Pokémon - The Chronicles
2 Partida
Calista os encontrou quase tão logo chegou ao aeroporto. Cynthia, Steven, Diantha, Ash e Serena a esperavam em uma pequena cafeteria. O campão de Hoenn bebia seu tão amado expresso puro, enquanto as duas campeãs de deliciavam com sobremesas. Ash e Serena preferiram salgados e comiam pães de queijo.
Diantha foi a primeira a vê-la, acenando com aquela receptividade que era sua característica mais marcante. Isso fez com que Cynthia erguesse os olhos do celular.
— Cal!
A irmã de Ash apressou o passo, enquanto a loira se levantava e ia ao seu encontro. As duas se abraçaram apertado. Não se viam há alguns meses.
— Também senti sua falta, loira.
Cynthia se afastou logo depois, e Calista notou que seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo, deixando seu rosto à mostra. Inclusive as cicatrizes. A campeã percebeu seu olhar e corou, parecendo um pouco desconcertada.
— Ficou muito ruim? — Inquiriu. — Talvez eu não devesse...
— De jeito nenhum. — Calista a interrompeu gentilmente. — Você é linda, Cynthia. Com ou sem cicatrizes.
Isso sim fez a campeã sorrir, aquele sorriso sincero e quase infantil que Calista adorava. As duas se juntaram aos outros.
— Bom dia, mana. — Ash cumprimentou. — Dormiu demais?
— Eu não. — Calista rebateu. — Foi a Mira quem não quis sair da cama.
Mirabelle, ao seu lado, deu um gritinho de raiva e lhe bateu com suas fitas. A morena riu alto.
Diantha, como sempre, a saudou com beijos nas duas bochechas. Steven lhe dirigiu aquele sorriso cordial que era sua marca registrada. Serena a cumprimentou com um abraço. Calista pediu café e bolinhos de canela e se juntou ao grupo. Ficaram conversando por algum tempo.
— Diantha, você sabe se Malva já está vindo? — Steven perguntou depois de algum tempo. — Já está quase na hora de embarcarmos.
— Não faço ideia. — Foi a resposta da atriz, seu tom se tornando ligeiramente mais frio. — Mas, se bem a conheço, ela vai nos encontrar na plataforma de embarque.
— É melhor irmos, então.
O grupo seguiu para a plataforma de embarque, enquanto o trio de deixava ficar para trás para que pudessem conversar.
— Certo, podem falar. — Calista disse. — Vocês estão trocando olhares desde que cheguei. Estão planejando alguma coisa. O que é?
— Uma mudança de lugares. — Diantha revelou. — Cynthia ou eu ficamos com você, a outra senta com Steven. E aquela b...
— Diantha. — As duas mulheres repreenderam em uníssono.
—Certo, me desculpem. — Diantha respirou fundo, se contendo. — Malva fica por conta própria.
— Fiquem juntas, vocês duas. — Calista declarou — Eu vou sentar com a Malva.
As duas a encararam, ambas igualmente boquiabertas.
— O que?!
— Vocês me ouviram.
— Caly, não precisa fazer isso por mim. — Diantha insistiu. — Na verdade, eu preferiria que não fizesse.
— Sei disso, Din. — Calista rebateu. — E sabe que eu faria qualquer coisa por vocês duas. Mas dessa vez não tem nada a ver com isso. É por ela.
— Por ela?
— Sim. Desde que Lysandre... — Os olhos azuis da campeã de Kalos se encheram de tristeza com a menção a seu antigo amor. — Desde que ele morreu, Malva está diferente. Não sentiram isso? Não tenho certeza se ela o superou, ou se algum dia vai superar. Na verdade... Acho que talvez ela precise de nós. Acho que foi por isso que Steven a convidou.
— Isso é loucura. — Diantha objetou — Para isso, ela precisaria ter sentimentos.
Calista e Cynthia trocaram um olhar divertido. Ambas se lembravam de quando a morena costumava ter a mesma opinião sobre a campeã de Sinnoh.
— Eu dizia o mesmo de Cynthia. — Calista contou. — Costumava chamá-la de "iceberg" ou "loira de gelo".
— Não esqueça de "loira estúpida" e "campeã maldita". — Cynthia riu.
— É, isso também. — Calista sorriu para a loira. — Enfim, eu a odiava. Achava que ela era uma pessoa horrível.
