Notas iniciais
FINALMENTE NÃO É MESMO Fiquem com essas 5.000 palavras (talvez até mais, hehe). Vou tentar diminuir o tamanho dos capítulos se vocês quiserem u.u BOA LEITURA O/

Os adolescentes andavam pelas calçadas da cidade formando uma pequena barreira de três pessoas. Os Pokémon observavam a cidade curiosos, atentos para qualquer movimento próximo. Cross bebia um copo de vitamina com canudo enquanto caminhava ao lado de Luna. A garota analisava um mapa da cidade, ás vezes desviava o olhar para a frente para ver onde pisava. Nathan caminhava com passos mais tranquilos e largos que os outros, tomando cuidado para não pisar ou chutar o saltitante Poochyena passando pelas suas pernas. Kend estava no colo de Alven assim como Dew e carregava uma flor nas mãos, daquelas que coloriam os arbustos da área verde do Centro Pokémon. Já a Budew explorava alegremente o lugar com os olhos encarando qualquer arranjo florido que visse pela frente. Por último, Alven andava disposto, ainda cheirando a flor de cerejeira. O aroma se misturava com o perfume de Dew e confortava as narinas presentes.

A rua por onde andavam era simples e rústica: casas em tijolos cor de amêndoa perfeitamente arrumados e detalhados. O chão asfaltado não diferia muito das áreas na frente das casas, cobertas por cerâmica antiderrapante marrom estampada com vários quadrados cujos tons de bege variavam. Postes pretos de no mínimo cinco metros descansavam com suas luzes apagadas em vários pontos dos quarteirões. As lâmpadas adormecidas nos cumes das grandes barras de ferro tinham formato circular e um pequeno “chapéu” preto em forma de pirâmide que se repetia tanto em cima quanto em baixo.

— Alguém tem uma ideia do que podemos fazer aqui e agora? — Nathan parou e começou a investigar o mapa de Luna, que se mantinha quieta desde quando saíram.

— Eu vou à minha casa pegar algo e já volto. Me esperem no ginásio quando terminarem de fazer o que planejam. — E saiu correndo. Seu companheiro besouro terminou de beber a vitamina que carregava, jogou o copo plástico em uma lata de lixo próxima e saiu voando próximo ao chão — depois de um patético “até” — atrás de sua treinadora. Ou melhor, amiga.

— Luna! — gritou Alven na direção da garota. — Nós não temos...

— Planos. — completou Nathan, ao lado. O garoto resolveu continuar com a pequena excursão pela cidade.

— Aonde nós vamos, mesmo?

(...)

A garota dobrou uma esquina enquanto corria. A aparência rústica e bonita da cidade permanecia em todas as ruas com as mínimas alterações, como algum canteiro em uma janela ou jardim na frente das casas. Luna diminuiu o passo até que parou de frente a um grande portão de ferro cinza num muro laranja de uns seis metros de comprimento. Ao lado do portão, que tinha uma rampa na frente para entrada de carros, uma porta seguindo o padrão da estrutura de ferro descansava enquanto a luz do sol penetrava em seu material.

A garota colocou a mão na porta para checar se estava aberta. De fato, não estava, e acabou ganhando de brinde uma queimadura leve devido ao calor armazenado ali. Avistou um pequeno interruptor branco na parte superior da soleira e pressionou o botão. Um suave “Ding-Dong” ecoou pelo lugar.

De longe viu Cross voando em sua direção, com um metro de distância do chão. O besouro pousou ao lado da garota e a encarou seriamente.

— Fui rápida demais. Desculpe. — admitiu a garota, sorrindo. O Heracross desmanchou a expressão severa e voltou seu olhar para a porta, que agora estava sendo destrancada. O grande pedaço de ferro que bloqueava a passagem se abriu, descobrindo um garoto um pouco maior que Luna e um tento musculoso. Era branco e seus cabelos negros ondulados eram volumosos no meio da cabeça. Usava uma camisa regata laranja e um short tactel roxo. Calçava uma sandália branca com detalhes vermelhos.

— Olá, Luna. — disse.

— Oi, grande irmão Bryan. — respondeu a garota, em deboche.

— O que veio fazer aqui? — perguntou o garoto. Suas mãos estavam na nuca em gesto de tranquilidade.

— Esqueci algumas coisas pra a... Jornada. — respondeu relutante na última parte da frase.

— Tentativa falha de eliminar um nome clichê? — palpitou Bryan.

— É.

