Pokémon - Onde os Laços São Mais Estreitos
8 Saturada
Notas iniciais
A imensidão azul era a única coisa visível além de três adolescentes que viajavam com rapidez pelas calmas águas do mar em estrelas-do-mar psíquicas. Um deles, agarrado à maior e mais lenta Starmie, carregava um botão de rosa na mochila.
— Não consigo ver nada além de água. — comentou Nathan, entediado.
— É claro, estamos no oceano. Mais de noventa por centro da água do planeta está situado aqui. Não só aqui, mas como em vários outros lugares como esse. — Luna encarava vidrada o horizonte enquanto brilhantes tiras de água atingiam seus calcanhares.
— Eu sei disso. — Nathan revirou os olhos e olhou na direção de Alven.
— Esse silêncio é tão relaxante... — disse o garoto montado na Starmie maior, abrindo as pesadas pálpebras e segurando cada vez mais firme no Pokémon que o carregava apesar de sua sonolência. Em mesma situação energética se encontrava Dew, cujo aroma se esvaía despercebido com o vento.
Na medida em que os Starmies projetavam-se pela superfície, filas de círculos surgiam e logo desapareciam, devolvendo a água para sua aparência original.
No que pareceram longos minutos, nada de interessante aconteceu em mar aberto. A coisa mais atrativa que viram foi um bando de Tentacool — águas vivas azuis com dois tentáculos e três esferas vermelhas na cabeça, uma delas sendo muito menor que a outra, porém aquosa e reluzente como as demais. Piscando seus pequenos olhos na parte inferior da cabeça, os Pokémon mergulharam logo após checar a superfície, resultando na perca da oportunidade de registrá-los na Pokédex.
— Estamos demorando demais... — reclamou Nathan, soltando um gemido de ociosidade.
— Para de reclamar, aprecie a vista! — ralhou Luna, sem transferir o olhar para o garoto que agora tentava inutilmente se prostar em uma posição confortável.
Dew soltou um bocejo de derrota e se largou mochila adentro.
— Não posso dormir... Não posso dormir... — grunhiu Alven, balançando a cabeça.
— Não aconselho. — respondeu Luna. — A menos que queira ter uma sensação agonizante de afogamento.
— Que mórbido. — disse Nathan, em tom de desaprovação.
Os primeiros sinais de terra apareceram ao horizonte embora não se destacassem perante o grande oceano que os cercava. O suave azul celeste esmaecia-se e dava lugar a uma vasta e esfumaçada camada de exuberantes tons de cinza que aos poucos escureciam, destingindo a paisagem.
Apesar do alívio de ver um local sólido e seco, nenhum comentário a respeito quebrou o silêncio. Luna pareceu murchar ao ver que a viagem aquática terminava.
— Gente, vocês já pararam pra pensar em como o mar é assustador? — Alven disse de repente.
Luna e Nathan imitaram o garoto, que olhava para baixo.
— Ainda bem que você não falou isso quando estávamos no meio do nada. — respondeu Nathan.
— Você tem medo do mar? Eu não me incomodo. — retrucou a garota, em tom de desafio.
— Não sabia que você tinha sangue de sereia.
— Eu cresci me acostumando com água. Gosto dela. E dos Pokémon que existem nela.
— Substituam “água” por “vegetação” e terão uma frase que eu diria. — disse Alven, agora menos sonolento e concentrado na ilha que se aproximava a cada minuto. Já era possível distinguir algumas construções.
Alven olhou para baixo enquanto Luna raciocinava algo. Enfiou o nariz na mochila e aspirou uma lufada de ar carregada do cheiro característico dos botões da Budew.
— Você curte o quê, afinal? Um monte de coisa ao mesmo tempo ou é neutro? — perguntou a garota, lançando um olhar para Nathan pelo canto dos olhos.
— Não sei, nunca parei pra pensar nisso.
— Escureceu de uma hora pra outra... — Alven agora rastreava sinais de sol pelo céu nebuloso.
— Sinal de chuva. — Luna inspirou e olhou para cima por alguns minutos. — Espero que o mar não esteja agitado. De qualquer forma, essas maravilhas sabem bem o que estão fazendo. — Acariciou de leve a estrela violeta na qual estava montada e desfez sua posição firme ao olhar para a faixa de terra.
A ilha agora se tornara nítida o suficiente para o prédio vermelho do Centro Pokémon ser visualizado. Na extremidade da porção de terra, um velho porto de madeira úmida esperava inerte pelos seus visitantes.
(...)
Assim que se aproximaram do pequeno porto, os Starmies saltaram da água e pousaram com graça e leveza nas tábuas escuras, fazendo braços se agarrarem com força a eles. Limo crescia ás margens da plataforma e, segundo Luna, devia ter muito mais na parte inferior. A água salgada deveria banhar o local há anos: a madeira próxima da superfície do mar estava mofada e algas que se prendiam a ela eram visíveis até certo ponto de profundidade.
Os adolescentes desceram aliviados — Luna e Alven agradeceram ás estrelas, que fizeram uma formação em forma de pirâmide e mergulharam novamente na água, brilhando antes de descerem ao fundo. Afastaram-se da margem e caminharam até o ponto onde a madeira convergia em uma areia macilenta e perolada.
Havia uma porção de casas brancas espalhadas de maneira desordenada pelo lugar formando uma vila no mínimo desorganizada, porém tranquila e com poucos traços da modernização avassaladora dos grandes centros urbanos.
— Tirem os seus Pokémon das pokébolas, vamos passear por Dewford: “Uma pequena ilha no mar azul.” Mal posso esperar. — comentou Luna numa voz arrastada e ensopada de um notável sarcasmo, enquanto voltava à posição normal depois de ter se inclinado para ler a legenda de uma discreta placa desgastada presa na areia. Nathan ergueu uma sobrancelha em estranhamento enquanto Alven chacoalhava a mochila para acordar Dew, sem prestar atenção. — A parte de liberar o pessoal é verdade, tá?