— Em primeiro lugar. — Havia uma leve impaciência no tom da atriz. — Cynthia nunca foi uma pessoa ruim, simplesmente era fechada demais. E em segundo lugar: Cynthia e Malva? Não há comparação.
— Essa não é a questão. O fato é que eu estava errada, e meu orgulho nunca me deixou admitir. Eu a odiei por cinco anos porque só vi o que quis ver.
— Não há comparação, Calista. — A atriz repetiu.
— Nem sempre se pode julgar pelo que se acha que conhece, lembra? Você é a prova disso.
Fato. Apesar da carreira paralela como atriz e de sua personalidade generosa, Diantha era uma guerreira e certamente fora talhada para ser campeã.
— Certo, certo. Não vou argumentar. — A atriz balançou a cabeça. — Mas não vai me convencer. Aquela mulher não tem sentimentos, e ponto final.
— Ela tem sim, Din. — Calista objetou. — Na verdade... Tenho a impressão de que ela sente muito mais do que demonstra.
— Ela não...
— Chega disso. — Cynthia interferiu. — Deixe, Din. Você sabe que essa cabeça de pedra não vai mudar de ideia.
— Certo. — A atriz cedeu, revirando os olhos. — Mas vamos estar logo atrás de vocês. Se ela aprontar alguma coisa, eu vou...
— Din. — Calista foi rápida, segurando Diantha pelo pulso e fazendo com que a olhasse nos olhos. — Chega de brigas. Prometa para mim.
— Sabe que eu não posso.
A expressão de Calista ficou mais séria, sombria. Nenhuma de suas amigas a havia visto tão séria desde a luta com os aliados de Darkrai.
— Se valoriza mesmo minha amizade, vai me prometer aqui e agora. Chega de brigas. Chega de hostilidade. Dê uma chance a ela, está bem? Por mim.
— Está bem. — A atriz deu um suspiro derrotado. — Por você.
Calista sorriu, passando um braço por seus ombros e puxando-a para perto de si enquanto voltavam a andar.
— Você é o máximo, Din.
Diantha tentou continuar séria, mas suas duas melhores amigas puderam ver o sorriso que curvava seus lábios. E ela também não se afastou de Calista.
Exatamente como Diantha previra, Malva as esperava na plataforma de embarque. Steven foi o primeiro a ir até ela.
— Bom dia, Malva. — O campeão de Hoenn cumprimentou.
— Bom dia, Steven. — Os dois trocaram um breve aperto de mãos, e Malva dirigiu um daqueles sorrisos frios como gelo à Calista. — Oi, garota fada. Cynthia.
As duas simplesmente a cumprimentaram com um movimento de cabeça.
— E aí, Malva.
A expressão da repórter perdeu um pouco da frieza enquanto ela acenava para Ash.
— E aí, Ash.
O grupo embarcou no avião. Steven não pareceu surpreso com o arranjo feito pelas três amigas. De fato, pareceu até satisfeito ao ver Calista sentar ao lado de Malva. A morena teve quase certeza de que ele lhe lançara uma piscadela conspiratória.
Malva não disse nada nem deu qualquer indício de ter notado sua presença, apenas se manteve concentrada no livro que lia. Calista fez o mesmo, tirando um livro da bolsa e tentando se perder na história. Foi distraída algum tempo depois pela própria Malva, perguntando-lhe o que estava lendo.
— Um mistério. — Respondeu. — E você?
— História.
— Não deixe Cynthia ouvir isso, ou ela vai bombardear você com perguntas.
— Não vai não. Ela já leu esse livro.
— Como sabe disso?
— Porque foi ela quem me indicou.
Calista conteve a surpresa, fazendo o seu melhor para manter uma expressão neutra. Às vezes, conversar com Malva era como jogar uma partida de cartas fechadas.
— Ela me indicou esse, também.
— É uma série, não é? Li o primeiro volume há alguns meses. Sua amiga tem um gosto bem sanguinário.
— E você, o que achou?
—Não é tão ruim. — Confessou. Sem perceber, Malva fechou o livro que segurava. — Quando o assassino ataca de novo?
— Ah, não, não vou contar. — Calista riu. — Empresto o livro para você assim que acabar, assim vai poder descobrir por si mesma.
