Pokémon - A Tale of Kanto
11 A calma antes da tempestade
Notas iniciais
O salão estava cheio.
Herdeiros de riquezas estrondosas ou mercadores de sucesso, ou até pessoas que galgaram a montanha do mundo e atingiram um patamar de boa vida bailavam no salão de piso de mármore branco como uma pérola das mais puras, reluzia sob os calçados lustrosos de almofadinhas e sob os saltos exagerados e sapatilhas de damas de sangue azul.
O motivo daquele grande baile era a classificação dos oito melhores novatos de Kanto. Cada um deles, assim como vários veteranos, nasceu com alguma dificuldade e um objetivo muito peculiar, ser um mestre. A maioria daqueles ricos amontoados pelo salão estava interessada em conhecer cada um dos participantes e também os seus futuros patrocinados.
Foram chegando os derrotados, mas felizes, treinadores das rodadas anteriores. Entre eles, Georgia e Nilo. Georgia fora uma das melhores oponentes de Anthony até então e conseguiu conquistar a cobiça de pelo menos uma dúzia de empresas. Olhos dedicados a obtenção de lucro seguiram a ela e seu lindo vestido branco com listas amarelas descendo da cintura até o bordado da saia longa que batia nos seus tornozelos. Nilo entrou ao lado dela justamente por estarem conectados à mesma pessoa e terem sido convidados por ele. Vestia um blazer por cima de uma camisa social e tinha aparado a barba rala de alguém que só tem quinze anos.
— Cadê ele? – perguntou para a bela menina que se adiantava no salão.
— Não o vejo por aqui – disse. Arrumava os cabelos castanhos enegrecidos em um rabo de cavalo – Deve estar recebendo instruções dos organizadores.
— Tem razão – disse.
Enquanto isso, uma das famílias mais ricas e famosas da região dava o seu show de entrada. Os Cloud eram apenas três e emitiam uma aura de superioridade tão intensa que os outros clãs comerciais nem se atreviam a encará-los, com medo de serem massacrados propositalmente nos negócios. Um ou outro sabiam o por que de estarem os quatro no mesmo lugar. A filha mais velha, Mia Cloud, e o caçula Dyne Cloud, vinham em conjunto, mais adiantados dos pais. Estes que eram não menos do quê a treinadora mais destemida das ilhas laranja e também a atual campeã da liga laranja e o atual campeão da liga de Kanto. Kalya e Zeus Cloud. A família atravessou todo o salão juntos para alcançarem uma mesa privilegiada em relação as outras.
— Eles me dão medo – disse Nilo.
— Pois bem, você tem bom senso – Georgia não parecia temer menos as quatro figuras.
Alguns minutos se passaram até um dos organizadores, o inesquecível Alfred, chegar ao salão trajando um terno preto desbotado e uma gravata borboleta de bolinhas no pescoço. Olhou ao seu redor e cumprimentou uns poucos conhecidos, incluindo Zeus Cloud. Por fim, progrediu até um palanque no fundo do salão retangular, entre duas pilastras de mármore que tinha uma linha vermelha entranhada abaixo de sua pele sólida.
Enfim ele apanhou um microfone com a mão esquerda e, com a direita, retirou um pequeno pedaço de papel de onde tirou o anúncio mais arrebatador da noite que era esperado pela grande maioria daqueles no salão.
— Boa noite, senhoras e senhores. – disse – Vim aqui com o intuito de anunciar a chegada de nossos oito finalistas. Estes que conquistaram diversas vitórias na estrada até esse instante e, por isso, são merecedores de estar entre os veteranos presentes hoje. Aqui estão eles.
A plateia gritou ensurdecedora.
Foram chegando de um em um através dum túnel escavado no mármore não muito distante de onde estavam Georgia e Nilo. O primeiro foi um sujeito bem estranho. Segurava uma coxa de frango e a devorava entre espasmos de uma fome impossível de existir. O rapaz era bem maior que a metade dos que estavam ali e suportava uma gigantesca pança sob o paletó e a camisa social cruelmente retesada pelo tamanho da criatura. Ele cumprimentou todos que o assistiam chegar com um aceno de cabeça e dirigiu-se ao palanque em que Alfred estava.