— Eu já estou fazendo isso! — retrucou o garoto menor, falando em voz alta o suficiente para atrair olhares curiosos de um ou dois moradores através das muitas janelas de vidro. Perguntas se sucederam como sussurros dentro das casas, mas pelo tom de voz audível os moradores estavam acostumados com a presença de treinadores.
Dew acordou resmungando e assim que conseguiu ver que já haviam chegado ao destino se atirou na areia em um ato de rebeldia. Alven soltou um muxoxo e caçou a Premier Ball onde um quieto Kend aguardava a libertação.
— Oi, chegamos. — Disse Alven, colocando a Ball no bolso após ter soltado o Ralts, que agora explorava somente com a visão o lugar ao se erguer do raio de luz da pokébola. — Espero que não tenha sido tão ruim ficar aí dentro esse tempo todo.
— Eu tô bem. — disse a suave e fina voz psíquica do Pokémon, adentrando longínqua a mente do garoto.
Ao se reerguer, ajeitar a mochila na posição certa e colocar no colo uma Dew delinquente que não parava de se chacoalhar ao lado do Ralts azul, se deparou com Luna, que andava febrilmente em círculos enquanto olhava hipnotizada para seu mapa marcado por muitas dobras. Nathan a encarava com desdém encostado em uma grande pedra moldada pela erosão que se erguia da areia como se desejasse boas-vindas.
— Tá fazendo o quê? — perguntou Alven.
— Tô vendo o que esse lugar tem de bom. — respondeu ela, com uma expressão mentirosa de quem dormiu mal. — Pelo visto, pouca coisa.
— Que tal continuar andando agora? — Nathan lançou um sorriso desdenhoso aos dois, que o encararam de volta.
— Seria ótimo se pusesse seus Pokémon pra fazer o mesmo. — alfinetou Alven, perfurando o garoto com um olhar severo. Nathan ficou inexpressivo e começou a assoviar como se não tivesse ouvido.
Luna desatou a andar com nítida pressa, girando a cabeça para analisar o lugar e deixando os garotos para trás. Nathan e Alven fizeram menção de acompanhar, mas resolveram continuar caminhando quando a garota começou a subir as escadas do Centro Pokémon e adentrou o local, decidida.
Nos lugares onde seriam as calçadas ou varandas das casas, idosos e adultos conversavam e jogavam qualquer jogo de tabuleiro ou cartas, sempre com um ar energético e contagioso.
Atrás das casas havia quintais onde coqueiros cresciam livres e balançavam de forma quase imperceptível quando uma brisa fluía por entre as folhas. Em baixo destes, crianças brincavam animadas: Alven reparou que uma delas acariciava uma ave alva com listras azuis, um corpo redondo pequeno, um grande bico e compridas asas. A Pokédex — arrastada do fundo da mochila com rapidez pelo garoto — constatou que se tratava de um Wingull, cuja descrição o definia como “Uma ave marinha que sobrevoa os céus como se estivesse deslizando, por causa da dificuldade que tem de bater suas longas e estreitas asas. Tem o hábito de pegar objetos de valor com seu bico e levá-los com intenção de escondê-los para todo tipo de locais. Faz seus ninhos em altos penhascos à beira do mar.”.
As casas eram todas brancas, cuja madeira tingida entrava em constante contato com a maresia e a areia, dando-lhe um aspecto inconfundivelmente praiano.
— O ginásio está fechado, vamos ter que esperar. — concluiu Nathan, após observar a grande estrutura branca e dourada, cujos portões estavam fechados e obstruídos por um grupo de jovens surfistas que se preparavam para ir ao mar.
— Estou me sentindo no verão. — Alven examinava pesaroso o mar e a areia na qual pisavam. Seu sapato estava molhado devido à peculiar viagem, e inúmeros grãos de areia se prendiam ao seu calcanhar úmido.
— Estamos no outono...
— Está quente, abafado e estamos numa praia.
Nathan calou-se ao perceber que a informação de seu colega possuía veracidade: um calor estressante cercava o lugar como uma grande cobertura de papel-filme que impedisse o arejamento.
— Não percebemos antes porque estávamos levando vento marítimo na cara. — acrescentou. Dew soltou uma exclamação de insatisfação. — Tá com fome, né? Espera que não vai demorar muito até nos hospedarmos.
A imagem acolhedora do Centro Pokémon surgia simpática á frente. Não havia movimento aparente de treinadores segundo a visão que a porta dupla branca proporcionava.
O lugar era mais compacto e simples que a estrutura presente em Rustboro: sua recepção se resumia a um balcão organizado contendo um telefone branco — amarelado pelo tempo —, um livro grosso cujo marcador escapava pela parte superior e uma cadeira móvel de veludo vermelha que jazia solitária. Nas paredes, pôsteres coloridos que denotavam descontração e contrastavam ferozmente com quadros paradisíacos pregados e limpos de maneira minunciosa.
Olhando para a direita, se depararam com Luna sentada em uma das várias cadeiras brancas organizadas em filas horizontais de cinco unidades. Segurava Flame no colo, que descansava confortável com a cabeça apoiada no tórax da garota. Safira também fora libertada e devorava uma quantidade notável de folhas na vasilha transparente que geralmente era usada para esta função.
— Correu por quê? — disse Alven, sentando ao lado de Luna.
Silêncio. Nathan suspirou e aprumou-se no assento junto à parede, onde ficou encarando a decoração. Alven apoiou a mochila no chão com as parte acolchoada de trás encostada em uma das pernas de sua cadeira.
— Pressa. — afirmou a garota, por fim.
— Pra quê?
— Pra sair daqui.
— Por quê?
— Eu não gosto desse lugar. — Luna respondeu áspera.
— Por quê?
— Por razões que vocês provavelmente não vão saber até que eu os conte.
Ela encarou o chão polido constituído de grandes placas de cerâmica branca. Um chiado distante soou pelo lugar, começara a chover.
