. Inclusive, a própria mochila, que não tivera tempo de guardar, encontrava-se intocada ao lado da barraca, dentro da qual havia apenas o saco de lixo, uma bacia com água e os suprimentos de comida do dia. Ryla colocou sobre a lona rasgada que Kristen largara por ali suas pantufas e sua mochila.
Kristen se aproximou e imediatamente abriu a mochila. Retirou de lá um casaco azul de lã grossa, avaliando-o enquanto Ryla observava tudo com atenção. Ela se assustou quando ele estendeu o casaco a ela com um sorriso. Relutante, ela apanhou o casaco enquanto Kristen verificava o ovo dentro da bolsa.
- Como você espera que eu ande com isso?
Kristen se virou, quase não conseguindo conter o riso. Ela era quase meio metro mais baixa que ele e seu casaco assentava nela como uma imensa cortina grossa, esburacada para passarem membros e cabeça. Estava coberta de lã azul até metade das canelas.
- Ah... imaginei que fosse sentir frio com essa roupa rasgada. Se quiser tirar a roupa suja, eu lhe dou privacidade dentro da barraca. Lá também tem água e posso lhe arrumar uma toalha se quiser lavar o cabelo ou as mãos ou algo assim. Só não te aconselho a tomar banho a essa hora...
Ryla franziu o cenho até unir as sobrancelhas, encarando Kristen muito seriamente. No fundo, estava gostando daquela atenção e cuidado que pareciam tão espontâneos. Mas sua criação lha ensinara a desconfiar de tudo, principalmente de tudo que vinha fácil.
- Até parece que vou me trocar com você do lado.
- Sem problemas, por mim. – respondeu Kristen, vestindo uma camisa vermelha simples, insuficiente para disfarçar o frio que sentia, mas não dispunha de outro casaco e tinha certeza que não podia verbalizar isso ou ela o devolveria.
Ryla colocou sobre a grama a própria mochila, enquanto Kristen sentou-se e iniciou um longo exercício de alongamento. Ryla olhou para ele com desprezo. Fazia com que ela se lembrasse das aulas de educação física, que eram definitivamente uma péssima lembrança de sua infância.
- Bem... uma noite ao ar fresco talvez me faça bem.
-Você nunca se irrita com nada?
Kristen olhou para cima ao ouvir a pergunta. As copas das árvores e o tempo fechado lhe impediam de ver a lua, mas assim mesmo achou a noite linda.
- Sentimentos ruins desequilibram o corpo e a mente. Eu odeio estar desconcentrado, então procuro me controlar desde criança. Chega uma hora que se torna algo natural.
Ryla não entendeu completamente o que ele queria dizer, mas, de qualquer modo, teve a impressão de que ele falava mais para si mesmo que para ela. Não conseguindo pensar em nenhuma resposta, ela se virou para a barraca e abriu o rasgo de entrada com um puxão.
- Bom... eu vou dormir. Não entre na barraca durante a noite, hein? Eu tenho sono leve e o canivete vai estar ao alcance da minha mão.
Kristen apenas sorriu em resposta e Ryla colocou uma perna dentro da barraca, mas logo soltou um grito de pavor quando sentiu algo passar por cima de seu pé; algo vivo. Agarrando-se à lona e quase despencando junto com ela, Ryla tentou se ajeitar, com o peito arfando enquanto procurava no escuro a fonte do pânico.
Um minúsculo Pokémon colorido afastava-se penosamente, arrastando pela boca uma caixa quadrada e branca com bastante dificuldade. Eevee apareceu e bloqueou seu caminho, encarando-o com firmeza, no que o pequeno Pokémon se assustou e deixou cair a caixa.
- Agora Eevee, use a...
Mas Kristen interrompeu-a, entrelaçando os dedos no pulso dela e abaixando sua mão, que tinha o dedo em riste.
- Olhe direito...
Ele era realmente pequeno, certamente caberia na palma da mão de Kristen tranqüilamente. Mantinha os olhos fechados e possuía um corpo creme e azul e era possível ver, a um olhar mais detalhado, a carne praticamente colada aos ossos que ele exibia da cabeça às patas.
- É um filhote de Cyndaquil. E parece estar com fome.
Ryla olhou por um instante, sem acreditar. Em seguida, desvencilhou a mão de Kristen, assustada, como se tivesse acabado de reparar que ele a segurava. Este, por sua vez, enfiou metade do corpo na barraca.
- Não deixe ele fugir, Ryla.
Cyndaquil, porém, sentia-se completamente cercado. Procurava ao redor, mas não via nenhuma brecha e visivelmente não sabia se defender, de modo que ficou parado com medo esperando o desfecho da situação. Kristen logo apareceu com um pote branco impessoal. Cyndaquil ficou apreensivo quando ele se aproximou, mas Kristen desarrolhou o pote e depositou ao lado dele meia dúzia de biscoitos úmidos de cor marrom.
- Pronto, amigão. Pode comer à vontade.
Kristen pegou a caixa no chão e andou novamente até Ryla, que olhava a cena, completamente abobada.