O próximo a chegar foi uma moça de aparentes dezesseis anos. Usava um fantástico vestido negro que dançava a cada passo que ela dava. Seus olhos eram a característica mais marcante, isso por que ela sofria de um defeito genético que a tornava portadora de duas cores oculares distintas. Uma era um azul límpido como o céu observado ao meio dia e o outro era um negro de uma noite sem estrelas. Era Líria, a filha de uma das grandes famílias de Kanto e estava iniciando a sua jornada naquele ano.
O terceiro era um jovem de dezoito anos vestido com um terno impecável e expondo uma faixa vermelha cobrindo a sua testa. Era Ethan, um campeão regional de artes marciais que ingressou na carreira de treinador no começo desse ano.
O quarto competidor veio em meio a uma saraivada de palmas. Luke Scliar, o filho mais novo dos Scliar, e também o mais talentoso deles, caminhou pelo salão imenso e foi cumprimentado e elogiado em todo o seu trajeto até o palanque em que Alfred o aguardava. Luke estava um pouco incomodado com aqueles puxa sacos em massa, mas teve de aguentar para suprir as expectativas da família. Aliás, toda a família Scliar estava naquele salão, em algum lugar dentre os clãs empresarias.
Então veio a quinta participante das finais. Pela primeira vez do dia, um dos oito mostrou ser um tanto quanto exótico. A jovem tinha um vestido branco ornamentado com plantas! Sim, plantas dos mais variados tipos e graus de beleza. Chamou a atenção de todos no momento em que entrara e deixou uma estranha sensação de vazio quando subiu na plataforma designada e esperou os outros concorrentes chegarem, isto sem abrir a boca nem para responder os elogios sobre a sua beleza natural. Era loira, mas de um dourado natural fosco, como se tivesse perdido o brilho naturalmente e tinha os olhos verdes como o caule de uma rosa autêntica. Sorriu para todos e fechou a expressão.
A sexta participante chegou ao salão. Era rústica. Não caprichara muito no vestido verde escuro que trajava, mas tentara ao máximo parecer atraente. Teria feito todo aquele aparato sozinha, como Georgia o fez. A menina andou na direção do palanque e fora surpreendida por alguns ricos comerciantes que queriam garantir um futuro negócio, mas nada ficou concreto e ela alcançou o seu posto.
O sétimo era um dos competidores mais poderosos daquele torneio. Conhecido como o verdadeiro rival de Luke para a mídia, Roger mostrou ter um vigor e técnica incomparáveis na arena. Mas, ao contrário do que todos pensavam, Roger era sim um solidário e piedoso treinador cujo maior amor seria pelos Pokémon. Vestia um conjunto esporte fino para festas que incluía uma calça social justa, uma camisa xadrez que lembrava a dos lenhadores de antigamente e um blazer cinza abandonado sobre o seu ombro. Seguiu solitário até Alfred e evitou responder aos bajuladores randômicos.
E por último, mas não menos importante... Anthony Asher adentrou o salão invejável. Anthony sempre foi de ficar em casa e nunca gostou de qualquer tipo de comemoração. Pedia à mãe que não fizesse festas grandes ou exigia uma saída para comer num restaurante ao invés de chamar pessoas para comemorar. Só que naquela ocasião, ele precisava moldar uma imagem agradável. Andejou todo o espaço, exibindo seu blazer negro que acobertava uma camisa social de um branco puro. Usava um jeans escurecido e sapatos sociais engraxados. Finalmente alcançara Alfred, mesmo depois de ter poucos ricos em sua cola, mas não ligou. Precisava apenas dar o seu melhor dali para frente.
— Finalmente os oito estão aqui! – disse o então organizador – Com muito orgulho eu apresento a todos vocês as chaves das finais! Boa sorte e desejo a todos uma festa incrível!
Num telão posicionado numa das paredes que estruturavam a plataforma surgiu as chaves das quartas de finais. Oito nomes brilhavam e entre eles estava a dupla de amigos. Mas uma notícia chocante anestesiou os dois garotos como flechas embebedadas em peçonha mortal.
Chaves:
Roger x Paulo
Lizbeth x Amanda
Líria x Cain
Anthony x Luke
Aquela notícia foi suficiente para levantar aplausos e vivas. Os ricos não sabiam da grande amizade por trás daquele cenário de confronto. Luke procurou o olhar de seu amigo e surpreendeu-se ao vê-lo sorrindo. Permitiu-se então sorrir também, afinal, ambos esperavam radiantes por essa batalha.