— Que razões são essas? — Alven voltou-se para frente e dobrou as pernas apoiando os pés na extremidade da cadeira. Dew reclamou por causa do aperto e pulou ao seu lado, seguida por Kend.
A pergunta foi ignorada.
— Responda! Não estou falando com a parede! — ralhou, atraindo o olhar observador de Nathan.
— E eu devo alguma explicação a você?
As palavras soaram cortantes. Alven levantou as sobrancelhas, virou o rosto já vermelho e cruzou os braços.
— Tá bom, então. — respondeu seco.
Uma brisa empoeirada invadiu as duas janelas postas de frente nas extremidades da sala. A continuidade da chuva roia o chão arenoso e abafava o som das ondas distantes do mar.
— Desculpa, é que... Eu não sei... — apressou-se Luna em explicar sua rispidez. — Dewford é chata e eu não gosto dela.
— Só por isso? — interveio Nathan, um cotovelo apoiado na cadeira enquanto o outro se sustentava no joelho da perna esquerda, dobrada.
— Eu não quero falar sobre isso agora.
Outro momento de silêncio, dessa vez com uma atmosfera mais leve. Uma risada espalhafatosa ecoou.
— O ginásio está fechado. Deve ter algo mais interessante para fazer do que ficar parado na recepção admirando o silêncio. — Nathan comentou em tom sugestivo.
— Brawly e seus amiguinhos devem estar surfando. — Luna se ajeitou na cadeira melhorando sua postura e levantou o queixo para parede. Flame soltou um pio agudo e balançou as patas, ainda de olhos abertos apesar da mobilidade sonolenta.
Pendurado com desiguais tiras de fita adesiva, o pôster para o qual Luna apontara ilustrava um jovem musculoso de cabelos azuis e bagunçados surfando enquanto usava somente um short tactel vermelho. Um sorriso descontraído estampado em seu rosto.
— Parece um garoto propaganda. — Alven encarou a imagem de forma desdenhosa. — Qual é o tipo dele?
— Bagunceiro, extrovertido, folgado. — respondeu Luna, com claro desprezo nos adjetivos.
— Não, estou falando do tipo de ginásio dele. Ele é tipo... água? — arriscou.
— Não, é lutador. O ginásio de Dewford é lotado de lutadores. — Safira agora subia no ombro da garota, deixando para trás uma vasilha plástica completamente vazia. Soltou um grunhido e fechou os olhos, grudando as ventosas na pele de Luna. — Lá naquele outro pôster mostra.
Ela indicou com o olhar outro cartaz maior que o anterior e sem fitas adesivas para fixação. Este possuía fundo vermelho e grandes letras amarelas denotando “Ginásio do tipo: LUTADOR”. A figura de Brawly usava camisa de mangas curtas preta com marcas laranja nos ombros e tórax, além de short azul turquesa. Ambos apertados contra o corpo, marcando seus músculos. Fazia uma pose determinada com os punhos contra a cintura e estava acompanhado de dois Pokémon.
— Será que a Pokédex identifica a espécie a partir de imagens? — arriscou Alven, levando a mão a um bolso da mochila azul-marinho.
— Acho que não. Na verdade tenho certeza de que não. — Flame mexeu a cabeça no colo da garota: fechara os olhos e cochilava.
O garoto desistiu de pegar sua enciclopédia e voltou a encarar o pôster enquanto a chuva piorava.
Um dos Pokémon era amarelo, tinha o corpo rechonchudo e uma expressão engraçada, além de punhos negros e algo parecido com um nó em sua cabeça. O outro, também bípede, era baixinho, verde-musgo e com três linhas amarelas em sua cabeça. Suas pernas e braços pareciam desenvolvidos.
— Não vai ser problema se usarmos a mente. — disse Luna conclusiva após visualizar a expressão ansiosa de Alven para com os lutadores.
— Será? Levar socos e pancadas de criaturas com força física excepcional não deve ser algo fácil de superar. — afirmou o garoto.
— Você esqueceu que também temos alguém com força física excepcional aqui? — argumentou Luna, virando-se num gesto rápido que acordou o Torchic abruptamente. — Isso sem falar no poderio psíquico do Kend.
A garota agitou o indicador na direção do Ralts, que corou e se encolheu no banco. Dew observava entediada a situação e dava agudos resmungos a cada minuto.
— Não vamos ter muito trabalho, mas só para garantir... — continuou ela. — Que tal treinar o Kend até ele evoluir? Vamos fazer um estrago maior.
— Pra quê estrago? — interrompeu Nathan, que estivera de novo imerso em pensamentos. — Não é só pegar a insígnia e cair fora?
Luna o olhou com um ar de superioridade, depois balançou a cabeça em tom de compreensão e sentou-se.
— Esquece, é só um detalhe. Mas seria legal. — disse ela com sutileza, pondo-se a encarar novamente o chão como se procurasse novos grãos de poeira.
Nesse momento ouviram uma voz feminina competir com o ruído surdo da chuva.
— Minha nossa, vocês estão aí há muito tempo? Desculpem pela demora! — disse a mulher. Usava um jaleco branco e os ondulados cabelos cinza-escuro estavam amarrados em um coque.
— Não, na verdade chegamos a... — Nathan chegou o relógio negro estranhamente limpo e simétrico, localizado na mão esquerda. — Somente alguns minutos.
— Ai, que bom. Achei que havia atrasado demais. Bem, meu nome é Juliana. Presumo que sejam... — ela olhou para cada um dos adolescentes, de cima até embaixo, através dos finos óculos de armação metálica. — Treinadores, certo?
— Somos. — respondeu Luna, formal. — Inclusive encontramos o ginásio fechado, o que aconteceu?
A expressão da enfermeira se contraiu, porém não perdeu seu tom elegante e refinado presente em sua pele morena e limpa.
— Fechado? — perguntou, embora já soubesse a resposta de acordo com seu tom de voz.
— Pois é. Fechado. — frisou Luna. Seu rosto assumiu um ar maldoso.
