Pokémon - Reconquest

12 Capítulo 10: Sobrevivência


Notas iniciais
Minha viagem babou, então tá aí o capítulo hoje mesmo. Abração, gente, boa leitura!

Limpando o sangue de Ponyta impessoalmente na camisa, Kristen não ouvia um ruído sequer do enorme abalo que a multidão causava às arquibancadas. Descobriu que estava, enfim, se habituando aos ferimentos de seus Pokémon como conseqüência comum de luta, exatamente como eram consigo mesmo. Com quinze anos de uma competitiva carreira nas artes marciais, estava por demais habituado ao sangue para se abalar, mas havia uma violência nas batalhas Pokémon que ele não conhecia enquanto via apenas lutadores disputando.

Entretanto, naquele momento, não desejava refletir sobre sua própria experiência. Quase podia apalpar a aura determinação de Tyrogue e seria um insulto a ele não manter cento e vinte por cento do seu foco na batalha. Kristen sequer registrava o discurso exaltado do locutor, que compartilhava o espanto do público ao ver um pequeno Pokémon lutador com uma feia cicatriz no ombro lançado no calor da arena diante de um voador: uma presa perfeita aos olhos da maioria.

Tyrogue, porém, não teria vacilado nem mesmo se tivesse topado com uma imensa ave lendária que encobrisse o sol diante dele. Naquele momento sua vontade de vencer era tão grande que ele mal conseguia conter a energia que transbordava de dentro de si, limpa de ansiedade.

Ele deixara claro – num raro exemplo de boa comunicação entre Pokémon e treinador – que desejava entrar por último na batalha, pois tinha certeza de que dessa forma pegaria o Pokémon mais forte do adversário.

O próprio Kristen sempre procurava ensinar a todos os seus alunos – Pokémon ou humanos – todos os valores de lealdade, bravura, justiça e, principalmente, determinação que aprendera com seu pai. Mas a cada dia podia constatar com mais certeza que nem os mais experientes os assimilaram tanto quanto aquele jovem Tyrogue.

- O que vai fazer agora, Kristen-kun? – perguntou Falkner, sorrindo – Um lutador desse porte não pode vencer meu Pidgey, ele nem aprende os socos elementais, o que seria fundamental pra poder se defender contra uma ave.

- É melhor você não nos subestimar. – respondeu Kristen, sério.

Tyrogue compartilharia com emoção as palavras de Kristen se lhe tivesse prestado atenção. Mantinha os dois olhos fixos no Pidgey que planava distraidamente ao redor de Falkner, como se sua vida dependesse disso. Saltitava de leve no mesmo lugar, socando o ar repetidas vezes, feliz por constatar que sua mobilidade do lado esquerdo havia sido completamente recuperada; a única seqüela era estética.

- Chega de enrolar, Kristen-kun! Vamos começar!

A ave bem treinada de Falker abriu as asas e voou sobre o dedo em riste do mesmo, no que Tyrogue rapidamente ficou estático no lugar, erguendo a guarda de forma bastante firme diante do rosto.

Tyrogue não teve dificuldade alguma em desviar-se da primeira investida de Pidgey. Este, porém, passou direto pelo alvo, mas com velocidade suficiente para não ser surpreendido pelas costas, indo até o final da arena e descrevendo um círculo de retorno.

- Inacreditável, senhoras e senhores! Vemos um pequeno Pokémon lutador desviando-se do Pidgey de Falkner com pompa, como quem esfrega na cara dele que ele precisa treinar mais!

Falkner notou discretamente a posição do sol, sorrindo ao constatar que estava exatamente onde queria. Tyrogue não ia conseguir vencer apenas sendo capaz de desviar das investidas comuns. Era preciso contra-atacar e também ser capaz de evitar os verdadeiros golpes.

- Vertical, Pidgey!