—--
— Eu não acredito! – disse Nilo – Vocês dois vão se enfrentar!
Luke e Anthony estavam conversando com o rapaz e Georgia desde que foram liberados do palanque. Bebiam suco e refrigerante, evitando os espumantes que corriam o salão.
— Uma hora isso ia acabar acontecendo – Georgia se pronunciou – Os dois estavam se destacando muito desde o primeiro round.
— Sim – Luke concordou. Balançava a sua taça com suco de uva enquanto observava o vórtice roxo aprisionado ali dentro – Temos de seguir na competição de um jeito ou de outro, mas ainda seremos amigos, né, Anthony?
— Não faça perguntas idiotas, Luke – Anthony, que estava em silêncio desde sua chegada, rebateu – Eu não vou deixar um torneio desses romper com a nossa amizade. E eu também não pretendo deixar um bando de ricos mesquinhos ditarem o meu futuro.
— Tem razão.
E o grupo de amigos riu. Foi quando algumas pessoas próximas deles se silenciaram com a presença de Mia Cloud. Apenas ela estar entre os demais fazia com que todos mergulhassem num silêncio mortífero. Ela sorriu para Anthony e Luke e reduziu a distância entre eles em meio a passos cautelosos. Seu vestido era o mais recatado possível e ela em si já era muito bonita.
— Vejo que chegou bem longe, garoto – disse para Anthony, ignorando o fato de terem quase a mesma idade – Superou as minhas expectativas em todos os combates que teve até agora... Mas não vai chegar a final.
Anthony a encarou. Faíscas corriam entre os dois e um clima pesado veio em seguida.
— Como assim? Está me dizendo que eu não tenho chance alguma?
— Não, eu tenho certeza. Não irá conseguir vencer o seu amigo aqui – ela prosseguiu – Eu assisti aos combates de ambos e pude identificar um imenso abismo entre os potenciais dos dois.
O garoto paralisou por um momento. Olhou de esguelha para o seu amigo e o viu inexpressivo e quieto.
— Creio que está muito cheia de si, mas nem participou da competição – Georgia interveio.
— Eu tive o melhor dos motivos – Mia sorriu pra outra menina – E eu não posso compartilhá-los, sinto muito.
— Mia! – chamou um garotinho não muito distante – Mamãe tá chamando você de volta pra mesa!
— Tá, Dyne! – ela estava indo embora quando virou para trás e disse – Mas fiquem tranquilos, ambos tem um grande futuro – E se foi.
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Luke foi ao encontro dos pais e irmãos e deixou os seus amigos num dos cantos do grande salão. Anthony refletia a informação dada por Mia. Não podia admitir um abismo separando sua força da de seu grande amigo e tinha de provar ser tão forte quanto ele.
— Fique tranquilo, Tony – Nilo quebrou o silêncio – Não adianta martelar isso na sua cabeça, apenas focalize na luta de amanhã à tarde. Você tem sim chances de vencer.
— Ele tem razão. – disse Georgia. Ela tinha preso o cabelo em um coque e maneava os punhos, passando a pokébola de seu Pikachu de uma mão para a outra.
O garoto assentiu e eles conversaram por mais um tempo. Georgia foi a primeira a erguer-se e anunciar estar indo para o quarto. Despediram-se e ela sumiu na multidão. Nilo tardou vinte minutos para desistir de ficar por ali. Abraçou o seu mais novo amigo e partiu para os seus aposentos que ficavam bem longe do salão. Anthony acabou ficando sozinho no meio de tantos ricos.
Foi assim que decidiu caminhar um pouco. Queria organizar os pensamentos e planejar como iria abordar Luke na luta do próximo dia. Viu de relance, no centro daquela massa de magnatas egoístas e gananciosos, a mesma figura de dias atrás. A menina se empoleirava num adorno de uma das pilastras e mantinha no ombro aquela ave bisonha. Foi só piscar que ela desapareceu. Foi para o quarto e se desmantelou sob sua cama. Observou o teto engolido pela escuridão, contando as horas para o combate que talvez mudaria a sua vida.
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