Uma área retangular de grama continha mesas e cadeiras de plástico, sombreadas por um grande guarda-sol azul. Ao lado da área de grama, uma divisa de cimento dava espaço para a garagem, cujo chão era feito de cerâmica antiderrapante bege. Uma cobertura de policarbonato protegia a garagem e a entrada da casa de sol e chuva, formando um L.

A entrada da residência tinha chão de madeira e um pequeno degrau que levava á grama. Uma porta branca recebia a garota e seu besouro, acompanhada de duas janelas com um canteiro externo retangular de flores em cada.

— Não esqueceu de regar as flores, né?

— Não. — respondeu o rapaz.

— Cadê nossos pais e a Amora?

— Saíram para trabalhar. Amora está morando em Dewford agora, esqueceu?

— Ah, verdade. — assentiu a garota.

— Vem, vamos entrar. O besouro vai ficar aí fora ou vai entrar também?

Luna fez um sinal para Cross, convidando-o a entrar. O Pokémon recusou e preferiu ficar na pokébola. Luna o absorveu com a esfera e passou pela porta.

A sala de entrada era simples, com um grande tapete bege que abrigava poltronas de palha e um centro de vidro e madeira no meio. Na parede, fotos da família e no meio uma lâmpada incandescente cuja luz era desnecessária no momento, além de uma grande janela em uma das paredes.

— Então, o que veio buscar? — disse Bryan. Aconchegou-se em uma das poltronas com os pés descalços. Uma perna estava dobrada e posicionava-se na frente do peitoral, e a outra descansava no acolchoamento do assento.

— Uma lupa e o álbum de fotos. — Luna focou na mesa de centro enquanto sentava em uma poltrona. Alguns livros e um caderno aberto onde alguns cálculos eram feitos faziam companhia a um estojo que guardava lápis e canetas. Um dos lápis, uma borracha e uma lapiseira estavam em cima de uma folha de ofício cheia de mais cálculos. — Está estudando, é?

— Sim, geometria. Ah, como está indo a jornada?

— Mal comecei. Tenha calma. — A garota olhou ao redor como se procurasse alguma mudança. Bryan continuou fitando-a: tinha a mania de encarar fixamente as pessoas com quem conversava. — Ah, eu me juntei com dois garotos.

— Como assim? Você ao menos os conhece? — Bryan aproximou-se como se quisesse ler a resposta nos olhos de sua irmã.

— Nathan foi meu colega de infância. O Outro é o Alven, praticamente uma criança em corpo de adolescente. É um amorzinho.

— Você ao menos já trocou uma ideia com esse Nathan na infância? — Bryan encostou as costas novamente na cadeira.

— Já, mas não éramos tão amigos.

— E do nada ficam próximos o suficiente para andarem por Hoenn juntos. — indagou o rapaz. Tinha desconfiança em sua voz.

— Não dê suas crises de superproteção agora. Eles não representam nenhum risco. — Luna trocou de posição como preparação para se levantar.

— Será? — Bryan levantou os olhos encarando novamente sua irmã. Luna suspirou e saiu da sala de entrada para procurar o que tinha ido buscar. — Quero vê-los de perto.

— Pra quê? Aplicar o olhômetro? — respondeu a garota, rindo.

— Preciso saber com quem a caçula está andando, não é? — Mas Luna já havia saído da sala.

Chegou a um corredor largo em forma de cruz. A saída principal dava na cozinha e as outras duas no banheiro e nos quartos. Luna ignorou o resto da casa e se redirecionou a uma das quatro portas de madeira localizadas na parte direita do lugar, onde abriu a maçaneta e entrou em seu quarto.

Não tinha nenhum tom de rosa ou roxo na decoração, mas sim vários objetos e móveis nas cores verde e azul claro, que incluíam a cama de solteiro arrumada com perfeição, o guarda-roupa, um tapete ao lado da cama e a escrivaninha onde vários livros e um notebook ficavam expostos. Uma janela em uma das paredes do quarto dava visão para os fundos da casa quando não estava bloqueada por uma persiana.

A garota se dirigiu a uma das gavetas da escrivaninha e tirou de lá uma lupa preta grande, aparentemente nova. Colocou o objeto na cadeira presidente e pegou o álbum de que tanto falava: um livro marrom médio de uns dois centímetros de espessura. Luna abriu e folheou rapidamente as páginas, exibindo várias fotos de Pokémon e paisagens diferentes coladas no papel. Em baixo de cada imagem, uma legenda descrevendo brevemente o alvo da câmera.

