Pokemon - Liga Exelger
2 Que pokemon vai nascer?
Notas iniciais
A noite escura e fria ainda me assustava, lembrando-me da primeira vez que dormi após o acidente. A luz da lua entrava pelas frestas da janela localizada em minha frente, o que me fez focar a visão no lugar. O apartamento de Jaden era exatamente como eu imaginei. Bagunçado, provavelmente por causa de seu Growlithe, porém, simples. As paredes eram brancas e limpas e o chão era coberto por um tapete felpudo. Havia um sofá no canto da sala de frente para uma televisão, prateleiras com livros e mais livros e, finalmente, uma escrivaninha onde alguns de seus pertences estavam organizados. Aquele era definitivamente o móvel mais arrumado do local. Um corredor ficava no canto esquerdo, revelando mais três portas, porém, não tinha tempo para analisar quão bagunçado estava o apartamento do meu irmão. Tinha coisas importantes a falar e fazer.
— Então... campeã, hein? – Escutei-o murmurar, quebrando o silêncio que havia se estabelecido entre nós.
— É – respondi, lembrando das batalhas e desafios que tinha enfrentado. Tudo havia valido a pena. – Foi divertido.
— Imagino que sim.
— Como conheceu o Growlithe? – Fiz a primeira pergunta que veio em minha cabeça, tentando iniciar algum assunto aleatório.
— Em um dia, os abrigos estavam lotados e eu não tinha local para dormir – fechei os olhos, tentando imaginar Jaden com frio, sozinho, deitado em uma esquina qualquer. Rapidamente afastei as imagens de minha mente. – Encontrei-o no mesmo estado e acabamos dormindo juntos. Ele me seguiu para todo canto no dia seguinte, e desde então... fica comigo.
— Então... onde estão seus outros pokemons? – Indaguei lentamente, passando os olhos sobre o local mais uma vez enquanto ele me conduzia até o sofá. Sentamos e ele me encarou profundamente.
— Não estão mais comigo. – Disse, sucinto. Resolvi não tocar no assunto, aquela parecia uma ferida que eu não queria abrir. – Fale sobre o que veio fazer aqui, April.
Respirei fundo. Aquela conversa seria bem longa. Como sempre, fiquei de pé, havia ganhado a mania de falar melhor com o corpo reto, e comecei.
— Desde aquele incêndio e as últimas palavras de nosso pai... – desviei os olhos para qualquer outro canto que não fosse Jaden, não queria parecer fraca, por mais que ainda estivesse abalada pela morte dele. – Eu não descansei e nem parei de procurar por respostas, e nesse meio tempo acabei embarcando em uma jornada pokemon. Isso me fez descansar um pouco e tirar a cabeça de qualquer coisa relacionada ao nosso pai, mas então... conheci a doutora Cameron.
Jaden franziu a testa, e resolvi explicar rapidamente.
— Judith Cameron trabalhou com nosso pai na empresa e eles acabaram ficando meio... íntimos – sorri maliciosamente e meu irmão revirou os olhos. Passei as mãos pelos cabelos e prendi-os em um coque bagunçado. – Extraí toda a informação que consegui dela, inclusive o fato de que papai trabalhava em uma filial da empresa, e que a sede está localizada em Exelger. E também ela tem um laboratório lá e eu basicamente me auto-convidei para ir visitá-lo.
Sorri, orgulhosa de mim mesma. Aquele plano estava simplesmente perfeito. Meu irmão assentiu, como se soubesse sobre o local que eu havia mencionado, mas ainda parecia em dúvida se deveria acreditar em mim.
— E o que exatamente você quer fazer sobre isso? – Perguntou, gesticulando com as mãos. – Já faz tanto tempo... – suspirou e passou a mão pelos cabelos loiros. – Não acho que deveríamos mexer no passado.
— Eis o que deveríamos fazer – exclamei, abrindo os braços. – Nós vamos para Exelger investigar e descobrir o que de fato aconteceu com nosso pai, e, de quebra, faremos uma jornada pokemon porque não somos burros e não queremos que ninguém desconfie de nada, então esse será nosso disfarce. Então, nós poderemos explorar uma região que nós nunca fomos e ainda iremos descobrir mais sobre o incêndio misterioso. O que acha? – Finalizei, enquanto ele me encarava.
Jaden soltou uma risada alta, o que me fez revirar os olhos. Ele continuava o mesmo idiota de que me lembrava. Parando para reparar, ele só havia crescido em tamanho, mas suas feições continuavam as mesmas. O rosto que lembrava o meu, as mãos longas que encaixavam quase perfeitamente com as minhas. Mas, infelizmente, ele ainda era uns dois centímetros mais alto que eu, o que me irritava profundamente desde que essa diferença se estabeleceu entre nós.