- Posso estar enganado, mas ele parece recém-nascido, é muito pequeno. E os Pokémon usados como iniciais são muito populares, quase não existem mais em ambientes selvagens.
- Por que... por que você simplesmente deu comida a ele? Ele tentou roubar de você.
Kristen olhou-a de canto de olho, parecendo carrancudo pela primeira vez desde que ela o conhecera.
- Era só um filhote solitário com fome. – disse secamente — Ele não fez nada de errado, só estava tentando sobreviver. Vamos deixá-lo comer em paz e comer um pouco também.
Sentindo-se subitamente envergonhada, Ryla fez um sinal cabisbaixo para Eevee e ambas refizeram em silêncio os poucos passos que as separavam da barraca. Kristen sentara-se de pernas cruzadas na grama diante da mesma e tinha no colo dois potes, além de girar entre os dedos a caixa com discretas marcas de dente.
- Hum... pelo visto ele mal tem dentes, conseguiu roer muito pouco do papelão. Não chegou a alcançar a comida, então podemos comer tranqüilos.
Kristen abriu a caixa e Ryla sentiu-se repentinamente faminta com o cheiro forte de tempero e salada.
- Bom, a lula fica uma porcaria se não for consumida na hora junto com o caldo, mas os vegetais não são ruins frios. Desculpa por isso, mas eu realmente não esperava receber ninguém... prometo que amanhã comeremos decentemente.
Segregando o conteúdo nas duas tigelas, Kristen estendeu uma cheia de conteúdo roxo e verde bastante miscigenado.
- Aqui, eu fico com as lulas...
Mas Ryla apenas olhou para a tigela sem acreditar. Kristen continuava a ser simplesmente muito mais gentil do que ela conseguia aceitar como dentro do limite normal. Realmente um punhado de plantas não era nenhuma grande refeição, mas ele estava dividindo sua pouca comida com ela. Mais: estava dando a ela o que considerava a melhor parte. À desconfiança começou a se somar outro sentimento: vergonha. Começou a perceber que ele parecera inocentemente gentil o tempo todo e ela retribuíra apenas com grosseria e desconfiança
- Não posso aceitar, Kristen...
- Hum? Anda logo, deixa disso. Quer que eu coma umas folhas pra provar que não envenenei ou algo assim? – gracejou ele, já procurando os hashis dentro da mochila com a outra mão.
- Não, não... nada disso. É só que... não sei porque está me ajudando tanto. Eu simplesmente não posso acreditar que não quer nada em troca.
Continuava sendo duramente sincera, mas abandonara o tom desconfiado. Agora estava apenas se explicando, não mais sendo grosseira. Ainda assim, sabia que suas palavras eram bastante indelicadas, porém Kristen parecia não se importar.
- Por mim tanto faz se você acha que eu tenho segundas intenções ou não. Acontece que eu não posso simplesmente comer tranquilo enquanto uma menina faminta está assistindo.
Kristen disse isso em tom taxativo e vedou a tigela de lulas com a caixa de papelão, olhando impassivelmente para Ryla, que engoliu em seco. Relutantemente ela estendeu a mão, na qual Kristen colocou a tigela, finalmente voltando a sorrir. Entregou a ela um par de hashis descartáveis de madeira e pegou outro par para si próprio.
- Itadakimasu¹!
Ryla repetiu a saudação baixinho, olhando cabisbaixa para o próprio prato. Bem devagar, pescou a primeira porção e pôs na boca. Mastigou com gosto. Estava gelado, mas ainda era melhor do que a maioria das coisas que ela comia em casa. Estava andando o dia inteiro sem comer e, em poucos segundos, seu estômago falou mais alto que seus princípios e ela devorava a salada sem cerimônias, como se nunca tivesse comido nada mais gostoso.
Havia, porém, menos lulas do que salada e logo Kristen deixou de lado a própria tigela, olhando satisfeito para a menina que comia como se não o fizesse há anos. Ele pegou o pote de ração ao seu lado e desarrolhou-o uma segunda vez, chamando Eevee com um assobio. Ela abanou o rabo e farejou alegremente a comida antes de mordê-la na mão de Kristen. Este puxou um segundo e, em seguida, um terceiro pedaço e depois de mais alguns Eevee estava satisfeita e deitara-se na grama, recebendo graciosas cócegas na barriga.
Ryla terminou de comer e observou a alegria de sua Eevee, com um misto de estranheza e ciúme. Nunca haviam feito carinho em Eevee, a não ser por ela mesma.
Um ruído quase imperceptível de passos fez Kristen virar a cabeça, sendo acompanhado por Ryla e Eevee. O Cyndaquil aproximara-se do grupo. Kristen abriu um grande sorriso e abandonou as carícias a Eevee, apanhando o pote ao lado e começando a tirar a rolha.
- Ah, você quer mais? Chegue aqui.
Cyndaquil, por sua vez, manteve-se parado e não deu atenção à ração de Kristen. Ele olhava fixamente para Eevee e agora grunhia o próprio nome com uma voz fina e quase inexistente. Em suas costas um princípio de faísca pareceu surgir duas vezes, como se tivessem friccionado um isqueiro sem combustível.
- Acho que ele quer... batalhar.
Fale com o autor