Luna colocou o livro de baixo do braço enquanto pegava a lupa com a outra mão, saindo do quarto e fechando a porta. Chegando novamente na sala, colocou os objetos na mochila.

— Voltei! — anunciou a garota ao voltar para a sala de entrada.

— Eu ainda quero conhecer esses seus amigos. — Bryan mal olhava para frente, anotando frases e grifando outras em uma pilha de textos.

— Você vai mesmo insistir nessa conversa? — bufou ela.

— Se está insistindo tanto em não me apresentá-los provavelmente há algo de errado. — O rapaz parou de escrever e encarou sua irmã.

— Tá! — exclamou Luna, desistindo. — Vou pedir para o Cross encontrar eles. Devem estar no ginásio.

Luna retirou a Net Ball de sua mochila e dirigiu-se para o quintal, libertando o besouro. Pediu que buscasse os garotos onde quer que eles estivessem, mas recebeu um olhar incrédulo antes de ver seu companheiro sair voando.

— Eles devem chegar depois. — E voltou para dentro da casa.

— Sabe, tenho algumas perguntas sobre essa jornada. — apontou Bryan.

— Eu já sabia que você iria me interrogar. O que quer saber, afinal?

Luna sentou em uma poltrona e Bryan organizou seu material de estudo na mesa de centro. Após isso mudou de posição na cadeira pronto para um interrogatório e voltou sua atenção para a irmã.

— Por que você resolveu ir numa jornada com Pokémon, exatamente?

A garota encarou o irmão de volta, suspirou e ficou alguns segundos em silêncio como se preparasse uma resposta plausível.

— Porque eu não quero seguir os mesmos passos dos nossos pais. — disse, desviando o olhar para a grande janela aberta. — Achei que se demorasse demais ou demonstrasse alguma resistência em começar a viagem sozinha nossos pais iriam me puxar de volta para esse mundinho fitness de esporte, academia e outras coisas que tanto amam.

Bryan concordou calmamente com a cabeça. Sabia que infelizmente isso era verdade.

— Aquela típica história de não querer seguir os passos do resto da família. Eu entendo você porque eu também sou assim. — Bryan brincava com uma caneta entre os dedos.

— Pois é. Aproveitei que Nathan é um conhecido meu para me encaixar de vez no grupo e seguir viagem normalmente.

— Foi um passo um tanto arriscado, digo, faz muito tempo que não dá as caras com esse Nathan. — acrescentou o rapaz. — Porém foi uma decisão até sábia do jeito que nossa família é. Ou agarrava a primeira chance de subir no bonde ou seria pega no pensamento de que só estava fingindo que iria ter uma jornada.

— Exato. Ainda bem que você me entendeu.

— Como eu disse, sou como você. Quero ser arquiteto e por isso vivo estudando, assim não ficam tentando me puxar, pois deixo claro que não me interesso pela cultura esportiva da família. Se eu estudasse só quando estivesse prestes a fazer algum teste ou apresentação, provavelmente seria como os outros.

Luna estava calada, apenas ouvindo.

— Resumindo: deixe claro que está se dedicando para algo e não vão mudar seu foco.

— Estou sem palavras. — disse a garota, pasma e ao mesmo tempo orgulhosa.

— Você tem o privilégio de ter acesso aos meus conselhos. — Bryan piscou, fingindo se exibir. Luna riu.

— Se não fosse tão convencido seria um irmão nota dez.

Os dois riram e se aconchegaram em suas poltronas. Longos segundos se passaram até ouvirem batidos no portão.

— Eles chegaram. — anunciou a garota.

— Ótimo. — O jovem se levantou, espreguiçando-se. Deu uma leve apalpada nos cabelos ondulados para se sentir apresentável e acompanhou a irmã até a área da frente.

Luna abriu a porta e recebeu Cross, que deitou na grama. Logo apareceram Alven e Nathan, os dois com uma expressão curiosa por visitar a casa da companheira de viagem.

— Oi. — disse Nathan.

— Que tal vocês, sei lá, entrarem? — perguntou a garota.

Os garotos atravessaram a porta e pararam em frente à Luna.

— Quem é aquele? — sussurrou Alven no ouvido da garota, que olhou para Bryan. O rapaz encarava a pequena reunião sem desviar o olhar.

— É o meu irmão, ele se chama Bryan e queria conhecer vocês.