Pidgey interrompeu a trajetória que o levava até Tyrogue a poucos metros do mesmo, apontando o bico para cima e subindo com toda velocidade dez, vinte, cinqüenta metros. A pequena ave já era um minúsculo ponto recortado contra o teimoso sol de fim de tarde.

Kristen tinha plena consciência de que seu Tyrogue não tinha condições de atacar uma ave enquanto ela não se aproximasse para atacar. Essa era a grande desvantagem real de um lutador perante um voador: a incapacidade de impor o próprio ritmo à luta.

Ele treinara o Tyrogue com segurança para desviar-se de golpes à distância: uma hora a energia acabaria e o pássaro teria necessidade de chegar mais perto, onde Tyrogue precisaria de toda sua habilidade para virar o jogo a seu favor.

Porém, o sol contra o rosto e o vento favorável ao Pidgey não eram exatamente as condições que Kristen considerava ideais. Pelo menos ela trazia certeza da localização de Pidgey.

- Cuidado, Tyrogue! Não deixe sua visão enganá-lo! Não se esqueça de usar os outros sentidos!

- Use a formação do turbilhão de luz! – berrou Falkner para o alto.

Ryla, da platéia, via a tudo de um ângulo diferente. Com crescente temor, olhava Pidgey descer como uma bala na direção de Tyrogue. Era impossível não notar que ele descia de forma diferente. Ao invés de alinhar as asas comportadamente ao redor do corpo, deixando a aerodinâmica trabalhar, ele batia freneticamente as duas asas, como se estivesse subindo; o resultado era um pequeno turbilhão de vento que o seguia de perto.

Quando faltavam pouquíssimos metros, uma lufada de vento gelado atingiu Tyrogue em cheio. Este apenas tremeu em sua base, conseguindo manter-se de pé, mas visivelmente foi abalado pelo impacto inesperado; a visão contra o sol na vertical de onde estava não lhe dava nenhuma dica de que seria atacado dessa forma antes.

Aproveitando-se da aparente confusão de Tyrogue, Pidgey recolheu as asas aos seus flancos, apertando a velocidade nos últimos instantes.

Para surpresa geral, Tyrogue mostrou, no último segundo, estar completamente recuperado. Movendo-se de lado com sutileza, tocou a mão esquerda aberta na lateral do bico de Pidgey e o estádio pareceu congelar, vendo a ave indefesa diante de um punho livre cerrado e um olhar que não deixava dúvidas.

- Essa não – mal pôde gemer Falkner.

O soco atingiu Pidgey acima da asa esquerda e o violento barulho do impacto ecoou pelo estádio sem controle acústico. O pássaro foi atirado quase na arquibancada, rolando pelo chão sob gritos de espanto do público.

- INACREDITÁÁÁÁÁVEL! Tyrogue não só foi mais rápido que o Pidgey, como conseguir atingir-lhe um golpe incrivelmente potente! Eu nunca tinha visto um soco pegar tão em cheio quanto esse! Na veeeeeeia!

Para surpresa de alguns, mas não para Kristen, Pidgey ergueu-se do chão devagar, apoiando-se no par de garras. Ele notou que Falkner não sorria mais e supôs que ele realmente não gostava de perder, por mais amistosas que fossem as relações com seu adversário.

- Excelente trabalho, Tyrogue. Continue assim, ele não tem como vencer se não vier até você... e se ele vier, já sabe o resultado.

Pidgey parecia bastante avariado, mas não sangrava e conseguia abrir as duas asas sem muitos problemas. Entretanto, seu olhar estava sanguinário; ele aceitava menos ainda a derrota do que seu treinador.

- Vamos apelar para o retrovisor, Pidgey. – entoou calma e friamente Falkner.

A ave levantou vôo apenas alguns metros do chão, pairando sobre o concreto com o mesmo olhar desgostoso.

- Sabe o que fazer, Tyrogue. Não precisa ter medo, apenas mantenha o que vem fazendo até agora. Nosso jogo está funcionando, apenas fique calmo e não tente inventar, faça o simples.