— Tudo bem, e como espera que eu acredite nisso tudo que você disse? – Se acomodou mais no sofá, afundando no mesmo, com um sorriso sarcástico no rosto.
Fui com passos largos até minha bolsa, que havia deixado apoiada na escrivaninha, tirei uma pasta cheia de informações que eu havia juntado sobre meu pai e joguei ao lado dele no sofá. Sua risada cessou imediatamente e ele levantou uma sobrancelha.
— Tudo que precisa saber sobre nosso pai está aí. E então, você vem ou não vem? – Coloquei as mãos na cintura, apoiando o peso do corpo em uma perna só.
— Tudo bem... Eu vou. – Falou, me olhando de cima a baixo. – Mas quero ler tudo que estiver aqui dentro. – Apontou para a grande pasta vermelha. Levantei as mãos em rendição.
— Fique à vontade, irmãozinho. – Sorri largamente e ele acabou sorrindo também. Lembrei de algo importante e puxei um papel do meu bolso.
— O que é isso? – Jaden perguntou, curioso.
— Ah, essa aqui é sua passagem! Amanhã, às 10h, não se atrase! – Apontei ameaçadoramente o dedo indicador na direção dele depois de entregá-lo o ticket.
— Como sabia que eu iria aceitar? – Meu irmão arregalou os olhos para mim quando eu já estava na porta de costas para ele. Olhei por cima do ombro e dei um sorriso pequeno em sua direção.
— Somos gêmeos há 17 anos, Jaden, sei exatamente como você é. – Pisquei para ele e abri a porta, gritando do corredor: — Até amanhã!
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O vôo havia sido extremamente desconfortável. Não tínhamos trocado uma palavra sequer, e ele parecia encolhido na cadeira o tempo todo. Quando acabou dormindo, fiquei encarando-o por algum tempo. Imaginando as noites em que ele havia dormido na rua, com frio e fome. E, se eu estivesse presente, talvez ele não precisasse passar por isso. Meus olhos marejaram no exato momento em que ele se mexeu, acordando, e virei-me pra janela. Respirei fundo e me recostei na cadeira, me permitindo cochilar um pouco. Quando levantei, o avião estava pousando e rapidamente voltei os olhos até o vidro que estava em meu lado.
O sol iluminava a cidade, deixando-a mais bonita e acolhedora do que já era. Não era algo imenso como uma metrópole, e sim o tipo de cidade que eu moraria, onde todo mundo conhece todo mundo, todos sabem onde você mora e coisas assim. Pude ver um enorme teto vermelho prevalecendo entre as casas, e identifiquei o Centro Pokemon bem no meio da cidade, e um teto um pouco menor azul ao lado, onde seria o PokeMart. O local era livre de prédios e haviam apenas casas de um andar espalhadas pela região, e avistei vários parques e árvores no meio das ruas. Sorri com a visão e ajeitei meu cabelo olhando no reflexo do celular. Jaden parecia feliz como eu e animado para conhecer a cidade. Olhei mais uma vez para a janela enquanto uma voz soava pelo avião enquanto o mesmo parava.
— Bem vindos à cidade de Kanver! Esperamos que tenham uma boa estadia!
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O laboratório da Dra. Cameron era maior do que eu esperava. Havia gente aqui e ali usando jalecos brancos, mexendo em computadores ou anotando coisas em pranchetas. Também vi vários pokemons ou andando livres pelo local ou sendo analisados por mais gente vestida de branco. O lugar era bem aberto, o teto era inteiramente feito de vidro e o chão era branco como a neve. Algumas pessoas olhavam para mim, acenando freneticamente, e quando eu acenava de volta, elas sorriam largamente. As garotas olhavam diretamente para Jaden, que dava um leve aceno na direção delas. Revirei os olhos internamente. As pessoas aqui eram bem fofas, o que fez com que eu me sentisse confortável.
— Bem-vindos! – Ouvi uma voz exclamar em minha frente e sorri ao reconhecê-la. A Dra. Cameron estava em seu longo jaleco branco com calça e blusa ambas pretas por baixo, um tênis All-Star e cabelos longos e castanhos presos em uma trança de lado. Os óculos caíam de um jeito adorável quando ela se inclinava demais e ela parecia bem mais nova quando sorria.
— Judith! – Respondi com um sorriso. Fui até ela e abracei-a. – Esse aqui é meu irmão, Jaden! Jaden, esta é a doutora Judith Cameron.