— Ah, tá. — Alven olhou rapidamente para a figura imóvel de braços cruzados na porta e voltou a olhar para Luna, sem mexer a cabeça. O olhar congelante de Bryan intimidava facilmente desconhecidos.

— Então é com esses garotos que você anda? — disse Bryan, com certo desprezo nas palavras. Alven franziu a testa.

— Na verdade é ela que anda com a gente. — respondeu Nathan, sem se mexer. Alven deu uma cotovelada sigilosa no braço do garoto.

Um silêncio desconfortável pairou pelo ambiente. Dew e Kend se entreolhavam enquanto saboreavam duas Oran.

— Prazer em conhecê-los. — Bryan mudou totalmente de expressão, indo de ameaçador para amigável.

Os garotos sorriram e foram convidados por Luna para sentarem nas cadeiras de plástico da área de grama onde estavam. Nathan colocou sua mochila no chão e relaxou os músculos enquanto Bryan e Luna falavam sobre o que fazer depois daquilo.

— Você vai ficar olhando pra eles? — disse Luna, nervosa. Detestava perder tempo.

— Lembrei de uma coisa... — sussurrou Bryan.

— O quê? — Luna suspirou.

— Eu não sei puxar assunto.

— Ah, era só o que me faltava! — exclamou a garota, se despejando sobre a cadeira e tapando o rosto com a palma da mão.

Alven estava sentado em uma das cadeiras quando avistou uma roseira com flores brancas no canto da grama. Rapidamente colocou Dew e Kend no chão e pulou para perto da planta.

— Que lindas... — elogiou ele, admirando o aroma doce que saía das pétalas.

Dew pulou de alegria ao ver que havia plantas como ela e foi para perto das flores. Kend subiu novamente no colo de Alven e tentou abaixar uma das rosas, sem sucesso. Se esticou mais até conseguir agarrar uma pelo caule tomando cuidado para não se machucar com os espinhos.

— Eu e Bryan cuidamos de algumas plantas aqui em casa... — disse Luna, já sem a expressão de nervosismo.

— Ele ama plantas assim como Luna ama insetos. — disse Nathan, encarando os três admiradores ao redor da roseira. — Não sei o que vocês vêem em um bando de folhas e flores.

— Você já sentiu o cheiro disso aqui? — respondeu Alven, sentando com as pernas esticadas ao lado da planta.

— Com certeza não é mais forte do que aquele seu perfume de cereja. — brincou Luna.

— É de flor de cerejeira. É diferente.

— O cheiro não é o mesmo? — contestou Nathan, voltando o olhar para o grande guarda-sol que sombreava o local.

— Claro que não. — Alven pensou por alguns segundos como se questionasse o que acabara de falar. — Ou será que é? Fiquei confuso.

Todos ficaram em silêncio como se imaginassem uma resposta. De repente Nathan balançou a cabeça e resolveu mudar de assunto.

— Ah, desculpe ter entrado na sua casa sem perguntar ao menos o seu nome. — disse Nathan, cumprimentando Bryan. — Sou Nathan. O maníaco floral ali é o Alven e aqueles são os Pokémon dele. A Budew é a Dew e o Ralts se chama Kend.

— Sou Bryan, prazer em conhecê-los. Só queria conhecer vocês pra saber com quem a Luna está viajando.

A garota tapou o rosto novamente num gesto de desapontamento. Tão direto, pensou.

— Prazer em conhecer você também, Bryan. — disse Alven, sem desviar os olhos das flores.

— E então, Alven... — disse o rapaz, virando-se para o garoto. — Você quer que esse Ralts evolua para Gardevoir ou Gallade?

— Hã? O Kend tem duas evoluções? — respondeu. — Fiquei confuso, de novo.

— Bryan, ele quer que as evoluções de Dew e Kend sejam surpresa. Não estrague. — alertou Luna, de braços cruzados em sua cadeira.

— Ah, tá. E você, Nathan? — Bryan voltou o olhar para o garoto, que observava todo o local em silêncio. — Não tem Pokémon?

— Ele tem dois além do Poochyena, mas não se dão bem. Os Pokémon dele mal saem da pokébola! — acusou Alven, olhando feio para Nathan.

— Claro que eu tenho. — lançou um olhar fuzilante para Alven. — Mas eles não gostam muito de andar. Não comigo.

Outro momento desagradável de silêncio pairou sobre todos.

— Mas eu tenho um que gosta de ficar do lado de fora da pokébola. — Nathan pegou uma das três esferas guardadas em sua bolsa e libertou Winer. O pequeno lobo latiu e resolveu se deitar na grama ao lado de seu treinador.