Enquanto Tyrogue concordava com entusiasmo, Pidgey avançou na direção dele como uma bala outra vez, desta feita completamente na horizontal. O corpo completamente fechado e o bico em riste brilhando sob o reflexo do sol não deixavam dúvidas quanto aos seus objetivos.

Tyrogue desviou no último segundo mais uma vez, mas seu soco de resposta passou vazio no ar, dada a velocidade absurda do rasante de Pidgey. O lutador mal tivera tempo de se virar, porém, e sentiu duas lâminas de atingirem-no em cheio nas costas.

- O que foi isso? – perguntou Kristen, horrorizado.

Ainda de costas, a ave abaixara asas, lançando para trás uma lâmina de ar de casa lado. Pelo súbito silêncio do público, Kristen não era o único estupefato com aquilo.

Pidgey descreveu um círculo curto, voando na direção de Tyrogue com a barriga para cima e o bico decidido. Tyrogue dobrara um dos joelhos, o ar expulso dos pulmões pelo impacto e o sangue quente escorrendo das costas.

Apesar de todas as condições contrárias, ele conseguiu atirar-se de lado, prevendo o perigo por puro instinto e desviando-se da bicada seguinte. As garras abertas no último instante, porém, abriram quatro feios vergões na maçã esquerda de seu rosto.

Ajeitando-se de pé com visíveis sinais de dor, Tyrogue olhava atônico para seu adversário, erguendo a guarda novamente. A multidão e até o locutor ainda não sabiam como reagir.

- Você achou realmente que minha arma final numa batalha de ginásio seria capaz apenas de realizar aqueles movimentos? – perguntou Falkner calmamente enquanto Pidgey planava no ar, perto do próprio Kristen – Dou-lhe dez meses do meu salário se achar Pidgeys tão bem treinados quanto os meus!

Kristen parecia ainda não acreditar no que vira. Não era só o golpe de costas, era a precisão. Ele não tinha necessidade de virar para trás para atingir o Tyrogue em cheio com suas lâminas invertidas, das quais Kristen – e pelo visto a maior parte da platéia – nunca tinha ouvido falar.

- O que foi isso que presenciamos agora, senhoras e senhores? – despertou o locutor – Estou sem palavras diante disso! Pidgey conseguiu devolver à altura com uma manobra que eu nunca vi!

- Agora, Pidgey, alterne as formações!

Pidgey abriu bastante as asas e endereçou um pequeno tornado na direção de Tyrogue, que, por sua vez, suportou-o novamente sem se importar, fechando a guarda diante do rosto.

Mal teve tempo de mudar a postura, porém, pois Pidgey voava em sua direção mais uma vez. Novamente desviando-se de lado, Tyrogue recebeu outras duas afiadas lâminas de ar nas costas, próximas às primeiras. Desta vez caiu de gatas no chão, golfando sangue.

- Merda... – lamentou Kristen, baixinho, enquanto o público delirava.

- Agora acho que acabou. Finalize, Pidgey!

Pidgey novamente retornou com um vôo circular, mas Tyrogue sustentou-se de pé com extrema dificuldade, virando de frente para a ave. Falkner já previa outro par de lâminas de vento varando-o por trás, isso se ele conseguisse desviar; simplesmente não havia saída.

Porém, o bico de Pidgey encontrou um antebraço no caminho, no qual penetrou sem dó. O sangue que espirrou não foi suficiente para intimidar Tyrogue, que, com a outra mão, socou Pidgey com força alguns centímetros acima do bico. O mesmo retornou na direção de seu treinador, novamente rolando pelo chão, enquanto o lutador adversário ficava estático no mesmo lugar, com o braço ferido pendendo ao lado do corpo e a respiração bastante pesada.

- Sim, senhoras e senhores! Tyrogue apostou tudo nesse golpe! Permitiu que Pidgey o atingisse para poder contra-atacar ao mesmo tempo! Muita coragem do nosso jovem desafiante, sensacional!