— Viemos aqui pra reservar nossos quartos! — apressou-se Alven, prevenindo um depoimento articulado da garota. Estava claro que queria descansar e voar pra longe daquele desconhecido clima.
— Nesse caso, sigam-me. Sejam bem-vindos a Dewford. — Juliana fez um gesto convidativo com a mão direita e se virou para o corredor onde várias portas guardariam, na teoria, quartos com Pokémon feridos ou cansados por batalhas. — A propósito, o ginásio está fechado desde que vocês chegaram aqui, é?
— Sim, senhora.
— Nathan, é “senhorita”! — corrigiu Luna, áspera, fazendo esforço para não ser ouvida.
— Não se preocupe, já não me chamam mais assim há anos. — dispensou a mulher.
Ao chegar ao fim do corredor, uma aconchegante varanda muito próxima do mar oferecia a mágica visão da água límpida e escura tremendo devido á colisão de inúmeras gotas de chuva com sua película.
Juliana deu uma curva paciente para a esquerda ao chegarem nela, e mais uma fileira de portas pálidas surgiu na parede direita. Uma grossa e comprida parede de vidro que ia até o fim do corredor acompanhando a entrada dos quartos ofertava a mesma paisagem visível pela varanda.
Uma chave solitária foi girada pela mulher na primeira porta, que continha uma discreta placa de ferro com um pequeno número oito — antecedido por um zero. Em silêncio, Juliana adentrou o quarto e esperou os hóspedes fazerem o mesmo.
— Tenham uma boa estadia. Deixarei e chave em cima da estante, e façam o mínimo de sujeira ou desorganização possível. Qualquer precisão e estarei em algum lugar por aqui. Só me chamar.
— Pode deixar, obrigado. — respondeu Luna.
Semelhante ao de Rustboro, aquele quarto possuía duas beliches e um berço para Pokémon pequenos. Um ângulo no teto revestido de madeira escura declarava a presença de uma janela de vidro retangular, por onde a luz diurna adentrava. Desta vez, estava molhada e transpassava uma luminosidade subjetiva e cinzenta, quase nula. Afinal, o sol não dera as caras desde o início da tarde.
— Vão fazer o quê? — perguntou Nathan displicente, se atirando em uma poltrona acolchoada ao lado de um dos beliches.
— Acho que deveríamos tomar banho, né? — respondeu a garota tirando algumas roupas da mochila, além de um desodorante, um perfume e outros dois frascos que pareceram se tratar de cremes. — Depois vemos o que fazer.
Assim que deixou os adolescentes em suas acomodações, Juliana saiu e foi em direção á mesma varanda pela qual passou antes de apresentar o quarto aos três. A suave brisa que corria pelo local balançava alguns enfeites pendurados naquela parte do telhado — conchas, garrafas contendo papéis enrolados dentro e uma arara azul de madeira com penugem cinza na longa cauda.
A enfermeira respirou fundo e colocou as mãos no cercado branco, que compartilhava sua cor com o resto da varanda. Enfiou a mão em um dos bolsos do jaleco, tirou um pequeno frasco arrolhado com uma espécie de ração e atirou algumas unidades na água, gerando círculos na superfície.
— Beatriz? — chamou, aumentando o tom de voz. — Beatriz, você tá aqui?
Segundos depois um vulto rosa surgiu em meio á água metralhada: um Pokémon. Tinha duas enormes barbatanas nas partes inferior e superior do corpo, pareciam mãos. Possuía bondosos olhos amarelos e algumas manchas rosa-escuro ao redor do corpo.
— Que bom que veio. Preciso de você para aquela tarefa...
O grande peixe lamentou em grunhidos e encarou sua treinadora com pesar.
— Sim, eu sei que não gosta disso. Afinal, é uma Alomomola e gosta de fazer o bem. Mas a situação está passando dos limites, ele tem que colocar dentro da cabeça que tem um ginásio para administrar.
A expressão tristonha continuou.
— Se fizer dessa vez, não vai precisar de novo. Não se eu arranjar um jeito de parar com essa palhaçada. — sugeriu, sussurrando a última frase para que Beatriz não ouvisse.
A Alomomola concordou, pensativa. Mergulhou e foi em direção a Brawly, tentando parecer furtiva.
(...)
Uma hora depois de se instalarem no quarto provisório, os três adolescentes se acomodaram em suas camas e foram fazer algo de sua preferência. Nathan fora dormir, se virando para a parede e ouvindo o tilintar da chuva na claraboia embaçada. Luna estava absorta em um segundo livro que trouxera para a viagem. Alven remexia na sua mochila enquanto Kend e Dew se aconchegavam nas almofadas do berço cinzento.
Haviam ido até a lavanderia perto dos quartos para lavar as roupas sujas, antes armazenadas em bolsos separados nas mochilas. Desesperançosos de que estas secariam em algumas horas devido ao clima úmido que se impôs naquela tarde, chegaram à conclusão de que seria mais sensato tomar cuidado com as vestimentas restantes, evitando sujeira.
— Achei. — declarou Alven, tirando uma caixa retangular estreita feita de um papelão extremamente duro. O garoto usava um casaco listrado branco e roxo e uma calça moletom também roxa.
— O que é isso aí? — disse Luna, desviando os olhos para o material. Seu humor amenizara desde que entrara no quarto e pusera as mãos no seu grande livro cujo título era “Aonde anda a oitava onda?”.
— Uma prancheta enorme com vários papéis em branco. Não poderia ficar horas a fio só viajando e capturando Pokémon, né?
— Você vai desenhar aí? — retrucou ela, tentando focalizar sua atenção na prancheta carregada com dezenas de folhas que o garoto acabara de retirar da caixa ao mesmo tempo em que terminava a leitura da página 89.
— Claro. — Alven inverteu a posição da caixa para baixo e um lápis caiu. Era longo e verde-escuro, a ponta extremamente fina, e na outra extremidade encontrava-se uma borracha no formado de uma flor roxa e negra muito bonita. — Não é lindo, esse lápis? — disse, sacudindo o objeto para chamar a atenção da garota, que parou para visualizá-lo por alguns segundos.