— Olha, você arranjou uma pokébola pra ele. — apontou Luna.

— Pois é, a caminho do ginásio nós resolvemos colocá-lo em uma.

— Ginásio? Vocês foram ao ginásio da cidade? — A garota sentou e fitou Nathan e Alven com o olhar.

— Não queremos nos lembrar disso. — resmungou Alven no canto, brincando com Dew e Kend.

— Fomos, e o Alven perdeu na batalha contra a líder. Foi bem irônico, já que lá no ginásio a líder usa um tipo fraco contra o tipo da Dew. — Nathan olhou com desdém para o garoto, que retribuiu com um olhar ameaçador.

— Kend se saiu bem, mesmo não tendo vantagem. De qualquer forma precisamos praticar o Confusion dele. Dew ainda é bebê, e não está acostumada com esse tipo de batalha mais difícil, mesmo que ela também tenha lutado um pouco.

A Budew soltou um grunhido de reclamação ao perceber que havia sido chamada de bebê.

— Não adianta querer fugir da realidade, fofa! — respondeu Alven. O botão de flor soltou outro grunhido e se virou para as rosas ao seu lado. Bryan, Luna e Nathan caíram na gargalhada e Kend pareceu fazer o mesmo.

— Ai, ai. — Luna enxugava as lágrimas em seu rosto. — Acho que está na hora de ir. Temos que passar no ginásio de novo, né? Certa pessoa não pode se dar o luxo de desistir.

— É, verdade. — respondeu Nathan. Todos se levantaram, inclusive Alven, que demorou por pegar os seus Pokémon no colo e reclamar de dormência nas pernas.

— Eles parecem ser gente boa. — disse Bryan.

— Eles são, pare de imaginar coisas. — A garota deu um abraço em seu irmão e se despediu. Ao voltar, se deparou com Cross dormindo na grama. — Acorde, seu preguiçoso.

O besouro abriu os olhos com uma expressão de reclamação e se levantou para seguir o resto da turma. Winer passou correndo por dentro das pernas de Luna e atravessou a porta procurando Nathan.

— Já vamos, até! — A garota sorriu para Bryan, que retribuiu. Fechou o portão e foi embora com o resto da turma.

(...)

— O ginásio fica em uma rua não muito distante daqui. — Nathan checava um pequeno mapa da cidade que recebera de uma recepcionista de turistas mais cedo. — Essa mesma rua fica daqui a duas esquinas.

— O que quer dizer com “duas esquinas”? — indagou Alven. Ele tomava cuidado enquanto andava para não ficar muito perto de Cross.

— Provavelmente significa que vamos chegar a essa rua se passarmos por duas esquinas. Não é? — Luna olhou para Nathan buscando uma confirmação. O garoto fez que sim com a cabeça e voltou a olhar para frente.

Kend mantinha a visão fixa no caminho enquanto Dew olhava para todos os cantos. De repente ouviu um sussurro e olhou para o lado: Winer caminhava energeticamente e estava olhando para o Ralts como se quisesse falar algo.

“Ei.” Repetiu. Kend olhou para baixo e avistou o lobo tentando pular para alcançá-lo.

“O que é?”

“Vamos batalhar depois?” O Poochyena estava animado.

“Você ainda está com aquele machucado? Se estiver, nem pensar.” Kend esticou a cabeça para ver melhor o corpo de Winer, procurando a ferida.

“Já cicatrizou, eu não estou doente!”

“Eu sei, mas será que se nós lutarmos não vai machucar de novo?”

“Pare de colocar dificuldade!” bufou o pequeno lobo. Parecia realmente determinado a ter uma batalha.

“Estou sendo apenas cuidadoso.” Kend não se incomodava em lutar, mas queria tomar precauções.

“Se eu estou dizendo que não estou mais machucado, é porque eu não estou!” berrou. Dew reclamou do barulho com um grunhido alto.

“Está bem, está bem.” Kend cedeu. “Ao final do dia, tá?”

“Está certo!” A expressão de Winer mudou drasticamente de aborrecido para alegre. Saiu saltitando e foi para perto de Nathan novamente.

Kend lançou uma expressão de cansaço para Cross, que estava escutando tudo em silêncio. O besouro riu e todos voltaram a olhar para a frente.