As palmas do público concordavam claramente com o locutor, mas Falkner não parecia muito apreensivo. Pidgey moveu-se devagar no chão, levantando a cabeça e sacudindo-a para recuperar o próprio prumo.

Tyrogue, como bom lutador, não expressava preocupação, mas Kristen estava receoso. Se o Pidgey fosse capaz de dar mais um ou dois vôos como os anteriores, Tyrogue estaria impotente diante das investidas provenientes deles.

“Antes eu não podia fazê-lo brincar de dançar à distância, pois a energia de Pidgey podia acabar muito cedo e corria o risco de ele desviar de todos. Mas agora acabou, não preciso mais me preocupar com isso.” – refletiu Falkner antes de declarar:

- Nunca um Pokémon lutador chegou tão perto de vencer um de meus pássaros, Kristen. Meus parabéns. Mas agora acabou! Vamos acabar com isso com a estratégia da chuva, Pidgey!

Levantando vôo prontamente mais uma vez, Pidgey avançou apenas alguns metros de forma lenta, batendo as asas com mais força do que era necessário. Formava-se um turbilhão de ar ao seu redor, que Kristen logo reparou ser maior que todos os anteriores, feitos às pressas.

“Esse certamente não vai ser tão fácil de suportar quanto os outros. Mas se o Tyrogue agüentar firme de pé, teremos um alvo fácil e sem energia.”

- Força, Tyrogue! Resista!

A estratégia, porém, era muito mais engenhosa do que Kristen podia imaginar. O mini-tornado se deslocou pela arena, abafando o grito exaltado do locutor e o rugido em uníssono da platéia. Tyrogue suportou por alguns segundos, mas mesmo sua ótima base se desestabilizou e ele recuou alguns passos de forma desordenada, quase caindo no chão.

Sem que treinador ou Pokémon notassem, vinham por trás do tornado uma seqüência abusiva de lâminas de ar. Mostrando ótimos reflexos, Tyrogue evitou a maioria, mas uma delas passou raspando de forma incisiva pelas suas costelas e uma outra atingiu-o em cheio pouco acima do joelho.

Diante do lamento alto de Kristen, boa parte da platéia se levantou. Tyrogue se pusera rapidamente de pé também, mas com braço, abdômen e perna feridos, seu lado esquerdo estava completamente inutilizado. Ele também deitava sangue pela face e pelo canto da boca, além de estar bastante ofegante.

Por sua vez, Pidgey também parecia estar ficando sem energia, além de ter as penas bagunçadas e pequenos filetes de sangue onde Tyrogue o atingira. Estava muito melhor que o oponente, mas certamente também não aguentaria muito tempo naquele ritmo.

- Vamos lá, Pidgey, você ainda tem fôlego pra mais um tornado!

A ventania que se seguiu esteve longe de ser potente como a anterior, mas era mais que suficiente para derrubar Tyrogue como se ele fosse um boneco. Impedido de se desviar ou de proteger-se adequadamente por causa dos membros machucados, Tyrogue rolou vários metros para trás, indo parar de borco diante de Kristen.

Kristen olhava sem aceitar para o rastro de sangue deixado por ele no chão. O público se calara completamente. Tyrogue estava completamente imóvel, o rosto enfiado no chão e os braços e pernas em ângulos atípicos.

- Parabéns, Kristen, você aguentou bem até aqui.

- Após essa batalha seeeeeeeeeeeeeeeeensacional, de tirar o fôlego... a vitória finalmente vai paraaaaaaaaaaa...

No entanto, locutor, platéia e treinadores emudeceram por completo. Como que saído de um sonho utópico, um braço direito bastante trêmulo apoiou-se no chão e ergueu o tronco de Tyrogue com extrema dificuldade. Seu corpo vibrava com o esforço, mas ele não parava, lutava para conseguir apoiar-se num único joelho como se sua vida dependesse disso.