— Uhum.
Passados alguns minutos desenhando coisas simples ou rascunhos de paisagens, Alven levantou o olhar para seus Pokémon ao ser chamado atenção por um botão de flor que havia de repende aprendido a levitar.
— Kend, não use o Confusion na Dew, ela é fraca contra os seus poderes.
— Psíquicos. — apressou-se Luna a corrigir.
— É, isso mesmo.
Ouviram um estalido no vidro embaçado da claraboia e levantaram as cabeças, estranhados. Um pequeno Wingull — que se agitou e voou logo em seguida — acabara de cutucar a janela com o grande bico.
— Já registraram esses na Pokédex? — Luna se remexeu na cama e parou quando se viu sentada atravessando a área retangular desta.
— Já. Foi logo depois que você correu e veio emburrada pra cá.
Luna soltou um muxoxo e prosseguiu dizendo:
— Esse livro não está bom. O autor já escreveu melhor. Deve ser só uma fase.
— Quem é o autor?
— Isso não importa, não é? — retorquiu tentando não parecer agressiva. — Você lê muito?
O garoto sacudiu a cabeça em desaprovação e encostou as costas antes eretas na lateral interna do beliche branco, apagando algo no papel logo em seguida.
— Não tanto quanto deveria.
— Que pena. Tenho livros ótimos em casa se quiser retomar.
—Eu nunca mais comprei livros novos, foquei apenas em desenhar mesmo. Seria uma ótima ideia.
Nathan deu um suspiro fundo que surpreendeu Alven — rapidamente olhou para o “teto” da sua parte da cama —, mas não acordou.
— O que está tão ruim assim no livro? — voltou a falar após ver que seu colega continuava inerte.
— Ah. — começou ela, consertando sua postura. — Bem, está tudo corrido demais: partes importantes não têm tanto destaque quando eu acho que deveriam ter, as descrições estão rasas e pobres. Claramente a coisa toda foi feita ás pressas.
Alven permaneceu quieto, vislumbrando a garota sem levantar a cabeça.
— E, tipo, ele poderia reescrever se quisesse. Dessa vez com um prazo maior e sem a agonia de jogar um livro de seiscentas páginas na cara dos leitores. Aposto como não seria desperdício de tempo ou dinheiro. Quem sabe. — Ela deu uma pausa e olhou para a grande claraboia. — Ah, eu tenho um livro que você vai gostar! É clichê em algumas partes, mas ninguém se importa com uma dose pequena. — continuou, empolgada. — É sobre um menino que descobre que é...
Naquele momento ruídos lentos e contínuos surgiram da cama superior á de Alven: uma grande massa — usando um short tactel laranja e uma camiseta preta com vários detalhes prateados — denominada Nathan despencou beliche a baixo, com um baque surdo no chão.
A figura do garoto com cabelos negros, bagunçados pela pressão com um dos fofos travesseiros brancos do quarto, emergiu chão acima com a ajuda de Alven, que abafava risinhos descontrolados com todas as forças.
— Eu sei que você está rindo, sua serpente. — reclamou ele, coçando a nuca e levando a outra mão ás costas para aliviar a dor com uma massagem.
— Você fica chutando ou se mexendo de outra forma quando dorme, é? — perguntou Luna, desdenhosa. Alven agora rolava de rir, desarrumando os lençóis cinza de algodão.
— Alven, eu posso ficar com o beliche de baixo? — Nathan coçou os olhos e esperou uma resposta, mas obteve gritos indefinidos.
— P-pode! — respondeu depois, numa voz alta e aguda. Seu rosto estava cor-de-rosa e lágrimas escorregavam de seus olhos enquanto se recuperava e encarava Nathan calçando os chinelos pretos.
Nathan se largou como costumava fazer na poltrona branca ao lado do beliche que dividiria com Alven.
— O que querem fazer agora? — perguntou.
— Está tão sem objetivo assim? — Luna guardara seu livro na mochila e agora se direcionava ao banheiro para lavar o rosto.
— Ah, eu não sei. — Ele checou o relógio de pulso. — São quatro e quarenta e cinco da tarde, ainda dá tempo de ir a algum lugar.
— Não que tenhamos muitas opções. — Alven sombreava sua ilustração de um compacto e pequeno cacto em um vaso. — E sinceramente, existe alguma opção?
— Na verdade existe, sim. Mas não é interessante. — acrescentou, ao ver os rostos esperançosos dos garotos surgirem. — Existe um buraco aqui chamado “Caverna Granito”. Devem existir várias espécies de Pokémon pra registrar na Pokédex, já que é isso que o pessoal faz normalmente por lá. Vi no mapa e sei de algumas conversas sobre o lugar.
Silêncio. A chuva diminuíra: agora era possível escutar o farfalhar distante das folhas das palmeiras aliado ao ruído baixo da água caindo.
— Podemos ir lá, só pra conhecer? — adiantou-se Nathan, assim que desviou o olhar do Ralts e da Budew, que agora pulavam e se enterravam nas almofadas do berço.
— Não sou eu quem vai impedir né? — disse a garota, sacudindo os ombros.
— Ótimo. — Eu vou levar minha mochila, só por precaução.
— Esse é o mínimo de precaução que você pode demonstrar. — retorquiu a garota.
Alven terminara seu desenho e, como não havia outros lápis para colorir, guardou seu material na caixa de papelão e a enfiou na mochila, colocando-a nas costas logo depois. Em seguida, pegou Kend e Dew no colo, animados com a ideia de sair da prisão almofadada.
— Tô pronto. — declarou.
Luna deu um leve aceno com a cabeça e foi procurar sua mochila, dizendo que iria libertar seus Pokémon logo depois — e tentando persuadir Nathan a fazer o mesmo.
Nathan olhou para Alven e franziu a testa.
— Você vai sair assim? — insinuou.
