Pokémon Magister
3 Capítulo 002
Aquela conversa com Otto realmente deixou Johan mais confiante. Ele tinha razão. Não era saudável viver afogado por expectativas de outras pessoas, mesmo que estas fossem seus pais. Talvez eles compreendessem a decisão que o filho estava prestes a tomar. Talvez não. O que mais preocupava era a mãe. Ela superprotegia e idealizava o futuro de Johan, enquanto que o pai apenas assentia e concordava.
– Eu posso te ajudar a dar o primeiro passo, rapaz. – Disse o ancião, após um longo silêncio em que o rapaz pensava. Johan passou a mão pelos seus cabelos negros e sorriu. Eles estavam na grande sacada do prédio principal da Day Care House, observando o treinamento dos pokémon. Um pequeno Pichu veio saltitando pelo parapeito da sacada e parou ao lado do velho, que lhe deu um afago. – Acredite, senhor Otto. Já me ajudou a dar o primeiro passo. – Sim, creio que sim. – sorriu ele – Mas isso não foi grande coisa. Se você quiser – Virou-se para olhar Johan nos olhos – Eu posso lhe dar um pokémon. O rapaz ficou surpreso diante dessa perspectiva, gentilmente agradeceu a oferta. Otto, porém, lhe advertiu sobre o pokémon que ele tinha em mente, que, por sinal, havia sido rejeitado pelo dono de seus pais e abandonado ali na Day Care logo que nasceu. – Mas o que ele tem afinal? – Perguntou Johan, enquanto caminhavam em direção a um dos galpões onde ficavam os pokémon. Otto, sempre apoiado em sua bengala, andava a passos curtos. Ele era cauteloso ao falar desse tal pokémon, e isso deixava Johan um pouco ansioso. – Ele é muito especial. Tenho cuidado ao falar dele para os treinadores. Os poucos para quem eu o ofereci, acabaram rejeitando ele também... Johan percebeu que não deveria ser algo simples, então aguardou para ver. Chegaram no galpão, vários pokémon estavam ali. Alguns já tinham treinado naquele dia e estavam descansando, e muitos eram bebês. Meia dúzia de Miltanks amamentavam leffas, Pichus e outros bebês que haviam nascido enquanto os donos de seus pais ainda não tinham retornado. Um Drowzee e um Gengar encaravam-se bem de perto, imóveis, treinando um com o outro suas habilidades psíquicas. Duas Tangelas e um Gloom se divertiam perto de uma grande janela, por onde os raios de sol da tarde entravam. Os dois humanos foram até o fundo do galpão, Johan distraído olhando todos aqueles pokémon, e também se sentindo um intruso ali. Quando percebeu, ele e o ancião estavam diante de um Smeargle, que pintava em uma tábua de madeira bem ampla, usando sua cauda, da qual saia uma tinta esverdeada. O pokémon se virou para os dois e Johan viu que ele usava uma venda escura cobrindo os olhos. – Hansi. – Disse Otto – Como está você? O pokémon respondeu, alegre, um \"Smeargle!\" e voltou seu rosto para o rapaz. – Este é Johan, ele quer ser um treinador, e veio aqui nos visitar. Hansi sorriu e estendeu sua mão para o rapaz, que se agachou e retribuiu o comprimento. Depois disso, o pokémon voltou a pintar seu quadro abstrato. Otto se afastou um pouco e Johan o acompanhou. – Hansi é cego, por isso não foi querido por outros treinadores. – Entendo. – Respondeu Johan, com compaixão. – Não quero saber se você entende, meu jovem. – Otto olhou firme para o rapaz – Quero saber se você o aceita. – Senhor Otto, só não entendo uma coisa: Ele é um pokémon deficiente e vive bem aqui. Por que é que o senhor insiste em enviar ele para uma jornada ao lado de um treinador? O ancião abaixou a cabeça, pensativo, e sorriu. – Pergunta inteligente, Johan. Eu quero que ele saia daqui. Não porque não gosto dele, pelo contrário... Ele é extraordinário, e todos que o vêem o subestimam. Eu quero encontrar alguém corajoso o suficiente que o treine e veja do que ele é capaz. Hansi pode ser cego... Mas eu tenho certeza de que ele foi feito para batalhar. Falava isso fervorosamente, e Johan não sabia se deveria apostar nisso ou não, mas confiou nos votos do ancião. Em resposta a isso, o rapaz voltou para onde o Smeargle estava, e agachou-se para ficar na altura dele. – Hansi – Esperou o pokémon \"olhar\" para ele – Eu quero ser um treinador, mas não posso fazer isso sozinho... Você vem comigo? Uma grande alegria veio para o velho homem. Ele acreditava com todas as forças que o rapaz fosse aceitar aquela proposta. O Smeargle sorriu para Johan, e, fora isso, pareceu indiferente, porque voltou a se entreter na sua pintura. O aspirante a treinador não sabia o que fazer, e Otto chegou perto dele, rindo. – Garoto! Muito obrigado. – Ele estava visivelmente emocionado – Eu sabia... Você tem um bom coração. Vai ser um grande treinador! Otto fora um treinador, décadas atrás, e sempre foi mais emotivo que racional. Apostava na relação harmoniosa entre treinador e pokémon, embora muitos contemporâneos a ele fossem adeptos ao treinamento árduo a base de chicotadas e enforcadores. Na sua juventude, conquistou as insígnias de Kanto, sua terra natal, e algumas de Sinnoh. Lá, conheceu sua amada Julieta, com quem se casou e teve filhos. Nesse meio tempo, havia se mudado para Johto, Goldenrod. Quando os filhos cresceram e saíram em busca de seus próprios sonhos, Otto e Julieta se afastaram da metrópole, para uma chácara na Rota 34, onde criaram um programa de treinamento de pokémon, para treinadores viajantes que por ali passavam. Era um serviço bem caseiro, mas logo se tornou uma empresa, e a idéia se propagou por vários lugares, criando novos centros de treinamento e hotel pokémon, chamados Day Care Houses. Depois do falecimento de sua esposa, Otto ficou inseguro de continuar o negócio sozinho, por isso um de seus filhos empresários veio de Goldenrod para ajudá-lo na Day Care. E agora ali estavam.