Como se tivessem combinado, a platéia começou a gritar e bater palmas em uníssono. Palavras de incentivo se misturavam a gritos de ordem no meio da multidão. Os mais sensíveis derramavam lágrimas.

Para Kristen, a vitória não importava mais. O resultado era sempre simbólico para o verdadeiro lutador. Se Tyrogue se levantasse, sairiam dali vencedores, mesmo sem ostentar nenhuma insígnia.

“Não!” corrigiu-se Kristen “Ele está lutando para se levantar contra o que tudo e todos pensaram. Ele já ganhou. Agora está lutando pelos seus limites. Quer chegar o mais longe possível.”

- Força, Tyrogue! Eu me sinto muito honrado de ser o seu treinador... de ser o seu amigo! Levante!

Tyrogue já estava de joelhos. Sua expressão estava contorcida de dor, mas todos os seus músculos estavam rígidos com o esforço de ficar de pé, sem que ele cedesse um minuto sequer.

Contra todas as expectativas e sem qualquer explicação lógica, Tyrogue se pôs sobre os dois pés diante do ginásio, que quase veio abaixo. Vacilou por um instante para o lado machucado, mas logo ficou firme.

Seu rosto denunciava o cansaço e a dor, mas sua bravura era reconhecida de pé por centenas de pessoas que aplaudiam, incluindo seu próprio treinador. Ele não iria decepcioná-lo, não importando o que acontecesse.

- Não tenho palavras, senhoras e senhores... para descrever o quanto a energia desse Tyrogue está contagiando a multidão. Eu mesmo estou arrepiado agora que ele levantou, não posso evitar!

Falkner e Pidgey estavam visivelmente acuados com a torcida que aplaudia e gritava seu apoio ao adversário explicitamente. Se fisicamente estava quase derrotado, Tyrogue virara o jogo no âmbito psicológico.

- Muito bem. – começou Falkner – O esforço de vocês é louvável. Mas sabe que pára por aí, não é, Kristen-kun? Por mais determinado que seja o seu Tyrogue, ele não vai resistir a outro impacto direto. Por outro lado, meu Pidgey também está nas últimas, o que significa que vamos definir isso no próximo movimento.

- Não cante vantagem, Falkner-san! Vamos deixar as congratulações pra depois que isso terminar. Meu Tyrogue quer lutar!

Tyrogue enxergava vários Pidgeys voando em sua direção. Mal conseguia distinguir as palavras do próprio Kristen, que estava a poucos metros de distância. A única coisa de que estava consciente era que não tinha o direito de sair derrotado. Não importava como ia ganhar, mas a vitória era obrigatória.

Falkner já puxara do cinto a Pokébola, preparado para conceder, a qualquer momento, o descanso tão merecido ao seu Pidgey, que mergulhava na direção de Tyrogue com o bico em riste. A determinação tinha limites, afinal com a perna ferida daquela forma Tyrogue não poderia desviar e com o corpo já levado aos limites não ficaria de pé.

O público aguardava, apreensivo, enquanto Tyrogue parecia prestes a cair. O bico encontrava-se a menos de meio metro quando seu corpo realmente tombou para trás e, por um instante, todos pensaram que o desmaio havia sido inevitável, antes mesmo do embate.

Uma perna surgiu, no entanto, pegando a todos de surpresa. Talvez nem o próprio Tyrogue tivesse consciência do que fazia quando se atirou de costas para trás e deixou a ave passar direto por onde antes estava seu tronco. Girou o corpo com convicção tirada sabe-se lá de onde e atingiu Pidgey com o calcanhar da perna boa, numa imitação perfeita de Kristen sobre o Charizard nocauteando o estranho revolucionário.

A ave rolou para o chão e Falkner parecia não acreditar. Tyrogue já não tinha mais a mínima condição de levantar, mas mantinha os olhos abertos, numa luta interminável contra si mesmo. Pidgey, por sua vez, estava completamente nocauteado, sem abrir espaço para dúvidas.