A repórter não respondeu, e as duas se perderam em seus respectivos livros. Algum tempo depois de decolarem, Calista começou a sentir suas pálpebras pesarem. Estava mais cansada do que havia percebido, e caiu no sono em questão de minutos.
Acordou algum tempo depois, com a luz dourada do final de tarde e uma dor horrível no pescoço por ter dormido de mal jeito. Ao mover a cabeça para aliviar a dor, notou que Malva ainda estava acordada. A mestra do tipo fogo tinha o queixo apoiado em uma das mãos e olhava pela janela.
Algo no perfil da repórter atraiu e capturou o olhar de Calista. A morena podia ver arrependimento e tristeza em sua expressão, algo que a surpreendeu.
Lysandre. Percebeu enfim É claro. Mesmo depois de todo esse tempo, parte dela ainda está de luto.
A irmã de Ash a observou por mais algum tempo, absorta naquela cadeia de pensamentos. De repente aqueles olhos ambarinos se desviaram da janela e encontraram os seus. Pelo mais breve dos segundos, Calista pensou que talvez Malva soubesse que ela não estava dormindo. Talvez ela houvesse baixado a guarda de propósito. Mas esse pensamento foi logo banido. Afinal, era uma ideia ridícula.
— Calista, olhe. — A repórter disse, arrancando-a daquela linha de raciocínio. — Pidgeots!
Calista olhou pela janela a tempo de ver um bando de Pidgeots passar voando. A majestosidade dos pokemon ave a encantou, e a constatação do que aquilo significava a fez sorrir.
— Isso quer dizer que vamos pousar logo. — Declarou. — Bem vinda a Kanto, Fogosa.
Por mais improvável que fosse, Calista podia jurar que aquele apelido idiota fez Malva rir.
Quando desembarcaram, Cynthia foi perguntar algo a Steven. Os dois começaram a conversar, e Diantha se aproximou de Calista.
— Hey. — A morena sorriu. — Como foi o vôo?
— Entediante. Cynthia dormiu quase o tempo todo.
— Oh, coitada de você. Aposto que quase não gostou de ter um tempinho para si mesma.
— Touché. — A atriz riu, mas logo ficou séria. — Eu... Na verdade estava pensando no que você disse. Sobre Malva estar diferente.
Quase inconscientemente, as duas chegaram mais perto, suas mãos se encontrando. Puro costume. Era daquela forma que a Dupla de Ouro de Kalos costumava aparecer publicamente. Calista adorava o fato de que Diantha a tratava da mesma forma, tanto diante das câmeras quanto em particular.
— E? O que decidiu?
— Que... Você tem razão. — Admitiu — Ela tem estado muito mais... Quieta. Quieta demais, até.
— Bem... Por mais que eu queira, vou me abster de dizer "eu te avisei".
Isso fez a atriz rir.
— Muito engraçado. — Ela revirou os olhos azuis. — Mas não entendo por que Steven acharia que podemos ajuda-la. Malva jamais deixaria alguém chegar tão perto.
— Eu acho... — Calista se pegou pensando naquele momento no avião, em que Malva a olhara nos olhos. — Acho que talvez eu consiga.
Diantha ergueu uma sobrancelha, descrente.
— Duvido muito, chérie.
— Quer apostar?
— Certo. O que vale?
— Quem perder obedece a uma ordem da vencedora. Sem direito a protestar.
Os olhos azul celeste da campeã brilharam. Era seu lado competitivo entrando em ação. Se tinha uma coisa que Diantha adorava era um desafio, especialmente quando partia de Calista.
— Gostei disso. — Declarou — Certo. Apostado. Você tem até voltarmos para casa. E não pense que vou pegar leve se você perder.
— Acredite, já sei que por baixo desse rostinho bonito há uma pessoa muito má. — Calista provocou. — Estou preparada para tudo.
— Cal! — Cynthia chamou — Din! Andem logo, vocês duas.
As duas amigas trocaram um rápido olhar e apressaram o passo para alcançar o restante do grupo.
— E mais uma coisa. — Diantha acrescentou num sussurro. — Segredo absoluto. Mesmo de Cynthia.
A morena ofegou de surpresa enquanto a atriz soltava sua mão e se adiantava para se unir aos outros.
Maldita Diantha!, Calista pensou. A campeã de Kalos encontrara uma forma de virar as chances em favor próprio. De novo.
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