Os três adolescentes e seus Pokémon chegaram ao ginásio mais rápido do que haviam previsto. Era uma grande estrutura bastante semelhante ao ginásio de Petalburg, porém se diferenciava por ter uma grande área de batalha cercada por pedras enormes. A mesma área tinha arquibancadas em três dos lados do grande retângulo feito para as batalhas. Alguns faxineiros e treinadores ajudavam na limpeza nos corredores do ginásio e outras pessoas batalhavam em lugares diferentes da área.

— Acredito que não é surpresa pra ninguém, já que vocês dois já vieram aqui uma vez e eu moro em Rustboro. Então, qual de nós três vai primeiro?

— Eu não vou batalhar. — disse Nathan, como se lembrasse do fato para a garota. Luna e Alven o encararam e se entreolharam algumas vezes.

— Tá, né. — Alven revirou os olhos e checou Kend e Dew em seu colo.

— Você sabe que vai ter que se explicar depois, né? — Luna fez uma expressão de desconfiança.

— Sim. Mas agora não, decidam entre vocês quem vai primeiro. — Nathan sentou em um longo banco encostado na parede perto dos dois adolescentes. Alven deu de ombros e encarou Luna.

— Ímpar ou par para a gente decidir! — disse.

— Certo. Escolho par. — Luna colocou a mão nas costas e fechou o punho e Alven fez o mesmo.

— Ímpar, par! — disseram em coro.

Os dois colocaram suas mãos ao lado uma da outra e levantaram alguns dedos. Alven levantou dois enquanto Luna levantou cinco.

— Sete é um número ímpar! Eu ganhei! — exclamou o garoto.

— Ok, eu batalho depois.

Segundos depois uma mulher se aproximou dos três. Ela tinha altura regular, tinha pele branca e olhos vermelhos. Usava uma meia calça rosa e sapatos pretos. Vestia uma saia curta cinza e camiseta de mesma cor, e por baixo uma camisa branca com mangas curtas. Uma pequena gravata rosa de três pontas estava em seu pescoço e seu cabelo preto tinha maria-chiquinha partindo de duas elevações do penteado em cada lado.

— Ah, olha quem está aqui. Luna, como vai? — cumprimentou a mulher, numa voz jovial.

— Gente, essa é a Roxanne. Ela é obviamente a líder desse ginásio e eu ás vezes venho aqui pra tirar dúvidas sobre os Pokémon. — afirmou Luna. — Esses são Nathan e Alven, você já deve conhecê-los.

— Vocês vieram batalhar de novo, certo? — Roxanne cruzou os braços e armou uma expressão corajosa.

— Eu resolvi tentar uma segunda vez... — respondeu Alven, num tom melancólico.

— É, nós decidimos no Ímpar ou Par e ele vai primeiro.

Alven se aproximou de Roxanne pronto para ir para o campo de batalha, mas ela levantou o dedo indicador e disse que tinha outra ideia.

— Do que está falando? — disseram Luna e Alven, em coro.

— Primeiro preciso saber se o Nathan vai tentar conquistar a insígnia também.

— Não, eu não vou desafiar os ginásios. — respondeu ele do banco onde estava. Novos olhares confusos surgiram entre os dois adolescentes.

— Então prestem atenção: vocês dois vão batalhar comigo para conseguirem suas insígnias, então o que acham de uma batalha em dupla?

— Você contra nós? — perguntou Alven.

— Exato. Já fiz isso com algumas duplas de treinadores e funcionou bem. Vocês usam um Pokémon cada enquanto eu uso dois dos meus.

— Parece uma ideia interessante. — afirmou Luna. — Está bem, vamos para o campo de batalha!

Alven se aproximou de Nathan e o encarou. O garoto suspendeu o olhar e suspirou.

— Você quer que eu fique na arquibancada torcendo por vocês, não é?

— Sim. — Alven fez uma expressão fofa e armou um sorriso. Nathan também sorriu e se levantou. Winer o acompanhou até a arquibancada.

(...)

Roxanne fez um sinal a um homem com um terno e calça pretos com detalhes marrons, de cabelos grisalhos, pele morena e expressão firme. O homem foi em direção ao campo de batalha, perguntou os nomes dos adolescentes e colocou todos em seus lugares: Alven e Luna em um lado, Roxanne do outro.

— A batalha entre a líder Roxanne e os treinadores Alven e Luna vai começar agora! Será uma batalha de duplas e só aos desafiadores será permitida a substuição de Pokémon! Que comece a luta! — O juiz pegou um apito marrom e soprou com força. Cross e Dew pularam no campo de batalha, enquanto Roxanne segurava duas pokébola, uma em cada mão.