O urro popular sagrou a vitória antes do locutor. Num piscar de olhos, Tyrogue sentiu-se cercado por várias pessoas e deixou as pálpebras se fecharem de vez, seguro de que havia, enfim, atingido seu objetivo.

Milhas distante dali, a velha televisão com a imagem meio distorcida era a única fonte de som no ambiente inteiro. Atirado a um sofá carcomido no pior bairro da cidade, o homem de cabelos azuis massageava o pescoço já sem dor alguma, ainda preocupado com o diagnóstico proferido pelo bondoso médico da região: “um impacto pouca coisa maior e você estaria comendo sopa na cadeira de rodas agora, rapaz”.

No monitor, Falkner levantava a mão de Kristen bem alto para o estádio inteiro cair em delírio enquanto o locutor gritava coisas sem sentido e o próprio Kristen recolhia a insígnia com pressa, doido para retornar ao seu Pokémon ferido.

Além da televisão, apenas um par de velas bruxuleantes iluminavam o local, permitindo entrever um baú transbordante de Pokébolas a um canto. Um vulto completamente vestido avaliava alguns papéis sob a precária luz do local. Nem um centímetro sequer de pele era visível e ele avaliava os papéis direto sobre o tampo da mesa que abarcava as velas, sem tocá-los.

- Então era esse principiante que você ia me trazer?

Diante da voz firme e zombeteira, o homem se mexeu incomodado no sofá, cheio de culpa.

- Eu não tinha como saber. E também não ia trazê-lo por causa da força ou coisa do tipo. Ele tem os princípios de que precisamos na organização.

- Tudo bem, chega de desculpas. – cortou, a paciência ridiculamente limitada – Só estava registrando que você quase caiu por causa disso. Pra não dizer que quase virou um vegetal também.

- Oras, ele era habilidoso. – respondeu o outro, envergonhado – O senhor não pode negar que ele soube se defender muito melhor do que qualquer outro que recrutamos dessa forma.

- Deixe pra lá... eu sabia que vocês não eram famosos pela discrição e nem pela precisão nas operações quando eu os recrutei. Vá acordá-lo pra mim.

- Mas... Já tem uns anos que ele não gosta de ter o sono interrompido. Fica realmente chateado, é sério.

- Ele vai gostar de ouvir isso. Vá acordá-lo logo, preciso de alguém com cérebro para me ajudar a fechar esse plano.

Visivelmente contrariado, o homem se levantou do sofá e sumiu nos corredores escuros, perguntando-se se algum dia conseguiria, finalmente, trabalhar para si mesmo.

Ao lado da cama de Tyrogue, Kristen aguardava serenamente com os braços cruzados enquanto um dedicado e jovem enfermeiro com sotaque caipira analisava o Pokémon. Apresentara-se rapidamente como filho do enfermeiro de confiança de Falkner, que estava gripado demais para trabalhar na última semana.

- Olha, seu Kristen... a socorrista já tinha adiantado pro senhor que ele não tem nada demais, só precisa de repouso e uns curativos. Mas eu to vendo aqui que ele precisa de mais um descanso antes de podermos acordar... Sua amiga tá lutando lá, não é? Pode ir lá assistir que eu tomo conta, é de confiança.

Apertaram-se as mãos e Kristen despediu-se satisfeito do homem, apanhou as duas mochilas pesadas no chão e atravessou os devidos corredores, subindo os degraus de três em três até desembocar na arena.

Da enfermaria onde estava antes, alguns ecos distantes chegavam abafados, mas sua audição anormal lhe permitira ouvir claramente quando o Eevee de Ryla abateu outro dos Hoothoots de Falkner sem muita dificuldade.

Parado junto à grade colada aos bancos azuis dentre os quais deveria se sentar, Kristen via agora Eevee – visivelmente cansada – engalfinhando-se com um valente Spearow. A ave golpeava seguidamente, Eevee desviava e tentava revidar em vão e vários golpes se passaram dessa forma.