— Qual o problema com a minha roupa? — desafiou Alven. — Vamos pra uma caverna no meio de uma ilha de surfistas.
— Alven, você está de chinelos e usando uma calça com a qual você vai dormir.
Alven pausou, olhou para baixo e analisou suas vestes. Sem dizer uma única palavra, largou a mochila, Kend e Dew em sua cama; catou um short de um cinza quase negro cheio de bolsos e foi em direção ao banheiro para colocá-lo no lugar do moletom. Voltou minutos depois, calçou seus tênis azuis desprovidos de cadarços e pegou sua mochila e seus pequenos Pokémon.
A Budew, que ficara silenciosa desde que fora descartada para a cama, voltou a grunhir animada. Kend permaneceu silencioso.
— Estou pronto. — Alven tornou a dizer.
— Nós também. E eu estou usando roupas certas. — concluiu Luna, indicando com as mãos seu casaco de lã azul estampado com uma enorme Lua cor de bronze. Suas coxas estavam cobertas por um short jeans que terminava nos joelhos e usava sapatos all-star vermelhos. Sua mochila já estava em suas costas, e carregava nas mãos três pokébolas.
— Vamos, então? — indagou Nathan, suspirando.
— Só estamos esperando você. — respondeu Alven.
— Quê? Eu não sou nenhum líder. — ao dizer isso, riu e atravessou a soleira, seguido pelos outros adolescentes. Luna surrupiou a chave e fechou a porta ao passar, trancando-a.
(...)
Ao atravessarem o silencioso corredor e darem uma boa olhada no grande painel de vidro que fazia frente com as portas dos dormitórios, viraram á direita e continuaram andando. Agora passavam pelas portas dos quartos onde os Pokémon doentes eram tratados: espiando pelos quadrados de vidro nas portas, Alven não conseguiu visualizar nenhum doente ou machucado.
— Não tem praticamente ninguém aqui. — comentou sombriamente, apontando de forma discreta para um dos quartos vazios e escuros. — Só nós estamos aqui?
— É provável. A ilha naturalmente é parada se tratando de visitantes, e estamos no outono. Treinadores no geral escolhem o verão pra desfrutar de suas jornadas. — respondeu Luna, dotada de sabedoria.
Ao fim do corredor, a grande porta dupla os esperava, inerte. Nathan abriu-a demoradamente — com um ruído contínuo e deslizante, se encaixaram em suas respectivas frestas na parede como um grande guarda-roupa branco.
Do outro lado da porta uma Juliana quieta fixava um olhar vidrado em seu grande livro, antes fechado em cima da escrivaninha. Na capa dura, uma graciosa imagem de um cisne boiando num lago atrás de uma cortina de água brilhosa chamou a atenção de Luna.
— “Eterno Adeus”, né? — exclamou animada, disparando na direção da enfermeira.
— O quê? — sobressaltou-se Juliana. — Ah... S-Sim, estou lendo ele.
— E o que está achando? — Luna se colocou na ponta dos pés e inclinou-se para a frente com o objetivo de ler um pedaço, mesmo estando de cabeça para baixo.
— É ótimo. Mas bem triste. — acrescentou a mulher. — Você já leu?
— Sim, inteiro.
A mulher levantou o olhar e encarou Nathan e Alven. Alven se sentara e tremia a perna repetidas vezes. Nathan apoiara as costas com a mochila na parede e observava uma das janelas, absorto em pensamentos.
— Onde é que vocês vão? — perguntou ela.
— Ah. — Luna atrapalhou-se: não sabia se a adulta responsável pelo lugar iria permitir que seus hóspedes adolescentes entrassem numa caverna, principalmente em um dia tão chuvoso.
— Vamos naquela caverninha que fica perto daqui. — apressou-se Alven em responder.
Luna lhe lançou um olhar feroz: claramente seu plano não era entregar o jogo.
— Na... caverna?
— É. — repetiu o garoto.
Juliana estreitou os olhos e dirigiu-os de Alven para Nathan, e em seguida para Luna. Não era claro se estava achando a ideia muito surreal para ser comentada ou se ficara amedrontada demais para responder.
— Vocês estão cientes de que... — começou ela, se reacomodando na cadeira aveludada e suspendendo os óculos para checar se estavam embaçados. — De que vão se sujar lá, não é? E que podem ser atacados por algum Pokémon? Ou talvez que podem sofrer um grave acidente andando por aqueles caminhos escuros?
Tudo ficou silencioso e novamente o ruído distante da chuva predominou. Como sempre, não haviam planejado detalhes: só haviam pensado em ir.
— Acho que estamos. — respondeu Luna, preocupada agora que fora avisada de tantas coisas que poderiam os prejudicar.
— Então, sem problemas. — Juliana armou um sorriso afetado. — Podem fazer o passeio de vocês.
E como se nunca tivesse participado da conversa, baixou a cabeça e voltou a fazer sua leitura silenciosa.
Nathan despertara assim que Luna lhe dera um tapa no ombro e acompanhou a garota até o portão onde pararam para esperar Alven, que tirava uma minúscula Sitrus de uma vasilha para dar a Dew. Ao perceber que era o único a atrasar a partida, guardou o recipiente, pegou seus Pokémon que aguardavam — um tranquilo, a outra animada — no banco ao seu lado e se levantou.
— Essa coisa come todo dia? — apontou Nathan, ao atravessarem a soleira da grande porta de entrada e seguirem para a estrada de areia, agora sendo lavada pela chuva enfraquecida.
— Claro que ela come todo dia! — respondeu Alven.
— Não... — Nathan estalou a língua e sacudiu a cabeça. — Quis dizer se ela come toda hora.
— Ah, já me acostumei.
Fora do Centro, poucas pessoas estavam presentes agora. A quantidade de idosos e crianças nas varandas e quintais diminuíra consideravelmente: só alguns adultos conversavam na porta de uma residência.
