Pokemon Vírus
1 Capítulo 1 - Começos e Despedidas
Pokemon Vírus
Capítulo 1 — Começos e Despedidas
David poderia ser considerado um garoto bastante fora do comum. Não era nenhuma surpresa encontrá-lo sob a sombra de uma árvore, com pequenas pilhas de livros ao seu lado, os quais continham os mais variados assuntos e logo virariam informação. Esta manhã não estava sendo diferente: lia com bastante atenção o seu exemplar da biografia do falecido Samuel Carvalho, e parava apenas quando acabava por se distrair com coisas um tanto fúteis, como os curiosos desenhos que as sombras das arvores formavam, ou as pequenas e amareladas folhas que aos poucos caiam e eram levadas pelo vento, para cada vez mais longe...
Ele era assim.
Um garoto muito curioso que possuía grande interesse nos livros, e em seus doze anos de idade, havia lido muito mais que qualquer outro poderia ler em toda a sua vida. O mais interessante, é que ele lembrava de tudo que lia, e poderia recitar os menores e mais minuciosos detalhes. Este seu interesse já o havia salvo tantas vezes de problemas que ele poderia confiar toda a sua vida aos livros, mas no momento, ele já estava ocupado, resolvendo o problema que era decifrar algumas palavras difíceis no seu atual instrumento de leitura...
- Quer largar isso!?!? – soou uma voz familiar – Você está lendo isso a três dias sem parar!
- Bom dia, Joe – disse David, indiferente, reconhecendo imediatamente o dono da voz. Por algum momento, não se preocupou em olhar para Joe, pois queria terminar o capitulo que lia. Apenas alguns segundos depois ele fechou seu livro e ergueu os olhos para o amigo.
Joe trazia consigo algo um tanto incomum. Não se via algo como aquilo nas mãos de alguém há muito tempo naquela cidade. David ficou imóvel por um tempo. O choque não permitiu que sua reação viesse muito rápido, mas ele resolveu falar.
- Você ficou maluco!?! Qualquer um que te ver com isso vai achar que você pirou!
Se você não estivesse em Pallet e visse o que David vira, com certeza não iria achar nada estranho. Um adolescente em seus treze, talvez quatorze anos, estatura mediana e roupas nem um pouco chamativas, carregando um pokémon pássaro. Uma pequena ave com uma bela plumagem composta por alguns tons marrons e outros mais claros. Um Pidgey, que cochilava nos braços do menino. Talvez, o mais chamativo ali seria o cabelo do garoto, que hora parecia preto, mas ao sol revelava uma tonalidade azul escura. Mas ele estava em Pallet, e depois de um atentado terrorista que acaba com muitas vidas, muda consideravelmente a questão.
- Qual é o problema de ficar com ele?
- Você não nasceu ontem, Joe – David se impressionava com a naturalidade de seu amigo ao falar do pokémon. Estava começando a aceitar a idéia de que ele realmente havia enlouquecido – sabe o que vai acontecer se continuar andando livremente com ele por ai.
- Não consigo imaginar o que de tão ruim poderia acontecer...
- Eu consigo!!! – exclamou, já sem paciência – Depois do que aconteceu, ninguém nunca mais ousou aparecer com um pokémon em Pallet e você sabe o que aconteceu com os treinadores daqui!!!
- Não acha que você está sendo um pouco dramático? – Mas se ele contasse com o fato de que provavelmente todos reagiriam da mesma maneira naquela cidade, David não estava sendo nem um pouco dramático.
- Não, não acho!!! Pessoas morreram naquele dia! Um dos cientistas mais famosos do mundo morreu! – David começara a gritar, assustando o Pidgey dorminhoco – Esta cidade ainda está traumatizada, mesmo depois de tanto tempo. E aposto que só voltará a ser o que era depois que já estivermos mortos!
As palavras saiam tão rápido da boca de David que Joe mal entendeu o que ele disse. Achava que a raiva do garoto não tinha motivo. Ele tinha sua opinião, e ficaria com o pokémon.