Isso tudo o velhinho contou a Johan enquanto eles tomavam um café da tarde promovido pelo estabelecimento. Alguns poucos treinadores também estavam ali e ouviam-no com atenção. Depois disso, Johan decidiu voltar a Goldenrod, pois já eram 17h e o sol já começava a se por. Despediu-se calorosamente de Otto, recolheu Hansi em uma pokébola cedida pela Day Care, e foi com um grupo de quatro treinadores que vinham de Azalea, pela rota 34. Eram todos rapazes, dois deles começavam a jornada, tinham 16 anos. Outro tinha 18, e já havia viajado por Johto, agora apenas acompanhava seu irmão mais novo (um dos de 16). E o quarto tinha 21 anos e tinha vindo de Kanto e até participado da Liga Indigo. Ele era o mais experiente e os outros garotos o respeitavam e sempre pediam seus conselhos e dicas sobre estratégias de batalha. Quando os cinco chegaram ao fim da rota 34, Johan propôs pegarem um táxi, pois já estava escurecendo e Goldenrod (principalmente seu subúrbio) era perigoso a noite, até mesmo para treinadores pokémon. E assim foi, eles se despediram e o grupo seguiu para o centro pokémon, Johan ficou em seu apartamento. O primeiro passo havia sido dado. Ele possuia um pokémon em suas mãos, e agora seria um treinador. Por honra a Otto, por honra a si mesmo. Johan tinha avisado seu chefe, com entusiasmo, que não iria mais trabalhar. Porém, foi difícil falar com seus pais. Quem atendeu foi o pai, e o filho contou-lhe tudo. E pediu para que o recado fosse dado à mãe, pois Johan não estava muito disposto a fazer isso pessoalmente. No dia seguinte, o sol estava começando a nascer, e o aspirante a treinador já estava de pé, arrumando suas coisas. Hansi estava fora da pokébola, e embora não conseguisse enxergar, acompanhava tudo o que seu treinador fazia, através de sua aguçada audição. – Roupas, ok. Enlatados, ok. Documentos, ok. Celular... – Johan pensou se o levava ou não, e deciciu que sim. – Será que estou esquecendo alguma coisa, Hansi? O Smeargle não disse nada. Johan olhou no relógio de pulso, que marcava 6:25. – Temos que ir já... – Rondou a sala, olhando atentamente os móveis e objetos – Sabe aquela sensação de que você está esquecendo de algo? Hansi apenas inclinou a cabeça, como se dissesse \"Eu sou um pokémon, não tenho objetos que possa esquecer.\" Enfim, Johan deixou aquilo de lado, não devia ser algo muito importante... O ônibus partiu da rodoviária às 7:30. Passariam por Violet, depois Cherrygrove, e por fim, New Bark. Johan precisava ir de ônibus, primeiramente porque ele não era um treinador registrado ainda, e não tinha autorização para usar pokémons. E sem isso, seria perigoso e demorado viajar a pé. Fazia tempo que não viajava por prazer. Sempre era algum compromisso relacionado ao trabalho, uma palestra, um congresso; ou então para visitar seus pais em Mahogany. Ficou pensando em como eles estariam, depois de saber que ele tinha tomado aquela decisão de se tornar treinador. Mas resolveu esquecer isso, e ficou apreciando a paisagem das florestas e bosques da saída norte de Goldenrod. Logo começou a cochilar no ônibus, e esse foi o primeiro sono tranquilo que tivera nos últimos meses.
Notas finais
Desculpem-me pela falta de ação! Eu quero construir um pano de fundo bem feito na história, e isso exige paciencia XD
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