Os dois apertaram as mãos e seguimos a doutora depois dela dizer “venham, venham“. Notei que vários treinadores Pokemon perambulavam pelo local em pequenos grupos e alguns cochichavam e apontavam para mim. Ergui a sobrancelha assim que reparei nisso e depois uma luz se acendeu em minha cabeça, como se gritasse: “campeã da liga de Johto”. Então, passei a acenar e sorrir para quem me observava. Olhei de soslaio para Jaden e ele parecia levemente desconfortável em permanecer ao meu lado. Passei o braço pelos ombros largos dele, mesmo ele sendo minimamente mais alto que eu, e baguncei seus cabelos, ato que costumava fazer quando éramos mais próximos. Ele sorriu com o gesto e colocou uma mão em minha cintura, e seguimos abraçados assim.
— Vocês chegaram em um dia maravilhoso! – Judith comentou, animada, enquanto colocava sua digital em um leitor. Uma porta de metal se abriu e nós entramos atrás da doutora.
“Uau” foi tudo o que consegui balbuciar. A sala era enorme, com umas 3 pessoas trabalhando ali dentro e mais pokemons perambulando por ali. Treinadores passavam por nós com ovos na mão e me perguntei o que de fato acontecia naquela sala. Máquinas que eu desconhecia por todo o canto e, no fundo do local, contei mentalmente trinta incubadoras vazias e algumas que ainda continham ovos pokemon. Fiquei curiosa e queria chegar mais perto, mas a doutora Cameron começou a falar.
— Bom, antes que eu explique mais sobre esses ovos ali, vocês precisam de algumas informações importantes! Aqui em Exelger, planejamos desde o começo ser uma região completamente diferente! E isso funciona desde a escolha dos pokemons iniciais – apontou para os ovos atrás de si – até as insígnias. Para conseguir batalhar com um dos guardiões das insígnias, você precisa de cinco pontos! Para conseguir esses pontos, você precisa ganhar batalhas contra qualquer treinador da região, porém, elas precisam ser registradas com a sua Pokedéx, e a cada vitória você consegue um ponto, mas a cada derrota, você perde um. Vocês terão sim como realizar batalhas não-oficiais, isso fica a critério de cada um. Mas, ao enfrentar seu segundo guardião, você precisa de uma pontuação dobrada! Ou seja, dez pontos ao invés de apenas cinco. Com o terceiro guardião, é necessária uma pontuação triplicada, ou seja, quinze pontos ao invés de dez, e assim por diante. A escolha do guardião fica a seu critério, mas depois de derrotar um deles, não se pode repetir. Ah, e é claro, quando você ganha um guardião, ganha dois pontos, mas quando perde, dois pontos seus vão embora. Eu sei que parece meio confuso, mas espero que tenham conseguido entender.
Assenti freneticamente, adorava aquele lugar. Até o sistema de ginásios daquela região era diferente e original. Jaden parecia pensar o mesmo que eu.
— Aqui, uma coisinha pra vocês! – ela estendeu uma Pokedéx azul pra mim e uma vermelha pro Jaden. – Essa é a nossa Pokedéx, que possui também o mapa da região de Exelger e um comunicador, onde você pode falar com qualquer treinador.
Ela nos explicou o funcionamento da Pokedéx e como poderíamos nos comunicar um com o outro, mostrou também como eram feitas as batalhas oficiais e em que botões deveríamos apertar pra ela estar sendo registrada. Ao final das explicações, nos cadastramos e viramos oficialmente treinadores Pokemon. Estava animada com tudo aquilo e o sorriso de meu irmão gêmeo apenas mostrava que ele estava sentindo o mesmo.
— E agora... os pokemons iniciais! – Judith bateu palmas, animadas, como se aquela fosse a melhor parte. – Bom, aqui você nunca sabe o pokemon que vai pegar! Pode ser qualquer um. Você apenas vai até ali, escolhe um ovo e ele automaticamente rachará quando sair da incubadora. Então... – ela foi até nossas costas e nos empurrou levemente. – Boa sorte!
E saiu do local, nos deixando na frente de vários ovos. Sem nem pensar, fui até o primeiro que havia visto quando entrei na sala, ele parecia me atrair de alguma forma, e vi Jaden indo até um ovo aleatório perto de mim. Apertei o único botão que havia ali e a incubadora se abriu. Peguei o ovo nas mãos e ouvi leves barulhos do mesmo sendo rachado. Levantei os olhos até meu irmão e ele estava na mesma situação com um ovo em sua mão. Ele olhou pra mim e sorriu, passando confiança. Que pokemon será que iria nascer?
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