- Calma, eu não vou ser preso por andar com um pokémon. – Joe percebeu que a discussão não ia dar em nada. Tentou mudar de assunto — E eu não posso fazer nada, foi ele que quis ficar comigo.
- Como assim? – David tentou se acalmar.
- Eu o encontrei ontem lá perto de casa, estava com a asa machucada. Provavelmente se acidentou enquanto voava. Hoje mais cedo, quando fui solta-lo, ele não quis ir embora, ficou comigo.
- Seus pais já sabem dele? – perguntou, ainda não completamente recuperado da sua repentina explosão de raiva.
- Em parte sim. Eles sabem que eu o estava tratando, mas não sabem que eu... Que ele quis ficar comigo – Joe sorriu de forma falsa e pouco convincente.
- Ele não quis ir embora, né? – comentou, mas logo mudou de assunto, sabendo que seu amigo ia negar até a morte que na verdade foi ele quem mais quis ficar com o Pidgey – Enfim... Agora que você tem um pokémon, o que pretende fazer?
-Ainda não sei – respondeu, enquanto se sentava à frente de David – Estava pensando em...
Não era necessário que Joe terminasse a frase. Ele já sabia o que seu amigo queria fazer, e odiou a si mesmo por ter perguntando.
-... Tentar iniciar minha jornada novamente.
- Já pensou no que seus pais achariam disto? – David falou quase que automaticamente
- Na verdade, já.
- E...? – começara a achar que seu amigo era muito mais ingênuo do que já havia aparentado.
- Eles provavelmente diriam o mesmo que você.
- E...?
- Por isso concluo... – ele fez com que David chegasse a ter esperanças de que seria sensato o suficiente para desistir – que devo pensar em outro modo de por o meu plano em pratica.
- Sem dúvidas, você enlouqueceu.
Joe era um ano mais velho, e um grande conhecedor de tudo sobre os pokémon. No entanto, agia de forma compulsiva e sempre perdia nos simuladores. Era considerado o maior perdedor de toda Pallet. Provavelmente, qualquer um que não fosse ele já teria desistido de seus sonhos a muito tempo, mas essa era uma de suas maiores qualidades: a persistência. Embora David soubesse que seu amigo não desistiria, ele pretendia continuar contrariando para ver até que ponto ele chegaria...
- Não tem jeito – concluiu David – não há chances de seus pais deixarem...
-Talvez eles não precisassem deixar...
-De novo você com seus planos... – lamentou sarcasticamente. Deixou o amigo prosseguir.
-Talvez eu... – Joe não sabia o que David pensaria se terminasse a frase – Talvez... deixa pra lá, é muita maluquice.
O próprio Joe não concordou com o que disse.
-Tudo bem – rapidamente entendeu o plano de seu amigo. Tentou ser compreensivo – Caso mude de idéia, sou todo à ouvidos...
Por alguns minutos, eles não disseram nada. O Pidgey, no colo de seu dono pareceu adormecer novamente com aquela estranha tranquilidade.
-Quais seriam as chances de uma fuga? – Joe falou sem nenhuma expectativa para a resposta que iria obter.
-Nulas — havia se tornado uma conversa tão previsível que argumentar era desnecessário – pense no que seus pais pensariam se você desaparecesse de repente.
-Tenho que pensar em um modo de sair, provavelmente sem o consentimento dos meus pais. Significa que desse modo ou eles não ficam sabendo ou eu não vou...
-Parece meio complicado encontrar um meio termo – conclui David, embora pensasse o contrário.
-Mas não é – disse Joe esboçando um pequeno sorriso – É só eles saberem que eu fui depois que eu já tiver ido.
-Você não desiste enquanto não consegue o que quer – David meio que sorria também.
-Eu simplesmente tenho que deixar um recado.
-Não sei não. É muita loucura sair de casa desse jeito, sozinho ainda por cima...
Joe olhou para o seu amigo com uma grande interrogação na cabeça.
-Achei que você ia comigo...