O caminho arenoso que levava ao hospital se estendia pela direita em uma trilha quase invisível, não fosse pelas pegadas de ida e volta que turistas deixavam e que custavam desaparecer. Algumas palmeiras baixas formavam uma espécie de portal por onde era necessário chegar para ter acesso á caverna ao fim da trilha.
Quando Luna se curvou para desviar das folhas molhadas que cobriam a passagem, ouviram um estrondo distante. Ao levantar a cabeça de repente percebeu que era só um trovão e voltou ao seu estado instável, porém tranquilo. Diferente de Alven, que lançava olhares apreensivos para as novas nuvens escuras que rodeavam a ilha, Nathan continuara andando calmo pela curva que o caminho fazia logo em sua entrada.
— Vai chover mais, estou sentindo. — avisou a garota. — Nosso outono costuma ser bem chuvoso.
— Já consigo ver o buraco. — desdenhou Nathan, levantando o indicador para uma grande abertura deformada que se erguia de forma sinistra ao fim da estrada.
— Nem de longe o local parece amigável. — comentou Luna. — O que queremos aqui, afinal?
— Passar o tempo. Quero conhecer esse lugar. — respondeu Nathan.
— Vou dar mais uma frutinha pra a Dew, esperem aí. — Alven se abaixou e abriu sua mochila para retirar berries, depositando seus monstrinhos novamente fora de seu colo.
— Ela não acabou de comer lá dentro? — disse Luna, apontando para o edifício vermelho.
Após uma pausa onde Alven retirou alguns pedaços de Oran da mesma vasilha — agora parcialmente vazia, já que possuía um bom estoque antes de partirem para Dewford —, desfez sua ação de colocar seus Pokémon na areia e olhou para Luna com um raso desprezo.
— Seu vermezinho aí come o dia todo e você não reclama né? — Alven mostrou Safira com o queixo, que estava desperta e contente no ombro esquerdo da garota. Como a chuva se tornara uma espécie de sereno, não era um empecilho para a lagarta acompanhá-los fora de sua esfera.
— Chame-a de verme de novo e deixo ela comer tudo isso aí.
— Eu tenho uma fada e uma flor, quer comprar briga? — respondeu, em tom esnobe. Nathan deu uma risada abafada.
— Ah, é? Eu tenho um besouro de um metro de altura que dá chifradas e intimida muito bem, além de uma ave que solta fogo.
— Tá, chega. Vocês parecem duas meninas discutindo sobre qual das suas bonecas é a mais bonita.
Alven e Luna deram língua um para o outro e Dew deu sua primeira mordida na Oran que Alven segurava para ela. Kend suspirou e atraiu alguns olhares, já que ninguém lembrara de que ele estava ali, disfarçado por sua discrição.
O mar, fazendo frente á parede rochosa que se levantava á esquerda da trilha, era salpicado por um sutil pontilhado até a linha do horizonte, e se mantinha cinzento e sombrio.
Os três chegaram á entrada do local, sendo Nathan o único a manter firme o passo.
— O que estão esperando?
Luna olhou para Alven e começou a cochichar.
— Acha mesmo seguro entrar aí?
— Nem um pouco. — respondeu ele.
— Vamos, não tem nada de mais! — exclamou Nathan, sua voz ecoando pelo espaço vazio da caverna enquanto ele penetrava a escuridão. Nada era visível em sua aparência a não ser sua silhueta.
A garota deu alguns passos lentos e então começou a caminhar. Pouco a pouco foi engolida pelo breu, quando tocou o ombro de Nathan. Alven saltitou até os dois sem muita dificuldade, mas não gostou do que sentiu.
— Isso aqui tá muito escuro. — comentou.
— Disso a gente já sabe! — Luna olhava para as paredes procurando alguma coisa viva.
— Luna, coloque as mãos nos meus ombros. Alven, se você fizer o mesmo talvez possamos andar mais sem nos perder.
— Como é que é? Você tá muito enganado se acha que eu vou passar desse ponto!
Luna sacou uma pokébola e sua Net Ball. Atirou as duas para trás por cima do ombro, e um clarão iluminou o lugar. Os garotos olharam perplexos para trás: Nathan tranquilizou-se ao perceber que eram somente Cross e Flame e que o clarão era propiciado sempre que um Pokémon saía da ball onde foi capturado.
— Flame, dá uma luz pra a gente. — pediu a garota, sendo atendida logo depois quando mirou um galho velho achado no chão na direção do pintinho.
Com o interior da caverna agora um pouco nítido, detalhes que passariam batidos no escuro agora se manifestavam, como os níveis mais baixos do lugar e um Zubat — morcego pequeno e azulado sem garras, olhos ou patas —, que ao ser iluminado pela chama soltou um guincho e voou para as profundezas do subterrâneo. Os pelos da nuca de Alven se arrepiaram assim que se deparou com o grande besouro que se sentara nas pedras ao seu lado, mas não fez alarme dessa vez.
Nesse momento algo avançou rápido pelo escuro. Não era um humano, visto que serpenteava usando de agilidade e movendo suas várias patas pelas paredes. Quase todos se sobressaltaram, inclusive Safira, mas Cross só aumentou sua atenção para o ambiente. Nathan armou uma expressão cética e Alven simplesmente congelara.
— Ai... O que foi isso? — balbuciou ele. Kend, que agora percebendo que todos olhavam atentos pelos lugares, virava a cabeça em várias direções para tentar localizar a fonte do susto.
Flame piou alto e atirou bolas de fogo para o lugar onde o vulto penetrou, mas errou o alvo e viu seu ataque se desintegrar em contato com a terra sem que desse uma pista do que os seguia.
Um silêncio anormal se instalou após a tentativa malsucedida de derrubar o grande aracnídeo, cuja imagem aterrorizante iluminada pelo fogo do galho era visível andando ameaçadora pelo teto da caverna.