A líder de ginásio disparou as esferas no ar, que se abriram e retornaram para as mãos da mulher em alguns instantes. Das pokébolas saíram um Geodude, pokémon de aparência rochosa com dois braços e mãos aparentemente grandes, e um Nosepass, pokémon que parecia uma pedra azul com pequenos braços e pernas e algo próximo de um enorme nariz laranja na parte da frente de seu corpo. Os olhos do Nosepass eram cobertos por marcas escuras triangulares e aparentavam estar sempre fechados.

— Sabia que o nariz do Nosepass funciona como um eletroímã? — disse Luna a Alven, ambos preparando ordens para seus Pokémon.

— Sério? E não é do tipo elétrico?

— Não, mas acho que pode usar ataques desse tipo.

Os dois voltaram o olhar para os pokémon da líder, que pareciam estar em perfeita sincronia, e então a batalha começou.

— Geodude, use Sand Storm para atrapalhar nossos oponentes! Nosepass, aumente sua defesa com Harden!

Esta primeira ordem vinda da líder foi uma preparação de terreno. Enquanto uma tempestade de areia surgia no campo de batalha atrapalhando a visão e movimento dos desafiantes e seus Pokémon, o grande Pokémon Bússola endurecia seu corpo inteiro para diminuir o dano de qualquer ataque direto.

Alven e Luna se entreolharam e resolveram que também era nescessário preparar o terreno deles. O primeiro comando do garoto foi um Stun Spore bastante previsível para Roxanne, que ordenou que o Geodude desviasse da poeira paralisante.

Luna viu que não adiantaria atacar de cara. Decidiu que era uma boa jogada acabar com os resultados dos esforços do oponente.

— Cross, use Leer no narigudo!

O inseto encarou o Nosepass com um olhar ameaçador, fazendo com que sua defesa voltasse ao normal.

— Ah, ele é até fofinho. — disse Alven, se referindo ao portador do apelido “narigudo”, colocado por Luna em uma de suas visitas ao ginásio. Roxanne tinha certo entendimento com a garota e sabia que era só um apelido de intimidade. O Nosepass continuava mergulhado em um poço de calma, esperando ordens de sua treinadora.

Os próximos turnos de batalha se resumiram em tentativas falhas de aplicar Stun Spore e dificuldade para enxergar por causa da tempestade de areia no campo rochoso. Os adolescentes se deram conta de que era impossível vencer daquele jeito.

— Temos que bolar alguma estratégia, rápido. — disse Luna, decidida a ganhar.

— Eu tive uma ideia. — murmurou Alven, pensativo.

— Qual?

— Preciso que Dew suba no Cross e que ele voe pra perto desses Pokémon.

— Como é que é? Eles podem lançar pedras quando nossos Pokémon estiverem no ar!

— Confia em mim, vai dar certo.

Luna não fazia ideia do que o garoto tinha em mente, mas mesmo assim ordenou que Cross levasse Dew nas costas, acima um pouco das asas para que eles pudessem voar.

Alven explicou a ideia em segundos para os dois. Cross colocou Dew no lugar indicado — entre suas antenas — e voou em direção aos oponentes, tomando cuidado para que a areia esvoaçante não atrapalhasse a estratégia.

— O que pensam em fazer? Nosepass! Use Rock Throw depois que o Geodude usar um Sand Attack! — ordenou Roxanne.

Os pokémon adversário armaram seus ataques quando estavam sob o besouro e o botão de flor, mas foram surpreendidos com uma armadilha.

— Dew! — exclamou Alven, chamando a atenção da Budew. — Pule nos adversários e faça uma bagunça com Water Sport!

O besouro rapidamente soltou Dew, pois odiava água e não queria se molhar. Voltou para perto de sua treinadora quando a planta abriu seu botão e jorrou pequenos jatos de água por todo o local, umedecendo a terra e acabando com a tempestade de areia, a qual já estava em decadência.

Giga Drain no Geodude! — Alven ordenou de repente.

— Essa é a oportunidade! — exclamou Luna. — Brick Break no Nosepass, Cross!

A planta sugou toda a energia do Geodude em um único golpe, que caiu desmaiado. Roxanne assentiu, era bastante compreensiva quando se tratava de ser derrotada para um tipo que tinha vantagem sobre seus Pokémon. Agradeceu pela ajuda do Geodude e o colocou de volta na pokébola.