A reação de David veio rápida.
-O que!?!?! – o menino exclamou tão alto que chamou a atenção de um pequeno grupo de pessoas que caminhavam por ali – Você ficou maluco!?!
-Você não iria?
-Claro que não, estou muito bem aqui.
-Porque não?
David não respondeu. Na verdade, ele não sabia por que não. Gostava daquilo, de pokémon, de aventuras. Tentou responder, mas tudo que conseguiu foi abrir a boca umas duas vezes, e na segunda, dizer algo incompreensível.
-Tudo bem se você não quiser.
David continuou calado.
-Acho que conseguiríamos se tentássemos, afinal, temos conhecimento suficiente para sobreviver.
-Mas será que precisamos apenas de conhecimento para sobreviver? – questionou David, quase inconscientemente.
Ambos os garotos silenciaram.
David admirou sua imagem no lago ao seu lado. Não achava grande coisa o que via: um garoto jovem, cabelos castanhos e despenteados.Seus olhos azulados demonstravam inocência e insegurança tão grandes quanto a certeza de que precisaria escolher um caminho que poderia mudar toda sua vida. Suas feições eram de uma criança, mas conseguia compreender o mundo tão bem quanto um adulto. Ele sabia que suas escolhas poderiam mudar não só a sua própria vida, mas de todos ao seu redor. Mas ele não queria se preocupar com isso. Não precisava se preocupar com isso, não agora. Ele não sabia o que aconteceria, e, de fato, nunca saberia se não tentasse.
Sua vontade de ir era grande. Poderia direcionar sua vida ao mesmo caminho que o havia tentado há dois anos, a oportunidade esta ali a sua frente, aguardando uma resposta. Tudo que precisava fazer era acenar a cabeça positivamente e dizer: “Sim, eu vou com você”.
-Então, esta noite – Joe deixou o amigo ali, perdido em seus pensamentos. Fez um gesto para Pidgey levantar vôo e começou a andar, desaparecendo pelas estradas de Pallet.
(...)
-Então, você deseja iniciar uma jornada?
-Ehr... – grunhiu David. Talvez não lhe causasse problemas admitir isso a um desconhecido – Sim
Aquela era a única livraria da cidade. O garoto procurava livros que pudessem ser úteis em seu novo propósito.Não era um lugar muito grande: uma sala com aspecto antigo, iluminada apenas por algumas poucas janelas encontradas junto à porta e uma lâmpada que pouco ajudava. No entanto, a loja era lotada de estantes com livros para todos os gostos e alguns outros curiosos objetos. Conversava com um senhor que administrava o caixa, que havia descoberto seus planos.
-Interessante – o homem tinha uma voz estranhamente rouca. Havia algo de engraçado nela que David não conseguiu identificar. Aparentava ter quarenta e poucos anos, mas sua voz denunciava mais idade – Não é comum encontrar alguém ousado o suficiente para sair de Pallet, buscando realizar o sonho de treinar pokémon.
David dava a mínima atenção ao que o senhor dizia. Divertia-se lendo a sinopse de um livro intitulado: “Guia do Viajante”, que mais parecia uma ficção do que um manual.
-Com licença – disse o velho, tomando de forma nada educada o livro das mãos de David para apreçá-lo.
-Eu não vou sozinho – David ainda tentava inutilmente ler algo mais sobre os livros que havia escolhido, mas aquele senhor era mais rápido e os pegava antes que o garoto pudesse terminar qualquer frase – um amigo irá me acompanhar.
-Melhor assim – o velho diminui um pouco o ritmo com os livros assim que percebeu que seu cliente havia desistido de tentar ler algo mais – correrá menos riscos na companhia de alguém...
David apenas assentiu e esperou que o homem falasse qualquer outra coisa.
-... Porque o mundo em que vivemos hoje está muito diferente do de dois anos atrás – completou, assumindo um tom muito mais sério
-Estarei munido de informação – David tentou demonstrar segurança, mas estava nervoso. Nunca havia enfrentando uma situação tão estranha quanto aquela.