Era uma luta selvagem, crua, muito diferente do que se projetava quando estavam envolvidos Pokémon como Tyrogue, treinados para lutar como humanos. Kristen achava fascinante, de certa forma.

Uma leve decepção emanou da multidão quando um choque direto das garras de Spearow com o dorso de Eevee o fez cair, abatido, sem chance de levantar antes da nova investida do oponente, o que fez Ryla recolhê-lo.

- Wooo... parece que nossa desafiante preferiu recolher seu Pokémon do que vê-lo bicado! O que será que ela reserva como última esperança para sua vitória?

Com o olhar contrariado, Ryla liberou Cyndaquil para espanto geral. Kristen ficou feliz de constatar que ele crescera até o tamanho de um filhote normal e que não restava queimadura alguma em suas costas, mas perguntava-se se ele realmente estava pronto para enfrentar um Spearow bem treinado como aquele.

- Vamos, Cyndaquil! Use a fumaça!

Antes que Falkner pudesse fazer qualquer uma de suas observações, o pequeno e animado Cyndaquil cuspiu uma fumaça espessa que deixou incógnita sua presença em meio aos metros quadrados adjacentes. Spearow apertava os olhos, tentando ver através da fumaça enquanto batia as asas parado no lugar.

- Boa tentativa, minha jovem. Mas não creio que fará diferença. O bater de asas de um Spearow a esse nível pode não ser suficiente para gerar um tornado, mas não tenha dúvidas de que essa fumaça é simples de ser varrida.

Captando sua missão, a ave bateu as asas freneticamente. Ryla precisou proteger o rosto da poeira e começou a tossir compulsivamente quando a fumaça entrou em seus olhos e nariz. Antes que ela pudesse se virar, Cyndaquil já lamentava o profundo corte na barriga e Spearow descrevia círculos sobre a cabeça dela.

- Use as chamas, Cyndaquil!

Cyndaquil parecia se concentrar e Spearow voou na direção dele, bico empinado e olhar feroz estampado. No rosto da pequena eqüidna de fogo, havia apenas a indecisão e o medo quando sofreu novo corte, igualmente profundo, desta vez no pescoço.

“Droga... teoricamente ele está curado do problema com as chamas há dias, mas será que ele tem confiança para usá-las?”

Spearow levantou-se alguns metros no ar e logo mergulhou, com o bico já sangrento preparado para uma segunda incisão. Cyndaquil se encolheu, parecendo tomar coragem.

- Sua última esperança, Cyndaquil! Use as chamas ou ele vai te machucar!

Superando o medo, as brasas de Cyndaquil se acenderam, vivas como a crina de Ponye, quando Spearow estava bem próximo. A ave tentou frear, em vão, pois Cyndaquil já cuspia na direção dela um jorro de chamas segmentado que pesava nas penas e o arrastava para baixo, imerso em dor.

Antes que qualquer um pudesse exclamar qualquer coisa, Cyndaquil saltou e uma cabeçada firme tirou completamente Spearow da jogada, sendo recolhido por Falkner enquanto o locutor decretava a vitória.

Ryla invadiu a arena, apanhando seu Cyndaquil nos braços e erguendo-o no ar, apertando-o, em seguida, junto ao peito, orgulhosa. As chamas já haviam se extinguido e nenhum vestígio de queimadura restara em torno dos orifícios; o próprio Cyndaquil comemorava aos berros.

O povo aplaudia-a de pé, não com a mesma empolgação da vitória de Tyrogue, mas certamente Cyndaquil era carismático também. Kristen era só sorrisos, com o rosto grudado à grade e sentindo-se bastante eufórico.

Falkner se adiantou, puxando um estojo de couro azul de dentro da roupa e retirando dele um pequeno artefato de metal com o estranho logo do ginásio, que Ryla recebeu sem acreditar. O líder ergueu a mão da menina no ar e ela e Cyndaquil pareciam não se importar com os ferimentos dele naquele instante.