O besouro avançava com as garras preparadas para aplicar um forte golpe de luta. Luna estranhou o silêncio de Roxanne e o comportamento do Nosepass, que continuava parado como se esperasse o golpe. Quando já estava quase sendo atingido, o narigudo obedeceu a uma repentina e certeira ordem de Roxanne.

Protect! — Uma barreira protetora surgiu entre o Pokémon Bússola e o inseto. Cross foi jogado longe com o impacto.

— Não! — Luna parecia frustrada pela estratégia falha.

— Vocês estão batalhando com a estudante de pedras, Roxanne! O que vão fazer para perderem com glória? — perguntou a líder. Não era esnobe ou convencida, mas gostava de pressionar os oponentes em algumas vezes. Assim conseguia tirar mais potencial dos treinadores na luta.

Foi então que Alven começou a rir. Luna o encarou como se quisesse ver a graça também. Roxanne estranhou, assim como Nathan que assistia tudo na arquibancada com Winer. Ninguém entendeu até se darem conta da burrada que Roxanne tinha cometido.

O Nosepass, ao se previnir do ataque do besouro com Protect, havia protegido Dew, que observava tudo sentada em cima do oponente com um grande sorriso.

Giga Drain, mais uma vez. — disse Alven, emitindo enorme satisfação com aquelas palavras.

Dew sugou a energia do Nosepass sem hesitar, acabando com as chances de derrota em um ataque crítico. A pedra caiu, derrotada, e voltou para a pokébola que Roxanne segurava enquanto patia palmas.

— Eu estou abismada. — admitiu a líder. Alven e Luna bateram suas mãos sem dizer nada. A mulher retirou do seu bolso dois emblemas marrons, brilhantes que pareciam feitos de porcelana. — Esses são dois exemplares da insígnia da pedra. Lindas, não é?

— Meus parabéns! — disse Nathan, descendo as escadas da arquibancada com Winer latindo e pulando sem parar. Alven e Luna deram as mãos e se abaixaram num tom de agradecimento, depois de pegarem as insígnias e guardarem nos bolsos.

— Vocês já tiveram alguma batalha em dupla? Se não, foram muito bem para a primeira. — afirmou Roxanne. — Acho que vocês formam uma boa equipe, vocês três.

— Do que está falando? Eu não sou muito empolgado com batalhas de ginásio ou coisas do tipo. — respondeu Nathan. Era notável um pouco de exclusão em sua voz.

— Não falo de batalhas de ginásio. Falo de... Tudo. Enfim, agora vocês podem ir pra Dewford enfrentar o ginásio de lá. — Roxanne estava animada, por motivos que só ela sabia.

— É, o próximo ginásio fica em Dewford. — Luna disse com chateação na voz. — Não curto aquela cidade.

— Ah, vamos ficar um tempo aqui então. Rustboro é até legal. — respondeu Alven, com um sorriso no rosto.

— Tá, decidimos os planos depois. Está quase na hora do almoço e eu estou com muita fome, não vou mentir.

Winer mordia a perna de Nathan e o puxava na direção da saída, ansioso para ir embora do ginásio. Os três se despediram de Roxanne e foram embora.

Antes de saírem, de novo uma voz suave invadiu a mente de Alven.

Parabéns pela vitória, todo mundo foi muito bem.

Desacelerou o passo por alguns segundos, como se tentasse entender aquilo.

— De novo essa voz... — murmurou ele. Nathan e Luna perguntaram o que ele estava falando, mas o garoto respondeu um “não foi nada” e voltaram a andar.

Do lado de dentro do ginásio, Roxanne cuidava de seus Pokémon feridos enquanto conversava com o Juiz.

— Esses jovens...

— O que há com eles? — indagou o homem.

— Eles têm algo diferente. É como se eles tivessem uma conexão entre si e com os Pokémon deles. — disse ela, fitando a Super Potion em sua mão.

— Eles parecem mesmo um pouco peculiares. — Ao dizer isso, o homem voltou a acariciar um Bonsly em seu colo. — Mas aparentemente essa peculiaridade os torna mais próximos, inclusive de seus Pokémon.

Roxanne fitou o portão do ginásio e percebeu um minúsculo rastro de Stun Spore deixado por Dew no meio da entrada. A líder riu e se levantou para cuidar de seus outros afazeres.

Notas finais
O que acharam? :3 Resolvi retratar mais sobre Luna, já que geral bugou com a aparição repentina dela. Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo ♥