-Deveria tomar cuidado com as suas escolhas. Elas não influenciam apenas a sua vida.
-Sei que esta minha atitude mudará o destino de muitos mais eu...
-Você pode estar colocando a vida de varias pessoas em risco.
E não era mentira. O que poderia acontecer a sua mãe, por exemplo, se alguma coisa desse errado e ele não estivesse lá para ajudar?
-Quanto devo lhe pagar pelos livros? – perguntou, tentando finalizar com o assunto. Não queria mais discutir sobre aquilo.
-Não estou dizendo pra você desistir, apenas para tomar cuidado...
-Quanto devo lhe pagar pelos livros?
-Oak não está mais aqui para alimentar os sonhos das jovens e ingênuas crianças que querem explorar o mundo afora com uma pokebola na mão...
-ESSA FOI A MINHA DECISÃO!!! – exclamou o garoto, esquecendo todas aquelas regras que você aprende quando menor sobre comportamento – E EU VOU SAIR DESSA LOJA COM O QUE EU QUERO, NEM QUE EU TENHA QUE ROUBAR TUDO ISSO!!!
Pelo que se pôde entender, era algo daquela forma que o homem esperava escutar.Este, ao ouvir o que David havia dito, sorriu, interrompendo seu trabalho de ensacolar livros para ir em busca de alguma coisa.
-Você é corajoso, garoto... – disse ele, enquanto procurava o que quer que fosse em uma prateleira com alguns objetos estranhos – tenho certeza de que esta aqui em algum lugar...
A reação espontânea daquele homem causou medo em David. O que ele poderia estar procurando? Não sabia, e não estava nem um pouco a fim de descobrir...
Ninguém ousou falar nada. David receou mais ainda enquanto acompanhava cada movimento do homem. Olhou para a entrada: a porta estava aberta. Não seria difícil deixar uma quantidade generosa de dinheiro no balcão, pegar os seus livros e fugir sem que ninguém percebesse. Não seria difícil, exceto pelo fato de que ele não fazia a menor idéia de quanto tempo o homem demoraria para achar o que queria. Não soube por que, mas resolveu ficar e esperar.
- Encontrei! Veja...
O homem havia pego um pequeno estojo dourado, muito reluzente. Parecia estar guardado há muito tempo, estava bastante empoeirado. O lojista posou o estojo com extremo cuidado sobre o balcão, e com a ajuda de uma flanela, limpou-o, revelando um sistema de fechadura que aos olhos de David, era bastante complexo, mas que foi aberto numa fração de segundo por mãos que já conheciam o objeto. Seu conteúdo era formado por cinco pokebolas que o garoto não conhecia.
-Uau! Nunca vi dessas antes! – exclamou ele, maravilhado com as pequenas esferas
-Provavelmente não, são importadas. É bem difícil encontrar alguém como você. Se quiser, pode pegar uma.
-O senhor tem certeza? – David conclui que era um ato estranho da parte do lojista – parecem ser valiosas. Pelo menos valiosas o suficiente para não se dar a alguém que você acabou de conhecer.
-Eu posso conseguir outras. E você se mostrou digno o suficiente para carregar uma dessas.
O lojista forçava David a aceitar o presente, e estava tendo sucesso. Falava de uma forma tão convidativa que dizer não era simplesmente impossível.
-Ande logo, escolha uma!
David, ainda achando tudo aquilo muito esquisito, admira as pokebolas, analisando cada mínimo detalhe das pequenas esferas.
-Eu vou querer... – Uma delas havia lhe chamado a atenção, mas olhou as outras uma ultima vez, para ter certeza da escolha – Vou querer esta aqui – concluiu, pegando uma pokebola com listras onduladas em alguns tons de azul.
Uma Dive Ball – disse o homem, voltando ao seu tom mais serio – Posso saber o que influenciou a sua escolha?
- Eu apenas senti que deveria pegar essa – disse o garoto, distraidamente, enquanto admirava sua Dive Ball em todos os ângulos possíveis — Porque a pergunta.