Não houve tempo para qualquer outra defesa: A Galvantula avançou em um bote extremamente rápido em cima de Luna, que caiu e teve seus gritos abafados pelo corpo da aranha. Nathan correu para ajudar, mas o aracnídeo acabou dando um rápido choque neste, que também atingiu a garota. Cross adiantou-se ao ver a persistência do adversário e pegou a aranha pela pata traseira direita, atirando-a longe logo depois com uma expressão enfurecida no rosto. O Pokémon, porém, aterrissou no chão rochoso como se tivesse apenas levitado.
Alven permanecia paralisado pelo susto, enquanto Kend tentava erguer o bicho com sua telecinese, fazendo pouco efeito. Dew ria enquanto mastigava, vendo o circo pegar fogo com uma visível satisfação.
— Peguem um pedaço de pau antes que essa coisa dê mais choques! — gritou a garota.
— Calma, não façam isso! — Uma voz surgiu do nada e todos pararam para identificar de onde ela vinha. Iluminada por uma poente e ofuscante lanterna que se aproximava, a enorme Galvantula saltou na direção de quem seria seu treinador, pela dedução de Nathan.
— Essa coisa queria me eletrificar! — argumentou Luna, pasma.
— Desculpe, Jamélia é bem hostil. É um dos defeitos dela para com estranhos. — O garoto ruivo se aproximou, levantando as mangas do casaco cinza até os cotovelos.
Seus sapatos negros de cano longo não aparentavam sujeira mesmo nas condições em que todos se encontravam. Tinha uma expressão excepcionalmente simpática, e olhos verdes astutos que fizeram uma análise rápida de cada um presente.
— Jamélia precisa aprender a se comportar! — protestou Alven, raciocinando a gravidade da situação. Dew engoliu o pedaço de Oran que mastigava e grunhiu algo para o garoto desconhecido até então.
— Minhas sérias desculpas. Ela anda agressiva e estressada desde que a deixei passear pelo bosque de Petalburg... — explicou ele, passando a mão nos cabelos ruivos e bagunçados, porém charmosos. A sombra de uma barba enfeitava a maior parte de seu queixo.
— Bosque de Petalburg? — Frisou Luna exaltada e agora de pé, virando-se para a aborrecida Galvantula. — Então você é a mal-amada que me atacou lá?
A aranha soltou um chiado ensurdecedor. Seus pelos se eriçaram e o azul de seus olhos e patas se tornou mais intenso agora que era iluminada pela luz emitida pela grande lanterna do ruivo. Era possível perceber as fortes cargas elétricas passando pelo seu corpo.
— São treinadores também, né? Meu nome é Marcel, desculpe-me novamente pelo acontecido. O que aconteceu entre vocês duas, afinal?
— Ela estava prestes a comer uma... gente, cadê a Safira?! — alarmou-se Luna assim que percebeu a ausência do inseto.
Alven soltou um gemido e deu um pulo ao ver a lagarta tentando subir em seus pés. Luna a agarrou por trás e colocou-a em seu ombro.
— Voltando. Esse aracnídeo horrendo iria comer esta pobre lagarta se eu e meus amigos não tivéssemos chegado a tempo. Ela tá zangada por que tá com a barriga vazia, como é notável! — acusou.
— Está querendo se vingar de você. Mas não se refira à minha Galvantula como “horrenda”, por favor. — Com uma expressão levemente pedante Marcel virou-se e deu um ligeiro sermão em Jamélia, que passou os minutos posteriores emburrada em um canto. O garoto levou as mãos aos bolsos de sua calça jeans e tornou a encarar a garota. — Se vocês vieram explorar a caverna, tomem como conselho: Não façam isso sem um Pokémon que possa iluminar o ambiente. Estou tentando ensinar um truque básico pra a Jamélia para assim podermos ir mais fundo, se chama Flash.
— Dessa parte já estamos cientes, obrigado. — respondeu Luna, recompondo-se do susto sem tirar a expressão esnobe e severa do rosto.
Marcel iria dizer algo mais, mas sua voz foi abafada quando um trovão anunciou a aproximação de chuva.
— Vai recomeçar a chover, então. Acho que não é seguro ficar aqui nessas condições, então vou indo. — Desatava a correr quando seu olhar fincou-se em Kend, e então Marcel executou um brusco freio. — Garoto, seu Ralts é bastante peculiar... E parece bem-cuidado. Tenho um colar bem bonitinho aqui que ficaria uma beleza nele.
Marcel pegou de seu bolso um cordão com algumas conchas, pequenas pedras rosadas e uma esfera no meio. Esta era branco-acinzentada e lustrosa.
— Assim será mais fácil saber identificar vocês caso nos vermos outra vez. Até mais!
Saiu correndo na direção da areia deixando nítidas pegadas como as outras já existentes. Jamélia o seguiu com agilidade, grunhindo com selvageria para Luna ao passar por ela. A garota bateu com o pé no chão e fuzilou o Pokémon com o olhar.
— Talvez seja melhor irmos também. Mais tarde voltamos aqui, dessa vez com algo que ilumine o caminho. — assegurou Nathan.
— Eu avisei que nada de bom habita essa ilha. — resmungou Luna. “Assim será mais fácil identificar vocês!”. Poxa, o Kend é um Ralts azul! Tem coisa mais única que isso?
— Ai, também não é assim. E sobre o ruivo, talvez não exista só o Kend com essa peculiaridade. — respondeu o garoto, enquanto Alven checava se haviam deixado algo para trás. O galho que Luna utilizara anteriormente jazia no chão, esquecido e quase queimado por completo.
Antes de saírem da caverna, Luna elogiou e abraçou Flame e Cross, que ficaram satisfeitos em defender seu grupo minutos antes. Absorveu os dois para as pokébolas correspondentes e ia seguindo Nathan quando viu que Kend já utilizava o bonito e enfeitado colar no pescoço.
— Vai o deixar usar isso mesmo? — perguntou Luna, desconfiada.
— Ele é um treinador adolescente também, deve ser algum enfeite usado em concursos ou algo do tipo. — Luna não mudou sua expressão, mas se calou.
A chuva começou a engrossar. Começaram a andar mais rápido.
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