O lojista hesitou por um segundo.David o achava uma pessoa muito esquisita e estranhamente familiar.
- Curiosidade – disse ele, por fim – Deixarei você ficar com isso com uma condição.
- E qual seria?
-Gostaria que ficasse ai dentro o seu primeiro pokémon.
“Decididamente, ele é um cara esquisito...”, pensou David, enquanto assentia à proposta do homem
- Quanto custa?
-Não se preocupe com isso, é um presente meu.
- Muito obrigado, senhor...?
- Ah, meu nome não é importante – disse, enquanto guardava o estojo, agora numa estante um pouco mais acessível – E, por favor, não me chame de senhor.
- E quando devo lhe pagar pelos livros? – perguntou o garoto, olhando para o seu relógio. Havia demorado muito mais do que pretendia na livraria.
-52 dólares.
David, distraído em seus pensamentos, não falou nada por algum tempo. “Será que o que eu estou fazendo é o certo?”, era o que ele pensava enquanto guardava os livros na mochila que carregava.
-Muito bem, então disse o homem, entregando o troco ao garoto – Adeus David.Tenho certeza de que nos encontraremos em breve...
-Se iremos nos encontrar... – David sorriu – Então, até logo
O homem sorriu também. E continuou sorrindo, mesmo depois de o garoto ter ido embora.
-Uma a menos – disse a si mesmo, com uma voz nem um pouco rouca.
(...)
-Filho, pare de ler isto! – suplicou a mãe de David, que acabar de entrar no quarto do filho. Era uma mulher alta, cabelos castanhos, semelhantes aos do filho, e corpo bem definido. Seu nome era Helena. – Já está tarde, e você precisa acordar cedo amanhã.
-Ta – disse o garoto, que não havia prestado atenção em nada que sua mãe havia dito – Vou só terminar esse capitulo já desligo. Boa noite, mãe.
- E arrume esse cabelo – reclamou a mãe, do péssimo hábito do filho de deixar o cabelo todo bagunçado.
O garoto deu de ombros e continuou com sua leitura.
“Desligo?”, pensou a mãe do garoto, ao sair do quarto.
Já passavam das onze horas. David havia cansado de esperar Joe e foi ler – ou pelo menos tentar – a Biografia de Samuel Carvalho. Notou um fato curioso e estranho em seu livro: por diversas vezes, o livro citava a si mesmo como uma autobiografia. Mas como isso poderia acontecer se fora escrito há pouco tempo e o cientista já havia morrido?
Naquele dia, se fazia dois anos desde o atentado terrorista que traumatizou Pallet e matou diversas pessoas. Seu pai era um deles. Morreu tentando salvar o filho e mais dois jovens de um laboratório em chamas, prestes a explodir. Salvou as crianças, mas perdeu a vida no ato.
Desde a morte do pai, David não havia chorado. Tentou durante esses dois anos ser forte, mas hoje estava ali, sentado sobre sua cama, pensando no que estava fazendo com sua vida. Lágrimas, agora caiam aos montes pelo seu rosto. Tentou não pensar em nada disso.
“De que adianta me preocupar com o passado se as decisões que tomo agora mudarão todo o meu futuro?”. Limpou o rosto, se levantou e foi colocar os últimos livros na mochila, era só o que faltava.
Vasculhou todas as suas estantes a procura de mais alguma coisa útil, mas apenas mais dois livros lhe interessaram. Estava desistindo de procurar, mas encontrou algo que lhe chamou a atenção: um livro grosso, com capa marrom, sem nome algum. Apesar do tamanho, era estranhamente leve. David aos poucos relembrou que livro era aquele: seu pai o havia dado como presente de inicio de jornada, mas ele mal teve tempo de abri-lo naquele dia, estava ansioso demais para se preocupar com aquilo, afinal, aquele poderia ter sido o dia mais feliz da sua vida, quando se iniciaria como treinador.
Observando melhor o livro por fora, encontrou uma fechadura que o impossibilitava de ser aberto normalmente. David nunca havia aberto aquele livro, mas tinha um palpite de como o fazer. Revirou seus bolsos. Procurava uma pequena chave que carregava consigo desde o dia em que acordou do coma no hospital. Pelo que ele sabia, era a lembrança mais valiosa que tinha do seu pai. Encontrou-a, colocou na pequena fissura da fechadura e girou. Imediatamente, o livro se abriu.
Não era um livro como os demais. Aquele era um livro cofre, e no lugar de onde deveriam estar as paginas, estavam alguns objetos que David não imaginava porque razões estariam ali: um relógio, um mini dicionário, um canivete, uma PokeNav que a esta altura já devia estar com as baterias danificadas, um cartão de banco, e uma carta. David escolheu analisar primeiro a carta.
“David,13/07
Quando você ler isso, provavelmente eu já estarei morto. É bom mesmo você não se preocupar com isso hoje, pelo menos não no dia em que você começará sua jornada. Sinto muito orgulho de você, seguindo a mesma carreira que seu pai...
Não poderei te ajudar no futuro, por isso, lhe deixo com esta carta alguns objetos que poderão ser úteis na sua aventura. Não gostaria de te ver passar pelos mesmos problemas que eu passei.
Não importa o que os outros digam não se deixe influenciar por ninguém e seja apenas o que você quiser. O mundo poderá mudar bastante, mas se você quiser viver nele, viva, pois a vida é sua, é você tem o direito de seguir o caminho que quiser. Não desista de forma alguma dos seus sonhos.
De seu pai que te ama muito”
A esta altura, a carta já estava toda manchada de lágrimas. No entanto, aquilo só deixou David com mais duvidas. Para que ele precisaria de objetos tão... inúteis? Porque aquilo estava tão bem guardado? Porque seu pai foi tão breve ao escrever aquilo tudo? Porque ele havia escrito tantas frases de encorajamento na carta? E o mais intrigante: Como seu pai sabia que morreria naquele dia?
David não conseguia entender. Mas naquele momento, ele não queria entender. Apenas pegou o pequeno caderno de anotações que sempre carregava consigo e escreveu todas aquelas e outras duvidas que ele gostaria de obter respostas. Por fim, acrescentou o caderno à lista de objetos do livro.
Existia outro objeto que David queria colocar no livro. Revirou novamente seus bolsos, à procura de sua Dive Ball. No instante em que a tocou, lembrou da estranha conversa que teve com o homem da livraria.
“Deveria tomar cuidado com as suas escolhas...”
“O mundo em que vivemos hoje não é o mesmo de dois anos atrás...”
“Você se mostrou digno o suficiente para carregar uma dessas...”
“Adeus David. Tenho certeza de que nos encontraremos em breve...”
-Hã!?! Como ele sabia meu nome?
Ele acabara de conseguir mais uma duvida, mas novamente, não se preocupou. Guardou sua Dive Ball no livro, e colocou este em sua mochila, que a esta altura, já estava lotada.
Faltavam poucos minutos para meia meia-noite, apenas alguns minutos para Joe chegar, para ambos os garotos entrarem num novo mundo muito diferente do que eles estavam acostumados. David pegou um pedaço de papel e começou a escrever uma pequena carta para sua mãe, esperando que ela um dia entendesse sua decisão...
Meia noite. Seu relógio começara a apitar, e uma pequena pedra havia sido atirada na janela, informado ao garoto que seu amigo já o aguardava. Saiu de casa lentamente, sem produzir nenhum ruído. Caminhava com tanta tristeza que parecia estar indo de encontro à morte. Antes de continuar, admirou uma ultima vez o lugar que até aquele momento ele pôde chamar de lar, talvez nunca mais fosse voltar ali.
“Adeus...”
xXx
Notas finais
Tá bem grandinha o.o
Acho que o tamanho fica nisso mesmo, por isso, já aviso que os episódios não vão sair muito rapido. Quem sabe um por semana...
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